THE PORTUGUESE RECTORS ON THE EUROPEAN SCIENCE FOUNDATION EVALUATION

quarta-feira, 30 de Junho de 2010

Uma Crónica de Miguel Esteves Cardoso sobre o Mundial 2010

Calomniez, il en reste toujours quelque chose (palavras atribuídas a Basílio do Barbeiro de Sevilha).

Numa altura de diabolização de Carlos Queiroz, é sempre um prazer ver intelectuais dedicarem a sua atenção ao fenómeno desportivo não o tendo como coisa sem importância ou exageradamente valiosa no âmbito de uma extensa e multifacetada cultura.

Nesta perspectiva, reporto-me a uma das crónicas diárias de Miguel Esteves Cardoso, intitulada “Então tchau”, publicada hoje na última página do jornal desportivo O Jogo.

Pelo espírito de justiça, equilíbrio de raciocínio e forma desapaixonada como foi escrita, com a devida vénia e sem mais delongas transcrevo-a aqui:

“Chegou o dia.

A certa altura instala-se a cegueira.

Saímos bem. Era um bom plano. Portugal jogou para não levar golos.

Estamos tristes. Se calhar temos culpa por nunca termos acreditado o suficiente. Mas perdemos como senhores. Poderíamos ter ganho – ou empatado e ido a penáltis.

A Espanha ganhou com sorte, batota e a ajuda do árbitro, que até era argentino e porreiro e pouco susceptível às fitas. Mas o acto teatral e traiçoeiro de Capdevilla resumiu o jogo.

Portámo-nos bem. A Espanha fez tudo o que pôde – mas foi pouco. Portugal controlou o jogo na primeira parte e quase sempre na segunda. O nosso único defeito foi não estarmos preparados para sofrer um golo.

Tanto os jogadores como Carlos Queiroz estiveram muito, muito bem. A Espanha já não é a mesma Espanha: foi desvitalizada. Geralmente, quando Portugal perde culpamos os portugueses. Neste caso, não tiveram culpa nenhuma.

Então tchau mundial. Foi a Espanha que ficou malvista: Portugal foi sempre seguro, conjunto e propositado. Nunca se viu uma defesa tão bonita e contra-atacante como a nossa. Frustrámos a Espanha: Ganharam por um golo que na primeira parte poderíamos ter sido nós a marcar.

Estamos de parabéns. A Espanha, com a superioridade numérica e cronológica que tinha, tinha obrigação de ter ganho claramente. Não ganhou. Viu-se aflita.

Nesta altura do Mundial, quando Portugal é eliminado, é costume culpar o treinador e/ou os jogadores, Desta vez, porém, é diferente. Acho que conseguimos alcançar o mais que poderíamos, atendendo ao que tínhamos.

Portugal estava unido e era português e defendeu como nunca vi selecção nenhuma defender. Portugal foi sempre um país que jogou à defesa, com contra-ataque. Os espanhóis sempre quiseram atacar-nos e destruir-nos. Mas nunca conseguiram.

Como também ontem não conseguiram. Portugal perdeu por um só golo como poderia ter marcado um, dois ou três. Jogou sempre bem, como se fosse o dono do jogo. Os espanhóis entraram em pânico e ficaram nervosos. Mas nós não.

Foi a derrota mais bonita da história do nosso futebol. Não digo que soube bem – mas pelo menos não soube mal.

A Espanha ganhou, mas Portugal não perdeu por causa disso. Na próxima competição internacional, é Portugal – mais insubmisso, mais inteligente – que está à frente.

Tchau, Espanha. Obrigado pelos espasmos de dificuldade. Talvez para a próxima tenhamos medo de vós.

Mas pelo que se viu, parece que não.

Viva Portugal!”

Desce, assim, o pano sobre a participação de Portugal. Não faltarão as habituais carpideiras a anunciar as suas tácticas a posteriori que, em sua opinião chorosa, deveriam ter sido seguidas para levar de vencida e de rastos a Espanha. Entre elas, os chamados treinadores de bancada (e não só) com as suas manifestações esféricas de raciocínio quadrado, quiçá saudosistas do quadrado de Aljubarrota e de um passado de seis séculos e um quarto que destroçou o bem mais numeroso e poderoso exército castelhano.

Haja o sentido das proporções. Não se pretenda transformar uma derrota desportiva, ainda que a nível mundial, num assunto de estado. De um estado infantilizado ou, pelo contrário, perigosamente totalitário!

terça-feira, 29 de Junho de 2010

“CÓDIGO DE PLATÃO”

Os grandes autores do passado continuam a estimular análises que surpreendem pela sua capacidade inventiva.

Segundo uma teoria acabada de apresentar por um historiador da ciência da Universidade de Manchester, Platão, o grande pensador ateniense da época de ouro da filosofia grega, teria inscrito nas suas obras um código de leitura de matriz pitagórica.

Para mais pormenores sobre este Código de Platão, veja aqui e aqui.
Delfim Leão

O VELHO ZIRCÃO (2)


Crónica de António Piedade saída antes no "Despertar":

O Zircão é um mineral que nos conta a história da formação da crusta terrestre e marítima. Permite-nos, também, determinar qual a idade deste “planeta azul" e perceber a dinâmica da formação dos continentes e dos oceanos.

O zircão é um mineral classificado no grupo dos nesossilicatos. É, de facto, um silicato de zircónio (elemento químico com o número atómico 40, descoberto em 1789 por Martin Klaproth, e isolado impuro, em 1824, por Berzelius) que apresenta a fórmula química ZrSiO4.

O seu nome deriva do termo “zargum”, que é palavra árabe para “vermelho” e também nome persa para “dourado”.

Dependendo do local onde é encontrado, o minério zircão pode ser incolor ou ter matizes amarelo douradas, vermelhas, castanhas ou mesmo verdes! E este minério pode ser encontrado em quase todas as partes na Terra! A razão para esta ubiquidade terrestre advém da sua antiquíssima origem e formação. De facto, ele está presente nos três principais grupos de rochas: as ígneas, que são aquelas que resultam da cristalização directa; das metamórficas, que resultam da transformação química e física de outras rochas que lhes dão origem; das sedimentares, formadas da acumulação em determinadas zonas, depressões na topografia, de sedimentos de outras rochas transportados pelo vento e pela água (erosão).

Esta constância geológica dos zircões e a sua dispersão por todo o planeta, indica que ele pode, e de facto tem sido, ser utilizado para estudar, não só os estados iniciais da formação e estabilização do planeta Terra, como a génese de magmas, mas também a formação de outros planetas. Ou seja, esta gema semi-preciosa, substituto do diamante, é uma jóia analítica para a emergente astro-geobiologia.

Mas como é que a partir de um minério, como o zircão, é possível sabermos a idade dos estratos geológicos, das rochas onde ele é encontrado?

É referido que o zircão mais velho até à data encontrado (na Austrália) foi formado há cerca de 4,38 mil milhões de anos! Como é que os geoquímicos e geofísicos sabem medir isto?

Felizmente para a nossa curiosidade científica e para a nossa vontade/necessidade em compreender como a Terra e, consequentemente, a vida de que fazemos parte, se formou, o minério zircão é “hospedeiro”, ou “aloja”, duas “impurezas”, cujas propriedades radioactivas nos oferecem, de bandeja, a datação de períodos de tempo muito longos. Esses elementos da engrenagem do nosso contador de idade da Terra são o urânio e o tório (símbolos químicos U e Th, respectivamente). Assim, temos o compósito montado para abrir uma janela no passado longínquo: um minério, o zircão, que se forma desde o início do planeta; dois elementos radioactivos que nos fornecem informação sobre há quanto tempo estão alojados no zircão, ou seja, quando é que ele foi formado.

Na próxima cónica, sobre este assunto, explicarei como é que esta datação é efectuada e o que é que tem sido possível saber através dela.

As Novas Tecnologias no Desporto de Alta Competição

“O que os olhos não vêem o coração não sente” - provérbio popular.

Cabe, porventura, na cabeça de alguém que nos últimos Jogos Olímpicos se tivesse decidido, por exemplo, o vencedor dos 100 metros de atletismo através de um juiz árbitro (ou mesmo de um por cada finalista) a quem competiria decidir os lugares do pódio? O mesmo para o caso dos 100 metros livres da natação?

A resposta a estas perguntas talvez ajudem a compreender a falta de senso da FIFA em não tentar evitar os últimos e escandalosos casos ocorridos no Campeonato Mundial de Futebol 2010, que desvirtuaram a verdade desportiva.

Sem pôr em causa os respectivos méritos, refiro-me, como é evidente, aos jogos Alemanha/Inglaterra e Argentina/México de que saíram vencedores, respectivamente, a Alemanha e a Argentina. Mas méritos ensombrados na primeira partida com o jogo anulado ao futebolista Lampard, depois da bola ter entrado na baliza alemã, e na segunda partida com a validação do 1.º golo da Argentina em evidente fora de jogo de Tevez.

E aqui surge o eterno se…se o golo tivesse sido validado à Inglaterra o resultado final do duelo anglo-germânico teria sido de 4-1 favorável à Alemanha? Igualmente, o jogo entre a equipa dos pampas e a equipa mexicana teria sido favorável à primeira por 3-1?

