The rules of the game: the evaluation of Portuguese research units

segunda-feira, 31 de Março de 2008

Capacidades precoces







Quando aprendemos a distinguir o certo do errado? Qual o papel da formação e educação na nossa estruturação de valores? Sendo seres profundamente sociais, os membros da nossa espécie necessitam de aprender rapidamente o que fazer ou não e com quem estabelecer cooperação. Será possível que já nasçamos dotados de um conjunto de regras simplificadas que serão posteriormente modeladas e ajustadas? Ou tudo resulta de um longo processo de aprendizagem social?

Uma investigação recente com bebés de 6 e 10 meses, publicada na Nature em Novembro último, revela que algumas capacidades de avaliação social estão instaladas tão precocemente como os seis meses de vida. Tudo indica, pois, que já nascemos dotados de algumas capacidades de avaliação social.

Os investigadores apresentaram aos bebés uns filmes simples em que se observa uma figura geométrica com olhos (círculo vermelho), simbolizando uma pessoa, a tentar subir um monte e a escorregar, numa tentativa sisifiana de chegar ao cimo. Seguidamente, outro interveniente – outra figura geométrica com olhos, um triângulo, por exemplo – coloca-se por trás da primeira e ajuda-a a subir até ao cimo do monte. Noutra situação, uma outra figura (quadrado azul) coloca-se do lado superior e empurra o nosso sísifo para baixo, prejudicando-o e impedindo-o de subir o monte. A história torna-se interessante a partir daqui.


Depois destas sessões, os investigadores apresentaram bonecos semelhantes aos que se observaram nos filmes e deixaram que os bebés interagissem com eles. E estes escolheram para brincar sistematicamente o ‘ajudante’ em vez do ‘maldoso’.


Esta experiência não permite decidir se há uma apreciação assente apenas no contexto ou se há uma avaliação baseada na intencionalidade do agente. Poderia ser uma situação em que o quadrado cai em cima do círculo e este escorrega sob o peso. Neste caso não há intencionalidade. Para decidir se se trata de uma resposta contextual ou assente na intencionalidade, optou-se por apresentar uns filmes semelhantes aos anteriores, mas em que o circulo vermelho não tem olhos. Neste caso o contexto é o de um triângulo com olhos a empurrar um círculo para cima e, numa segunda cena, um quadrado azul com olhos a empurrá-lo para baixo. O círculo vermelho não representa um agente, já que não tem olhos.






Se estiver em causa apenas uma preferência por subidas como possível explicação dos resultados anteriores, as crianças não devem alterar as suas preferências. Se estiver em causa uma apreciação de intencionalidade social dos agentes - o triângulo amarelo ajuda e o quadrado azul prejudica – então é de esperar que as crianças deixem de preferir um dos bonecos relativamente ao outro se eles se limitam a empurrar uma ‘bola’ vermelha que não é um agente. E é precisamente o que acontece.

Quando o círculo se apresenta com olhos e é ‘ajudado’ ou ‘prejudicado’, os bebés têm uma preferência clara por brincar com os bonecos ‘ajudantes’. Quando ao círculo é apenas um objecto movimentado pelos agentes, não mostram qualquer preferência. Escusado será dizer que trocar as formas ou cores dos vários intervenientes não tem qualquer efeito.

O que estes resultados nos mostram é que mesmo numa fase pré-verbal, um bebé consegue avaliar diferencialmente quem realiza actos socialmente positivos ou negativos. E faz essa avaliação mesmo sem estar envolvido: tratou-se de uma interacção entre terceiros. Esta capacidade pode constituir um elemento basilar da elaboração de conceitos mais abstractos de certo e errado, que se desenvolverão mais tarde com a experiência social de cada um. Não é que a aprendizagem não seja importante, já que ela vai modelar esses conceitos. Mas, estes resultados mostram que nos envolvemos em formas de avaliação social bem mais cedo do que se pensava e que essa matriz vai ser determinante das classificações que atribuímos às acções dos outros.

domingo, 30 de Março de 2008

Guerras da propaganda

Deve-se a Dario Hystapis, um dos grandes reis aqueménidas (538-330 a.C.), um fenómeno que perdura até ao século XXI. O monarca atribuiu-se a defesa do Bem e da Verdade, projectando sobre os seus adversários a pecha de serem os defensores da mentira e do mal.

A origem dessa dicotomia ética aplicada à política encontra-se no dualismo original da religião persa, codificada por Zarathushtra ou Zoroastro, em que Ormudz ou Ahura Mazda é o detentor da bondade e veracidade, em oposição a Arihman, o «grande satã», deus do mal e da mentira. Essa dicotomia ética/política atingiu o seu expoente com Mani ou Manes (séc. III), que criou uma religião que pretendia ser «ecuménica», o maniqueísmo, em que foram integrados elementos do hinduismo, zoroastrismo e cristianismo.

Um mural do século XIII, pintado por volta de 1265 e descoberto há oito anos nos banhos públicos da cidade Massa Marittima, na Toscânia, é, na opinião de George Ferzoco, o primeiro «cartaz» de propaganda política na História. É curioso confirmar que embora o teor e forma das mensagens políticas propagandistas tenha evoluído ao longo dos séculos, o seu propósito não variou muito e continua próximo da inovação introduzida por Dario Hystapis.

No livro que publicou há quatro anos, o perito em história toscana explica que este mural pretendia ser um aviso aos locais da facção política apoiante do papado romano, os guelphs, para que não permitissem a subida ao poder dos seus rivais políticos, os ghibellines. Os Guelphs e os Ghibellines constituíam as duas facções que, durante a Idade Média, lutaram por décadas pelo poder em Itália e na Alemanha. Niccolo Machiavelli é certamente mais conhecido pelo seu livro «O Príncipe», mas a sua obra prima «História de Florença», especialmente a partir do capítulo V, ilustra magistralmente este episódio de uma Itália dividida por guerras fraticidas.

No dito mural propagandístico domina uma árvore deveras peculiar, já que os seus ramos estão recobertos de exemplares sortidos de uma parte específica da anatomia masculina. Debaixo da árvore são representadas mulheres, que Ferzoco diz simbolizarem bruxas. Estas «bruxas» entregam-se a uma tarefa muito popular, de acordo com a mitologia dominante à época*: o cultivo em ninhos de aves desses apêndices masculinos, previamente roubados a incautos, que depois de assim tratados adquiririam vida própria. Duas das mulheres representadas parecem lutar pela posse de um destes magicamente cultivados e animizados orgãos. Outra é sodomizada por um dos vinte e cinco «objectos» voadores.

A relevância desta última representação é explicada por Ferzoco: «Na Idade Média, os heréticos dedicavam-se a uma coisa em especial e essa coisa era a sodomia. Para a mente italiana medieval, tal constituía um acto que exemplificava o agir contra natura, desarmonia, e falta de sentimento de comunidade».

Assim, neste cartaz político pioneiro, os detentores do poder político advertem quer os habitantes quer os visitantes de Massa Marittima para os horrores da oposição - os ghibellines, cujo símbolo era a águia representada igualmente no mural -, que procurava o domínio da cidade toscana. Neste cartaz maniqueísta, a oposição é retratada como apologista do que era considerado o comportamento mais anti-social da época e os cidadãos eram advertidos das consequências - heresia, perversão sexual, feitiçaria e caos -, da sua eventual ascensão ao poder.

Os efeitos das tácticas propagandísticas desta época conturbada da História podem talvez ser bem apreciados numa pequena vila medieval da Toscânia que dá pelo nome San Giminiano, situada no topo de uma colina de 334 metros. A pequena cidade foi arrastada no turbilhão político que varria a Itália e ficou sob domínio de duas famílias rivais, os Ardinghelli (guelphs) e os Salvucci (ghibellines). Como demonstração de força, as duas facções começaram a medir-se em «altura» propagandeando o seu poder construindo torres mais altas que os adversários políticos.

A mais alta torre que sobrevive, a Torre Grossa na Piazza del Duomo, tem 54 metros, o equivalente a um prédio de 18 andares (a sua construção foi iniciada em 21 de Agosto de 1300, quatro meses depois de a cidade ter hospedado Dante Alighieri).

As largas dezenas torres construídas eram fantásticos e mui admirados (hoje em dia) monumentos à irracionalidade política medieval: não tinham qualquer utilidade prática para além de servirem de propaganda política, aliás eram tão altas que os primeiros andares, para conseguirem suportar a estrutura, não tinham nenhum espaço utilizável.

Quando já não havia mais lugar onde construir torres, as famílias envolvidas nesta guerra de poder descobriram que uma alternativa para ter a torre mais alta era deitar abaixo a torre da oposição. Uma conjunção de factores, a que não são alheios a irracionalidade política e a peste negra, levaram à degradação de San Giminiano, que de um dos mais florescentes centros italianos medievais, rota de comércio no coração da Via Francigena e o principal produtor de açafrão, se transformou numa cidade em ruínas.

Não sei bem porquê, mas os debates sobre educação que se tornaram conversa incontornável nos banhos públicos da actualidade desde que o YouTube descobriu os problemas de disciplina nas nossas escolas, recordaram-me esta história. A tragédia educativa nacional, revelada nos resultados do último PISA, não se resolve com debates propagandísticos, muitas vezes maledicentes e invariavelmente sem qualquer utilidade prática a não ser meças de alturas sortidas.

Mas esta tragédia educativa não é uma novidade em português: o Carlos no livro «A coisa mais preciosa que temos» (Gradiva, 2002), faz o retrato (negro) do ensino em Portugal nos últimos 200 anos no capítulo «Atraso Português». Vale a pena (re)ler o livro e olhar para os dados que o Carlos nos fornece. O combate ao atraso educativo português foi a prioridade da 1ª República - sobretudo no que respeita à alfabetização da população portuguesa, com mais de 80% de analfabetos em 1910 - mas este atraso foi consolidado pela ditadura salazarista. Só em meados do século XX Portugal viu o que o norte da Europa conseguira antes de 1700: metade da sua população alfabetizada.

