THE PORTUGUESE RECTORS ON THE EUROPEAN SCIENCE FOUNDATION EVALUATION

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

A INVASÃO FRANCESA DA UNIVERSIDADE


A 1 de Outubro de 2010 perfazem-se 200 anos que o exército de Massena invadiu Coimbra e a Universidade. Para saber sobre os estragos causados a essa escola, pode ler-se no Google Books esta obra de Mário Brandão: "Estudos Vários", vol. 2, Universidade de Coimbra, vol. 2: aqui.

A Justiça Fiscal de Saldanha Sanches


Texto recebido do nosso leitor Augusto Kuettner Magalhães:

Saiu no sábado passado um excelente pequeno livro sobre Justiça Fiscal escrito em 2010 por J. L. Saldanha Sanches a pedido da Fundação Francisco Manuel dos Santos sendo possível, com a sua leitura, muito aprender sobre o assunto.

Inicia-se a obra com uma explicação genérica sobre o tema em questão e sobre as incumbências do Estado ao redistribuir o que recebe pelos impostos das pessoas e das empresas. Saldanha Sanches tem em devida atenção que a despesa pública pressupõe sempre a tributação, para ser exequível.

Segue-se uma elucidativa viagem pela história da evolução do sistema fiscal, no Reino Unido e nos EUA. Aborda o evoluir histórico dos tempos e o seu efeito na redistribuição do valor cobrado via impostos e taxas, passando pela legitimidade global da tributação, o ordenamento jurídico,e os direitos de propriedade. Faz uma abordagem à Revolução Francesa e constata que foram os impostos o centro do conflito. Discute o surgimento do Estado Fiscal, dando uma visão sobre os impostos em Portugal do Antigo Regime e o consequente papel da Constituição.

Aborda a acção dos tribunais na legalidade fiscal e a tributação de acordo com a capacidade contributiva de cada cidadão/contribuinte, isto é, o seu rendimento. Dá explicações sobre taxas progressivas e taxas proporcionais, refere o papel da Constituição de 1976 e a sociabilização económica que se seguiu. Trata o IVA e o controlo da fraude e evasão, passando para o conceito de justiça numa democracia, incluindo as garantias dos contribuintes e os benefícios fiscais. Faz uma passagem pelas reformas fiscais, reafirmando que todas as tarefas que cabem ao Estado implicam um custo.

Por fim não esquece as mais que necessárias abordagens à concorrência fiscal e às zonas de baixa ou nula fiscalidade, vulgo paraísos fiscais. E não falta a mais que necessária referência aos impostos do ambiente, com evidente ligação ao petróleo (um bem finito) e às alternativas não poluentes, deixando a fundamentação para um forte implemento de energias renováveis e não poluente menos taxadas ou quase isentas.

Acabamos a ler uma breve digressão pela retroactividade fiscal, algo muito em dúvida nestes dias que estamos a viver, tão turbulentos a nível de redução de despesa pública e do aumento de impostos.

Um excelente trabalho, o último de J.L. Saldanha Sanches, feito já doente – na cama de um hospital público - com um cancro que o veio a vitimar, em Maio de 2010. Ficou esta última obra, entre outras que escreveu ao longo da sua vida, escrita num momento em que todos temos que melhor entender a Justiça Fiscal, para melhor compreendermos tudo o que se refere com a cobrança de impostos pelo Estado e sua redistribuição. E ficou um exemplo de vida na luta contra a corrupção, contra a incorrecção fiscal, contra as injustiças, luta essa que foi sendo acompanhada em paralelo por sua mulher, Maria José Morgado, por uma luta contra o crime e os criminosos. Ambos defenderam e defendem ideias e ideais, num tempo em que muitos falam e poucos dão o exemplo.

A obra pode ser adquirida a muito baixo custo numa livraria, num quiosque ou num supermercado.

Augusto Kuettner Magalhães

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

A sociedade vigilante

A preocupação com a segurança de pessoas e bens e com a qualidade de serviços e instituições tem constituído argumento necessário e suficiente para se justificar a instalação duma panóplia de sofisticados sistema de vigilância e controlo em espaços exteriores e interiores, em contextos reais e virtuais: aeroportos, hospitais, tribunais, lojas, recintos desportivos, laboratórios, escolas, ruas, prédios, bibliotecas, correio electrónico, telefones… As câmaras de filmar, os cartões electrónicos, as impressões digitais, a leitura da retina, os chips, os satélites... entraram no nosso vocabulário e no nosso modo de ver e estar no mundo.

Poderíamos pensar que se trata de uma imposição por parte de instâncias com poder, correlativamente, aceite pelas pessoas comuns, numa atitude conformista, de quem nada pode fazer a não ser sujeita-se à autoridade.

Pelo que me é dado perceber, não é bem assim… As próprias pessoas, letradas e não letradas, de esquerda, de direita ou do centro, das cidades ou das aldeias, velhas, de meia-idade ou novas… não só aceitam de boa mente essa vigilância e controlo, como os reivindicam se não existem e onde existem querem-nos redobrados.

De modo que se me afigura ligado ao que acima disse, as solicitações de televisões, de revistas e jornais, da internet… para disponibilizar dados particulares, para se retratar, para contar o seu caso, para mostrar o seu quotidiano, para dizer o que faz, o que pensa, o que lhe vai na alma, de si e dos outros, entrou nos hábitos sociais.

Mais uma vez aqui se podería pensar que se trata de coerção mais ou menos dissimulada, que as pessoas comuns, por necessidade económica ou outra, por constrangimento ou desejabilidade social, por serem apanhadas desprevenidas, ou por falta de preparação intelectual, aceitam mas a contra-gosto.

Mas, também pelo que me é dado perceber, a explicação está longe de ser esta… As próprias pessoas, seja qual for a sua condição, disponibilizam amostras de comportamentos e sentimentos privados e até íntimos, partilham acontecimentos que só a si e aos seus dizem respeito, contam o seu dia-a-dia e daqueles com quem se cruzam, ilustram os discursos com imagens da sua casa, do seu quarto, publicam fotografias suas, de amigos, dos filhos…

Assim, neste início de século, tudo e todos parecem estar a ser observados, a todo o momento, em relação a todas as dimensões da vida…

Todas estas considerações a propósito de um livro que me parece dissonante da tendência opinativa. Problematiza, apresenta teorizações e estudos, leva a pensar na nossa identidade e no modo de nos relacionarmos.