Será que as modernas tecnologias só encontram lugar no futebol na preparação físico-técnico-táctica das equipas? Em todo o resto o futebol tem sido pasto da utilização de modernas tecnologias com gastos fabulosos no campo da investigação entre os colossos da venda de equipamento desportivo como, por exemplo, a Nike e a Adidas.

A moderna tecnologia na descoberta de novos tecidos trouxe-nos camisolas com grande poder de absorção do suor e fatos de banho de competição que diminuem o atrito à água, no aspecto das botas de futebol passaram a ser botas em que a sua maleabilidade em nada se identificam com o couro duro e rígido das botas por exemplo “dos cinco violinos” da equipa do Sporting na década de 50 (as equipas argentinas foram as primeiras a terem consciência da vantagem de botas de futebol que bem se adaptam aos pés e tratam a bola com a subtileza das habilidades circenses).

Quanto à bola de futebol, diva principal da magia do golo que entra ou passa ao lado da baliza, a sua feitura obedece a princípios do domínio da balística (vide, crónica de Carlos Fiolhais, "Ora bolas!", publicada no semanário “O SOL” , em 25 deste mês, e transcrita nesse mesmo dia neste blogue). A vara do salto à vara evoluiu para as actuais varas de fibra, etc.

Não é mais possível, portanto, o futebol de alta competição, com ecrãs gigantescos de televisão colocados no próprio campo em que decorre o jogo, continuar a viver da dúvida do que aí acontece e que venha a servir de assunto de discussão dos jornais desportivos do dia seguinte em que se dividiam as opiniões, ou mesmo “teses”, dos especialistas do jornalismo desportivo.

Para além disso, esta visão dos erros intencionais ou não dos árbitros pode ser motivo de uma maior tensão e consequentes motins entre claques. "For Good of the Game", vão os meus votos para que no jogo do mata-mata de hoje, entre equipas de países que habitam esta “jangada de pedra”, o coração sinta os que os olhos vêem.

segunda-feira, 28 de Junho de 2010

MÚSICA NA COROA SOLAR

Nova crónica de António Piedade, saída no "Diário de Coimbra":

À frente de uma colmeia, algumas abelhas esvoaçam a preguiça e descrevem uma dança distinta da do dia anterior. É alvorada, e nada indica que as ditas abelhas estejam a comunicar a localização de um certo campo de flores, rico em pólen, eventualmente detectado na véspera, ao crepúsculo, mesmo antes de regressarem para a colmeia para mais uma noite: “Se o Sol não subir amanhã no horizonte, ninguém sai da colmeia”, zumbem ao adormecer. Mas hoje não é esse o caso. O astro amigo da vida, aparece cada vez mais intenso, mais radiante, inebriando as abelhas com luz matinal; a sombra do velho carvalho, que retardava que o sol iluminasse a colmeia logo pela manhã, já a não escurece. Algo mudou e não foi a colmeia! Parece que começou uma nova estação solar. É isso! Começou o verão e isso muda a dança dos dias!

Ali ao lado, uma multidão de gente, vinda de todas as partes, reúne-se ao redor de uma construção megalítica circular. Tal como a sombra ausente do carvalho sobre a colmeia, os humanos também observam e festejam o alinhamento do Sol com algumas das pedras erguidas no círculo; no seu centro e fora dele. Milhares de observações, ao longo de igualmente milhares de anos, levaram a que civilizações, da designada Idade do Bronze, edificassem tridimensionalmente, um monumento para celebrar a regularidade incansável dos astros, em particular do rei de todos eles: o Sol. A direcção da sombra, causada pela exposição solar das pedras iluminava o espanto da repetição: naquele mesmo dia há centenas de anos, o Sol também estava naquele ponto no horizonte celeste! E isso anunciava, a toda a criação, que o astro rei iria estar mais quente nos próximos tempos. A regularidade astral dava sustento à contemplação e ao fascínio que o Universo causa em seres sensíveis e mínimos. A certeza sediava-se em milhares de observações milenares registadas em edificação pétrea “3D”. Também anunciava que, dentro de pouco tempo, a noite começaria a crescer em relação ao dia, mas, e por enquanto, com uma temperatura estival.

Iluminados pela luz estival acabada de chegar, astrónomos na Universidade de Sheffield, no sul da Inglaterra, utilizam computadores e matemática avançada para interpretar e traduzir os dados enviados por satélites (da NASA e da ESA), que observam e recolhem informação sobre o Sol, a proximidades infernais, e converter esses dados em música! (aqui)

Com o rosto a sorrir de verão, o Professor Fáy-Siebenbürgen, director do projecto Sun Shine (aqui), ouve os últimos acordes (aqui) proporcionados pela “tradução” do movimento das projecções na coroa solar (projecções em “loops” para o espaço de matéria no estado de plasma na superfície solar, na realidade hidrogénio e hélio a altíssimas temperaturas) quais tsunamis no “oceano” de plasma de partículas sub-atómicas que banha a superfície solar, em acordes, harmonias da coroa solar, que sensibilizam a nossa audição e originam uma estranheza neuronal. Com uma temperatura de cerca de 2 milhões de graus Celsius, o ambiente musical deve estar sublimado! Os cientistas associam estas projecções na coroa solar (origem do vento solar) á actividade magnética do Sol. Sabem que uma grande mudança na actividade origina as chamadas tempestades solares. Estas, grandes quantidades de energia na forma de campos de campos electromagnéticos, “visíveis” no ultravioleta, causam perturbações nas comunicações tecnológicas humanas e interferem com instrumentação de base electrónica (telemóveis, computadores, televisões, satélites, linhas de transporte de alta tensão eléctrica, etc.). As avarias são comuns durante as tempestades solares. Deste modo, a possibilidade de prever, não o início de uma nova estação, mas o aumento significativamente intenso da actividade solar, reveste-se de uma importância crucial para a sociedade em que vivemos. E se essa predição se realizar através da audição musical da actividade solar, melhor: é a sinfonia solar, música com que a tempestade se faz anunciar!

Resta-nos ouvir essa música (aqui) e ver a dança das abelhas à frente das colmeias. Será que estes sensíveis insectos dançam ao som/visão da mesma música, sensíveis que são ao ultravioleta? Por outras palavras: conhecerão as abelhas o fascínio do multimédia?

A ORIGEM DAS VUVUZELAS


Um dos nossos leitores enviou-nos este "esclarecimento" sobre a origem das vuvuzelas:

"6. E os sete anjos, que tinham as sete trombetas, prepararam-se para tocá-las.

7. E o primeiro anjo tocou a sua trombeta, e houve saraiva e fogo misturado com sangue, e foram lançados na terra, que foi queimada na sua terça parte; queimou-se a terça parte das árvores, e toda a erva verde foi queimada.

8. E o segundo anjo tocou a trombeta; e foi lançada no mar uma coisa como um grande monte ardendo em fogo, e tornou-se em sangue a terça parte do mar.

9. E morreu a terça parte das criaturas que tinham vida no mar; e perdeu-se a terça parte das naus.

10. E o terceiro anjo tocou a sua trombeta, e caiu do céu uma grande estrela ardendo como uma tocha, e caiu sobre a terça parte dos rios, e sobre as fontes das águas.

11. E o nome da estrela era Absinto, e a terça parte das águas tornou-se em absinto, e muitos homens morreram das águas, porque se tornaram amargas.

12. E o quarto anjo tocou a sua trombeta, e foi ferida a terça parte do sol, e a terça parte da lua, e a terça parte das estrelas; para que a terça parte deles se escurecesse, e a terça parte do dia não brilhasse, e semelhantemente a noite.

13. E olhei, e ouvi um anjo voar pelo meio do céu, dizendo com grande voz: Ai! ai! ai! dos que habitam sobre a terra! por causa das outras vozes das trombetas dos três anjos que hão de ainda tocar."

(Bíblia, Novo Testamento, Capítulo 8 do Livro do Apocalipse)

Uma colecção

Ana Boavida e João Bicker são os dois designers de comunicação do estúdio FBA, sediado em Coimbra, com vários prémios nacionais e internacionais.

Em 30 de Maio último receberam um Silver Award no Festival Europeu de Design (um dos mais importantes acontecimenos na área do design que neste ano decorreu em Roterdão) pelo trabalho de concepção gráfica da colecção Minotauro, da editora Almedina, que inclui livros de ficção espanhola contemporânea. Na passada semana receberam a notícia de que esses livros, a concurso no American Institute of Graphic Arts, em Nova Iorque, tinham sido incluídos na selecção anual dos “50 livros e capas mais bem desenhados” do mundo. São razões suficientes para que o De Rerum Natura tivesse falado com eles.

P: Começo esta conversa pela pergunta clássica: o que significa para vós os prémios de tanto prestígio que têm recebido, com particular destaque para os dois últimos?

R: Significa, antes de mais, uma enorme alegria. Em particular este segundo prémio é um prémio muito valioso para qualquer designer. Ficámos muito orgulhosos de estarmos na mesma selecção de muitos dos nossos “heróis” do design de capas e de livros. Significa também que estamos no bom caminho. É o reconhecimento pelo nosso investimento neste projecto.

P: Ainda sobre os dois últimos prémios, uma das coisas que a Ana e o João disseram em várias entrevistas é que leram a maior parte dos livros que trabalharam graficamente. Entraram, portanto, no espírito de uma colecção, mais do que de um livro. Que espírito foi esse que vos inspirou?

