sexta-feira, 24 de setembro de 2010

NAS ENTRANHAS DA TERRA


Minha crónica publicada no "Sol" de hoje:

Todo o mundo tem acompanhado com emoção as operações de salvamento dos 33 mineiros que ficaram presos numa mina chilena de cobre e ouro, a 700 metros de profundidade. No dia 5 de Agosto deu-se um desabamento que isolou uma equipa de trabalhadores na mina, tendo passado cerca de duas semanas até serem recebidos sinais de que estavam vivos. Uma mensagem emergiu, rascunhada num papel por um dos desaparecidos, depois de passar por um furo construído para os procurar. E hoje, por esse e por mais dois furos, entram na mina ar, energia, alimentos e alguns meios de socorro. Entra também e sai informação, tanto em forma escrita como audiovisual. A tecnologia de fibras ópticas permitiu que os mineiros vissem, em directo, o jogo de futebol do Chile contra a Ucrânia que teve lugar em Kiev.

Para salvar os refugiados não há um mas três planos. O Plano B, apesar de ser o segundo em nome, é o que vai mais adiantado. A ponta da perfuradora Schramm T-130 SX chegou no dia 18 de Setembro a uma galeria acessível aos mineiros, a cerca de 630 metros de profundidade, sendo agora necessárias seis semanas para alargar o diâmetro do furo de tal modo que eles possam ser retirados, um a um, dentro de uma estreita cápsula, do terrível local onde se encontram. A máquina do plano A ainda não chegou a metade do caminho e a gigantesca máquina petrolífera do plano C, que é a mais rápida de todas, só há pouco começou a operar.

De entre as numerosas mensagens de solidariedade e encorajamento que têm chegado ao fundo da mina uma das mais curiosas veio de uma equipa de seis astronautas russos, europeus e chineses que estão a simular uma viagem a Marte dentro de uma nave fechada num laboratório em Moscovo: “Permaneçam ocupados, cuidem da vossa saúde e mantenham a rotina dia-noite”. Nesta experiência, planeada para 520 dias, o isolamento não é total, pois os tripulantes comunicam com o exterior embora com o atraso que haveria numa viagem real ao planeta vermelho. Ensaios de confinamento deste tipo interessam não só à agência espacial da Europa, que nela participa, mas também à NASA, com vista a melhor preparar missões espaciais de longa duração.

Como pode haver sucessão dos dias e das noites fora da superfície da Terra? Dentro da mina ou da nave, essa sucessão é proporcionada por luz artificial. Mas o que se passa sem luz nem relógios? Experiências realizadas por espeleólogos no interior de grutas, à margem do tempo, mostraram que o nosso corpo tem um ritmo próprio, bem diferente do que é imposto pelo movimento de rotação da Terra: ele prefere dias de 48 horas em vez de dias de 24 horas. No interior da mina chilena, o ritmo de vida é idêntico ao de cá de cima, até porque em breve os mineiros devem estar à superfície.

7 comentários:

  1. Dia-noite é um conceito
    perfeitamente arbitrário:
    existe só, com efeito,
    no nosso vocabulário!

    JCN

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  2. Quanto mais o ser humano
    perscruta a zona dos céus
    mais se aproxima de Deus
    e se afasta do gusano!

    JCN

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  3. Parece oportuno, a propósito dos mineiros “acorrentados” na “caverna” da mina chilena, configurando no séc. XXI, a representação da “Alegoria da Caverna”, de Platão, a exposição didáctica do filósofo brasileiro Paulo Ghiraldelli oferecida neste vídeo, sobre o tema que o Professor Carlos Fiolhais, em boa hora nos ofereceu.

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  4. Semântica?

    será correto chamar TÚNEL
    a um furo em profundidade (na vertical)
    com poucos centímetros de diâmetro?

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  5. O túnel não tem que ser
    totalmente horizontal,
    podendo ser, por igual,
    a subir ou a descer!

    JCN

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  6. Entre o túnel e o furo
    a diferença é escassa,
    pois que de facto não passa
    da largura e do seguro.

    JCN

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  7. Versão melhorada:

    Entre o túnel e o furo
    a destrinça é muito escassa,
    pois, a bem dizer, não passa
    dos desígnios que procuro.

    JCN

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