Tem por título: A Sociedade Vigilante - Ensaios sobre identificação, vigilância e privacidade, foi organizado pela antropóloga Catarina Fróis e publicado em 2009 pela Imprensa de Ciências Sociais.

Trata-se de uma obra que "reúne um conjunto de ensaios de proeminentes cientistas sociais, nacionais e internacionais, que procuram problematizar a implementação e legitimação de vários mecanismos de controlo vigentes na sociedade contemporânea. Aqui são abordados temas como a videovigilância; o policiamento; a introdução de novos cartões de identificação; a regulação das politicas de protecção da privacidade individual; o uso e recolha de dados pessoais (estatísticos e genéticos) para fins governamentais ou comerciais. Os autores deste livro propõem-se mostrar que estar alerta, ser-se vigilante, é uma preocupação pertinente para a academia, para decisores políticos e para a sociedade civil, procurando contribuir para um debate lúcido e informado em torno destas matérias."

Econometria da educação

Excelente artigo de Nuno Crato, publicado na edição da revista Única do semanário Expresso de 25 de setembro de 2010.
:-)

"Uma das descobertas mais surpreendentes dos modernos estudos sociais quantitativos é a "não existência de uma relação sistemática nem de relações fortes entre os gastos da escola e o desempenho dos estudantes". A frase é de Erik Hanushek, um dos principais fundadores da chamada "economia da educação", uma área académica que recorre a métodos estatísticos e a conceitos e modelos de economia para estudar o ensino.

A descoberta é surpreendente e perturbante, pois uma das premissas habituais dos responsáveis educativos é a de que, colocando mais meios à disposição da escola - por exemplo, computadores - ela educará melhor os seus alunos. Mas não é nem surpreendente nem perturbante para quem nela trabalha. Claro que há sempre recursos que faltam, e que é importante, por exemplo, melhorar o acesso às modernas tecnologias. Mas o essencial é a formação dos professores, os pais, a boa estruturação e a exigência dos programas, a qualidade dos manuais, o rigor da avaliação e outros fatores da atividade letiva.

Recentemente, como já aqui referimos, um grupo de investigadores da Universidade Duke, na Carolina do Norte, analisou uma amostra gigantesca, de 150 mil estudantes, seguidos ao longo de cinco anos, concluindo que os jovens não melhoram os seus conhecimentos pelo simples uso de computador pessoal. Os rapazes têm mesmo algum retrocesso escolar, um retrocesso modesto, mas estatisticamente significativo.

Mais recentemente ainda, investigadores do Instituto Superior Técnico e da Universidade de Carnegie Mellon estudaram os resultados da introdução de banda larga nas escolas portuguesas. Analisaram mais de 900 escolas entre os anos 2005 e 2009 e registaram as classificações dos alunos no 9º ano de escolaridade. Construíram um modelo de "função de produção" com base nas "primeiras diferenças", de onde extraíram as suas conclusões.

Uma função de produção é uma função matemática que relaciona os resultados com os recursos e que pode ser estimada com instrumentos estatísticos estudados em econometria. A equação que os investigadores utilizaram não é linear e os interessados poderão analisá-la aqui. O método das "primeiras diferenças", por seu turno, é a consideração dos incrementos em vez dos valores originais. Ou seja, em vez de comparar as notas com o uso da Internet, compara-se o aumento ou a diminuição das notas com o aumento ou a diminuição do uso da Internet ao longo dos anos. Tenta-se assim isolar os fatores em estudo, eliminando a influência de condicionantes perturbadoras, como a qualidade das escolas ou os rendimentos das famílias.

O que os investigadores verificaram foi que as escolas em que mais tinha aumentado o uso da Internet foram aquelas em que os resultados escolares mais diminuíram. Notaram ainda uma tendência, embora menos evidente, para que os resultados tivessem piorado mais nas escolas em que o acesso à Internet foi, possivelmente, menos bem enquadrado.

Os resultados são provisórios, limitados a uma série curta, que apenas mede um primeiro efeito, e sujeitos à crítica, como tudo em ciência. Mas é encorajador que os temas de educação sejam estudados com este rigor quantitativo. Hanushek, Daniele Checchi, William Schmidt e outros grandes nomes da economia e econometria da educação estarão em Portugal em janeiro. Será interessante ver como esta área está desenvolvida entre nós e que resultados serão apresentados.

Por culpa de uma certa ortodoxia

Num artigo do jornal Público, Bárbara Wong dá conta de que a Comissão Nacional de Acesso ao Ensino Superior (CNAES) irá propor brevemente alterações à lei de acesso ao Ensino Superior.
Virgílio Meira Soares, presidente desta comissão considera que, se os alunos têm um percurso diferente não podem ser tratados da mesma maneira”. “Temos que dar condições para que nenhum seja prejudicado, mas também que uns não prejudiquem os outros. Todos têm de ter igualdade de oportunidades”, defende (...). Ontem, a comissão chamou os representantes das universidades e politécnicos para decidir que mudanças propor ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior.»
Alterações que a Ministra da Educação não considera relevantes e que são frontalmente contestadas pelo presidente da Agência Nacional para a Qualificação:

«“Não podemos permitir que as portas [do ensino superior] se voltem a fechar por culpa de uma certa ortodoxia”, apela Luís Capucha (...), responsável pelas Novas Oportunidades, criticando os “puristas” que querem o ensino superior só para alguns. “Se há coisa mais pura é o puro preconceito elitista, obsoleto e até ineficiente do que é o ensino superior”, acusa. Se o ensino superior se fechar aos alunos que vêm das Novas Oportunidades “voltaria a cheirar ao bafio do antigamente”, alerta.»