R: O desenho desta colecção foi a resposta a um programa muito bem definido por parte do editor. Quando assim é, torna-se mais fácil trabalhar e, regra geral, os resultados são também melhores porque quando um problema é bem formulado é mais fácil dar-lhe uma boa resposta. Assim, mesmo antes de lermos os livros pensámos o design da colecção enquanto matriz na qual todos os livros deverão poder existir graficamente. O desenho de uma colecção é diferente do desenho de uma capa avulsa. É preciso prever soluções que funcionem para todos os livros. Pensada essa parte foram lidos, de facto, integralmente a maioria dos livros e determinada a expressão plástica das ilustrações. A leitura dos livros determinou o motivo da ilustração de cada capa pois só assim se percebe o tom, os personagens e a paisagem que o constitui.

P: Destacaram também que trabalham nesta periferia que é Portugal. Trata-se de uma periferia vantajosa ou desvantajosa no que, em particular, diz respeito à vossa área?

R: Essencialmente desvantajosa. Portugal é um país periférico também porque é pequeno. Desenhar um livro em Portugal é caro porque os recursos utilizados e as despesas tidas numa pequena edição são praticamente as mesmas que de uma edição de tiragem muito superior num país em que há mais gente e mais gente a ler. Há uma série de gastos que um livro envolve, quer tenha uma tiragem de 500 ou 5000 exemplares. Custos de direitos de imagem, de horas em projecto de design, de utilização de fontes legais, etc. Isto encarece muito os livros e tende a levar à poupança nos recursos o que restringe muitíssimo as opções de técnicas de produção e materiais utilizáveis para quem desenha livros. Também o acesso a materiais de melhor qualidade como por exemplo alguns papéis estrangeiros, se torna mais difícil devido a essa periferia.

P: Como acham que, de modo geral, se apresenta em termos gráficos, nesta periferia, o objecto livro?

R: O panorama melhorou mas é em termos gerais ainda medíocre. Os livros são muitas vezes mal desenhados por curiosos que não dominam os conhecimentos necessários e depois disso produzidos sem grande cuidado sobre fracos materiais. Ou então desenhados de forma deslumbrada, disfarçando a falta de ideias com tudo o que é “efeito especial” numa mesma capa: relevo, verniz, papel especial... e aí também é mau, só que é um mau mais caro.

P: Temos acesso imediato ao vosso trabalho olhando para as capas dos livros, que são belíssimas, mas ele vai muito mais além: está presente na mancha gráfica, no tipo e tamanho de caracteres, nas margens, na paginação, nas fitas marcadores, no tipo de papel… é frequente um designer ter possibilidade de apresentar uma colecção de livros em todas estas vertentes? E o que é que isso significa?

R: Não é muito frequente. São requintes que nem sempre é possível trabalhar. Neste caso foi porque fazia parte do programa inicial fazer um investimento um bocadinho maior e desenhar livros não só para um público que gosta de ler mas que também gosta de livros.

Fotografias, por ordem, de Sérgio Azenha e de Daniel Santos.

domingo, 27 de Junho de 2010

Há reprovações no construtivismo?

Arriscaria afirmar que, nas últimas duas a três décadas, quando nos reportamos às reformas educativas em Portugal, a corrente pedagógica que mais se destaca é o construtivismo.

Mas o que é o construtivismo? É uma teoria científica? É uma filosofia? É uma ideologia? É um conjunto de pressupostos que se abrigam numa designação? É uma metodologia? É uma forma de ver a educação? É isto tudo? Não é nada disto?

A verdade é que os mais diversos autores que se têm pronunciado ponderadamente sobre o assunto não arriscam uma resposta inequívoca. É o caso de Prawatt (1996) que diferencia o construtivismo em função de dois tipos de ancoragem epistemológica – pós-moderna ou moderna – e da orientação psico-pedagógica que lhe subjazcognitivista ou social e pessoal.

Esta dupla diferenciação permite-lhe apresentar uma lista de seis “tonalidades” construtivistas, advertindo para o facto de elas não esgotarem o que se diz e o que faz em termos de ensino. Mais diz, que essas "tonalidades" podem apresentar contradições evidentes.

Assim, podem duas pessoas definirem-se como construtivistas e defenderem princípios educativos e modos de os operacionalizar distintos, opostos, até.

Nesta lógica se compreende a publicação de um pequeno livro que me chegou às mãos e que se intitula Construtivismo: grandes e pequenas dúvidas. São "setenta pontos trocados por miúdos", para esclarecer sobretudo os educadores brasileiros, aos quais é, em primeiro lugar destinado. Um desses pontos é o que se segue:

54) Há reprovações no construtivismo? Em caso positivo, o fracasso não seria do professor?

É verdade que ainda há “reprovações” no construtivismo, mesmo quando dissimuladas. Embora o fracasso e os altos índices de reprovação marcantes nas décadas de explosão construtivista, tenham mobilizado para a adesão a um projecto alternativo, continuam ocorrendo fracassos preocupantes (...)

É preciso não relaxar com aparente sucessos (…) Temos acumulado indicadores nacionais e internacionais preocupantes no que diz respeito à proficiência em leitura e escrita, em níveis de ensino que já deveriam apresentar essas capacidades consolidadas. Os baixos índices de alfabetismo funcional, ao término do ensino fundamental, são exemplos desse insucesso.

(…) as “promoções automáticas” são tão maléficas quanto as reprovações, pois alertam para os fracasso dos professores e do sistema. Elas foram fortemente responsáveis por estas estatísticas de sucesso de sistemas de ensino, ocultando fracassos singulares dos nossos alunos. E é exactamente essa prerrogativa importante que precisa ser retomada com consciência – a avaliação do desempenho dos alunos, para que as escolas e os sistemas reavaliem suas condutas pedagógicas e reorientem processos e decisões em sintonia com o sucesso.
Referências completas:
- Bregunci, M.G.C. (2009). Construtivismo: grandes e pequenas dúvidas. Belo Horizonte: Ceale, pp. 42-43.
- Prawatt, R. S. (1996). Constructivisms, modern and postmodern. Educational Psychologist, 31 (3/4), pp. 215-225.

Guilhermina Suggia, professora

"Fui sua discípula durante 10 anos. Esse período da nossa convivência e amizade foi fabuloso. Ouvi-a tocar muitas vezes em ensaios e concertos com minha Mãe e com meu Pai. Aprendi muito nas suas lições e ouvindo-a em concertos, com a sua maneira de tocar muito comunicativa e emotiva."
Madalena Sá e Costa

Quando se celebram os 125 anos do nascimento da extraordinária violoncelista Guilhermina Suggia, é justo que se assinale a sua vertente de professora, que o foi de brilhantes músicos como Madalena Sá e Costa. Vertente que foi muito justamente lembrada por Maria do Carmo Vieira no livro que antes referimos no De Rerum Natura:

"Séneca grato ao mestre Átalo cuja escola frequentou, cita-o a Lúcilio na carta que escreve: o docente e o discente devem-se unir num propósito comum: o primeiro, ser útil ao discípulo, o segundo tirar benefício do convívio com o mestre.

Ouvindo na Antena 2 uma entrevista a Madalena Sá e Costa, ecoam em mim as palavras de Átalo no elogio que a violoncelista faz à sua mestra Guilhermina Suggia, numa demonstração inequívoca de que beneficiar do convívio daquele que é mestre implica forçosamente empenho e muito trabalho, a que se alia o prazer de aprender."

Na fotografia: Final do ensaio do primeiro concerto de Madalena Sá e Costa. Com Guilhermina Suggia e Augusto Suggia, em 1931 (no Teatro Gil Vicente, Palácio de Cristal, Porto).

O CABO DAS TORMENTAS DE CARLOS QUEIROZ

«Partidos dali, houveram vista daquele grande e notável cabo, ao qual por causa dos perigos e tormentas em o dobrar lhe puseram o nome de Tormentoso, mas el-rei D. João II lhe chamou cabo da Boa Esperança, por aquilo que prometia para o descobrimento da Índia tão desejada» (João de Barros, 1496-1570).

Realiza-se na próxima terça-feira, dia 29 de Junho, o jogo dos oitavos-de-final entre Portugal e Espanha - “essa amiga, que dorme deitada a nosso lado (…), tendo por travesseiro os mesmos montes e por lavatório os mesmos rios”, como escreveu Eça de Queiroz – que mantêm entre si uma rivalidade futebolística de há longos anos.

Mais uma vez isso acontecerá e Carlos Queiroz será posto à prova. No caso da vitória da Espanha poderá vir a ser havido pelos seus detractores, depreciativa e novamente, como um teórico do futebol. Curiosamente, alguns deles consideraram o futebol moderno como uma ciência que muito o afasta do tempo das balizas às costas ou de tácticas “de todos a monte e fé em Deus”, mas, por outro lado, quiseram-no manter aprisionado nas malhas de “um saber de experiência feito”. Este paradoxo, fez com que, vai para cerca de vinte anos, tenha escrito um artigo de opinião com o seguinte título: “Futebol, uma ciência sem cientistas?”, em que defendi:”Em minha opinião, essa prática tem que caminhar a par com a formação de treinadores em licenciaturas em Desporto (na opção de Futebol) pela faculdade de Motricidade Humana e outras licenciaturas congéneres” ("Jornal de Coimbra", 28/08/91).