Assim, a massificação do ensino no pós 25 de Abril foi uma necessidade que, talvez evitavelmente, sacrificou qualidade por quantidade. Trinta e quatro anos depois, importa agora tornar o ensino público eficiente e de qualidade, diria mesmo que esta é a tarefa mais importante da nossa sociedade. Claro que haverá sempre discussão acalorada acerca da melhor forma de o implementar. Mas a discussão de ideias é a essência da educação.

Urge no entanto que essa discussão não seja permeada pela praga dos tempos modernos, o anti-intelectualismo que deixa «o papel educador e orientador» «tomado e monopolizado pelo burocrata acadêmico, pela estrela da mídia, pelo agente editorial, pelo administrador político».

Importa sobretudo reformar linguagens, recuperando palavras como elite. Quando, por exemplo, se liquidou o ensino profissional em nome da luta contra o elitismo, na realidade elitismo foi pensar que o único ensino «digno» era o clássico. Este anti-elitismo destruiu o ensino profissional baseado no conceito perverso de que se estava a travar uma luta contra o elitismo liquidando o ensino técnico (e mediocratizando posteriormente o clássico). Embora alguns velhos do Restelo se percam em reminiscências sobre as supostas glórias educativas de outros tempos, suponho serem poucos os que advogam um retorno ao passado. Como escreveu há dias o Rui Tavares no Público «A opção que resta é dar às massas uma escola de elite». Mas para isso importa sobretudo reformar consciências e recuperá-las de um maniqueísmo político medieval que o país não pode continuar a ostentar!


*Como o autor relembra, numa passagem do Malleus Maleficarum, o manual de caça às bruxas da Inquisição, monges indicam ser prática das bruxas «a recolha de orgãos sexuais masculinos em grandes números, tantos como vinte ou trinta, e colocam-nos num ninho de pássaros ou fecham-nos numa caixa, onde eles se locomovem como membros vivos e comem aveia e milho, como tem sido visto por muitos e é alvo de descrição comum».

sábado, 29 de Março de 2008

ILITERACIA MATEMÁTICA

O ministro das Finanças declarou, muito irritado, invectivando quem não louvou o recente anúncio de descida da taxa máxima do IVA de 21% para 20% (com efeitos a partir de 1 de Julho): "Quando o IVA foi aumentado foi então dito que isso teria grandes efeitos na economia. Agora que se reduz, porque é que não vai haver grandes efeitos na economia? Não há coerência nem honestidade nessas afirmações".

Parece que há lógica neste argumento. Mas não há. É que o IVA foi aumentado de 19% para 21%, de dois pontos percentuais, e agora será reduzido de um só ponto. É uma verdade matemática que 2% é o dobro de 1%! Além disso, todos os preços dos produtos implicados aumentaram de 2% e agora não é líquido que esses preços desçam de 1%. Muitos exemplos mostram que, em casos como este, os preços se mantêm. Será fácil verificar se esta verdade económica se aplicará mais uma vez...

Por último: porque é que alguns dos nossos governantes falam tão zangados?

Quem está a tramar a ministra?

Transcrevemos um extracto (do início) de um artigo de opinião de Guilherme Valente no "Expresso" de hoje sobre a educação nacional:

1. José Sócrates parece-me ter o enorme mérito de ser o primeiro chefe de governo a identificar e a querer enfrentar o problema central da educação, a ideologia e o obscurantismo pedagógico verificadamente geradores de ignorância, desigualdade e miséria, algo que o eduquês não lhe perdoará. O seu erro foi o "casting".

Na sua primeira declaração (numa escola de Guimarães) –significativamente dissonante da intervenção do Primeiro-Ministro na mesma ocasião – a Ministra, desvalorizando os exames, logo revelou ao que vinha.

Formada no caldo do eduquês, nunca lhe vimos manifestações de distanciamento crítico do flagelo. A tese que adoptou não era nova, mas fez dela o programa do Ministério: a tragédia educativa não se deveria ao eduquês, mas ao modo como foi aplicado. Ou seja, aos professores, que não o aplicam bem, e aos sindicatos, que não deixam pôr os docentes na ordem.

2. Ora, não foi o eduquês, em todos os Governos, que criou, nestes trinta anos, a legislação que «rege» o sistema, formou, infectou, intimidou os professores, comandou as servis direcções das escolas, usou o oportunismo dos sindicatos, que continuam a contribuir para a degradação da escola pública, penalizando, sobretudo, os estratos sociais mais desfavorecidos?

sexta-feira, 28 de Março de 2008

A MATEMÁTICA NÃO É CHINÊS


Minha crónica do "Público" de hoje (a última frase, infelizmente, não saiu):

Os resultados dos testes internacionais PISA, divulgados no fim de 2007, revelaram não só uma má posição de Portugal (26º lugar entre os 30 países da OCDE) como uma ausência de progressos na aprendizagem da Matemática pelos nossos jovens de 15 anos (a sua pontuação, 466, a mesma que em 2003, ficou abaixo da média da OCDE, 498). Mas o curioso é que, bem próximo de nós, embora à nossa frente, ficaram os Estados Unidos (com 474 pontos). Aqui não aconteceu nada, mas do lado de lá do Atlântico os sinos tocaram a rebate. Acaba de ser divulgado o relatório de uma Comissão Nacional, de nomeação presidencial. O relatório, que contou com a participação do Conselho Nacional de Professores de Matemática, classifica a prestação americana no ensino e aprendizagem de Matemática de “medíocre”, pelo que a nossa será “medíocre menos”. O estudo propõe mudanças de tomo: quer moderar o chamado ensino centrado no aluno (a investigação pedagógica não conclui pela sua superioridade) e propõe objectivos curriculares precisos em cada ano (por exemplo, as fracções devem ser dominadas entre o 5º e o 7º anos) assim como metodologias para os atingir (por exemplo, maior recurso à memória).

O relatório americano devia ser lido e reflectido. Ele diz-nos que os alunos que confiam nos seus dotes não aprendem tanto como aqueles que acreditam que o sucesso depende do seu trabalho. O “chairman” comentou: A aproximação à Matemática baseada no talento, isto é, que ou se tem jeito ou não, como para tocar violino, tem de ser mudada.

Pior do que os nossos maus resultados é a indiferença perante eles. A Sociedade Portuguesa de Matemática clamou na altura por uma mudança urgente. Mas não foi ouvida nem, muito menos, convidada para participar em qualquer processo de revisão profunda. E o mesmo aconteceu com a Associação de Professores de Matemática. O Ministério da Educação, confrontado com os dados do PISA, desvaloriza-os. Dá pena ver o esforço das autoridades nacionais para os menosprezar (chegam a ufanar-se de termos resultados semelhantes a outros países mediterrânicos, como a Itália, a Grécia e a Turquia). Quando não os menosprezam, esforçam-se por desculpabilizar um sistema que se viu a nível internacional tão cruamente retratado.

O primeiro lugar da literacia matemática foi ganho por Taiwan (549 pontos) seguido pela Finlândia, Coreia do Sul e Hong Kong. Digno de louvor é o 8º lugar conseguido por Macau (525 pontos), outrora português e hoje chinês. Um amigo meu comentou, sarcástico: Há uma boa maneira de subir no PISA. É entregarmos a administração do território... A China propriamente dita estava fora da amostra, mas os resultados não seriam muito diferentes dos de Taiwan, Hong-Kong e Macau. O que terão os jovens chineses de diferente dos norte-americanos e dos nossos?

A resposta tem a ver com a aprendizagem e com o ensino. Kevin Miller, professor de Psicologia na Universidade de Michigan, explicou, numa conferência em Coimbra, a relevância das diferenças culturais e pedagógicas, que ele próprio tem investigado. Afirmou: Nos EUA aceita-se que não perceber nada de Matemática é uma espécie de ‘medalha’. O mesmo não acontece na China, onde os alunos têm interesse pela aprendizagem, pois a cultura, a escola e os professores estimulam esse interesse (...) Numa cultura como a americana os alunos tendem a esconder as suas dificuldades e, sempre que podem, fazem escolhas que contemplam níveis menos exigentes de matemática, ou de onde ela está mesmo afastada. E acrescentou: Apesar das diferenças de ensino entre os vários estados e entre escolas, há nos EUA um padrão de ensino assente na exposição do professor e na solicitação aos alunos para repetirem a informação fornecida. Em contrapartida, na China os professores além de proporcionarem uma informação sólida, procuram que os alunos expliquem os procedimentos. Assim, estimulam-nos muito mais a comprender o que vão aprendendo.

A Matemática não é chinês, podemos aprendê-la como na China.

quinta-feira, 27 de Março de 2008

Bolonha à portuguesa


Rui Baptista debruça-se aqui sobre o ensino superior:

O PÚBLICO de 20 de Março dedicava duas páginas (pp. 14 e 15) ao Processo de Bolonha que bem mereciam a reflexão de Lord Acton (1834-1902): “Poucas descobertas são mais irritantes do que aquelas que desvendam a genealogia das ideias”. O pecado original de todo este processo foi não se ter adoptado o grau de bacharel para o 1.º ciclo de estudos superiores, com longa tradição nos países anglo-saxónicos. Será que as “mentes brilhantes” do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior que detiveram as rédeas desta mudança desconheciam que a tradução de “bachelor” é bacharel? Ou terão pensado, numa consulta apressada a um qualquer dicionário de Inglês, que a tradução era, apenas, solteiro?

Num verdadeiro “cocktail” de indecisões processuais, passaram a existir bacharelatos com génese em cursos médios, bacharelatos do ensino politécnico, licenciaturas universitárias e politécnicas antes de Bolonha (a.B.) e licenciaturas universitárias e politécnicas depois de Bolonha (d.B.), a exigirem, pela prolixidade de que se revestem, uma tabela de reconversão para uso nacional e estrangeiro. E isto é tanto mais insólito quanto as ordens profissionais se maniferam a uma só voz “contra a proposta ministerial de designação do grau de licenciado para o primeiro ciclo, ao fim de três anos de formação, solicitando ao poder político que retire a designação de licenciatura e adopte para os ciclos de formação antes do doutoramento as designações de bacharelato e mestrado” (Agência Lusa, 7.Out.2004).