"Mas contextualizando sempre"


Soube-se ontem que o romance Ilusão ou o Que Quiserem de Luísa Costa Gomes recebeu o prémio Fernando Namora/Estoril Sol. O júri destacou, entre outros aspectos, o seu "ágil registo estilístico de constante ironia, quer pela análise penetrante de alguns comportamentos tipo da actual sociedade portuguesa, muito em especial no tocante a métodos pedagógicos aplicados nas escolas".

Do livro revelador desta professora que deixou o ensino, já tinha deixado notícia aqui e aqui), mas não posso deixar de aproveitar este feliz acontecimento para tarnscrever mais uma passagem de ficção admiravelmente real (páginas 40-41).

"Durante toda a semana a Teresesinha veio pouco a casa. Quando por fim lhe perguntei pelo trabalho, disse-me naquele tom didáctico dos momentos pré-colapso em princípio teríamos de nos mudar para mais perto da Jessica, porque era muito desgastante segui-la de tão longe sem uma base doméstica. Estava agora firmemente convencida de que para a Jessica ter sucesso era preciso que todo o contexto familiar fosse educado, porque a escola nada pode quando não há transmissão dos valores fundamentais do humanismo, nem sentido crítico na avaliação das mensagens dos média (...).

O projecto de Teresesinha era elevar a família de Jessica em peso (mãe e cinco meios-irmãos, um de cada pai), à fruição estética e morfolinguística. Queria propor-lhe uma ida ao teatro e contava comigo para fornecer o espectáculo. «Educação pela Arte», disse ela, de forma significativa. «Mas nós nem sabemos ainda o que fazer a seguir», disse eu. Era incomensurável o que se jogava na primeira experiência cultural daqueles desfavorecidos. «Que fazer?», perguntou-me. «Vamos devagar» aconselhei. «Começas por uma ida ao cinema, vais com eles ver um filme menos javardo, depois discutem, fazem um passeio à Expo, visitam uma coisa de banda desenhada e vais subindo por aí acima, aumentando o grau de complexidade e...» «Mas contextualizando sempre», disse ela. «Sempre», disse eu e lá mais para o fim do ano escolar, quando os sentires bem motivados e com bom olho para os contextos, vais com eles a um Museu.». Ela ponderou a hipótese. «Se for entrada livre, ainda se pode pensar nisso.» E teorizou. «As pessoas sentem-se muito descontextualizadas. Vêem, mas não sabem o que estão a ver. Como não sabem, não gostam. E depois não querem ver mais.» «A resposta é a integração», rematei. Não queria parecer pouco entusiasmada. «Como é possível eles aprenderem o que quer que seja se deixarem as raízes para trás?» Não lhe quis dizer que em princípio todos nós deixamos as nossas raízes para trás. «É uma família muito desestruturada, muito carenciada, a de Jessica. Como é que ela pode aprender o que quer que seja se não está integrada numa cultura? É óbvio que tem de haver programas específicos para estas pessoas!» Matemática para Pobres, Geografia para Refugiados, Biologia para Minorias», disse eu."

O BAPTISMO DOS ET


Carlos Oliveira comenta no blogue astro.pt a vontade da Igreja Católica de baptizar extraterrestres: aqui.

O MASSACRE DE COIMBRA


Outro extracto das "Campanhas do Exército de Portugal. 181o" (do francês M. Gingret, Livros Horizonte), que conta como os feridos franceses da batalha do Buçaco foram deixados pelos seus camaradas na cidade de Coimbra, que foi saqueada, para depois serem massacrados pela milícia portuguesa que recuperou a cidade:

"O número de desgraçados que se teve a crueldade de abandonar em Coimbra elevara-se a cerca de três mil: havia poucos doentes, a maior parte eram os bravos, feridos no Buçaco... Mais de um milhar destas vítimas teriam podido seguir-nos e combater ainda mais nas nossas fileiras, decorridos dois meses, se se tivesse metido todos os chefes de corpo dentro da confidência. Sim, os comandantes dos regimentos teriam podido levar e salvar metade dos soldados que deixaram em Coimbra, se tivessem sido prevenidos que não deviam abandoná-los sem piedade. Todavia deixou-se ficar uma pequena companhia para fornecer sentinelas aos hospitais: era sacrificar mais alguns soldados. (...)

Nestas circunstâncias, soubemos que os três mil infelizes que abandonáramos em Coimbra tinham sido levadois e conduzidos para o Porto, por um corpo de três mil portugueses que os tinham maltratado muito, sobretudo no momento em que estes entraram nos hospitais. Todos os objectos que os nossos desafortunados companheiros tinham podido conservar, todas as suas roupas lhes foram confiscadas desumanamente; as ligaduras que comprimiam as suas feridas foram-lhes arrancadas, apesar dos seus gritos de dor, pois alguns soldados portugueses movidos por uma avareza sórdida contavam ainda descobrir dinheiro escondido junto às chagas vivas e sangrentas. Este acontecimento tão desencorajador para o exército, e que os historiadores qualificarão com um epíteto mais enérgico, teve a lugar a 7 de Outubro.

Os nossos soldados, tendo adquirido a certeza de que não fora deixada nenhuma guarnição em Coimbra para zelar pela segurança dos seus camaradas, feridos num combate em que tomaram parte com tanto valor, manifestaram-se abertamente contra Massena. Desde então, o exército passou a valer muito menos; o general já não gozava de toda a sua confiança".

Na foto: O Mosteiro de Santa-Clara- a-Nova, adaptado a hospital pelos militares franceses.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Andringa e o campo da Morte Lenta


Ontem estive numa sessão onde se falou de jornalismo, a propósito do documentário "Tarrafal" de Diana Andringa. Muito interessante o documentário.

Vale a pena ver com atenção. Aprendi com uma mulher muito interessante que fala pelos cotovelos, talvez porque tem tantas coisas para contar. Uma jornalista séria, com opinião e que aponta questões muito importantes.