Já pertence ao passado um futebol que possa desmerecer exames sobre a condição física dos jogadores, exercícios de musculação (de que é exemplo o físico apolíneo e possante de Cristiano Ronaldo que depois dos treinos de conjunto se dirigia sozinho ao ginásio para fazer musculação), filmagens de treinos e jogos para análise dos movimentos dos atletas, uso da informática no armazenamento, consulta e análise das informações, que só um domínio científico da metodologia do treino, de ciências biológicas e biomecânicas, etc., podem dar resposta com todo os seu arsenal laboratorial. É do domínio público que Carlos Queiroz e José Mourinho (seu aluno no ISEF/FMH da Universidade Técnica de Lisboa) não foram jogadores de futebol de nomeada pertencendo a uma nova vaga de treinadores de futebol que entraram na profissão pela porta da teoria como reconheceu Mourinho na cerimónia do seu doutoramento honoris causa pela Universidade Técnica de Lisboa em que obteve o grau académico de licenciado: “Seria sempre treinador de futebol, mas sem faculdade seria assim-assim e nunca muito bom” (Record, 24/03/09). Mas este percurso não foi pacífico sendo obrigados a frequentar cursos de curta duração de treinadores de futebol de que eram eles próprios, muitas vezes, prelectores.

Por esse facto, contra ventos de descrença e marés de desconfiança, saudei a nomeação de Carlos Queiroz para seleccionador nacional de futebol com um post, "O regresso de Carlos Queiroz", aqui publicado, em 19 de Julho de 2008, de que transcrevo partes:

“Os processos da ciência são característicos da acção humana, porque se movem pela indissolúvel união do facto empírico e do pensamento racional” (J. Bronowski). Começo por destacar o papel desempenhado pelo treinador de futebol brasileiro Otto Glória, formado em Educação Física, na estruturação da equipa e conquistas de títulos nacionais do Sport Lisboa e Benfica (1954-59) e na obtenção do 3.º lugar no Campeonato do Mundo de Futebol (1966), que o 2.º lugar conquistado no Campeonato Europeu de Futebol (2004) quase fez cair em injustificado esquecimento.

Na recente nomeação de Carlos Queiroz para seleccionador nacional de futebol, no êxito internacional de José Mourinho e no excelente percurso de Jesualdo Ferreira no Futebol Clube do Porto, encontro motivo para me debruçar sobre o papel de professores de Educação Física no treinamento de equipas de futebol.

Anos atrás, Carlos Miranda, director de A Bola, deixou escrito que Carlos Queiroz era um caso de predestinação comparável ao de Mozart (que aos quatro anos já tocava cravo e aos cinco ensaiava os primeiros passos da composição). Esta era uma acha mais na fogueira de uma controvérsia que está longe de estar extinta.

Quase se pode dizer que se nasce poeta e escritor, mas não se nasce médico, advogado ou professor. Daqui encontro justificação para na proliferação de licenciaturas, a que se tem assistido na Universidade Portuguesa, não haver cursos universitários de Poesia e os melhores escritores não serem licenciados em Letras (v.g., José Saramago e António Lobo Antunes, o primeiro habilitado com o curso das antigas escolas industriais e o segundo médico de formação). Idêntico princípio pode ser aplicado no domínio do futebol: “nasce-se” predestinado para a prática de um futebol de eleição (Carlos Queiroz, José Mourinho e Jesualdo Ferreira não passaram da mediania como praticantes), mas não se nasce treinador de futebol; e é esta confusão que tem e continua a alimentar os “mentideros” do futebol nacional. Mas esta discussão tem raízes profundas.

No mundo das actividades corporais da Grécia Antiga chega-nos a polémica entre práticos e teóricos. Segundo Galeno (célebre médico grego, tido como pai da medicina desportiva moderna), os treinadores troçavam das teorias dos professores de ginástica e dos médicos sob o pretexto de não se ter o direito de discutir sobre coisas desconhecidas quando se não tem a prática do ofício (…).

Ao ler um dia nos jornais que numa reunião do Sindicato Nacional de Treinadores de Futebol fora levantada a questão da legitimidade dos professores de Educação Física orientarem a preparação técnico-táctica das equipas de futebol (a preparação física era já então matéria de consenso), não pude deixar de tomar posição num artigo de opinião (
Jornal Novo, 15. Janeiro.77): “Claro que a partir desta premissa é pertinente a conclusão de considerar exercício ilegal de profissão o facto de um licenciado em Educação Física treinar uma equipa de futebol ” (…).

Se, como escreveu António Gedeão, "o sonho comanda a vida”, que este Cabo das Tormentas se transforme no Cabo da Boa Esperança e a viagem dos “navegadores”, com Carlos Queiroz ao leme, prossiga novas rotas levando a equipa portuguesa à final deste campeonato mundial. Eles já demonstraram valor para tanto! Mas há mais vida para além do futebol – mesmo que no alcance de um título mundial - que não deve servir de ópio para esconder a crise social e económica que assola terras portuguesas.

sábado, 26 de Junho de 2010

A escola não pode permanecer tal como está

A propósito da publicação do livro O ensino do Português, referido em post anterior, a sua autora, Maria do Carmo Vieira, deu uma entrevista, onde afirma o seguinte:

"A escola não pode permanecer tal como está, porque já bateu fundo – e não só em relação ao ensino do português, mas em várias outras matérias. Estamos a ensinar na base daquilo que é fácil, do que não exige esforço, nem trabalho. Estamos a fomentar gerações e gerações de alunos que não pensam, nem sequer sabem falar ou escrever.

Ao tornar a facilidade da escola comum para todos, um aluno que venha de um contexto familiar rico, do ponto de vista cultural, não vai ficar prejudicado, porque os pais hão-de ter sempre dinheiro para ele ir para explicadores ou para frequentar boas escolas. Já aqueles que vêm de espaços mais fragilizados socialmente, esses sim é que vão ser torturados e explorados pela sociedade."


A entrevista completa poderá ser lida aqui e aqui.

O espectáculo do Absurdo

O Ensino do Português é um pequeno grande livro recentemente publicado e amplamente divulgado. A sua autora, Maria do Carmo Vieira, professora do Ensino Secundário, incapaz de se submeter ao "Absurdo" patente em muitas das actuais orientações para a educação escolar, apresenta e explora aquelas que mais impacto têm tido na aprendizagem do Português, não deixando de se deter, de modo muito lúcido, nas suas consequências...

Desse livro deixamos o seguinte extracto:

A “nova concepção de escola” que a reforma, implementada em 2003-2004, impôs, sem que houvesse um debate sério, e após anos de cauteloso e persistente trabalho, realizado pelo seus dinamizadores e apoiantes, é a representação meticulosa do espectáculo do Absurdo, sobre o fundo de cantos sedutores que atraem a Ignorância, para a Inércia e para a Preguiça de pensar, no desprezo pela educação da sensibilidade. Na base de teoria pedagógicas polémicas, já avaliadas e ultrapassadas, mas aceites acriticamente, se foi alicerçando o vício da facilidade, da ausência de reflexão e de criatividade, bem como a crença no êxito imediato e no esforço, em tudo contrário à experiência da própria vida, do saber e da arte.

O relato de um episódio que decorreu, no final da década de 80, na minha escola, mostra, com clareza, o raciocínio que iria determinar a imposição do discurso pedagógico hoje em voga. Foram os professores convocados, certo dia, para ouvir um grupo de colegas, destacados pelo Ministério da Educação, os quais na introdução feita, se apresentaram como mensageiros de uma “nova metodologia pedagógica”. Para ser mais explícito nos objectivos, um desses professores interpelou-nos: “Colegas, imaginem que estão numa sala de aula, o dia está radioso e um aluno, depois de olhar lá para fora, sugere que vão para o recreio jogar futebol. O que deveria fazer o professor?”

Perante o silêncio, resultante da estranheza, foi o colega que, impaciente, adiantou a resposta “Se eu fosse um professor tradicional, preocupado apenas em adiantar a matéria, contrariaria o aluno, dizendo-lhe que quando tocasse teria tempo de jogar futebol com os colegas. Pelo contrário, se fosse um professor compreensivo e atento aos aspectos pedagógicos aceitaria de bom grado a proposta, convidando a turma a participar nesse convívio tão necessário à aproximação professor-aluno”.

De forma muito espontânea pensei em voz alta"mas está tudo maluco", desabafo mal recebido pela falta de educação demonstrada, mas depressa desculpado por vir de alguém “certamente resistente à mudança”, nas palavras de um jovem professor ministerial. Iniciava-se assim a metodologia da facilidade e do lúdico pelo lúdico, bem como a atitude de ignorar o protesto.

As escolas que então optaram servilmente pela experimentação dessas inovações pedagógicas, descritas como verdades definitivas e incontornáveis, foram-nas integrando no seu quotidiano, numa aceitação acrítica e alheia às consequências. Nesse processo, pacientemente aguardado pelos seus mentores, que com subtileza o iam orientando, forma surgindo sugestões cuja concretização dependeria da “sensibilidade do professor”, expressão com que se procurou, de forma condescendente, atrair os dissidentes.