Este desacordo com o grau de licenciado para o 1.º ciclo ficou claro durante o Seminário Reflexos da Declaração de Bolonha, levado a efeito, em Coimbra, a 12 e 13 de Novembro de 2004, sob a égide do Conselho Nacional das Profissões Liberais. Em artigo de opinião, dele ressaltei as judiciosas palavras do Prof. Adriano Moreira quando alertou para “ o fantasma de uma licenciatura desvalorizada, mau grado o prestígio da Universidade que lhe deu a primeira credencial de título académico nobilitante’” (Diário de Coimbra, 14.Dez.2004).

No passado dia 21, em título de 1.ª página, o diário “As Beiras” anunciava: “ISEC concedeu equivalência a licenciaturas aos bacharéis sem provas adicionais”. E na última página decorria a notícia de que transcrevo parte: “O presidente do Conselho Directivo do Instituto Superior de Engenharia de Coimbra admitiu que todos os cerca de 1400 pedidos de ingresso foram aceites e, consequentemente, todos os cerca de 1400 bacharéis passaram automaticamente, a licenciados. Com tudo isto, o ISEC viu, no presente ano lectivo, o seu número de alunos aumentar cerca de 2800 para os quatro mil, sendo que 1400 só lá terão ido para entregar o pedido de reingresso, pagar a propina e mais qualquer coisa, e, no fim, levantar o certificado de licenciatura”.

A seguir vinha a parte substancial da noticia: “Entretanto, a escola ‘embolsou’ entre 1,1 e 1,26 milhões de euros a mais” (id., ibid.). À substituição da massa cinzenta dos alunos pelo respectivo extracto da conta bancária deve ser dado o nome de mediocratização do ensino superior, em que se bafeja a ignorância, se protege a mandriice, se dá azo ao oportunismo e se presta vassalagem ao rei Midas.

Razão assistiu a Sérgio Rebelo, docente da Universidade Católica, quando escreveu: “Onde antes havia uma pastelaria ou uma pequena mercearia, hoje tende a haver uma universidade ou uma escola superior, onde ontem se compravam pastéis de nata e garrafas de groselha, hoje conseguem-se licenciaturas e mestrados e encomendam-se doutoramentos” (Revista Exame, 4.Nov.96). Desta forma, torna-se simplicíssimo Portugal ficar bem classificado em percentagem de doutoramentos relativamente a outros países europeus. Agora, é só aproveitar a crista da onda e surfar para que o ensino obrigatório se estenda até à obtenção deste grau académico. A obrigatoriedade até ao 12.º ano passou a ser uma meta de políticos de vistas curtas e pouco ambiciosos...

Avião de papel espacial


A CNN informa sobre o último feito da tecnologia japonesa. Para quem quiser experimentar (na Terra) inclui-se um modelo de avião de papel retirado de um calendário de origamis.

Japan aims to launch paper plane in space
CNN - March 27, 2008 -- Updated 0514 GMT (1314 HKT)

KASHIWA, Japan (AP) -- Japanese scientists and origami masters hope to launch a paper airplane from space and learn from its journey back to Earth.

A prototype passed a durability test in a wind tunnel this month and Japan's space agency adopted it Wednesday for feasibility studies.

A successful flight from space by an origami plane could have far-reaching implications for the design of re-entry vehicles or space probes for upper atmospheric exploration, said project leader Shinji Suzuki, a professor at Tokyo University's Department of Aeronautics and Astronautics.

In a test outside Tokyo in early February, a prototype about 2.8 inches long and 2 inches wide survived Mach 7 speeds and boiling temperatures up to 446 degrees Fahrenheit in a hypersonic wind tunnel.

O carácter de Ingrid

“Chegada a este ponto, irão matar-me também? A minha relação com a morte é da mesma ordem da que o equilibrista mantém com ela: ambos praticamos uma actividade perigosa, avaliamos os riscos, mas o nosso amor pela perfeição vence invariavelmente o medo. Amo apaixonadamente a vida, não tenho medo de morrer. Tudo aquilo que construo na Colômbia é também para ter o prazer de aí envelhecer. Para ter o direito de aí viver, sem temer pela sorte daqueles que amo.”

É com estas palavras inquietantes e envolventes que Ingrid Betancourt Pulecio termina o livro “Com raiva no coração”, dedicado aos seus dois filhos, Mélanie e Lorenzo.

Trata-se de um relato apressado e detalhado das circunstâncias que justificam a luta de Ingrid, denotando, em cada passagem, que, quando o escreveu, estava consciente da importância de divulgar o seu testemunho antes de ser calada: “escrevo, obcecada pela necessidade de avançar, de salvar o que ainda pode ser salvo de verdade”, registou ela. E, mais adiante: “Tenho presente uma conferência de Hélène Carrère d’Encausse no Instituto de Ciências Políticas, em que ela explicava de forma pungente o modo como os regimes totalitários reescreviam a História. A amnésia colectiva feita «à medida». Isso horroriza-me mais que tudo (…). Nesses momentos sombrios, tão carregados de ameaças, penso que, se me resta ainda uma batalha a travar antes que me matem, se chegarem a matar-me, é sem dúvida esta: impedir essa manipulação, essa última humilhação.”

A urgência tinha sentido: pouco tempo depois de o livro ter sido publicado em França, Ingrid foi sequestrada por um movimento guerrilheiro, quando fazia campanha eleitoral, na qualidade de candidata à presidência da república da Colômbia. Passaram-se seis anos.

No passado mês de Fevereiro, os sequestradores divulgaram uma imagem dela, desde há muito aguardada, como “prova de vida” e que aqui reproduzo. Ingrid surge talvez acorrentada por um pulso, de olhar propositadamente, julgo eu, desviado de quem fixou e fixa essa imagem. Onde muitos vêem tristeza, sofrimento e desânimo, eu vejo, antes de tudo, a determinação que transmite no livro. Uma determinação lúcida, feita de fragilidade e de força de quem sabe que o preço de ideais elevados é também elevado, mas que sem eles a vida não tem grande sentido. Por isso, ainda que a tristeza, o sofrimento, o desânimo e outros sentimentos como a saudade, o ódio e o medo, a acompanhem na reclusão, o seu carácter, mantêm-se inalterado.

Esta é a opinião de Clara Rojas, sua amiga de longa data e companheira no percurso político, sequestrada na mesma altura, mas, entretanto, libertada: “Acredito que Ingrid, com todas estas mensagens que recebeu em razão das provas de sobrevivência, vai recuperar o seu ânimo e o seu desejo de viver”, declarou recentemente à imprensa.

É inevitável que perguntemos: como formou Ingrid, uma franco-colombiana, bem-nascida, bela e elegante, com uma família estável, que foi eleita deputada e senadora, a sua têmpera, o seu carácter inconformado na defesa do homem e da vida e no afrontar de poderes espúrios. Trata-se, naturalmente, de uma pergunta retórica, pois as razões que vão determinando a existência não se deixam desvendar com facilidade.

Talvez tenha sido a influência do pai, um destacado senador e embaixador da Unesco; talvez a vivência e convivência em Paris, onde passou a juventude, fez estudos universitários e ensinou; talvez o contacto próximo e precoce com intelectuais interventivos como o pintor Fernando Botero ou os escritores Pablo Neruda e Gabriel García Marquez.

O certo é que Ingrid se tornou numa das mais dignas representantes do espírito social e ético das décadas de sessenta e setenta, em que nasceu e cresceu, responsável pela emergência de emancipações, independências, revindicações e militâncias várias, e que provocou pequenas e grandes revoluções. Com epicentro em Paris, esse espírito, se reanimou relativismos, subjectivismos e individualismos de teor pós-moderno, também actualizou algumas das aspirações mais nobres da civilização ocidental e personificou o empenhamento, a não indiferença, a coragem de batalhar pelo que está certo, a tenacidade de enfrentar poderes e poderosos.

Ingrid é esclarecedora quando afirma: “Devo muito à França. Foi lá que fiz os meus estudos, e este livro, escrito em francês, constitui para mim um modo de manter esta ligação, assim como é uma oportunidade para dar a conhecer a minha luta ao país que me ensinou o que é a democracia e o que é a liberdade. Sabem como são poderosos, na Colômbia, os cartéis da droga, esta droga que mina a vida dos nossos jovens. Certamente que têm ouvido falar das matanças e dos escândalos políticos que eles causam. Mas, por trás destas organizações mafiosas, está o meu povo – um povo corajoso e orgulhoso que deseja libertar-se desta engrenagem infernal. É por ele que luto, há mais de dez anos (…)”.

Mas, talvez o carácter de Ingrid deva muito aos seus filhos e ao tão simples quão ancestral anseio de querer para eles um mundo sem o medo que ela explica que sentiu, mais por eles do que por ela: “Tenho dois filhos, que já foram ameaçados de morte. Tive de separar-me deles, para os proteger (…). Estou consciente dos perigos, mas estes não me farão recuar. É nisso que reside a minha esperança (…). Esse Outono de 1996 começa, assim, para mim, sob o signo de uma enorme angústia. Para não perder Mélanie e Lorenzo, escondi o atentado de 20 de Julho, de que escapei à justa, e pago agora o preço da minha irresponsabilidade: estou sempre com medo, por causa dos meus filhos. Um medo animal. Como que um polvo cujos tentáculos me esmagam. Um medo que está sempre presente, que nunca consigo esquecer. Mesmo à noite, quando eles estão em casa de pijama, no quarto deles, Juan Carlos verifica a fechadura da porta de entrada, mesmo nesses momentos, que deveriam ser felizes, tenho medo… (…) Avalio a cada instante o quanto a solidão pode aumentar a angústia, estando sempre atenta a cada ruído insólito (…). Já quase não saio, barrico-me em casa, e escrevo dia e noite, febrilmente, na esperança louca de que este livro fique rapidamente concluído, como se ele representasse a garantia de salvação para os Colombianos, mas também para a minha família, para Mélanie e Lorenzo. Porquê? Como poderia ele protegê-los, eles que são tão vulneráveis? Não sei dizê-lo. Mas é essa intuição profunda, essa convicção, esse dever a cumprir que me dá forças para continuar.”

