quarta-feira, 30 de junho de 2010

Uma Crónica de Miguel Esteves Cardoso sobre o Mundial 2010

Calomniez, il en reste toujours quelque chose (palavras atribuídas a Basílio do Barbeiro de Sevilha).

Numa altura de diabolização de Carlos Queiroz, é sempre um prazer ver intelectuais dedicarem a sua atenção ao fenómeno desportivo não o tendo como coisa sem importância ou exageradamente valiosa no âmbito de uma extensa e multifacetada cultura.

Nesta perspectiva, reporto-me a uma das crónicas diárias de Miguel Esteves Cardoso, intitulada “Então tchau”, publicada hoje na última página do jornal desportivo O Jogo.

Pelo espírito de justiça, equilíbrio de raciocínio e forma desapaixonada como foi escrita, com a devida vénia e sem mais delongas transcrevo-a aqui:

“Chegou o dia.

A certa altura instala-se a cegueira.

Saímos bem. Era um bom plano. Portugal jogou para não levar golos.

Estamos tristes. Se calhar temos culpa por nunca termos acreditado o suficiente. Mas perdemos como senhores. Poderíamos ter ganho – ou empatado e ido a penáltis.

A Espanha ganhou com sorte, batota e a ajuda do árbitro, que até era argentino e porreiro e pouco susceptível às fitas. Mas o acto teatral e traiçoeiro de Capdevilla resumiu o jogo.

Portámo-nos bem. A Espanha fez tudo o que pôde – mas foi pouco. Portugal controlou o jogo na primeira parte e quase sempre na segunda. O nosso único defeito foi não estarmos preparados para sofrer um golo.

Tanto os jogadores como Carlos Queiroz estiveram muito, muito bem. A Espanha já não é a mesma Espanha: foi desvitalizada. Geralmente, quando Portugal perde culpamos os portugueses. Neste caso, não tiveram culpa nenhuma.

Então tchau mundial. Foi a Espanha que ficou malvista: Portugal foi sempre seguro, conjunto e propositado. Nunca se viu uma defesa tão bonita e contra-atacante como a nossa. Frustrámos a Espanha: Ganharam por um golo que na primeira parte poderíamos ter sido nós a marcar.

Estamos de parabéns. A Espanha, com a superioridade numérica e cronológica que tinha, tinha obrigação de ter ganho claramente. Não ganhou. Viu-se aflita.

Nesta altura do Mundial, quando Portugal é eliminado, é costume culpar o treinador e/ou os jogadores, Desta vez, porém, é diferente. Acho que conseguimos alcançar o mais que poderíamos, atendendo ao que tínhamos.

Portugal estava unido e era português e defendeu como nunca vi selecção nenhuma defender. Portugal foi sempre um país que jogou à defesa, com contra-ataque. Os espanhóis sempre quiseram atacar-nos e destruir-nos. Mas nunca conseguiram.

Como também ontem não conseguiram. Portugal perdeu por um só golo como poderia ter marcado um, dois ou três. Jogou sempre bem, como se fosse o dono do jogo. Os espanhóis entraram em pânico e ficaram nervosos. Mas nós não.

Foi a derrota mais bonita da história do nosso futebol. Não digo que soube bem – mas pelo menos não soube mal.

A Espanha ganhou, mas Portugal não perdeu por causa disso. Na próxima competição internacional, é Portugal – mais insubmisso, mais inteligente – que está à frente.

Tchau, Espanha. Obrigado pelos espasmos de dificuldade. Talvez para a próxima tenhamos medo de vós.

Mas pelo que se viu, parece que não.

Viva Portugal!”

Desce, assim, o pano sobre a participação de Portugal. Não faltarão as habituais carpideiras a anunciar as suas tácticas a posteriori que, em sua opinião chorosa, deveriam ter sido seguidas para levar de vencida e de rastos a Espanha. Entre elas, os chamados treinadores de bancada (e não só) com as suas manifestações esféricas de raciocínio quadrado, quiçá saudosistas do quadrado de Aljubarrota e de um passado de seis séculos e um quarto que destroçou o bem mais numeroso e poderoso exército castelhano.

Haja o sentido das proporções. Não se pretenda transformar uma derrota desportiva, ainda que a nível mundial, num assunto de estado. De um estado infantilizado ou, pelo contrário, perigosamente totalitário!

5 comentários:

  1. Com efeito, caro Dr. Rui Baptista, um treinador não é um condestável, ainda por cima santo. JCN

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  2. Prezado Professor JCN:

    O treinador de futebol é apenas humano, com as qualidades e defeitos inerentes a essa condição e,"ipso facto", sujeito ao erro.

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  3. Como este blog anda...

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  4. faz-me bastante impressão ler coisas como a que o MEC escreveu. dá-se o caso de ser galega. e espanhola , claro. jamais vi qualquer animosidade especial contra Portugal , pelo contrário , para Espanha , Portugal é como outro país qualquer , mais próximo e amigo que outro , até , para as minhas bandas , não um inimigo a abater ou a conquistar ( e aqui , digamos que ainda bem que nunca o conquistou , a rejeição é a proteção de Deus....).
    aljubarrota ? vamos a eles ? mata , mata ?
    são parvinhos ou quê?
    O villa marcou um golo e mainada. acontece o mesmo em milhões de jogos .
    a falta de guerra e caça a sério é terrível para o sexo masculino , só pode. acho que é mesmo , tendo em conta a medida de cintura e língua dos homens do sec. xxi. a começar no MEC.

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  5. Prezada Maria:

    Não tenho, obviamente, procuração para falar em nome de Miguel Esteves Cardoso (MEC). Falo por mim, portanto.

    Pelo que li, e depreendi, do texto do MEC, não me parece que fosse intenção sua criar uma nova Aljubarrota (mesmo que desportiva). É suficiente inteligente em não fazer depois da derrota perante a equuipa espanhola, e por saber que "ganhar ou perder, tudo é desporto".

    E será mesmo no desporto de alta competição que movimenta somas astronómicas? Deixe-me pensar: ganhar enche os cofres de dinheiro, logo, é preferível ganhar...

    Aliás o imortal Queiroz (o Eça, não o Carlos!) referiu-se ao país irmão (e quais são os irmão que se não guerreiam, de quando em vez?) da seguinte forma: "E aí etá porque V. (Ramalho Ortigão) tanto está amando a Espanha! Eu também; e - ao contrário do tolo ditado, acho que dela só nos pode vir para nós portugueses 'bom tempo e e bom casamento'".

    Cumprimentos fraternos.

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