sexta-feira, 25 de junho de 2010

ORA BOLAS!


Minha crónica no "Sol" de hoje:

A bola está por todo o lado na Natureza. O Sol, tal como todas as outras estrelas, é uma bola. A Terra, tal como os outros planetas, é uma bola. Os átomos são bolas. Os núcleos atómicos são também, na maior parte, bolas (alguns, é certo, parecem-se mais com bolas de rugby do que com bolas de futebol enquanto outros se parecem com discos). Por razões diferentes, porque as forças são diferentes, a Natureza preferiu essa forma muito simétrica a outras formas possíveis.

A bola de futebol, talvez o desporto mais popular no planeta Terra, tem a mesma forma que objectos naturais de vários tamanhos. A escolha da forma, obviamente feita pelos inventores do futebol, tem a ver com as características que queriam dar ao jogo. A forma esférica permite que a bola circule livremente entre os jogadores, sujeita naturalmente às leis da física. Apesar de as leis de movimento, descobertas por Newton no século XVII, serem bem simples, o movimento de uma bola de futebol pode ser bastante complicado, pois não se trata de um objecto pontual mas de um objecto que, para além do peso, em virtude da sua extensão, está sujeito à força de resistência do ar, à força (embora diminuta) de impulsão também devida ao ar, para além, claro, da força comunicada pelos jogadores. Modernamente, faz-se, com base na experiência e na observação, investigação científica sobre o comportamento das bolas de futebol.

Foi, sem dúvida, levando em conta essa investigação que se desenvolveu a bola Jabulani que está a ser usada no Campeonato do Mundo de Futebol a decorrer na África do Sul. O nome significa “celebração” numa das línguas indígenas daquele país. É um bom nome, pois de uma verdadeira festa se trata. Mas será uma boa bola?

Aqui as opinião dividem-se. Há quem diga “ora bolas!” quando observa o comportamento daquela bola. Há até uma petição na Internet contra a Jabulani. A nova bola tem uma superfície diferente, menos suave do que a bola Teamgeist, que foi usada no anterior Campeonato do Mundo na Alemanha. O peso e as dimensões da bola estão regulamentados pela FIFA, mas já o não estão as características físicas da superfície. E estas podem fazer uma grande diferença. A Jabulani é uma bola mais rápida do que a Teamgeist, e tem um movimento mais imprevisível. A sua superfície torna diferente a diminuta camada de ar à sua volta, o que modifica a zona de turbulência do ar atrás da bola e, portanto, altera a força de resistência do ar a que está sujeita e o movimento que resulta da acção dessa força. A diferença é pequena, mas os jogadores sentem-na. E os espectadores do jogo mais sabedores também a notarão.

“Ora bolas!”? Talvez não, porque afinal a bola é a mesma para todos os jogadores...

4 comentários:

  1. Os átomos são mesmo "bolas"?!

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  2. Claro que ao átomos não são "bolas".

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  3. A rugosidade é também fundamental para a obtenção de "efeitos", em que a bola se afasta do plano vertical (onde se moveria se não houvesse vento). A explicação que Bernoulli daria, se fosse comentador desportivo..., pode ver-se [aqui].

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  4. Caro engenheiro Carlos Media, esse principio é posto em prática na construção de turbinas eólicas? Conhece algum trabalho relacionado com essa aplicação?

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