terça-feira, 28 de setembro de 2010

Andringa e o campo da Morte Lenta


Ontem estive numa sessão onde se falou de jornalismo, a propósito do documentário "Tarrafal" de Diana Andringa. Muito interessante o documentário.

Vale a pena ver com atenção. Aprendi com uma mulher muito interessante que fala pelos cotovelos, talvez porque tem tantas coisas para contar. Uma jornalista séria, com opinião e que aponta questões muito importantes.

O documentário fala do Tarrafal, um campo de concentração criado pelo Estado Novo em 1936 (29 de Outubro) com o objectivo de receber presos políticos e todos aqueles que se recusam a submeter-se. O Tarrafal foi construído para humilhar, e nisso foi muito bem sucedido. Como dizia Esmeraldo Pais de Prata, o primeiro médico do Tarrafal, quando entrou no campo pela primeira vez "não estou aqui para curar, mas para passar certidões de óbito".

Do documentário e das palavras da Diana Andringa, retive várias coisas:

1. O jornalismo e o documentário (como forma de jornalismo com opinião) são uma forma de lutar contra o esquecimento. Pois são. E isso é muito importante e infelizmente cada vez mais raro. Mas apresentam uma perspectiva sobre o assunto em causa. A Diana Andringa percebe bem isso e coloca as coisas cruas nos nossos olhos, deixando-nos vê-las pelo seu lado humanista e de "colega sofredora". De resto, deixa os juízos de opinião para nós próprios.

2. "O jornalismo faz-se com os pés". Isto devia estar escrito na porta de todas as escolas de jornalismo. É preciso ir ao local, falar com as pessoas, ver, ouvir e sentir. Uma mensagem muito importante nestes dias de jornalismo de "agências de comunicação".

3. Em todo o documentário, com dezenas de entrevistados, não se sente por uma única vez nada que se pareça com ódio. Não. Mas fica bem clara a marca da humilhação. Muito clara. Nisso o Tarrafal era um enorme sucesso, e a Diana Andringa soube passar bem esse sentimento.

4. Impressionou-me muito o senhor que levou para a entrevista as calças que usava na prisão. Todas rotas, fracas. Eram a marca da humilhação que ele não consegue esquecer, e que nos pede para não esquecermos. Memória. É outro dos objectivos muito bem conseguidos deste documentário. Documentar para memória futura e não esquecer o que fizemos como nação. Nem esquecer, sem julgamentos populares nem apreciações precipitadas, as pessoas envolvidas na organização daquele terror. É uma mensagem que Andringa pretende transmitir e que faz de forma muito subtil passando, por exemplo, um documento do Ministro do Ultramar (Adriano Moreira).

Este documentário deveria ter mais perspectivas e mais depoimentos. Também para memória futura. De pessoas que estiveram do outro lado. Gostava de ter ouvido o director "Fontes", alguns dos guardas da prisão, pessoas do regime ligadas ao Tarrafal, médicos, o alferes que segurava a mão do Capitão Domingos.

Falta memória em Portugal. Mas acima de tudo falta o estímulo à reflexão sobre a nossa história. Será isso que impedirá que se volte a repetir aquilo que todos lamentamos.

A única coisa em que discordo de Andringa é na "vergonha do passado". Eu não me envergonho de nada da nossa história. Lamento que tenham acontecido, e fico chocado com a perversidade e maldade de muitos momentos da nossa história colectiva, mas não me envergonho. Só me envergonho da nossa capacidade de esquecer, e com isso permitir que certas coisas voltem a acontecer. Essa sim é uma forma de "Morte Lenta".

J. Norberto Pires

6 comentários:

  1. Acompanho-o. A presunção de que temos sempre forma de não errar é manifestamente exagerada. Penso que fazemos melhor em aprender a incorporar humildemente os erros nos processos que nos levam para o futuro que a investir em penitências envergonhadas.

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  2. Morte lenta tem a gente
    nesta grande pasmaceira
    em que a nação toda inteira
    vivendo está no presente!

    JCN

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  3. A apodrecer lentamente,
    à margem do Tarrafal,
    houve muitímma gente
    sem sair de Portugal!

    JCN

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  4. As vergonhas do passado
    não comprometem ninguém,
    senão somente o culpado,
    credor do nosso desdém!

    JCN

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  5. Preciso, agora, é coragem
    para, com vista ao futuro,
    escrever nova "Mensagem",
    como fazê-lo procuro.

    Outro género de heróis,
    outros sábios, outros santos,
    outros astros, outros sóis,
    outros ceptros, outros mantos!

    Uma nação sem cadeias,
    com justiça e segurança,
    com livre curso de ideias
    e no poderconfiança!

    Um Portugal europeu
    que ancorado no passado
    abra o caminho do céu
    do nosso sonho adiado!

    JCN

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  6. Muito interessante a sua abordagem. Esquecer é que é "Morte Lenta"!
    Gratificante.

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