Como se sabe, Mélanie e Lorenzo sobreviveram e têm vindo a demonstrar a mesma tenacidade da mãe, imbuídos do dever a cumprir, que lhes dá força para continuar... Ingrid, os filhos, família, amigos, conhecidos e muitos desconhecidos, têm mostrado, bem alto, que neste caso, o exemplo da não conformidade. Como dizia Fernando Pessoa: “Ser descontente é ser homem!”

Documentos consultados:
- Betancourt, I. (2002). Com raiva no coração. Lisboa: Terramar.
- http://www.tsf.pt/online/vida/interior.asp?id_artigo=TSF189779

Imagem retirada de:
- http://www.4ingrid.com/images/Ingrid23102007.jpg

CITAÇÕES DE GIORDANO BRUNO

Transcrevo algumas citações de Giordano Bruno, escolhidas por Michael White para a entrada ou final de capítulos do seu livro “Giordano Bruno: O Filósofo Maldito” (Planeta, 2008):

“Aquele que deseje filosofar deve antes de mais duvidar de todas as coisas. Não pode tomar parte num debate antes de ter escutado as diversas opiniões, nem antes de avaliar e comparar as diversas opiniões, nem antes de avaliar e comparar as razões contrárias e a favor. Jamais deve julgar ou censurar um enunciado apenas pelo que ouviu, pela opinião da maioria, pela idade, pelo mérito ou pelo prestígio do orador, devendo por consequência agir de acordo com uma doutrina orgânica que se mantém fiel ao real e uma verdade que pode ser entendida à luz da razão.”

“Desejo que o mundo usufrua dos gloriosos frutos do meu trabalho, desejo despertar a alma e abrir o espírito dos que vivem privados dessa luz que, seguramente, não é invenção minha. Se estiver errado, não creio que o faça deliberadamente. E, ao falar e escrever deste modo, não sou impelido pelo desejo de sair vitorioso, pois que reconheço qualquer tipo de fama e conquista como inimigos de Deus, vãs e sem qualquer honra, se não forem verdadeiras; mas, por amor à sabedoria autêntica e num esforço para reflectir com justeza, fatigo-me, sofro, atormento-me”.

“Muito me debati. Julguei poder ganhar... Mas o destino e a natureza reprimiram os meus estudos e o meu vigor. Mas já é alguma coisa ter estado no campo de batalha, pois vejo que conseguir ganhar depende muito da sorte. Porém, fiz tudo o que podia e não creio que nenhuma geração vindoura o possa negar. Não tive medo da morte, jamais cedi perante os meus iguais, com firmeza de carácter, escolhi uma morte corajosa a uma vida de cobardia sem combate”.

GIORDANO BRUNO: O FILÓSOFO MALDITO



A inauguração no passado dia 3 de Março em Berlim de uma estátua a Giordano Bruno (1548-1600), antecedeu um colóquio no Instituto Max Planck para a História da Ciência sobre aquele filósofo do tempo da Revolução Científica, de cujo nascimento se celebram 460 anos. A estátua mostra Bruno de pernas para o ar, sugerindo que há maneiras diferentes de ver o mundo. Que ele, de facto, viu o mundo de modo bem diferente do dos seus contemporâneos prova-o o facto de ter terminado na fogueira da Inquisição. O título do colóquio era sugestivo: “Virando as tradições ao contrário: Repensar o iluminismo de Giordano Bruno”. Assim como eram sugestivos os temas tratados como “Desafio a normas e instituições”, “Reinvenção das bases da religião: Bruno como teólogo”, “A experiência e visão de uma nova ordem cósmica: a filosofia natural de Bruno”, “Práticas epistémicas de um revolucionário: pensamento e método científicos de Bruno” e “Formas de não conformidade: os trabalhos de Bruno como textos literários.”

De Giordano Bruno existiam publicadas em Portugal, tanto quanto sei, duas obras: “Acerca do Infinito, do Universo e dos Mundos” (Fundação Gulbenkian, 1998, tradução e notas de Aura Montenegro) e “Tratado da Magia” (Tinta da China, 2007, com tradução e um interessante prefácio de Rui Tavares). Acaba de sair na editora Planeta uma biografia popular do sábio nolano (nasceu em Nola, perto de Nápoles): “Giordano Bruno. O Filósofo Maldito”. Já tinha saído em 2003 na editora Record do Brasil a mesma obra com o título, mais próximo do original inglês: “O Papa e o Herege”. O autor é um jornalista científico inglês, conhecido por escrever muito: dele saiu em 2007 na Casa das Letras o romance “Equinócio” baseado na vida de Newton, mas já havia, na Europa-América, “Maquiavel: O Incompreendido” (2005), “Superciência” (2005), “Leonardo: o Primeiro Cientista” (2003), “Tolkien: uma biografia” (2003), “À Procura de Vida no Universo” (2000) e “Ficheiros Secretos. A Verdade” (1997), além de várias obras biográficas escritas em colaboração com outro prolixo autor inglês John Gribbin, como as biografias de Stephen Hawking (2006), Albert Einstein (2004) e Charles Darwin (2004). Confesso que, embora me espante com tantos livros (há bastante mais em inglês!), não aprecio muito a prosa de White assim como não aprecio a de Gribbin. Os dois escrevem a metro, pesquisando por vezes pouco.

A biografia de Bruno, que se lê depressa, não vai muito fundo. Quem quiser saber mais terá de ler,e entre outros, “Giordano Bruno and the Renaissance Science” de Hilary Gatti (Cornell University Press, 2002) e “The Art of Memory” de Frances Yates (University of Chicago Press, 2001), os dois aliás referidos no prefácio. Também não seria de esperar uma obra muito científica de uma editora que parece ter-se especializado em temas esotéricos e que, nas páginas finais da obra de White, publicita títulos patetas como “Reencarnação. Manifestações do Carma” e “Ciências Ocultas”, além da badana prometer para breve “Afinal Deus Existe: O que nos diz a Física Quântica sobre as nossas origens e como devemos viver”, por Amir Goswani (descanse o leitor que a mecânica quântica nada nos diz como devemos viver!). No entanto, o livro de White sobre Bruno não é tão mau como esses. A obra narra a vida de Bruno de uma forma que prende a atenção do leitor, embora não adiante nada ao que é conhecido. Começa pelo fim, isto é, pela sua condenação pelo Tribunal do Santo Oficio de Roma, no papado de Clemente VIII. A acusação não era de defesa da doutrina heliocêntrica de Copérnico, como aconteceria com Galileu 33 anos depois, mas de oito pontos de heresia, entre os quais a negação da transubstanciação do pão e do vinho em carne e sangue de Cristo, a negação do nascimento virginal de Cristo e a negação da teoria aristotélica do Universo finito no qual apenas a Terra, no centro, era habitada. Para Bruno, como mostra o título do livro da Gulbenkian, o Universo era infinito e existiam infinitos mundos onde, noutras terras, outros seres adorariam outros deuses. Mas White não esquece os tempos do jovem Bruno como frade em Nápoles, no Mosteiro de S. Domenico, de onde fugiu sendo excomungado “in absentia”, e a sua prolongada peregrinação pela Europa que incluiu passagens pela Inglaterra (onde esteve na corte de Isabel I, eventualmente como espião), França (na corte de Henrique III), Alemanha e Suíça. Bruno foi um filósofo visionário, místico até, mais do que um cientista, uma vez que na sua obra não se encontram as duas grandes marcas da ciência - a experimentação e a matemática – que tão nítidas são em Galileu. Mas o seu pensamento influenciou diversos cientistas, como o alemão seu contemporâneo Johannes Kepler e, mais tarde, o alemão contemporâneo e rival de Newton Gottfried Leibniz. Acabou por cair nas mãos da Inquisição em Veneza, oito anos antes de ser executado (sofreu, portanto, longos anos nos cárceres, não existindo documentação sobre boa parte do processo), através da traição de um seu “amigo” italiano, o comerciante Giovanni Mocenigo, que queria aprender a famosa “arte da memorização”.

White inclui citações interessantes na entrada dos capítulos (ver "post" seguinte). Não se esquece também de transcrever, no primeiro capítulo, a resposta dramática de Bruno aos cardeais inquisidores que leram a sentença: “Decerto será bem maior o vosso receio em decretar-me essa sentença do que o meu em aceitá-la”. E volta, no penúltimo capítulo, à morte do sábio no Campo das Flores em Roma, onde hoje há uma estátua em sua honra erguida em 1889 por círculos maçónicos (bem mais clássica do que a moderna estátua berlinense: em Roma Bruno está de pé). White conta que as cinzas de Bruno se espalharam pelo ar, tendo alguns dos seus átomos entrado porventura na água do Papa, com quem o acusado nunca conseguiu falar. Escreve: “Talvez desse modo, pelo menos a um nível atómico, o próprio Papa se tivesse afinal associado ao herege. Como Bruno afirmava: o Universo é infinito e uno. Todos somos cada um. Cada coisa é tudo o resto.”

A tradução deixa algo a desejar, como por exemplo quando deixa em inglês o nome do cardeal italiano Roberto Bellarmino, que esteve nos processos de Bruno e de Galileu e que foi canonizado pelo Papa Pio XI em 1930 e, a seguir, declarado “Doutor da Igreja”. Outro cardeal do Vaticano, Angelo Mercati, reuniu e publicou em 1940 algumas peças do processo de Bruno, como que justificando a condenação. A Igreja já reviu o processo de Galileu, mas não fez o mesmo para o processo de Bruno. Talvez um dia o reveja, porque o Universo parece ser infinito e provavelmente há mais mundos...