O documentário fala do Tarrafal, um campo de concentração criado pelo Estado Novo em 1936 (29 de Outubro) com o objectivo de receber presos políticos e todos aqueles que se recusam a submeter-se. O Tarrafal foi construído para humilhar, e nisso foi muito bem sucedido. Como dizia Esmeraldo Pais de Prata, o primeiro médico do Tarrafal, quando entrou no campo pela primeira vez "não estou aqui para curar, mas para passar certidões de óbito".

Do documentário e das palavras da Diana Andringa, retive várias coisas:

1. O jornalismo e o documentário (como forma de jornalismo com opinião) são uma forma de lutar contra o esquecimento. Pois são. E isso é muito importante e infelizmente cada vez mais raro. Mas apresentam uma perspectiva sobre o assunto em causa. A Diana Andringa percebe bem isso e coloca as coisas cruas nos nossos olhos, deixando-nos vê-las pelo seu lado humanista e de "colega sofredora". De resto, deixa os juízos de opinião para nós próprios.

2. "O jornalismo faz-se com os pés". Isto devia estar escrito na porta de todas as escolas de jornalismo. É preciso ir ao local, falar com as pessoas, ver, ouvir e sentir. Uma mensagem muito importante nestes dias de jornalismo de "agências de comunicação".

3. Em todo o documentário, com dezenas de entrevistados, não se sente por uma única vez nada que se pareça com ódio. Não. Mas fica bem clara a marca da humilhação. Muito clara. Nisso o Tarrafal era um enorme sucesso, e a Diana Andringa soube passar bem esse sentimento.

4. Impressionou-me muito o senhor que levou para a entrevista as calças que usava na prisão. Todas rotas, fracas. Eram a marca da humilhação que ele não consegue esquecer, e que nos pede para não esquecermos. Memória. É outro dos objectivos muito bem conseguidos deste documentário. Documentar para memória futura e não esquecer o que fizemos como nação. Nem esquecer, sem julgamentos populares nem apreciações precipitadas, as pessoas envolvidas na organização daquele terror. É uma mensagem que Andringa pretende transmitir e que faz de forma muito subtil passando, por exemplo, um documento do Ministro do Ultramar (Adriano Moreira).

Este documentário deveria ter mais perspectivas e mais depoimentos. Também para memória futura. De pessoas que estiveram do outro lado. Gostava de ter ouvido o director "Fontes", alguns dos guardas da prisão, pessoas do regime ligadas ao Tarrafal, médicos, o alferes que segurava a mão do Capitão Domingos.

Falta memória em Portugal. Mas acima de tudo falta o estímulo à reflexão sobre a nossa história. Será isso que impedirá que se volte a repetir aquilo que todos lamentamos.

A única coisa em que discordo de Andringa é na "vergonha do passado". Eu não me envergonho de nada da nossa história. Lamento que tenham acontecido, e fico chocado com a perversidade e maldade de muitos momentos da nossa história colectiva, mas não me envergonho. Só me envergonho da nossa capacidade de esquecer, e com isso permitir que certas coisas voltem a acontecer. Essa sim é uma forma de "Morte Lenta".

J. Norberto Pires

"AS PEDRAS E AS PALAVRAS", POR GALOPIM DE CARVALHO

Vale a pena ler o texto "As pedras e as palavras" no blogue do geólogo e grande divulgador científico Galopim de Carvalho (blogue onde também se encontram saborosas receitas alentejas): aqui.

A DERROTA DO BUÇACO


Ontem assinalaram-se os 200 anos da batalha do Buçaco, que marcou o início do fim das invasões francesas. Eis o relato da coluna dos vencidos, feito pelo militar francês M. Guingret (in "Campanhas do Exército de Portugal. 1810", Livros Horizonte, 2010, introdução de António Ventura, p. 48):

"Durante o Inverno, suportei noites bem terríveis na Alemanha e na Polónia, mas a noite em que deixámos a posição do Buçaco é uma das épocas da minha vida em que me senti mais duramente afectado. A marcha lenta e grave do nosso exército, ocupado com o transporte dos seus numerosos feridos em macas, oferecia o aspecto de uma longa fila de carros fúnebres. O silêncio sombrio e triste da obscuridade era perturbado pelo barulho surdo e lúgubre das rodas da artilharia. Soldados maltratados esforçavam-se em vão por conter a expressão dos seus sofrimento; os gritos dilacerantes de dor, meio comprimidos pelos esforços de coragem, escapavam-se, em intervalos, do fundo das suas entranhas e faziam estremecer de compaixão até o coração menos sensível. Os cadáveres daqueles a quem a morte pusera termo ao sofrimento no meio desta marcha aflitiva, depostos na borda das valetas, serviam para fazer o reconhecimento da estrada, através da escuridão, às tropas que nos seguiam. os gritos agudos das aves de rapina que fugiam do meu refúgio e abandonavam os ninhos à medida que avançávamos, e de algumas que acompanhavam audaciosamente o exército, cobiçando a sua presa, acrescentavam algo ainda de mais sinistro a este cenário"

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Ovário Humano Artificial

Nova crónica de António Piedade, saída no "Diário de Coimbra":

Os ovários humanos são órgãos onde são produzidas e amadurecidas as células germinativas, ou gâmetas, femininas. Cada ovário, como qualquer outro órgão, é constituído por diferentes tipos de tecidos, cada qual com uma função anatómica e/ou fisiológica específica.

Em termos muito gerais, distinguem-se em cada ovário uma zona interna e central designada por medular, muito irrigada por vasos sanguíneos, e uma zona cortical, periférica, contendo inúmeros folículos ováricos em diferentes estádios de desenvolvimento.

É no interior de cada folículo, futuras enseadas de ovulação, que se encontram os oócitos (gâmetas femininos). No momento do nascimento do ser feminino, os ovários possuem cerca de quatro milhões de folículos, cada um, por sua vez, albergando um oócito primário. Destes, só 400 se desenvolverão em gâmetas capazes de serem fecundadas por um único espermatozóide.