Referência completa: Vieira, M. C. (2010). O Ensino do Português. Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, pp. 11-12.

Poema sobre a igualdade e a desigualdade


Deixo aqui o poema de Drummond de Andrade que li no debate de ontem sobre "Igualdade" realizado em Fátima com D. Manuel Clemente e o Dr. Artur Santos Silva:
Igual-Desigual

Eu desconfiava:
todas as histórias em quadrinho são iguais.
Todos os filmes norte-americanos são iguais.
Todos os filmes de todos os países são iguais.
Todos os best-sellers são iguais
Todos os campeonatos nacionais e internacionais de futebol são
iguais.
Todos os partidos políticos
são iguais.
Todas as mulheres que andam na moda
são iguais.
Todos os sonetos, gazéis, virelais, sextinas e rondós são iguais
e todos, todos
os poemas em verso livre são enfadonhamente iguais.

Todas as guerras do mundo são iguais.
Todas as fomes são iguais.
Todos os amores, iguais iguais iguais.
Iguais todos os rompimentos.
A morte é igualíssima.
Todas as criações da natureza são iguais.
Todas as acções, cruéis, piedosas ou indiferentes, são iguais.
Contudo, o homem não é igual a nenhum outro homem, bicho ou coisa.

Ninguém é igual a ninguém.
Todo o ser humano é um estranho
ímpar.

Carlos Drummond de Andrade, in 'A Paixão Medida'

sexta-feira, 25 de Junho de 2010

A "Divina Proporção" mostrada na Biblioteca Joanina


Informação recebida da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra:

BIBLIOTECA GERAL MOSTRA OBRAS RARAS DAS SUAS COLECÇÕES: LIVROS IMPRESSOS NAS MAIS IMPORTANTES TIPOGRAFIAS DOS SÉCULOS XVI E XVII

Mostra “Época Áurea da Tipografia” está patente na Prisão Académica até 30 de Junho. Livros expostos são alguns dos ‘tesouros’ da Biblioteca Geral.

São 21 as obras impressas nas oficinas dos mais importantes tipógrafos dos séculos XVI e XVII que estão expostas, até 30 de Junho, na Prisão Académica da Universidade de Coimbra. No ano em que se assinalam os 555 anos da invenção da Imprensa por Gutenberg e a impressão do primeiro livro – a Bíblia das 42 linhas acabada de ser impressa em 1455 –, a Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra (BGUC) promove a mostra “Época Áurea da Tipografia”, dando a oportunidade de conhecer algumas das obras raras dos seus fundos e colecções.

O conjunto composto de obras de tipografia italiana, francesa, portuguesa e dos Países Baixos está representado por edições dos mais notáveis impressores, destacando-se as famosas edições Aldinas, as Giunta, as da família Estienne e as Plantinianas, Craesbeeckianas e Elzevirianas. Das obras impressas em Portugal representativas da tipografia portuguesa dos séculos XVI e XVII, encontram-se livros impressos em Coimbra, no Mosteiro de Santa Cruz, por Germão Galharde, João de Barreira e João Álvares, e em Lisboa, por Luís Rodrigues e Pedro Craesbeeck.

Maria Luísa Machado, bibliotecária e responsável pela Área de Leitura, Referência e Apoio ao Utilizador da BGUC, destaca do conjunto de livros apresentados, que se inserem no movimento cultural e humanístico do Renascimento Europeu, a obra de Luca Pacioli “De Divina Proportione”, por se tratar de uma primeira edição impressa em Veneza por Paganinus de Paganinis em 1509, contendo ilustrações de Leonardo da Vinci. Julga-se que, para além do exemplar da impressão original desta obra que está na BGUC, apenas existam mais dois em todo o mundo.

A “Divina Comédia” de Dante Alighieri, considerada como uma das obras-primas da literatura italiana, é outro dos livros assinaláveis a não perder. Trata-se de uma segunda edição impressa por Aldo Manuzio, em colaboração com Andreas Torresanus, em Veneza, em Agosto de 1515, notável pelas suas ilustrações do inferno. Maria Luís Machado destaca ainda a obra de Justo Lípsio “De Bibliothecis Syntagma”, largamente citada como o primeiro e mais importante Tratado da História das Bibliotecas. É uma segunda edição de 1607 publicada em Amesterdão na célebre oficina de Christoph Plantin, conhecida como Compasso de Ouro, símbolo que também usa como a sua marca de impressor.

A invenção da Imprensa provocou uma verdadeira revolução ao iniciar a possibilidade de propagação do conhecimento para todos, tratando-se por isso de um momento de transição da história humana. Carlos Fiolhais, Director da BGUC, convida por isso «todas as pessoas que se interessam pela história do livro e pela história em geral a visitar a Mostra, que está patente num espaço contemporâneo dos livros expostos, num local que foi uma prisão medieval».

A mostra pode ser visitada gratuitamente por quem adquira um bilhete para visitar o conjunto monumental do Paço das Escolas ou por quem adquirir um bilhete para visitar a Prisão Académica, com o valor de 1 Euro. A Prisão Académica está aberta de segunda a sexta-feira, das 09H30 às 13H00 e das 14H00 às 17H30 e, ao fim-de-semana, das 09H00 às 19H30.

Veneno ou alimento?

Com a devida vénia, transcrevemos crónica de J.L. Pio Abreu no "Destak" de hoje:

Houve um tempo em que não existia oxigénio na atmosfera terrestre. Aliás, o oxigénio era tóxico para os organismos então existentes.

Mas houve um deles – a bactéria azul – que, além de resistir ao oxigénio, produzia-o em resultado do seu metabolismo. Na verdade, foi a precursora das árvores e plantas actuais, que expulsam o oxigénio como detrito do seu alimento.

Nessa altura, porém, existiu uma guerra de morte: todos os organismos sensíveis à toxicidade do oxigénio acabaram envenenados. Durante mil milhões de anos, a Terra ficou exclusivamente coberta pela bactéria azul.

Os outros organismos tentavam reproduzir-se, por vezes escondendo-se na água. À superfície da Terra só sobreviveram os que resistiam ao oxigénio. Mas o maior êxito foi daqueles que, para além disso, começaram a usar o oxigénio em seu proveito.

O veneno passou a ser alimento. Os seres vivos diversificaram-se, ganharam autonomia, povoaram a Terra e deram origem aos humanos. O oxigénio já fazia parte da atmosfera.

Os humanos lá foram evoluindo, adaptando-se a todas as contingências, Trocavam bens entre si até produzirem dinheiro. O dinheiro, a princípio, apenas substituía os bens. Mas depois autonomizou-se e correu à volta do mundo.

No seu caminho, já provocou desastres e foi venenoso, embora beneficiasse quem se alimentava dele. Hoje, faz parte da atmosfera dos humanos, e é produzido sem cessar pelos Bancos Centrais, a nova bactéria azul. Se é veneno ou alimento, depende do modo como nos adaptamos a ele.

José Luís Pio de Abreu

Astronomia de Amadores

Informação recebida pelo De Rerum Natura.

A Asssociação Portuguesa de Astrónomos Amadores disponibiliza o acesso (sem restrições) da revista Astronomia de Amadores, n.º 39, Janeiro-Julho 2010. Ver aqui.

Desse número deixamos o início do artigo O céu e as tradições: preservar o céu dos nossos avós, da autoria de Guilherme de Almeida.

A HISTÓRIA E A LONGA NOITE DOS TEMPOS

A actual designação das constelações que podemos ver no céu nocturno segue uma terminologiae uma simbologia internacionais, relativamente modernas, que resultaram de um acordointernacional levado a cabo pela União Astronómica Internacional (IAU) em 1928. Essasistematização, bem como a delimitação das constelações no céu, foram consequências do trabalhodo astrónomo belga Eugène Delporte, aceite internacionalmente em 1930, através da sua obra La Déllimitation Scientifique des Constellations.

Porém, a história da sistematização do céu é muito mais longa. Povos de diferentes partes do mundo procuraram encontrar ordem no aparente caos do céu nocturno. Tal conhecimento revelou-se essencial para a sobrevivência. As migrações requeriam a orientação pelo céu, em terra ou no mar, para a escolha do rumo correcto a tomar. A agricultura carecia de marcadores naturais, da passagemdo tempo e das estações do ano, que ajudassem a determinar as épocas próprias para semear oupara colher. As celebrações religiosas exigiam a interpretação de fenómenos ou a marcação de datas para colher os favores dos deuses.

Era pois necessário conhecer o céu, para sobreviver num mundo de aparentes contradições, onde paradoxalmente o céu nocturno se mostrava de uma regularidade imponente e desafiadora, capaz de servir os objectivos de que a Humanidade necessitava.

ORA BOLAS!


Minha crónica no "Sol" de hoje:

A bola está por todo o lado na Natureza. O Sol, tal como todas as outras estrelas, é uma bola. A Terra, tal como os outros planetas, é uma bola. Os átomos são bolas. Os núcleos atómicos são também, na maior parte, bolas (alguns, é certo, parecem-se mais com bolas de rugby do que com bolas de futebol enquanto outros se parecem com discos). Por razões diferentes, porque as forças são diferentes, a Natureza preferiu essa forma muito simétrica a outras formas possíveis.