-Michael White, “Giordano Bruno: o Filósofo Maldito”, Planeta, 2008.

terça-feira, 25 de Março de 2008

O renascimento do anti-intelectualismo - II

Amanda Gefter, a editora de opinião da New Scientist que referi a propósito do prémio Templeton 2008, assistiu igualmente a uma sessão de Expelled. A sua apreciação do filme é breve (tão breve quanto o «sumo» do filme, aparentemente pouco mais de um longo reductio ad Hitlerum). Mais interessante e longa é a sua apreciação do que se passou durante a parte de perguntas&respostas em que um dos espectadores que se atreveu a fazer perguntas incómodas ia sendo expulso da sala.

No artigo em que retomei o tema anti-intelectualismo, transcrevi uma sinopse do último livro de Susan Jacoby, que aponta o que acontece quando este se traduz na arena política. De facto, é quase impossível dissociar o anti-intelectualismo da sua consequência política, o populismo. É fácil reconhecer o populismo no discurso político pela substituição de ideologias, significados, razões e outras coisas racionais a que o Iluminismo nos habituou por apelos aos sentimentos e emoções - algo mais «democrático» e, simultaneamente, mais difícil de questionar.

Normalmente não refiro a Wikipedia mas em relação ao tema em apreço tem uma descrição de que gosto pela sua simplicidade e completude: «O anti-intelectualismo descreve um sentimento de hostilidade ou desconfiança em relação a intelectuais ou aos seus objectos de investigação. Os anti-intelectuais apresentam-se como os paladinos das pessoas comuns e do igualitarismo contra o elitismo, especialmente o elitismo académico. Estes críticos argumentam que as pessoas com maior grau de instrução constituem um grupo social isolado que tende a dominar o discurso político e o ensino superior (a academia)».

O anti-intelectualismo não é um fenómeno novo, na realidade aparece periodicamente em todas as sociedades, normalmente associado a períodos conturbados na história, como ilustrado pela foto à esquerda, tirada em Berlim num dos períodos mais negros da história da Humanidade. Há mais exemplos que permitem constatar que os pontos altos do anti-intelectualismo correspondem normalmente a regimes totalitários ou pelo menos autoritários.

Por exemplo, na China, os intelectuais foram activamente perseguidos durante a Revolução Cultural. As universidades permaneceram fechadas por praticamente dez anos. Também o Khmer Rouge de Pol Pot considerava os intelectuais o expoente do mal e devotou-se à tarefa de assassinar todos os intelectuais cambojanos. De igual forma, a União Soviética promoveu a classe trabalhadora em relação aos inúteis intelectuais e, especialmente sob Estaline, devotou-se a perseguir e a enviar para Gulags sortidos todos os intelectuais que lucubravam sobre temas capitalistas, decadentes, burgueses ou mesmo fascistas como a genética, anátema na URSS até 1964.

Nos Estados Unidos, a história do anti-intelectualismo está bem documentada pelo historiador Richard Hofstadter no seu livro de 1963 Anti-Intellectualism in American Life. Hofstadter, perturbado pelo desprezo por intelectuais da era McCarthy, investigou as raízes históricas de uma onda que varria na altura (como agora) o país da costa leste à costa oeste. Hofstadter descobriu que «o nosso anti-intelectualismo é, de facto, anterior à nossa identidade nacional», citando, entre outros, o puritano John Cotton. Este escreveu em 1642, «The more learned and witty you bee, the more fit to act for Satan will you bee» (Quanto mais instruído e inteligente fores mais apto a agir por Satanás serás).

Hofstadter cita ainda Baynard R. Hall, que indiciou em 1843 o que Jacoby afirma em 2008 em relação aos políticos: «Nós sempre preferimos um homem mau (politicamente) e ignorante a um talentoso e por isso as tentativas de atacar o carácter moral de um candidato inteligente; infelizmente esperteza e maldade estão acopladas aos olhos do povo assim como incompetência e bondade».

No entanto, de acordo com o historiador Lawrence W. Levine, o analfabeto Jim Bridger, um dos mais famosos batedores do Velho Oeste, recitava longas passagens de Shakespeare, que decorara contratando alguém para lhe ler as obras. Alexis de Tocqueville depois de uma viagem pela América no início da década de 1830 disse mesmo: «Não há praticamente nenhuma cabana de pioneiros que não contenha alguns volumes de Shakespeare».

Isto é, tal como na URSS comunista parece que os americanos sempre prezaram os «intelectuais de pé descalço», isto é, gente do povo sem educação formal, mas apresentavam uma hostilidade não disfarçada em relação às suas elites intelectuais.

No seu livro, Hofstadter descreve os três pilares do anti-intelectualismo: a religião, empresas muito dirigidas a aspectos práticos e um estilo político que hoje designamos por populismo. Explica ainda como a II Guerra Mundial e a guerra fria que se seguiu mudou o estilo de vida americano, nomeadamente deu origem a um reconhecimento dos «crânios» nacionais. Mas esse reconhecimento e admiração de intelectuais restringia-se (e restringe-se) àqueles que se mantêm no «seu lugar», isto é, que se devotam nos seus laboratórios a melhorar a vida do cidadão comum com avanços na medicina, na informática e tecnologia, etc. e não «interferem» activamente na vida pública.

Isto é, se olharmos para a História, constatamos que a nossa cultura ocidental apoia investigação sistemática e disciplinada melhor que qualquer outra na história, mas mesmo assim há uma enorme hostilidade em relação aos intelectuais que a ela se dedicam por parte de pessoas que sentem que os seus valores e/ou crenças são ameaçados, consideram-na um desperdício de tempo e dinheiro que poderiam ser melhor utilizados para outros objectivos ou simplesmente se ressentem do estatuto dos intelectuais.

Um exemplo recente deste anti-intelectualismo no discurso político, neste caso de John McCain, o candidato republicano à presidência norte-americana, é analisado por Sean Carrol do departamento de Física do Caltech. No Cosmic Variance, Carrol explica como se enquadra em termos de anti-intelectualismo quer os arroubos populistas de indignação de McCain contra o desperdício de dinheiros públicos em ciência quer o eco que o criacionismo encontra em muitos norte-americanos.

De facto, numa altura em que o custo da guerra no Iraque, que McCain considera necessitar mais empenho (isto é, mais dinheiro), ultrapassa os 500 mil milhões de dólares, é completamente rídiculo vir falar no «desperdício» de 3 milhões dos dólares, gastos por «perdulários» cientistas do U.S. Geological Survey que tentam evitar a extinção do urso grizzly. A não ser, claro, que os entendidos de marketing da sua campanha tenham decidido que esse é um ponto que lhe angariará uns votos não despiciendos Novembro próximo.

John McCain apela ao anti-intelectualismo do cidadão comum não só no referido discurso como num anúncio muito difundido- pela passagem do qual nas televisões norte-americanas a campanha de McCain pagou provavelmente uma quantia comparável ao que o trabalho tão ofensivo custou.

O anti-intelectualismo, uma forma de demissão da cidadania, é ainda indissociável da nuvem poluente de irracionalidade que tem sido alvo de inúmeros posts no De Rerum Natura. Para que as velas de Sagan possam surtir efeito, é necessário olhar para as marés da História e perceber em que assenta o anti-intelectualismo da era moderna.

Os pilares do anti-intelectualismo identificados há mais de 30 anos por Hofstadter permanecem hoje em dia, mas acresce nos últimos tempos um privilegiar de actividades intelectuais normalmente orientadas para resultados práticos e imediatos - no caso da ciência, a «ciência dirigida a necessidades específicas» de que falava Lederberg. Outra contribuição importante foi abordada no post «Evolução e pós-modernismo», e tem a ver com a acção perniciosa de grupos de pressão pós-modernos que Diane Ravitch tão bem descreveu no livro «The Language Police».

Há uns meses, o filósofo Eduardo Subirats dizia a um jornalista do Estado de São Paulo:

«O que distingue intelectualmente uma elite não é o poder político ou institucional da classe que seja. O poder institucional define a burocracia, o intelectual orgânico ou a estrela literária.

O que distingue uma elite intelectual em um sentido estrito não é o poder político, mas a capacidade de desenvolver uma crítica, de criar uma forma de ver, de pensar e de ser, reside na força reformadora e transformadora das linguagens e a consciência de uma sociedade.

Nesse sentido, hoje vivemos em uma era anti-elitista, um anti-elitismo que se crê democrático, mas na realidade recolhe o pior da herança anti-intelectual dos velhos fascismos. Vivemos em uma era na qual o papel educador e orientador dessas elites intelectuais tem sido tomado e monopolizado pelo burocrata acadêmico, pela estrela da mídia, pelo agente editorial, pelo administrador político.»

Acho que não conseguiria resumir melhor o tema!

segunda-feira, 24 de Março de 2008

UM PIÃO ESTRANHO


Falei aqui do ovo giratório e o Carlos Medina Ribeiro, muito a propósito, lembrou a questão dos piões que se invertem durante o movimento. O chamado "tippe top" é, de facto, um pião estranho, muito estranho. Com a forma de um cogumelo, posto a rodar sobre a parte mais larga, inverte de repente a sua posição, ficando a rodar sobre a haste. O estranho é que o centro de gravidade (S, que não coincide com M, o centro da esfera) suba, elevando assim a energia potencial, o que tem de ser compensado com a diminuição de energia cinética rotacional. Para isso é essencial o atrito com o chão.



Não é aqui o sítio para explicar em pormenor a física deste pião, que tem originado muitos artigos (ver aqui uma lista de referências). Mas talvez seja aqui o sítio para mostrar que alguns dos maiores físicos de sempre se interessaram pelo brinquedo. Na foto de cima, Wolfgang Pauli e Niels Bohr observam com atenção o movimento de um "tippe top". Na Internet há vários filmes que mostram o fenómeno de perto (por exemplo, aqui). Não é este aliás o único brinquedo que tem intrigado e inspirado os físicos. A física pode ser divertida!