No folículo primordial, o oócito primário encontra-se rodeado unicamente por um folheto de células designadas por granulosas. Parte destas, conjuntamente com a zona pelúcida, formarão a última barreira para a penetração do espermatozóide no óvulo. Mas as células da granulosa possuem uma actividade hormonal e reguladora insubstituível. Num sincronismo sussurrante com o oócito, espalham a notícia do estado do seu desenvolvimento, secretando para o resto do corpo feminino a hormona estrogéneo e sublinhando, com pequenas quantidades de progesterona, a etapa libertatória da ovulação.

A granulosa secreta ainda uma outra hormona, a inibina, e outras substâncias que mantêm o oócito num determinado estado de desenvolvimento (paragem meiótica em metáfase II) numa cândida e imaculada espera.

Com o crescimento do oócito, as outras células foliculares expandem-se e formam a teca. Esta circunda o futuro óvulo, rodeado pela granulosa, e estimula esta última a secretar estrogéneo. Com o crescimento folicular, forma-se um antro líquido marginado pela teca, como se o futuro óvulo estivesse a ser treinado para “navegar”.

Diga-se, de passagem, que estas actividades secretoras estão em sintonia e dependem da concentração sanguínea de outras hormonas secretadas pela hipófise como sejam a FSH e a LH; que a granulosa desempenha papéis importantes nas primeiras etapas do desenvolvimento embrionário e na sua nidação no útero.

Neste contexto, entende-se que qualquer perturbação anormal sobre os folículos pode comprometer o desenvolvimento de células reprodutoras femininas e levar a uma situação de infertilidade. É o caso de mulheres sujeitas a tratamentos anticancerígenos que podem inviabilizar a função folicular ovárica e logo a reprodutiva. Nestes casos, a prévia criopreservação de tecidos ováricos e posterior implante autólogo já permitiu o nascimento de crianças em mães entretanto sujeitas a químio- ou radioterapias.

Outra estratégia é a que foi agora publicada na revista Journal of Assisted Reproduction and Genetics por investigadores da Universidade de Brown e do Women & Infants Hospital em Rhode Island (USA). Através de novas técnicas da engenharia de tecidos, mostram terem conseguido construir a arquitectura tecidular característica do folículo ovárico humano num molde 3D de gel de agarose e que este designado “ovário humano artificial” é potencialmente funcional para o amadurecimento de oócitos.

Estaremos perante uma nova esperança para a infertilidade feminina?

António Piedade

OVÁRIO ARTIFICIAL: ENTREVISTA COM JOÃO RAMALHO SANTOS


Entrevista de António Piedade a João Ramalho-Santos, Investigador Principal do grupo de Biologia da Reprodução e Fertilidade Humana do Centro de Neurociências (CNC) e Professor Associado do Departamento de Ciências de Vida da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC):

António Piedade – Investigadores da Universidade de Brown e do Women & Infants Hospital em Rhode Island (USA) publicaram um artigo no Journal of Assisted Reproduction and Genetics em que mostram terem desenvolvido, pela primeira vez e artificialmente, uma estrutura tecidular tridimensional que mimetiza um ovário. O que é um ovário artificial e quais as suas aplicações actuais na medicina reprodutiva?

João Ramalho-Santos – Têm sido publicados vários estudos deste género, e nenhum ainda provou ser funcional (resultando em nascimentos). Isso apenas sucedeu em modelos animais, como os ratinhos. O trabalho relaciona-se (embora indirectamente) com a área de Oncofertilidade, e com o facto de mulheres poderem perder a sua capacidade reprodutiva após um tratamento oncológico. A ideia é que se possam recolher pequenos pedaços do ovário antes do tratamento, de modo a congelá-los e a serem utilizados pela mulher posteriormente. Há várias hipóteses para o uso desses pedacinhos de ovário: ou transplantá-los para a mulher de modo a restaurar a fertilidade, ou obter oócitos funcionais in vitro, mimetizando a estrutura e função do ovário de modo a obter oócitos a utilizar em Reprodução Assistida a partir do tecido congelado.

AP - Entre o nascimento de Louise Brown, primeiro bebé-proveta, a 26 de Julho de 1978, e o prenuncio de ovários artificiais fruto da actual engenharia de tecidos, decorreu uma intensa revolução na biologia celular e molecular e uma excitante evolução no conhecimento que temos sobre a fertilização e desenvolvimento embrionário. Pode-nos retratar os principais desenvolvimentos ocorridos desde então para podermos contextualizar a “passagem” do tubo de ensaio para o ovário artificial?

JRS - Houve desenvolvimentos muito importantes. O maior de todos foi a introdução da injecção intracitoplasmática de um espermatozóide no oócito (ou ICSI), por Gianpiero Palermo e colaboradores em 1993. Geralmente a técnica é utilizada quando há poucos espermatozóides ou estes são imóveis, mas tem suplantado a fertilização in vitro "clássica" em muitos centros. Infelizmente podemos hoje dizer que muitos "desenvolvimentos" difundidos nos últimos anos (a aplicação de técnicas de clonagem, o uso de gâmetas masculinos imaturos, por exemplo) têm uma taxa de sucesso que nem sequer é baixa, é zero. Houve na divulgação destas técnicas alguma irresponsabilidade e excesso de mediatismo (também em Portugal) que mascarou os pequenos, mas cruciais incrementos na qualidade dos serviços prestados em termos de manuseamente e cultura de gâmetas e embriões, estimulação hormonal, e uso de técnicas (simples ou sofisticadas) para determinar causas de infertilidade e qualidade dos gâmetas, de modo a escolher os melhores. É bom as pessoas saberem que há causas para a infertilidade, que estamos a tentar (e bem) levar a cabo algo que não ocorre durante uma actividade sexual normal, por qualquer motivo, e que não há técnicas nem centros milagrosos. A taxa de sucesso do ponto de vista mundial é muito constante e ronda os 30%.

AP - Após a fecundação, o óvulo fecundado “viaja”, das trompas de Falópio até ao útero, “embrulhado” em folhetos celulares provenientes do ovário. É possível esperar diferenças entre embriões desenvolvidos in vitro ou in ovarius artificialis (se me permite a designação)?

