segunda-feira, 14 de junho de 2010

YES, MINISTER!


Artigo de Guilherme Valente no "Público" de hoje:

O exemplo da Finlândia é muito referido, mas poucas vezes com rigor.

Também a Senhora Ministra referiu a Finlândia na Assembleia da República. Na Finlândia não há retenções, afirmou, parecendo querer dizer não existir essa possibilidade naquele país. E nem um deputado lhe pediu para esclarecer o que terá pretendido afirmar. Nos debates parlamentares nunca foi feita, aliás, a pergunta iluminante de toda questão da educação: em que tipo de sociedade quer o «eduquês» obrigar os Portugueses a viverem?

Na Finlândia existe a possibilidade de retenção. Mas o objectivo e a qualidade do ensino; a preparação dos professores e o reconhecimento da sua função inestimável; as regras, a direcção e o ambiente nas escolas; a responsabilidade exigida aos pais; a exigência desde o primeiro dia de aulas, reduzem as retenções a uma percentagem residual.

Na Finlândia a escola é a sério. Tudo está organizado para os professores ensinarem, os alunos aprenderem, para ninguém ficar para trás.

Em Portugal, pelo contrário, o facilitismo é cultivado desde o primeiro dia de aulas. E logo interiorizado por todos: alunos, pais e professores. (Para o bem e para o mal, é a grande vantagem dos seres humanos: adaptarem-se depressa.) O resultado não pode ser outro.

A escola finlandesa é o inverso da escola em Portugal. E a medida agora anunciada – possibilidade oferecida aos alunos de 15 anos retidos no oitavo ano de poderem «saltar» para o décimo (e porque não aos de 14 anos?) – é um exemplo expressivo dessa diferença.

Medida injusta, por não ser oferecida a todos de qualquer ano (e os melhores conseguiriam avançar); inútil se os exames forem sérios; irreflectida por abalar sem mais a própria arquitectura do tempo de escolaridade.

Pareceu-me, aliás, haver constrangimento e confusão na defesa feita pela Ministra desse «milagre». Por isso pergunto: quem manda no Ministério da Educação?

Será seriamente imaginável que alunos reprovados (apesar do facilitismo todo) no 8.º ano, possam aprender num ano a matéria do 8º. e do 9º?. E se passarem no «exame sério» do 9.º e reprovarem no 8.º? E os pobres dos professores que os apanharem no décimo?

"Exame" em vez de exames, é o que virá. Prepara-se, portanto, mais um grande êxito… estatístico. É para isso esta medida. E não se faz o que devia ser feito: a oferta criteriosa, a tempo de prevenir o abandono, de uma via técnico-profissional, de exigência e dignidade iguais à via de acesso ao ensino superior, que, na Finlândia é frequentada, aliás, pela maioria dos estudantes.

O que é oferecido em algumas escolas, por iniciativa de directores e professores que vivem quotidianamente essa falta gritante, sem o empenhamento autêntico, muito pelo contrário, do Ministério, não pode responder a essa necessidade imperiosa. Mas mesmo assim - ouçam-se essas escolas – esses exemplos, que a nomenclatura do Ministério teve de aceitar que surgissem e procura sabotar, a funcionarem sem o reconhecimento, os meios humanos e as condições mínimas, provam a razão dos que durante todos estes anos combateram pela oferta de uma via de ensino técnico profissional no sistema educativo: a sério, qualificada, exigente e dignificada.

Impõe-se, pois, a pergunta, para muitos retórica: a Senhora Ministra está com ou contra o "eduquês"? Quer continuar a nivelar por baixo? Partilha o igualitarismo, anti-cultura, anti-conhecimento, loucura de tornar todos iguais? Ou, pelo contrário, quer uma escola de liberdade que revele e valorize as capacidades, interesses e vocação de todos, até ao limite do possível? Uma escola que reduza as desigualdades, ou esta escola de mentira, de ignorância e de exclusão que as agrava? Anti-escola que tornou Portugal no país mais desigual da União, com excepção da Polónia.

Tem um projecto para fazer sair o ensino público das trevas?

Guilherme Valente

6 comentários:

  1. Caro Guilherme Valente,

    Como afirmei aqui assim que conheci o currículo da Ex.ma. Senhora Ministra da "Educação" a resposta é uma e só uma: está com o eduquês! Nem poderia ser de outra forma, basta pensar um pouco. Quem é que tem colocado na 5 de Outubro os ministros? Os ministros são eleitos por quem? Representam quem ou o quê? Eles nem percebem que não podem justificar uma legislação com a habitual expressão "eu represento o povo", porque não o representam, não foram eleitos.

    Temos este grande problema. O povo quando é chamado a votar, vota em deputados e depois aparecem uns ministros e secretários de estado nomeados pelos lobbies. No caso da "educação", são nomeados pelo lobby das "ciências" da educação. Isto acontece há demasiados anos...