Aprendizagem da Matemática

Informação recebida do Centro de Psicopedagogia da Universidade de Coimbra

CONFERÊNCIA E DEBATE

Children´s mathematics learning:
Insights from cognitive research and cross-cultural comparisons


Professor Kevin Miller
Departamento de Estudos em Educação e Psicologia
Universidade de Michigan.

Dia: 26 de Março; Hora: 14, 30 h
Local: Auditório da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação
(Rua do Colégio Novo, 3001-802 – Coimbra)
Contactos: Telf. 239.851450; Email: cpsicop@fpce.uc.pt

ENTRADA LIVRE

Para mais informações: http://www.uc.pt/fpce/destaques/conferencia

MUSEUS DE CIÊNCIA DE PARIS


O primeiro museu de ciência do mundo surgiu em Paris com a Revolução Francesa: foi o Conservatoire des Arts et Métiers, que se destinava a guardar e a mostrar máquinas e utensílios de carácter industrial e profissional. É um exemplo dos chamados museus de ciência de primeira geração, que à semelhança dos museus de arte (nascidos um pouco antes, no Renascimento), são colecções organizadas de objectos que importa preservar e exibir ao público. O seu sucessor é hoje o “Musée des Arts et des Métiers”, na Rua Réaumur, cheio de instrumentos históricos.

Mas o primeiro museu de ciência interactivo (entenda-se um museu de ciência no qual os visistantes possam mexer nos objectos) surgiu, também em Paris, só em 1937. Foi o “Palais de la Découverte” (um belo nome!) que foi inaugurado numa ala do Grand Palais, na elegante zona dos Campos Elísios e bem perto do rio Sena, por ocasião da Feira Internacional que se realizou nesse ano, um evento que juntou 44 países à volta do tema “Artes e técnicas aplicadas à vida moderna”. Já o ex-libris da cidade, a Torre Eiffel, tinha sido inaugurada em 1889, para a exposição universal que nesse ano comemorou os cem anos da Revolução Francesa. Museus como o Palais de la Découverte constituem a segunda geração de museus de ciência, a qual a seguir cresceu e se multiplicou por todo o mundo. O exemplo mais famoso talvez seja o Exploratorium de São Francisco, instalado nos anos 60 sob a orientação do físico Frank Oppenheimer, irmão de Robert Oppenheimer.

O Grand Palais, que alberga uma gigantesca galeria de exposições, assim como o próximo Petit Palais (este actualmente o Museu de Belas Artes da cidade de Paris) são belos edifícios de estilo “art nouveau” construídos em finais do século XIX ten em vista uma outra exposição mundial, a de 1900. Como se vê, as exposições mundiais mudaram a face da cidade-luz. O que mais impressiona quem entra no Palais de la Découverte, que continua hoje aberto ao público, é o amplo hall elíptico de entrada. Que se segue à escadaria de acesso ladeada pordois enormes cavalos de bronze empinandos em equilíbrio que parece precário.

E impressiona também a sucessão de instrumentos científicos, que estão dispostos por temas e intercalados por pequenos auditórios, onde, a horas anunciadas, se realizam sessões informais de demonstração e explicação. Por exemplo, na sala de luz explica-se a reflexão e a refracção, acrescentando o monitor com algum orgulho nacional, que esses fenómenos e outros se explicam pelo princípio proposto pelo francês Pierre de Fermat: um raio de luz não usa o caminho mais curto, mas sim o caminho mais rápido!

Um dos principais mentores do Palais de la Découverte foi o físico (e Prémio Nobel da Física pelas suas investigações atómicas) Jean Perrin. Ele é também o fundador, na mesma época do Centre National de Récherches Scientifiques, o maior instituto de investigação francesa. Perrin foi subsecretário de estado da investigação científica no governo da frente popular (sucedeu nesse lugar a Irène Joliot-Curie, a filha de Madame Curie que também foi Prémio Nobel). Compare-se com os anos em que nasceu em Portugal o primeiro museu de ciência interactivo, o primeiro instituto nacional de investigação científica e a primeira secretaria de estado da investigação científica para se ver melhor o atraso nacional! Mas a ideia do palácio não foi de Perrin, mas sim do pintor Anfré Leveillé, que integrava o grupo sobre “expressão do pensamento” na preparação da exposição de 1937. Declarou ele, mostrando clarividência notável: “Nada marca mais o pensamento do nosso tempo que o empreendimento científico. A exposição deve mostrar o extraordinário progresso da ciência. É preciso criar um palácio da ciência”. O nome “Palácio da Descoberta” é bem sugestivo: não se tratava de fazer um museu como os outros, mas um museu onde a ciência pudesse ser mostrada, tal qual era feita. Um sítio onde os cientistas podiam fazer divulgação para o grande público, tal como Michael Faraday tinha feito no século XIX na Royal Institution de Londres. As ideias de modernismo, progressismo mas também nacionalismo, que perpassavam a exposição internacional, estavam relacionadas de perto com a ciênciae a técnica, encontrando a sua expressão prática no palácio.

O edifício parece mais um museu de arte que um museu de ciência. Teve de ser aceite, “a contre coeur”, por alguns dos seus organizadores. No entanto, o novo conceito de museu teve um acolhimento imediato por parte do público: foi um êxito instantâneo. Ainda hoje se pode (e deve) lá ir! Outro Nobel da Física francês, Pierre de Gennes (recentemente falecido) afirmou quando o Palácio fez 50 anos: “Pessoalmente aprendi bastante no Palácio por volta de 1948. Regresso lá muitas vezes com os meus filhos e em breve vou lá regressar com os meus netos, e estou perfeitamente convencido que a chama é a mesma...” Para manter acesa a chama, alguns equipamentos foram actualizados.. Novas exposições temporárias surgem com regularidade. Apesar disso, o visitante notará um ar “démodée” do palácio, não tanto o edifício em si mas o design e a interacção bastante tradicional e mediada com o visitante. Foi o Exploratorium que introduziu a ideia de “carregar no botão”, que dispensa o intermediário.



Talvez o Palácio não se tenha renovado tanto como seria de esperar porque nos anos 80 surgiu em Paris um concorrente de peso: a Cité des Sciences et de l’ Industries de La Vilette, num subúrbio onde ficava o matadouro municipal. Aqui a arquitectura já é moderna: luz, vidro e água são os elementos que marcam a instalação do arquitecto Adrien Fainsilber. O elemento arquitectónico que mais impressiona é, no exterior do museu, a “Géode”, uma grande esfera em cujo interior se projectam filmes com grande efeito visual. O museu vê a sua imagem reflectida na “Géode”. À volta estende-se um grande parque, repleto de outras atracções, como a Cité de la Musique. Pois a Cité des Sciences é bem mais interactiva do que o Palais de la Découverte. Pode descobrir-se tudo sozinho, bastando carregar nos botões. O que mais impressiona dentro do museu é a secção dedicada aos mais pequenos. Na cidade da ciência infantil, as crianças esperam em fila para entrar de rompante e durante hora e meia mexerem em tudo o que quiserem, desde uma azenha de água a um estúdio de televisão. Mas, para o público adulto, uma das experiências mais marcantes consiste em ser encerrado, na secção de matemática, num carrocel fechado, onde várias experiências com bolas, água, etc. permitem ver a misteriosa “força centrífuga” em acção. Por exemplo, dificilmente se acerta num alvo à primeira...

Como serão os museus de ciência do futuro, os museus de terceirta geração? Já há várias ideias sobre o assunto, embora não exista ainda um conceito fixo. Resta-nos imaginar como vai ser visitando em Paris estes dois clássicos da segunda geração - o Palais de la Découverte e a Cité des Sciences de La Vilette – além, claro, do exemplo da primeira geração - o Musée des Arts et des Métiers. Tal como acontece na investigação científica, fazer mais e melhor vai ser difícil, mas vai ser certamente possível.

Exposições temporárias em exibição: No Musée des Arts et des Métiers: «Benjamin Franklin: homme de science, homme du monde»; no Palais de la Découvert, “Volcans, Seismes, Tsunamis” e “La Termite, la Fourmi”; e, na Cité des Sciences, “Cosmomania”, “Le Suicide en face” e “Au dela de la Imagination”. A revista «Geo» dedica o seu último número especial aos museus de Paris.

Prémio Templeton 2008

Há uns meses, o Jorge escrevia a propósito do novo livro de Frank Tipler, «O curioso Prémio Templeton, no valor de 1,2 milhões de euros (há quem diga que o valor foi escolhido para ser superior ao Nobel) premeia individualidades que consigam a curiosa proeza de aproximar a ciência da religião. Em 1995, Tipler esteve quase a ganhar com o seu Physics of Immortality. Agora, com Physics of Christianity, deve ser o eleito».

O prémio Templeton, que até 2001 era o prémio Templeton para o Progresso da Religião, foi atribuído há uns dias e Tipler não foi o galardoado. De facto, o prémio foi este ano uma verdadeira surpresa já que o trabalho do polaco Michal Heller, com uma vasta obra científica de mérito reconhecido, não tem nada a ver com religião a não ser pelo facto de Heller para além de físico ser sacerdote católico.

Bem, como afirmou o seu colega Karol Musiol «É evidente que, para Heller, a natureza matemática do mundo e sua inteligibilidade por parte do ser humano constitui a evidência circunstancial da existência de Deus». Assim como considera que «A ciência não é senão um esforço colectivo da mente humana para ler a mente de Deus». Ou seja, com a sua postura honesta e aberta em relação à ciência Heller talvez aproxime a religião da ciência (embora não aproxime a ciência da religião) no sentido em que mostra que é possível ser-se profundamente religioso e não ter qualquer conflito com a ciência.