JRS – É, sobretudo num dos aspectos actualmente mais em voga na biologia celular e molecular: a epigenética. Sabemos hoje que mesmo que os genes se mantenham inalterados do ponto de vista da sequência clássica de ADN, poderão sofrer alterações subtis que condicionarão a sua actividade. Está provado que alterações epigenéticas ocorrem em gâmetas e embriões cultivados in vitro (com alguns efeitos a longo prazo em ratinhos), e não seria surpreendente que ocorresse neste caso. Obviamente que o objectivo é tentar mimetizar o que sucede no humano, mas é bom lembrar que se podem fazer experiências em ratinhos que seria difícil ou impossível fazer em humanos, quer por razões práticas, quer por razões éticas.

AP – Qual a expectativa da aplicação deste e outros avanços provenientes da bioengenharia de tecidos, para uma melhor compreensão quer da fecundação quer das primeiras etapas do desenvolvimento embrionário?

JRS – O desenvolvimento embrionário inicia-se com a fecundação, que já ocorre nas Trompas de Falópio. No entanto este tipo de estratégia pode ser muito importante para estudar o desenvolvimentos dos folículos ováricos, no interior dos quais estão os oócitos. Pode ser obtida informação básica muito relevante, que depois ajude a amadurecer oócitos in vitro, até em casos em que tal não ocorre, por algum motivo. Nos mamíferos há sempre o problema de estes processos decorrerem internamente e serem por isso difíceis de estudar. Se pudermos mimetizar credivelmente alguns processos "cá fora" estes tornam-se mais fáceis de estudar. Desse ponto de visto todos os modelos são bem-vindos.

AP – Já nasceram crianças em mulheres que receberam, após término de determinada situação clínica impeditiva de maternidade, implantes de tecidos ováricos próprios previamente crio-preservados. Estes ovários artificiais, que a gora se anunciam, não apresentarão uma grande taxa de rejeição uterina por serem “estranhos” ao organismo materno? Espera-se uma possível utilização universal destes ovários artificiais?

JRS – Uma questão importante é de facto saber qual destas estratégias (transplante de pedacinhos de ovário ou o ovário inteiro; ou a maturação in vitro) resultará melhor. Relembre-se que a função do ovário é também produzir hormonas importantes a outros níveis. É muito provável que ambas possam ser utilizadas, dependendo dos casos. Em princípio o transplante de tecido ovárico ou de estruturas obtidas com células da paciente será para a própria paciente, pelo que não haverá grande risco de rejeição. Quanto aos embriões obtidos de oócitos maturados in vitro neste tipo de estrutura tridimensional há muito poucos dados mas não se prevê nenhuma rejeição uterina anormal, bastando para isso lembrar que uma mulher pode receber com sucesso embriões que não lhe são geneticamente aparentados. O embrião é uma estrutura muito "invisível" do ponto de vista imunológico, de modo a não ser considerado um corpo estranho pela mãe.

AP – A crio-preservação de tecidos ováricos para futura utilização e/ou desenvolvimento de ovários artificiais representam possibilidades de resolução de situações de infertilidade devidas a problemas nos ovários naturais. Que implicações éticas nascem com estes desenvolvimentos?

JRS – Não vejo que a utilização de tecido ovárico por parte da paciente do qual foi retirado de modo a restaurar a sua fertilidade (quer por transplante para a própria, quer através de cultura in vitro) levante quaisquer objecção ética, a não ser pelos que se opõem de todo à Reprodução Assistida, uma posição insustentável, em minha opinião. Imagino que tal poderá ocorrer caso a paciente infelizmente faleça e a família pretenda utilizar o tecido. Ou, eventualmente, caso a congelação ocorra por motivos pessoais (adiar a maternidade) e não clínicos. São coisas a discutir à medida que estas técnicas (ainda incipientes) comecem a ser utilizadas com sucesso por vários grupos. Algo que ainda está muito longe de acontecer, e é bom sermos comedidos no aconselhamento a pacientes, de modo a não repetir exageros passados quanto ao sucesso destas intervenções e a evitar discussões completamente inúteis. Imagino que a criação de um útero artificial, no qual trabalham vários grupos, levante bem mais questões éticas, mas esse será um assunto para outra altura.

Renovar o céu, arranjar as estrelas e lavar a lua

Não, o título destes post não é retirado dum belo poema romântico, mas sim duma factura por obras numa capela em meados do século XIX... Preciosidades que a Torre do Tombo guarda...

domingo, 26 de setembro de 2010

Manuais (sempre) para crianças?

Quando os pré-adolescentes passam a adolescentes, segundo algumas classificações psicológicas aí pelos 12 ou 13 anos, acentuam as suas reivindicar junto dos adultos, nomeadamente, o direito a apresentar-se com um certo estilo pessoal e a sair à noite, sendo, ao que parece, muitos deles atendidos nestas reivindicações.

Enquanto tal, pede-se-lhes que estudem entusiasticamente por manuais escolares onde constam como elemento motivador, suponho, desenhos que representam crianças, apelando para uma imagem de si que me parece ter deixado há muito, lá atrás no seu passado.

Abaixo está um exemplo que escolhi dos muitos que constam nos livros publicados ou republicados neste ano, para a dita faixa etária. Aparece num livro de Matemática para o 7.º ano de escolaridade para ilustrar o problema "Qual foi o número em que o Gabriel pensou?"

Já não há armários onde nos escondamos

Na revista Única do semanário Expresso da passada semana fazia parte de um trabalho alargado um pequeno artigo intitulado A internet vai acabar com a nossa liberdade e privacidade?, da autoria de Bernardo Mendonça e Christiana Martins (páginas 28 a 30). Pelo interesse que as ideias nele contidas têm para pensar este assunto tão pouco pensado, transcrevemos o que nele entendemos ser essencial.