A bola de futebol, talvez o desporto mais popular no planeta Terra, tem a mesma forma que objectos naturais de vários tamanhos. A escolha da forma, obviamente feita pelos inventores do futebol, tem a ver com as características que queriam dar ao jogo. A forma esférica permite que a bola circule livremente entre os jogadores, sujeita naturalmente às leis da física. Apesar de as leis de movimento, descobertas por Newton no século XVII, serem bem simples, o movimento de uma bola de futebol pode ser bastante complicado, pois não se trata de um objecto pontual mas de um objecto que, para além do peso, em virtude da sua extensão, está sujeito à força de resistência do ar, à força (embora diminuta) de impulsão também devida ao ar, para além, claro, da força comunicada pelos jogadores. Modernamente, faz-se, com base na experiência e na observação, investigação científica sobre o comportamento das bolas de futebol.

Foi, sem dúvida, levando em conta essa investigação que se desenvolveu a bola Jabulani que está a ser usada no Campeonato do Mundo de Futebol a decorrer na África do Sul. O nome significa “celebração” numa das línguas indígenas daquele país. É um bom nome, pois de uma verdadeira festa se trata. Mas será uma boa bola?

Aqui as opinião dividem-se. Há quem diga “ora bolas!” quando observa o comportamento daquela bola. Há até uma petição na Internet contra a Jabulani. A nova bola tem uma superfície diferente, menos suave do que a bola Teamgeist, que foi usada no anterior Campeonato do Mundo na Alemanha. O peso e as dimensões da bola estão regulamentados pela FIFA, mas já o não estão as características físicas da superfície. E estas podem fazer uma grande diferença. A Jabulani é uma bola mais rápida do que a Teamgeist, e tem um movimento mais imprevisível. A sua superfície torna diferente a diminuta camada de ar à sua volta, o que modifica a zona de turbulência do ar atrás da bola e, portanto, altera a força de resistência do ar a que está sujeita e o movimento que resulta da acção dessa força. A diferença é pequena, mas os jogadores sentem-na. E os espectadores do jogo mais sabedores também a notarão.

“Ora bolas!”? Talvez não, porque afinal a bola é a mesma para todos os jogadores...

A reforma total

Dizia em texto aqui publicado em Dezembro de 2009 que era quase certo que o nosso Ensino Básico sofreria mais uma reforma/reorganização curricular, lembrando que a última é de 2001. Era disso que se falava na altura. Passados seis meses, percebi que não é apenas o Ensino Básico que será reformado/reorganizado mas todo o ensino não superior.

Afirmo isto com base num documento que já é público (apesar de se apresentar na forma de power-point), datado de Maio último, e intitulado Proposta de Revisão Curricular dos Ensinos Básico e Secundário.

Trata-se de um documento que reflecte o trabalho de um órgão consultivo do Ministério da Educação, um tal Conselho de Escolas, que, ao que parece, tem levado a sua função muito a sério, criando uma “comissão da revisão curricular” cujo objectivo é “contribuir para uma das reformas do nosso sistema educativo mais anunciadas, mais desejadas e mais proteladas nos últimos anos. Esclarece este Conselho, tão pró-activo, que “sendo certo que o propósito do nosso trabalho se centrava no Ensino Básico, cedo se percebeu que, para se alcançar uma proposta mais ou menos harmoniosa, não poderíamos deixar de fora o ensino secundário”.

Muito bem, e o que propõe o dito Conselho para a educação das nossas crianças e jovens entre os três e os dezoito anos de idade?

(Sugeria ao leitor que consultasse o referido documento, por exemplo, aqui).

Depois de analisar ao detalhe todos e cada diapositivo, devo confessar que não consigo responder a esta pergunta essencial que temos legitimidade de ver respondida por parte de quem propõe uma reforma/reorganização tão ambiciosa.

Avanço e de entre as muitas considerações de teor pedagógico que poderia tecer, fico-me, de momento, pelas mais gerais e óbvias:

Centrando-me nos "pressupostos", não me parecem, de facto, sê-lo, pois não traduzem uma ideia clara e consistente acerca do que deve ser a educação escolar no futuro, com base em contributos filosóficos e científicos sólidos, a sua essência é de natureza conjuntural e remediativa. Faço as mesmas considerações para a conceptualização dos três (ou serão quatro?) ciclos propostos: pré-escolar, primário, secundário geral ou unificado, e secundário superior.

Destaco para o ensino pré-escolar, com a duração de três anos, que este continua a não ser encarado na sua especificidade, subordinando-se aos desígnios do primeiro ciclo. Por outro lado, insiste-se em concebê-lo com um "espaço de socialização", descuidado-se a dimensão cognitiva do desenvolvimento das crianças.

Destaco para o ensino primário, com a duração de quatro anos, a mudança de… designação (deixaria de se chamar "primeiro ciclo"). Insiste-se na avaliação qualitativa (conceito que foge a qualquer modelo de avaliação que se preze) e na tendência de não retenção dos alunos (omitindo-se as medidas fundamentais para os alunos que não progridem de modo regular na aprendizagem).

Destaco para o ciclo ensino secundário geral ou unificado, com a duração de 4 anos, a organização do currículo em quatro áreas do saber: Ciências Exactas e Experimentais; Línguas e Humanidades; Expressões; Educação Sexual e Cidadania.

Ficamos a saber que esta última (onde se associa directamente a educação sexual à cidadania) são uma área de saber. Ficamos a saber também que a História e a Geografia devem ser geridas pelas escolas, advertindo-se que a primeira deve ter no mínimo dois anos de escolaridade, mas a Educação sexual e cidadania será leccionada em todos os anos.

Continua o preconceito errado de que a avaliação formativa deve ser a principal modalidade de avaliação, e que também neste ciclo a retenção é uma medida de excepção sem se mencionar mais uma vez as medidas a que acima aludi.

Destaco para o ciclo ensino secundário superior, também com quatro anos de duração, um primeiro patamar de dois anos generalista e um segundo patamar, também de dois anos, para a frequência de cursos orientados para o prosseguimento de estudos e profissionais. Em ambos se assegura a Lingua Portuguesa. É de louvar!

Depois ainda há os Cursos de educação e formação, onde cairão os alunos que se vão perdendo… E, esperando estar enganada, serão muitos...

quinta-feira, 24 de Junho de 2010

Academia Olympia

Texto de António Amorim da Costa, químico da Universidade de Coimbra.

“Sem que nos seus tempos de escola tenha sido um mau aluno, como alguns dos seus biógrafos pretendem fazer crer, Einstein não foi um aluno particularmente distinto, embora tenha sido sempre um aluno particularmente distinto, embora tenha sido sempre um aluno brilhante em Matemáticas. Na Escola Politécnica de Zurique frequentava pouco as aulas. Preferia estudar por sua conta própria a matéria que nelas era dada, servindo-se para o efeito de apontamentos tirados pelo seu condiscípulo Marcel Grossman, esse mesmo que viria, mais tarde, a assisti-lo no desenvolvimento do formalismo matemático da Teoria da Relatividade Geral.

Em vez de seguir as matérias de Física e de Matemática leccionadas na sua Escola Politécnica, ele preferia ler os principais alunos destas disciplinas lendo directamente, como autodidacta, as obras originais de Maxwell, Kirshoff, Boltzman e Hertz. Terminado o Curso, não continuou na Escola Politécnica onde se formou, em virtude de certas ‘irreverências’; graças ao seu amigo Marcel Grossmann, em 1902, foi contratado como perito técnico de segunda classe na repartição de patentes de Berna.

Nos primeiros três meses da sua estadia nesta cidade, resolveu dar aulas particulares a três francos por hora. Foi aqui que conheceu Maurice Slovine, um estudante romeno apaixonado pela Física, com quem passou a discutir apaixonadamente os mais diversos assuntos científicos. Em breve, aos dois se juntou Conrad Habid, um estudante de matemática. O trio passou a reunir-se regularmente depois das horas de trabalho diário para estudar e discutir em conjunto os trabalhos de Hume e Espinosa, e também as obras de Mach, Ampère e Henri Poincaré, Racine e Dickens. Uma simples passagem de alguns destes autores poderia tornar-se para eles, frequentemente, tema de discussão acesa para vários dias. Poucos depois, juntou-se ao grupo o italiano Ângelo Besso. O grupo assim formado foi por eles próprios auto-denominados Academia Olympia. Foi nela que germinaram esses trabalhos fundamentais da Física contemporânea publicados por Einstein em 1905 e que teriam continuação nos anos seguintes. Dois anos depois da sua morte, em 1935, Einstein, em carta a M. Slovine, referia-se a essa Academia nos seguintes termos:

“À imortal Academia Olympia: Na tua curta existência activa, deleitaste-te com uma alegria fácil. Os teus membros criaram-te para se divertirem à custa das suas irmãs mais velhas, inchadas de vaidade. (…) Para a minha felicidade e a minha dedicação até ao último e muito corajoso sopro.”

Nela se estudavam os grandes clássicos da Física e da Matemática. Em nossos dias, quantos alunos, e mesmo professores, incluindo os mais doutos, se preocuparam algum dia em folhear essas obras? Nada há como beber directamente nas fontes cristalinas da verdadeira sabedoria por mais difícil que possa ser a sua leitura directa! Quantos dos mais sábios e distintos Físicos, Químicos ou Matemáticos dos nossos dias alguma vez se deram ao trabalho de ler directamente as obras de Newton, Coulomb, Helmotz, Boltzmann, Joule, Carnot, Bohr, ou Scrhodinger, para não falar de muitos outros clássicos da ciência contemporânea?