A propósito do prémio, a New Scientist tem um artigo muito interessante denominado «A ética de misturar ciência e religião», que vale a pena ler. Amanda Gefter considera que Heller é «um homem contemplativo, simpático e brilhante com um impressionante ecletismo intelectual» mas não tem grande impressão da Fundação Templeton, uma «estranha coisa» cujo «principal objectivo é usar a ciência para promover uma agenda religiosa».

A Fundação Templeton tenta desde há uns três anos distanciar-se dos movimentos neo-criacionistas, nomeadamente do Desenho Inteligente, movimento de que esteve próxima num passado não muito distante. Charles L. Harper Jr., vice-presidente da fundação, disse mesmo ao NYT que embora alguns dos seus colegas da Fundação estivessem inicialmente intrigados (e tenham apoiado financeiramente) com o Desenho Inteligente rapidamente se desiludiram, especialmente quando viram que nenhum dos neo-criacionistas estava de facto interessado em fazer ciência (apenas agitação política e social).

Harper afirmou que «Do ponto de vista do rigor e da honestidade intelectual, as pessoas do desenho inteligente não se saem muito bem». E talvez o prémio atribuído a Heller sirva para vincar o distanciamento da fundação em relação ao «criacionismo num smoking barato».

Como um artigo das «Notícias Católicas» indica, o padre Heller tem uma posição muito próxima da posição actual de Harper. Heller considera ainda que o desenho Inteligente enferma de um «erro teológico grave e sério» que «revive as velhas heresias maniqueístas que clamam existirem dois grandes princípios - o princípio de Deus, que é bom, e o princípio do mal - que estão em luta entre si».

Embora partilhe as reservas da editora de opinião da New Scientist em relação aos esforços da Templeton para «comprar» cientistas que sirvam os seus propósitos - e como tal em relação à bondade do prémio -, pelo menos as previsões do Jorge não se realizaram e a verdade não foi sacrificada na escolha do premiado deste ano.

De onde vem o ovo, perdão, o dinheiro?

Recentemente, surgiu um novo navegador para o Windows, da Apple, chamado Safari (já existia antes para outros sistemas operativos). Evidentemente, é gratuito. Entretanto, estalou a polémica porque a Apple enfiou o navegador nas actualizações automáticas do iTunes; como a maior parte das pessoas aceita o que lhe enfiam no computador, vão ficar com um novo navegador, que tem também a "vantagem" de estar integrado com o iTunes. Quem protestou? Os homens (sim, parece que são sempre homens) do Firefox.

Trocaram-se argumentos de um lado e do outro, mas ninguém queria mencionar o que estava verdadeiramente em causa, porque essa é a alma do novo negócio digital: fingir que se dá coisas às pessoas, ao mesmo tempo que se faz muito dinheiro sem elas se aperceberem disso porque não pagam directamente.

Até que Larry Dignan (ler aqui), da ZDNet, pôs tudo em pratos limpos: o que está em causa é que os homens do Mozzila ganham muito dinheiro do Google com as pesquisas que as pessoas fazem no Firefox; e quantas mais pessoas começarem a usar o Safari da Apple, mais dinheiro do Google vai para a Apple em vez de ir para os bolsos dos homens do Firefox.

Este é o retrato da nova economia digital, baseada na publicidade. O gratuito é uma miragem que sai caro: um mundo com cada vez mais publicidade e cada vez mais controlado pelas grandes companhias que vivem da publicidade, como o Google. E baseado em grande parte no trabalho voluntário de jovens crédulos que pensam que os bons e os maus são fáceis de identificar como nos filmes de Hollywood.

E já agora, se quiser realmente um navegador alternativo, experimente o Opera. É muito melhor do que o Firefox.

A Evolução do Ovo


Da coluna "Ciência em Dia" da "Folha de S.Paulo" de 23 de Março transcrevemos, com a devida vénia, a crónica "A evolução do ovo" de Marcelo Leite:

No cardápio do almoço de Páscoa que se avizinha, existe mais de uma chance entre dez de se encontrar ovo. Não só o de chocolate, certeza e delícia ainda maior, mas também o substancial produto do esforço da galinha.

Pode estar na farofa, ou na massa da macarronada. Ou, mais provável, na sobremesa. Nem mesmo a mania nutricionalmente correta de excomungar tudo que tenha colesterol foi capaz de banir essa maravilha de uma enorme quantidade de receitas.

Se você acha que isso nada tem a ver com ciência, enganou-se. Esta coluna não muda de assunto, ou o faz só raramente. E, assim como não resiste a chocolate, tampouco deixaria de deliciar-se com um artigo científico que começa assim: "Comida é uma parte essencial da civilização".

O artigo "A Natureza de Não-Equilíbrio da Evolução Culinária" foi recusado pelo editor do periódico "Physical Review E", que o considerou um estudo de antropologia cultural, não de física. Dois de seus autores, porém, são físicos (Osame Kinouchi e Antônio Carlos Roque, ambos da USP de Ribeirão Preto). O texto pode ser localizado na internet (arxiv.org/ftp/ar xiv/papers/0802/0802.4393.pdf.)

Durante um jantar, eles e Rosa Garcia, nutricionista da mesma universidade, debatiam um assunto matemático trivial -redes complexas. Entre uma garfada e outra, surgiu a hipótese de que ingredientes e receitas culinárias guardem entre si o tipo de conexão estatística que caracteriza essas redes.

Para testar a hipótese, o trio não se dirigiu a um laboratório, a "cozinha repugnante" de que fala Bruno Latour, onde se refogam conceitos com ninharias. Foram buscar seus dados nos livros. Mais precisamente: três edições do clássico "Dona Benta" (dos anos 1946, 1969 e 2004), um "Larousse Gastronomique", um "New Penguin Cookery Book" e até o medieval "Pleyn Delit".

O passo seguinte foi laborioso: anotar à mão 3394 ingredientes mencionados em 7702 receitas. Em seguida, eles foram classificados num ranking de freqüência (em quantas receitas eram listados) para cada livro.

Já com a ajuda de um especialista em informática (Adriano Holanda) e de outro físico (Pedro Zambianchi), iniciaram a busca por equações que descrevessem as freqüências relativas. Acabaram descobrindo curvas de distribuição, similares entre todas as obras, que obedeciam às chamadas leis de potência.

Noves fora, concluíram que um ingrediente na posição r do ranking é 2,6 vezes (2 elevado a -1,4) mais freqüente que outro na posição 2r. Um exemplo: na edição de 2004 do "Dona Benta", o ovo é o oitavo ingrediente mais comum, aparecendo em 412 receitas; já o caldo de limão, na 16ª posição (r=8; 2r=16), comparece em 186 delas.

Bem, 412 dividido por 186 dá 2,2, e não os 2,6 da lei de potência encontrada. Para corrigir distorções como essa, os gourmets de Ribeirão enriqueceram a receita com uma pitada de "aptidão" ("fitness") para cada ingrediente, um valor entre 0 e 1 que poderia representar muitas coisas a influenciar sua posição no ranking -como a facilidade de encontrá-lo na feira.

Kinouchi e equipe mostraram mais que uma curiosidade matemática: a evolução culinária se parece muito com a de genes. Observa-se, por exemplo, o dito "efeito fundador". Um ingrediente comum nas primeiras receitas de um povo tende a permanecer em sua culinária por longo tempo, mesmo após intensa miscigenação.

Assim como os brasileiros continuarão morenos por gerações a fio, vários de seus futuros quitutes também levarão ovos.

domingo, 23 de Março de 2008

Ortografia de Reis

O professor Carlos Reis, reitor da Universidade Aberta, defendeu ontem no Público o acordo ortográfico. Isto faz-me voltar ao tema, mas quero antes dizer uma coisa simples: estas conversas são apenas interessantes intelectualmente. Em termos práticos, quem tem a faca e o queijo na mão — os políticos e quem voluteia em seu torno — faz o que muito bem lhe apetecer, independentemente de todo o debate. E em grande parte é precisamente por isso que o acordo é uma treta.

Afirma o Carlos:

“sei bem que a ortografia e os seus reajustamentos contendem com diferentes, às vezes melindrosos, aspectos e interesses: de editores, de educadores, de escritores, etc. De todos estes e também do cidadão comum, para quem, quase sempre subconscientemente, o idioma é um repositório de representações, de volições, de atitudes simbólicas e mesmo de traumas assentes em séculos de uso, de transformação e de relacionamento intercultural.”

A que “séculos” de uso poderá referir-se? Em língua portuguesa, a nenhuns. Praticamente todos os livros que tenho em minha casa de Portugal estão ortograficamente errados, e já o estavam desde há muitos anos. Porque a ortografia portuguesa está sempre a mudar. Da generalidade dos livros que estão nas bibliotecas nem vale a pena falar. Basta que tenham um só século e são quase ininteligíveis para um leitor culto — e são de certeza para um adolescente. Ninguém consegue ler sem tropeços Eça ou Fernando Pessoa tal como eles escreviam. Mas consegue-se ler os ingleses contemporâneos deles sem tropeços.

Isto é particularmente mau no Brasil, em Angola, em Moçambique, onde abundam nas bibliotecas das pequenas cidades as edições portuguesas mais antigas. Mas, claro, quem defende o acordo está-se nas tintas para essas pessoas. Este acordo é sobre pessoas, mas não essas: é sobre os autores do acordo, que querem ficar com o seu nome na história.

O Carlos dá-nos esta razão a favor do acordo:

“Se queremos (eu quero) que o português tenha hipóteses, mesmo que de difícil concretização, de alguma afirmação internacional em confronto com outras línguas, então não podemos continuar a ignorar as debilidades de um cenário linguístico em que alegremente convivem duas ortografias”

Este é o argumento usado pelos defensores do acordo. Só que este argumento é sempre meramente esboçado. E bastaria tentar formulá-lo e explicá-lo mais detidamente para se ver quão absurdo é. Não se trata apenas de ser um mau argumento. É um disparate. Por causa disto:

1) O inglês tem várias ortografias, mas não tem problemas de afirmação internacional.