“A tendência nas redes sociais já não é fazer amigos, mas «desamigar», banir pessoas das nossas listas de contactos. Tudo porque os excessos de realidade virtual já começaram a chamar-nos à razão. A privacidade é a pedra de toque desta discussão, embora a maioria das pessoas ainda se exponha de tal forma que deixou de ser segredo o que comem, sonham ou fazem na cama (…)

A festa da adesão às redes sociais continua a ser de arromba e os pudores ficam à porta. A ideia que persiste é que quem não está na rede está fora do mundo. E quem trata as redes sociais por tu, acaba por se sentir pressionado a escrever e a publicar imagens o mais sugestivas e reveladoras possíveis, para captar a atenção dos outros.

A fasquia vai ficando cada vez mais alta e a capacidade de controlo cada vez mais reduzida. Ser visto, ser conhecido, alargar o grupo de conhecimentos, ganhar estatuto e visibilidade social são elementos de forte sedução (…).

Os portugueses, por exemplo, têm uma média de cem «amigos» na internet. Visto que praticamente ninguém tem cem amigos na vida real, com quem nos andamos a relacionar?
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A primeira característica dos relacionamentos virtuais é a sua quantidade. São muitos, demasiados, rápidos e fáceis de fazer. Quanto tempo demoramos a fazer um amigo, fora dos computadores? Quase uma vida! Mas nos écrans está à distância de um click no botão “add a friend”. E é comum engordarmos a nossa lista de “amigos” com conhecidos dos conhecidos. Só para ver no que dá. Até descobrir que o pecado mora ao lado. Na internet podemos tirar partido do dom da ubiquidade. Uma só pessoa pode estar presente em várias redes sociais em simultâneo. A história de muitos de nós começa cedo.

Ainda crianças, começamos a aceder ao hi5 para namorar e fazer amigos, depois passamos a partilhar gostos e pensamentos no Facebook e ligámo-nos ao Twitter para seguir as novidades, notícias e contactar com os «famosos». Quem quis fortalecer contactos profissionais alistou-se nas fileiras do Linkedin. A nova mania dos utilizadores das redes sociais é o Foursquare, um programa que localiza geograficamente, passo a passo, os nossos conhecidos. Basta ter um iPhone ou um Blackberry. Já não há armários onde nos escondamos.

É fácil cair na rede e ficar preso nas aliciantes teias da notoriedade global. A questão é o utilizador-tipo, o homem ou mulher comuns, com conhecimentos gerais de utilização na internet, não tem consciência plena dos mecanismos automáticos destas redes sociais. Por exemplo, quando uma fotografia ou um comentário inocente é «postado» no nosso perfil do Facebook, não sabemos qual o seu destino final. De repente, uma imagem ingénua da nossa vida privada pode transformar-se num pesadelo. Basta ser retirada do seu contexto, quando partilhada com centenas de pessoas, desde o amigo de infância ao vagamente conhecido, passando pelo contacto de verão, que, afinal, mais não é do que um desconhecido. Sem esquecer o chefe que também pode lá estar a ver o que não deve.

São fragmentos das nossas vidas que publicados sem critérios por nós definidos e descontextualizados, transformam-nos noutra pessoa, com intenções diferentes das originais. Afinal, qual o valor da nossa privacidade? Quais as consequências futuras de uma geração que já nasceu com a sua privacidade exposta nas montras virtuais? Que valores vão balizar a nossa sociedade? O problema é que a definição e os limites da nossa vida privada estão a ser redefinidos, mas nós não estamos a participar activa e conscientemente neste processo.”

Bernardo Mendonça e Christiana Martins

ESTUDAR É NADA


Isto assim pode ser que seja útil, fácil, vantajoso; pode ser que assim se conquiste a opinião das maiorias boçais (Ramalho Ortigão, 1836-1915).

O sistema educativo nacional abre fendas, dos caboucos ao telhado, fazendo com que os umbrais das portas do ensino superior se desaprumem em pilares fundados em areias movediças de uma permissiva (ou mesmo criminosa) aprendizagem das primeiras letras.

Num passado recente, em Provas de Aferição de Língua Portuguesa (4.º e 6.º anos), foram permitidos erros ortográficos defendidos por modernos ideólogos do eduquês que parecem conviver bem com a teoria de que, como lemos algures com ironia amarga, “que os erros de português são uma questão de respeito pelas ‘diferenssas ‘”!

Na aldeia global em que o mundo se transformou, as críticas a este descalabro educativo atravessaram fronteiras nacionais. Assim, segundo um estudo realizado no Reino Unido, incidindo sobre 62.200 emigrantes portugueses, relatado num artigo com o sugestivo título “Há aí alguém que nos possa educar por favor?”, da autoria de Miguel Castro Coelho, economista e “research fellow” no Intitute for Policy Research, Londres, é referido que “os seus autores ficaram com ar perplexo pelo facto de Portugal nestas matérias se desviar sistematicamente do comportamento dos restantes países europeus e alinhar com os níveis de países tipo Bangladesh, Paquistão, Gana, Somália ou Uganda” (Diário Económico, 9 de Outubro de 2007).

No próprio, e até agora exigente, ensino secundário assistiu-se ao fim dos exames nacionais de Filosofia pelo perigo que podia representar para a sociedade portuguesa a busca da sabedoria, ou ainda pior, a sabedoria encontrada. Entretanto, em vez de se arrepiar caminho, continua-se a acumular erros que, como não podia deixar, chegaram ao ensino superior que deveria, em muitos casos, ser chamado, apenas, de ensino terciário. Para agravar esta, só por si, calamitosa situação, no caso da docência do ensino não superior, não se estabeleceu quase nenhuma diferença entre professores com a habilitação de um antigo curso médio e professores de posse de licenciaturas universitárias.
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Assim, por exemplo, no final das respectivas carreiras docentes a diferença, numa carreira de 10 escalões cifrou-se apenas num único escalão: 9.º para os primeiros e 10.º para os segundos. Mas logo este pequeno “décalage” logo foi ultrapassado com a abertura de escolas privadas ditas superiores que em meia dúzia de meses lhes venderam uma licenciatura politécnica. Meio ano de um deplorável facilitismo passou, assim, a equivaler a mais dois anos do secundário e mais quatro ou cinco anos de ensino superior universitário. Ou seja, as Novas Oportunidades não caíram em Portugal de pára-quedas. Tiveram génese em vários anos de de um escandaloso oportunismo com a bênção de uns tantos políticos e/ou sindicalistas que dele se aproveitaram tornando-se, desta forma, prosélitos de um velho criado de Eça de Queiroz, de nome Vitorino, cuja história aqui se conta, extraída de um dos seus cáusticos textos:

“Este benemérito, quando em Coimbra, lhe mandávamos buscar a um cacifo, apelidado de 'Biblioteca de Alexandria', um livro de versos, trazia sempre um dicionário, um Ortolan ou um tomo das Ordenações; e se, maravilha, nos apetecia justamente um destes tomos de instrução, era certo aparecer Vitorino com Lamartine ou a 'Dama das Camélias'. Os nossos clamores de indignação deixavam-no superiormente sereno. Dava um puxão do colete de riscadinho, e murmurava com dignidade: isto ou aquilo são tudo coisas de letra redonda”.