E que paixão há, entre os homens das Ciências exactas pelos filósofos, antigos e modernos? Quantos se interessaram algum dia por Hume, Descartes, Espinosa, Leibniz, Kant ou Hegel, para além da meia dúzia de frases quase estereotipadas dos Manuais de Filosofia da Escola Secundária?”

Nota: Texto antes publicado no Diário As Beiras e recentemente republicado no livro Ciência e Mito, da Imprensa da Universidade de Coimbra.

HUMOR: EVOLUÇÃO DO COMPUTADOR 3

HUMOR: EVOLUÇÃO DO COMPUTADOR 2

HUMOR: EVOLUÇÃO DO COMPUTADOR 1

HUMOR: INSTRUÇÕES SURPREENDENTES

Circula na Internet esta lista de instruções, devidamente comentada, que acompanham alguns produtos conhecidos:

Num medicamento da Boots para o catarro infantil:
"Não conduza automóveis nem maneje maquinaria pesada depois de tomar este medicamento"
(Andamos a ler muito "Os Cinco", o "Clube das Chaves", "Uma Aventura...", não andamos?)

Nas pastilhas para dormir da Nytol:
"Advertência: pode causar sonolência!"
(Pode, não... deve!)

Numa embalagem de sabonete Dove:
"Indicações: utilizar como sabonete normal"
(Boa! Cabe a cada um imaginar para que serve um sabonete anormal!)

Em algumas refeições congeladas de Iglo:
"Sugestão de apresentação: Descongelar"
(É só sugestão! Agora façam dela o que quiserem!)

Na sobremesa Tiramisu, da Tesco, lê-se na parte de baixo da embalagem:
"Não inverter a embalagem"
(UUUPS...!)

No pudim da marca Minipreço:
"Atenção: o pudim estará quente depois de aquecido"
(Onde estariamos nós sem os senhores do Minipreço para nos guiarem)

Numa embalagem de tábua de engomar da Rowenta:
"Não engomar a roupa no corpo."
(Sim, há gente para tudo)

Numa embalagem de luzes de Natal:
"Usar apenas no interior ou no exterior"
(Eu agradecia imenso que alguém me dissesse qual seria a terceira opção)

Nos pacotes de amendoins da Matutano:
"Aviso: contém amendoins"
(Que raio de mania de estragarem as surpresas!)

Numa embalagem de serra eléctrica da marca sueca Husqvarna:
"Não tente deter a serra com as mãos ou os genitais"
(Definitivamente, coisas estranhas acontecem na Suécia)

No iPod Shuffle, da Apple:
"Não comer"
(Oh! Agora faço o quê com isto?)

Nos pacote de nozes para os passageiros na American Airlines:
"Instruções: abra o pacote, coma as nozes"
(E arrotar depois, será que posso? Agora não sei ...)

Escola de Farmácia de Coimbra

Informação recebida da Imprensa da Universidade de Coimbra.

A apresentação do 15.º título da colecção Ciências e Culturas da IUC A Escola de Farmácia de Coimbra (1902-1911), da autoria de João Rui Pita, terá lugar no próximo dia 29 de Julho (3.ª feira), pelas 18h00, na Sala Garcia de Orta, na Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra (Pólo III). A apresentação estará a cargo do Doutor Fernando Ramos.

Olheiro de Tecnologia

Novo texto de João Boavida, antes publicado no Diário As Beiras.

Vem do Instituto Pedro Nunes (IPN), que não pára de nos surpreender pela positiva. O IPN vai promover o Olheiro de Tecnologia, isto é, um «projecto que se propõe observar a investigação desenvolvida nas instituições de ensino superior e avaliar o seu potencial de negócio, fomentando a introdução no mercado de novas soluções, produtos e serviços».

Eureka! Transformar ideias e descobertas científicas em produtos e serviços. Originais, de qualidade, que venham ao encontro de necessidades e se transformem em produtos de valor acrescentado. E que se vendam, de preferência para o estrangeiro. Para além do IPN, que vai coordenar, estão neste projecto o AIBILI e as Universidades de Coimbra, de Aveiro e da Beira Interior.

É um facto de grande importância, regional e nacional. A partir da área da saúde - aqui com condições excepcionais - trabalharão em rede as universidades e os centros de investigação fazendo convergir e articular o potencial científico das áreas afins «procurando encontrar as tecnologias que têm mais capacidade para chegar ao mercado». A colaboração das três universidades da Região Centro é uma excelente notícia e, esperemos, o começo de uma nova era.

Em vez de uma competição em que se procura denegrir o adversário, é altura de perceber que as três universidades, à escala da País, e sobretudo da Europa, devem cooperar na investigação e nas dinâmicas de afirmação. Deverá ser uma competição cooperante e não uma simples competição, o que altera, pela positiva, a mentalidade dominante. O todo vale mais que as partes e até que a sua soma, porque cria outra dinâmica e outras possibilidades. Isto requer ideias largas, que a própria cooperação e os bons resultados, aparecendo, vão potenciar. A mediocridade traz a inveja, o rancor e a maledicência, pelo contrário, a qualidade no trabalho e nas pessoas afasta a mesquinhez.

Penso que o BIOCANT, em Cantanhede, é já um bom exemplo dessa nova mentalidade. A coordenação do IPN – pelo trabalho já feito e a qualidade das pessoas que tem à frente - garante a força positiva de que se precisa para um projecto destes. Que não deve reduzir-se à saúde.

quarta-feira, 23 de Junho de 2010

Não era o fumo...

Primeiro vi a notícia numa daquelas revistas que só com muito boa vontade se designam por cor-de-rosas, depois vi uma entrevista num canal de televisão generalista. E o que vi foi algo que se não lido nas palavras de João Bénard da Costa, eu teria alguma dificuldade de entender. O melhor é explicar…

Imagine-se que em título, na tal revista, se lia: “Filho fuma e a mãe, que já o viu fumar, não se importa”.

Ainda que o filho fosse maior de idade com certeza que nos indignaríamos. Que mãe não se importaria que o seu rebento fizesse perigar a sua saúde!? E se o caso fosse à televisão seria certo e sabido que umas tantas associações viriam exigir pelo menos o mesmo tempo de antena para, em primeiro lugar, reclamar o destaque que a comunicação social dava a um comportamento de risco, abeirado do pecado, e, em segundo lugar, para listar todos esses riscos, deixando no ar a promessa de que, uma vez evitados, era possível encontrar a salvação (que sendo apenas carnal, não deixa de ser salvação!).

Felizmente a notícia em causa não se reportava ao comportamento de fumo, é muito menos preocupante: reportava-se apenas e só a caso de um filho que decidiu fazer filmes pornográficos e a mãe, que já viu a sua representação, não se importa. Instruiu-nos o apresentador de televisão que se trata de uma opção de vida, e que ninguém deve atirar pedras ao ar porque telhados de vidros todos têm.

Foi aqui que me lembrei de uma deliciosa crónica de Bénard da Costa intitulada Era o fumo, publicada no espaço que ele tinha no jornal Público e que se chamava A casa encantada. Contava ele em 22 de Abril de 2007:
Aqui há uns anos, num congresso da Federação Internacional de Arquivos de Filmes (…) houve um simpósio em que cada cinemateca apresentou singularidades das suas colecções.

Belgrado por exemplo mostrou uma colecção de filmes pornográficos dos anos 20 e 30, encontrada no castelo de um arquiduque servo-croata (…) que apreciava orgia e apreciava ainda mais filmá-las. De modo que tinha uma vasta colecção que “documentava” autênticos bacanais, com os convidados a mostrar as suas habilidades (…)

Na mesma sessão, uma cinemateca americana mostrou uns filmes publicitários de antanho, desses que passavam nos intervalos dos cinemas (…) Eram uns filmezinhos de uns cinco minutos se tanto, que contavam uma espécie de história como chamariz para o produto que se queria vender. O que projectaram publicitava os cigarros Philip Morris.

No fim da sessão, em conversa a propósito do que víramos, alguém comentou que os organizadores tinham sido atrevidos ao exibir a pornografia jugoslava. Respondeu-lhe um outro: “…daqui a uns anos o filme dos cigarros nem em congressos muito especiais os vamos ver mais”.

Na altura, anos 80, achei uma boa piada. Hoje tiro o chapéu à clarividência. Ai de quem viesse em público defender a proibição de filmes pornográficos (…) Mas ninguém, nem o mais ousado distribuidor, se atrevia a projectar mesmo para adultos com sólida formação moral o filme da Philip Morris. Quem o censurasse não corria o risco de lhe chamarem nomes feios. Estava a proteger a nossa preciosa saúde e a dos nossos ascendentes e descendentes. Censura? Qual censura, qual carapuça. Com a saúde não se brinca (…).

O Mundial de 2010, Carlos Queiroz e Miguel Esteves Cardoso

esf “O que finalmente mais sei sobre a moral e as obrigações do homem devo ao futebol” (Albert Camus, 1923-1900).

