sábado, 26 de junho de 2010

Poema sobre a igualdade e a desigualdade


Deixo aqui o poema de Drummond de Andrade que li no debate de ontem sobre "Igualdade" realizado em Fátima com D. Manuel Clemente e o Dr. Artur Santos Silva:
Igual-Desigual

Eu desconfiava:
todas as histórias em quadrinho são iguais.
Todos os filmes norte-americanos são iguais.
Todos os filmes de todos os países são iguais.
Todos os best-sellers são iguais
Todos os campeonatos nacionais e internacionais de futebol são
iguais.
Todos os partidos políticos
são iguais.
Todas as mulheres que andam na moda
são iguais.
Todos os sonetos, gazéis, virelais, sextinas e rondós são iguais
e todos, todos
os poemas em verso livre são enfadonhamente iguais.

Todas as guerras do mundo são iguais.
Todas as fomes são iguais.
Todos os amores, iguais iguais iguais.
Iguais todos os rompimentos.
A morte é igualíssima.
Todas as criações da natureza são iguais.
Todas as acções, cruéis, piedosas ou indiferentes, são iguais.
Contudo, o homem não é igual a nenhum outro homem, bicho ou coisa.

Ninguém é igual a ninguém.
Todo o ser humano é um estranho
ímpar.

Carlos Drummond de Andrade, in 'A Paixão Medida'

7 comentários:

  1. José Batista da Ascenção26 de junho de 2010 às 12:12

    Irremediavelmente, cada ser humano é um estranho ímpar.
    Mesmo que a clonagem se imponha. Cada um de nós é distinto de quantos humanos existem, de quantos já existiram e, provavelmente, de quantos virão a existir.
    Em certo sentido, a humanidade é um somatório de solidões, tanto no presente como com o devir temporal. Nascemos sós e morremos sós, mesmo se (bem) acompanhados - no intervalo, que é a vida, tacteamos à procura do conhecimento de nós próprios e dos outros, das coisas e do mundo. E vamo-nos aproximando da assímptota das nossas limitações. Que talvez possamos substituir por outra assímptota e depos por outra, mas sempre (muito) pequenos e limitados, suponho.
    Qual é (ou será...) o sentido?
    PS: esta pergunta só a dirijo aos poetas.

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  2. Saberão eles... responder? JCN

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  3. NÃO VOU NESSA!

    Lembrando Drumond de Andrade

    Mais a modos, Amigo: iguais, iguais,
    serão teus versos, tuas poesias,
    iguais, iguais a todas as demais,
    como aliás as tuas teorias!

    Meu caro Amigo: tenha lá paciência,
    mas não encontra, em termos de igualdade,
    sonetos como os meus, tanto na essência
    como na forma e musicalidade!

    Iguais, iguais,caríssimo Poeta,
    foram decerto os teus poemas todos,
    ao prelo dados aos montões, a rodos.

    Nanja os sonetos meus: iguais, iguais,
    outros não há seguramente iguais
    nem parecidos, deixe-se de treta!

    JOÃO DE CASTRO NUNES

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  4. DISPARIDADE

    Tudo no ser humano... é diferente,
    desde as feições do rosto à estatura,
    à maneira de andar, à compostura,
    já sem falar nas emoções que sente.

    Não há dois hominídeos mesmo iguais
    talhando as mesmas pedras, sem que exista
    entre elas diferença, à nossa vista,
    já desde o tempo dos neandertais.

    Essa é, de resto, a singularidade
    da espécie humana, ou seja, a igualdade
    apenas aparente dos sujeitos.

    Assim nos fez a natureza, assim
    seremos, é de crer, até ao fim,
    com nossos tiques, gestos e trejeitos!

    JOÃO DE CASTRO NUNES

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  5. José Batista da Ascenção27 de junho de 2010 às 23:14

    Na arquitectura e harmonia de versos e palavras, enfim, na essência, na forma e musicalidade, para além do propósito e adequação, os sonetos do Poeta João de Castro Nunes são diferentes de quaisquer outros que tenha lido. E por isso gosto muito deles.
    Por ser verdade, e não me ter sido pedido, digo isto.
    A que acrescento um pedido: o favor de nenhum agradecimento, sob nenhuma forma, me ser dirigido.

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  6. Meu caro Dr. José Batista da Ascenção:

    Respeitando o seu pedido, prescindo de lhe agradecer a forma tão gentil como aos meus sonetos se referiu, até porque não se agradece o que espontaneamente nos sai do coração, o que não me impede que o felicite pelo desassombro com que o fez neste país dominado e corroído pelos sentimentos de inveja e mesquinhez. JCN

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