2) Ter duas ou mais variantes ortográficas de uma língua não é ter duas ou mais línguas e em nada enfraquece o poder cultural ou estratégico dessa língua.

3) O poder cultural ou estratégico de uma língua é exclusiva função do poder económico, cultural e político de quem fala essa língua, e não o contrário. Ou seja, é porque os países de língua inglesa são os maiores produtores de cultura, riqueza e bombas, que a língua deles tem tanta implantação. Sempre foi assim e sempre há-de ser. Se estamos preocupados com a afirmação linguística do português, então criemos as condições para haver produção cultural em língua portuguesa — de matemática, filosofia, artes, geografia, etc., e bombas. Mas esta é uma batalha perdida. O melhor que temos a fazer é como os suecos ou como os israelitas: o inglês é para eles a segunda língua, na qual se movem com à vontade, e a outra língua é só para consumo interno. Se estamos preocupados com a afirmação cultural do português o melhor que temos a fazer é dar condições aos seus agentes culturais — os estudantes, professores, intelectuais, artistas — de se afirmarem no mundo. E a melhor maneira de o fazer é dar-lhes uma educação de alta qualidade e o domínio da língua inglesa. O acordo ortográfico é só para levantar poeira porque nada resolve. Mas é muito mais fácil do que pensar realmente em desenvolver o poder cultural das pessoas que são naturais dos países de língua portuguesa. Em última análise porque é sempre mais fácil pensar em abstracções políticas do que em pessoas concretas.

O Carlos afirma ainda o seguinte:

“pensar uma língua sem qualquer espécie de regulação é convidar à sua rápida e irreversível fragmentação.”

Defender que a ortografia não deve ser regulamentada por lei não é defender que a ortografia não será regulamentada. Tal como a gramática não é — felizmente — regulamentada por lei sem que deixe por isso de ser regulamentada por quem de direito (pela prática das pessoas e por quem escreve as gramáticas), também a ortografia pode perfeitamente não ser regulamentada por lei sem deixar por isso de ser regulamentada.

Finalmente, o Carlos acaba dizendo o seguinte:

“o inglês não precisa de acordo ortográfico. É óbvio que não. Mas essa é outra questão, que tem que ficar para outro momento.”

É pena que tenha acabado no princípio. Ficamos então à espera desse outro momento.

A ciência da religião

Where angels no longer fear to tread, The Economist, 19 de Março.

O post do Desidério sobre «Interferência arbitrária», nomeadamente a parte em que ele refere ser «a interferência arbitrária na vida das pessoas» que «torna possível a religião», recordou-me este artigo muito interessante da The Economist que o Luís Alcácer teve a gentileza de me enviar.

O artigo gira em volta de um projecto da Comissão Europeia, que em 2007 atribuiu 2 milhões de euros a um consórcio que integra centros que investigam religião do ponto de vista psicológico, biológico, antropológico e histórico. O objectivo do projecto «Explicando a religião» (descrição em formato pdf) é o desenvolvimento de um programa integrado de pesquisa sobre as bases cognitivas do pensamento e comportamento religiosos.

O projecto é coordenado por Harvey Whitehouse, um antropólogo que nos anos oitenta estudou um mui curioso fenómeno religioso de algumas ilhas do Pacífico Sudoeste, que surgiu em muitas depois da II Guerra Mundial. Esse fenómeno, comum na região da Melanésia e Nova Guiné e muito estudado pelos antropólogos, é designado por «cultos da carga». Pensa-se que existiram cerca de 70 formas diversas de «cultos de carga» dos quais a variante que adora o messias John Frum («Hello, I´m John from America») persiste até hoje no micro-Estado de Vanuatu.

A experiência com os «cultos da carga» permitiu a Whitehouse o desenvolvimento de uma teoria sobre dois modos divergentes de religiosidade, doutrinal e imagístico, classificados a partir dos diferentes processos de codificação e transmissão de conhecimento religioso. O ponto de partida para o seu modelo tem por base a dicotomia entre a memória semântica (representações mentais de uma natureza geral, criadas pela repetição de aspectos rituais) e a memória episódica - representações mentais de eventos experimentados pessoalmente pelo próprio ou por um membro do grupo com que se identifica.

A teoria de Whitehouse, assim como o seu livro «Theorizing Religions Past: Archaeology, History, and Cognition», são fascinantes mas certamente mais fascinante será o resultado deste projecto que reúne especialistas dos vários aspectos da religião, como Patrick McNamara, que dirige o Evolutionary Neurobehaviour Laboratory da Boston University's School of Medicine, Nina Azari, neurocientista da University do Hawaii em Hilo que detém igualmente um doutoramento em teologia, ou Richard Sosis, um antropólogo da Universidade de Connecticut. Foi o trabalho deste último descrito no artigo do The economist que o post do Desidério me recordou.

Sosis recorreu a um catálogo de comunidades da América do século XIX publicado em 1988 por Yaacov Oved da Universidade de Tel Aviv, analisando o percurso de 200 dessas comunidades, 88 delas religiosas e as restantes 112 seculares. Sosis verificou que as comunidades seculares, que não interferiam arbitrariamente na vida dos seus membros, tiveram durações em média quatro vezes menores que as suas análogas religiosas. Nestas últimas, quanto mais interferências arbitrárias impunham aos seus membros maior a sua longevidade - uma delas sobrevive ao fim de 149 anos enquanto a comunidade secular mais longeva dissolveu-se ao fim de quarenta anos.

O estudo da religião numa abordagem científica multidisciplinar é nesta época conturbada por fundamentalismo sortidos uma área que atrai cada vez mais cientistas de que este projecto, a conferência «Evolução da Religião» - que decorreu em Janeiro do ano passado e reuniu muitos dos especialistas deste consórcio - ou a emergência de áreas como a neuroteologia são apenas exemplos. A ciência da religião não pretende investigar a «verdade» de uma religião mas sim as suas manifestações empíricas. De facto, se a discussão da existência de deuses não é tema que diga respeito à ciência mas sim à filosofia, a religião e as experiências religiosas são manifestações muito observáveis que podem ser analisadas como todos os fenómenos do único mundo que conhecemos: um mundo natural que os cientistas tentam entender e descrever.

sábado, 22 de Março de 2008

Eldorado II

A propósito da discussão sobre o pagamento aos criadores, vale a pena ler este Op-ed do NYT: The Royalty Scam, de Billy Bragg.

Tenho mantido uma discussão com o Ludwig, tanto no blog dele como privadamente, sobre este tema. Compreendo melhor as suas ideias, mas não fui persuadido da beleza de uma economia em que as pessoas podem ouvir música, ler livros em PDF e usar software sem pagar directamente aos criadores uma parcela do seu trabalho. Penso que é muito importante explicar às pessoas por que razão devem pagar aos autores do freeware que usam, assim como aos músicos cuja música ouvem, etc. Ao contrário do que Ludwig argumenta, pagar uma parcela aos criadores directamente ou tão directamente quanto possível não é pagar a cópia -- e é nisto que se baseia todo o argumento dele. É pagar uma parcela do trabalho que deu fazer aquilo que depois é copiado tão facilmente.

Esclarecer o público é também importante para que se perceba as diferenças. Por exemplo, se eu pegar numa enciclopédia portuguesa com 90 anos, a digitalizar e a colocar online, não é preciso pagar aos autores originais da enciclopédia, nem faria sentido. Só é preciso pagar-me a mim pelo trabalho de digitalização. Mas se essa enciclopédia depois começa a usar o trabalho de outras pessoas, criadores que actualizam os artigos originais, então esses criadores devem ser pagos.

O que eu acabei de descrever é o que a Wikipédia fez. Mas as únicas pessoas que ganham dinheiro com a Wikipédia são os gestores e o director -- os autores dos artigos nada ganham. Porquê? Porque é gratuita. Sendo gratuita, não gera capital suficiente para pagar aos autores. Mas gera o suficiente para pagar ao director, secretária, advogado, programador, etc.

O mesmo acontece com a campanha Creative Commons. Esta campanha protege os criadores do quê, exactamente? De nada. Qualquer pessoa pode dar o que quiser, para isso não precisa de protecção legal. E as leis existentes já impedem o aproveitamento comercial do que as pessoas criam, sem o seu consentimento. O movimento Creative Commons não tem por objectivo proteger os criadores, mas antes espalhar uma mentalidade na Internet: a mentalidade de que é feio pedir dinheiro pelo trabalho criativo. Não é disto que precisam os criadores. O que os criadores precisam é de campanhas que sensibilizem as pessoas para que elas saibam a importância que é pagar aos criadores sempre que possível, e tão directamente quanto possível. Então para que serve a campanha Creative Commons? Bom, serve para haver algumas pessoas que vivem dos donativos que as pessoas enviam para a campanha. Mas essas pessoas não são os criadores.

O que precisamos é de uma campanha como o Fair Trade, mas para o mundo digital. Precisamos de dar discernimento às pessoas para que saibam que devem pagar todo o freeware que usam, pois só desse modo esses criadores poderão competir com as grandes companhias, como a Microsoft ou a Apple ou a Sun. Que precisam de pagar aos músicos e escritores tão directamente quanto possível, pois só assim poderemos ter criadores independentes. Que precisam de pagar as revistas e jornais online, pois só assim essas revistas e jornais podem manter-se independentes, sem ficarem reféns das grandes companhias que fazem publicidade e dos intermediários da publicidade, como o gigante Google.

Nada disto implica perseguir as pessoas com a polícia, ou proibir o "file sharing". Nada disto implica pagar tudo, incluindo shows de TV que foram feitos e pagos há 40 anos. Há muita coisa que já foi feita há anos, já foi paga e pode ser disponibilizada gratuitamente. Mas para podermos produzir agora coisas novas e de qualidade é preciso que se acabe com a mentalidade borlista que invadiu a Internet.