Não posso deixar de lamentar a intervenção de Sílvio Cervan, comentador num programa desportivo televisivo da SIC, um dia após a vitória de Portugal sobre a Coreia do Norte por um expressivo 7-O.

Em testemunho pouco propício a uma análise desapaixonada, desmereceu Sílvio Cervan a vitória de Portugal, cantada nos quatro cantos do globo, com o argumento de que a equipa da Coreia do Norte era a mais fraca do Campeonato Mundial de Futebol. Ou seja, Sílvio Cervan dixit, esquecendo-se que o Brasil, sendo um dos países mais cotados para ascender ao ceptro deste mundial, teve dificuldade em vencer esta equipa da Coreia do Norte, ainda que mesmo pela diferença de um único golo. Aliás, equipa que era tida, quase unanimemente, como uma séria ameaça para a equipa portuguesa.

Num meu post aqui publicado (09/06/2010), intitulado “Miguel Esteves Cardoso, o futebol e a política”, reproduzi na íntegra um seu artigo, saído em “O Jogo” (08/06/20), com o título “Que Ganhe Moçambique”, que tive, como escrevi na altura, como “apaixonante prosa que merece ser lida por amantes ou indiferentes do futebol, intelectuais ou simples letrados”.

Por esse motivo, passei aí a ler as crónicas diárias de um homem da cultura portuguesa porque, como escreveu Jurgen Roth, "o futebol e os intelectuais têm uma relação íntima ao mais alto nível". No passado dia 20 de Junho, por exemplo, escrevia Miguel Esteves Cardoso (MEC) numa crónica com o título, “Contra o treinadorismo”:

“2010 representa o pico do poder dos treinadores. Mourinho é um dos culpados. Ele faz a diferença. Mas o mesmo não se aplica a treinadores menores. E muito menos a todos os treinadores. Os treinadores forçam os jogadores a jogarem em posições onde não jogam bem. Não admitem qualquer discordância. Tanto em Capello como em Queiroz como em Domenech, para não dizer todos os treinadores excepto três ou quatro, pressente-se um autoritarismo absurdo e ineficaz”.

Seja aqui recordado, o exemplo de insulto do mais baixo e reles, por parte de um jogador da equipa francesa a este mundial, a Domenech. Relativamente, a crítica de Deco a Carlos Queiroz, ao ser substituído quase no final do jogo com a Costa do Marfim, assume as proporções de uma birra de menino mimado. O seleccionador nacional, ao aceitar o desabafo de Deco, sanando prontamente a situação, não merece, de forma alguma, a simples suspeita de estarmos em presença de um “autoritarismo absurdo e ineficaz”. Hoje, atrevo-me a julgar que MEC concordará comigo.

No dia a seguir à vitória de Portugal sobre a Coreia do Norte, na sua crónica igualmente em "O Jogo", intitulada "O primeiro dia de verão", contrastando com "O inverno do nosso descontentamento" anterior, apropriando-me do título de um romance de Jonh Steinbeck, MEC teve a nobreza de carácter de reconhecer o seu erro sem recorrer à desculpa esfarrapada da má qualidade da equipa norte-coreana que entrou em campo com a responsabilidade de uma espécie de jogo de vida ou de morte pelas consequências gravosas em não conseguir satisfazer os objectivos políticos exigidos por um dos últimos, e tido até como o mais opressor, redutos do comunismo mundial.

Cito desta última crónica dois breves excertos: “De nada serve dizer mal da Coreia do Norte. O Brasil não foi além de 2-1 contra eles [sem desmerecimento do Brasil, mesmo contando com a “distracção” de um árbitro que não assinalou um golo ajeitado com o braço]. Desconjuntaram-se. Porque Portugal os desconjuntou”. E logo acrescenta, em jeito de mea culpa: “Tenho de tirar o chapéu a Carlos Queiroz. Confesso que o detestei e desconfiei dele. Afinal, o plano dele – empatar com a Costa do Marfim, golear a Coreia e perder à vontade com o Brasil – era mesmo inteligente. Custa-me admitir, mas ele tinha mesmo razão. Ainda bem que não fui eu”.

Com todas as televisões nacionais a repetir, ad nauseum usque, o jogo excepcional de Portugal e na idiossincrasia de um povo que passa do oito ao oitenta, sem se contentar com uma vitória à tangente ou simples empate, terão razão os que embandeiraram agora em arco considerando como adquirido um resultado folgado de Portugal sobre o Brasil? Sexta-feira próxima se verá porque, como escreveu Mark Twain, “a profecia é algo muito difícil, especialmente em relação ao futuro”.

Na imagem, o troféu do Campeonato do Mundo em ouro maciço.

terça-feira, 22 de Junho de 2010

POR UM NOVO MUSEU DE CIÊNCIA DA UNIVERSIDADE DE LISBOA


Está hoje em discussão o futuro dos Museus da Politécnica da Universidade de Lisboa. Sem querer "meter a foice em seara alheia", dou, tal como me foi pedido, a minha contribuição, como cidadão interessado pela cultura científica:

1. Os actuais “Museus da Politécnica” da Universidade de Lisboa, juntamente com o Jardim Botânico a eles anexo, ocupam um espaço nobre e histórico da cidade de Lisboa e albergam um notável património científico que importa sobremaneira cuidar, valorizar e promover. Um grande projecto científico-cultural que envolvesse a universidade e a cidade deveria proporcionar um novo centro de atracção na capital. Por outro lado, é uma oportunidade para a Universidade e para o país de tratar de modo profissional todo os eu património científico (incluindo espólio de medicina e astronomia que está noutros sítios, e que corresponde a um legado de importantes actividades científicas nos séculos XIX e XX). Acima de tudo, representa uma oportunidade de a Universidade se abrir ainda mais à cidade, ao país e ao mundo, promovendo a cultura científica para o maior número possível de cidadãos

2. A actual situação, com dois museus em larga medida divorciados um do outro, é insustentável. Ao défice de uma estratégia conjunta e à não optimização dos custos de gestão e “marketing”, acresce o facto de se revelar confuso para o visitante o actual trajecto dentro do espaço. Fez bem, portanto, a Comissão Internacional que apresentou um relatório sobre os museus em propor a constituição de um único Museu de Ciência. Caminhar nessa direcção representaria não só uma sinergia de esforços mas também uma economia de investimento. E significaria desistir de uma tradição de isolamento das várias áreas disciplinares, que é feita tendo em atenção interesses particulares e não o interesse geral do público. A moderna ciência é, de resto, altamente interdisciplinar.

3. O novo museu exige uma refundação que pressupõe um novo nome (procurando, por exemplo, um patrono num dos nomes históricos da ciência em Portugal: Pedro Nunes, Garcia da Horta, Domingos Vandelli, Egas Moniz?) e um novo programa, que deve ser procurado de um modo o mais colectivo possível. Não é curial que o novo Museu seja desde já baptizado com o nome de um dos dois museus actualmente coligados sob a designação de “Museus da Politécnica”. Não andou bem, por isso, a referida Comissão ao propor o nome de “Museu Nacional de História Natural” para o novo Museu. Se se tivesse de escolher uma das actuais, “Museu de Ciência” seria uma designação mais abrangente do que História Natural pois esta faz parte da Ciência e não vice-versa. A concretização desta proposta da Comissão levaria provavelmente à exacerbação de tensões internas em vez de ajudar na indispensável colaboração dos vários sectores disciplinares no projecto, para além da perda, sem honra nem glória, do actual Museu de Ciência. Além disso, as colecções de História Natural existentes em Lisboa, apesar do seu indubitável valor, não justificam essa designação (o último incêndio foi uma catástrofe!). Por último, a escolha do nome sugerido conduziria à desvalorização ou eventualmente exclusão do magnífico Laboratório Químico e do notável Observatório Astronómico, cuja ligação à História Natural só dificilmente é justificável.

4. Existindo outras Universidades portuguesas (Coimbra e Porto) com espólios científicos do mesmo tipo, impõe-se, num país pequeno, de escassos recursos e ainda por cima numa situação de crise, que haja uma colaboração eficaz entre elas, numa estrutura em rede, quer no trabalho técnico de organização e mostra, tanto real como virtual, das colecções, quer ainda na permuta de exposições temporárias ou, pelo menos, de instrumentos, objectos e documentos a incluir nestas. É bom que as escolas superiores com maiores tradições convirjam na defesa de cultura científica. A ligação entre Lisboa e Coimbra, em particular, devia ser reforçada, atendendo até à história comum (Museu da Ajuda devido a Vandelli, Gabinete de Física em Coimbra com origem no Colégio dos Nobres, etc.) A reivindicação junto do governo da nação – que, infelizmente, tem olvidado quase por completo o património científico – de condições de trabalho adequadas poderia e deveria ser conjunta, aumentando com isso a sua probabilidade de êxito. Programas específicos de apoio deveriam contemplar de modo diferenciado o que é específico nas instituições de ensino superior, complementando algoritmos de distribuição orçamental baseados quase só no número de alunos. Essa reivindicação não deve fazer esquecer a angariação de apoios que tem de ser feita junto da sociedade em geral. A sociedade, para ter memória e identidade, necessita da preservação e exibição em condições adequadas do património científico. E este necessita, decerto, de toda a ajuda que a sociedade lhe puder dar.