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  2. José Batista da Ascenção14 de junho de 2010 às 20:02

    Será que a Ex: ma Senhora Ministra sabe o que é o eduquês? Há pessoas que dizem que não sabem...
    Ora, temos que respeitar essas pessoas. Eu só não aceito é que tais pessoas acusem os que se opõem ao eduquês de saudosistas (mas de quê?), antiquados (por que razão?) ou pouco evoluídos (mostrem-nos onde estão os progressos...) ou preconceituosos (por não aceitarmos preconceitos?), ...
    E falam de "learning street", como se não fosse o que temos tido, com os resultados que se conhecem..., e de vários "recantos" na sala de aula (em vez dos quatro cantos que costumavam ter?...), e nada de estrados, com o professor o único a falar (os alunos não podiam falar ou dirigir-se à turma do estrado?; na assembleia da república, nos tribunais, nos comícios, nos programas de tv, nos espaços nocturnos de karaode - ou lá como se diz - quem se dirige aos restantes não se coloca uma posição elevada? A escola quer preparar pessoas para a vida ou para uma ficção?).
    E ignoram os alunos que querem aprender e desconsideram os professores que querem e gostam de ensinar. Porque o aluno é que deve descobrir. E o que ainda esta tarde, uma aluna de 15 anos, a finalizar o 10º ano, afirmou em pleno tempo de aula é que vai para a escola para aprender, e que não está disponível para gastar muito tempo a descobrir o que já foi descoberto há séculos. E acrescentou que, se algum dia descobrir alguma coisa, muito gostaria que fosse algo que ninguém mais ainda descobriu. Porque, esclareceu, é a isso que chama descoberta. Assim, tal e qual.
    Mas alunos assim não devem estar bons da cabeça. E os pais que gastam fortunas a pagar explicações (repare-se bem no termo: explicações!) também não devem estar certos. Quanto aos professores com tais ideias, esses são completamente retrógrados. Onde é que já se viu um professor que ensina, sem complexos, porque gosta de ensinar?...
    Cabe-nos portanto curvarmo-nos humildemente perante os grandes “Newtons” da pedagogia. Eles são tão bons, e estão tão certos, e têm tanta consciência disso, que até se arrogam o poder e o saber de escolherem o melhor professor do país. Não se devia também escolher o melhor médico, o melhor sapateiro, o melhor pescador ou o melhor plantador de batatas? E insistem numa “distinção” que não dignifica quem a dá nem honra quem a recebe. Quem tiver dúvidas que vá por aí, especialmente entre os alunos, indagar sobre o reconhecimento da importância dos laureados. Importância que eu não quero diminuir, se eles acharem que a têm, bem entendido.
    Mas reclamo o direito a uma escola livre da ideologia do estado e seus servidores que considera errada a realidade, nega o que é por demais evidente, e pretende diminuir os que não “engolem” as teorias de quem não lida directa e diariamente com as crianças e jovens, em espaços e sob organizações que são problemas em série a impossibilitam um trabalho digno e simples.
    A não ser que eles pretendam manter actualizados os motivos para (ante)titularem crónicas delicodoces de jornais com “aturem-se uns aos outros”. Ora, nós aturamo-nos relativamente bem. Mas dispensamos que nos digam como… E muito menos que nos obriguem…
    Peço desculpa por me ter alongado.
    A Guilherme Valente, o agradecimento de sempre.

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  3. Caro José Batista da Ascenção,

    É por ainda existirem professores tão esclarecidos como Vossa Excelência e como o aluno que referiu que eu ainda sinto orgulho em ensinar!

    Obrigado pelas suas pertinentes opiniões e análises.

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  4. A actual Ministra da Educação foi (ou é, se a não catapultarem para cima) professora de uma Escola Superior de Educação e antiga dirigente da Fenprof.

    Ora as Escolas Superiores de Educação têm feito uma concorrência desleal às faculdades que formam professores coadjuvadas pela Fenprof no aspecto sindical. Mesmo não pondo em causa a isenção da Ministra da Educação, algo se conjuga para se ter juntado a fome com a vontade de comer.

    Cada um, em plena consciência e no direito que lhe assiste de ter uma opinião própria, que tire daqui as ilações que entender: pertinentes ou mesmo impertinentes. Em democracia a opinião de cada um é (ou dever ser) livre.

    Vozes como a do Dr.Guilherme Valente ajudam a compreender o actual descalabro do sistema educativo nacional. Ouçamo-las, pois!

    Mais do que isso, sejamos solidários na tentativa de mudar esta situação.

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  5. José Batista da Ascenção15 de junho de 2010 às 00:22

    Meu caro Fartinho da Silva,

    Aprecio imenso tudo o que tem escrito neste blogue.
    Mas chamar-me Vossa Excelência? A mim?
    Deixe lá isso para os Ministérios da Educação e das Finanças...
    Nem calcula como me deixaria orgulhoso, se me chamasse colega...

    E atrevo-me a deixar-lhe um abraço.

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  6. José Batista da Ascenção15 de junho de 2010 às 00:28

    Ai estes meus olhos.
    Lá mais acima, escrevi Karaode por Karaoke. Não se perdeu grande coisa, é certo. Nem eu sei traduzir o termo. Mas enfim...

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