De igual modo, para quem dirige o rumo do sistema educativo, ter um curso médio ou um curso superior regular no âmbito da docência do ensino não superior “são coisas de letra redonda”, desmotivadores de um estudo sério e aplicado. O ministério da Educação da altura, sob a regência de Roberto Carneiro, deve assumir perante a opinião pública dos dias de hoje a respectiva responsabilidade que abriu caminho a outras medidas de idêntica injustiça.

Ambas as reportagens do Expresso (da semana passada e desta semana) sobre as Novas Oportunidades representam uma atitude louvável de despertar a sociedade portuguesa para o estado caótico com que chegam à universidade, ou ao ensino politécnico, candidatos oriundos quer das Novas Oportunidades, quer das Provas de Acesso ao Ensino Superior. Mais uma vez se confirma a vox populi, "depois de casa roubada trancas na porta", por, tarde e a más horas, o presidente da Comissão Nacional de Acesso ao Ensino Superior, Meira Soares, ter dito que “vai analisar a ‘injustiça’, admitindo propor ao ministro [do Ensino Superior] alterações à lei” que permitiu que este ano haja 530 formandos (quando no ano lectivo 2008/2009 foram apenas onze) que franquearam os escancarados portões do ensino superior.

Ainda segundo o último número do Expresso, entraram no ensino superior público 6751 alunos, através do regime especial para maiores de 23 anos (que veio substituir o sério e exigente exame ad hoc). Isto sem contabilizar esse acesso de candidatos ao ensino superior privado num universo em que, no ano de 2009, as taxas de aprovação se cifraram em 96% chegando até aos 100% em dezenas dessas instituições.

Seja como for, não me pode deixar de causar bastante estranheza que Meira Soares só agora se tenha apercebido de uma crise que se alastrou como uma verdadeira chaga social detectada, anos atrás, por Isidro Alves, reitor da Universidade Católica, ao defender que "a criação de elites não se coaduna com um sistema universitário que desceu muito de nível a 25 de Abril com a proliferação do ensino particular e cooperativo" (Diario de Notícias, 19 de Outubro de 1996).

António Barreto, académico de Ciências Sociais, na sua constante preocupação com o rumo seguido pelo sistema educativo, lançou, há anos, o alarme ao criticar o facto de se “fazer entrar o maior número de estudantes, sem consideração pelo mérito; formar técnicos de medíocre qualidade, sem zelar pela qualidade das instituições; libertar os docentes da tarefa de seleccionar; e transmitir à população a ideia de que o acesso à universidade é um direito de todos, tal como a protecção na doença e na velhice”.

Longes vinham os tempos das Novas Oportunidades e das Provas de Acesso ao Ensino Superior para maiores de 23 anos que corporizaram todas medidas que aqui foram criticadas. O ensino superior, correndo o perigo de se desacreditar cada vez mais, não pode ser um alfobre de candidatos que mal sabem ler ou escrever em nome de um mercantilismo em que a cavalo dado não se olha o dente desde que os cofres das instituições privadas (e infelizmente públicas) se encham do dinheiro das propinas, numa cedência da deusa Minerva ao rei Midas. Em nome de dados estatísticos, confunde-se quantidade com qualidade na esperança do milagre que a universidade se transforme, também, por artes mágicas, numa escola de aprendizagem de matérias elementares que se não possuem aquando da transposição dos respectivos umbrais.

Tarde e a má horas (mas, como diz o povo, "mais vale tarde do que nunca") faz, agora, o diagnóstico deste deplorável status quo o presidente da Federação Académica do Porto, Ricardo Morgado, quando alerta na supracitada reportagem do Expresso, “estar a subverter-se o programa Novas Oportunidades, que foi criado para dar mais ferramentas a pessoas que não tiveram condições para estudar, e não para ser uma autoestrada de acesso ao ensino superior como está a acontecer”.

Eu, mais do que uma autoestrada, diria estarmos na presença de uma porta do cavalo de que a esperteza nacional se sabe aproveitar à tripa forra em exemplos pródigos que têm beneficiado gente lusitana de letras gordas, havida como ilustre, que aparece, sem nenhum ou pouquíssimo esforço, de um dia para o outro, com licenciaturas de três ao pataco ou de posse de doutoramentos com o valor de uma moeda furada, em confirmação de versos pessoanos: “Ai que prazer/não cumprir um dever./Ter um livro para ler/e não o fazer!/ Ler é maçada/ estudar é nada”.

A LUZ EM GOETHE E TURNER


Excerto do meu livro "Curiosidade Apaixonada" (Gradiva) (na figura "Luz e Cor" de Turner):

Consta que as últimas palavras do poeta alemão Johann Wolfgang Goethe foram “Mehr Licht!”, o que em português se traduz por “Mais Luz!”

Ninguém sabe se esta exclamação significava o desejo filosófico-científico do grande génio de mais claridade ou se, prosaicamente, ele apenas pretendia pedir à empregada doméstica para abrir as cortinas do quarto. O poeta morreu sem se poder explicar. Mas a frase, apesar da ambiguidade ou talvez por causa dela, ficou famosa. Ela é sintomática da “época das luzes”, o tempo em que se quis ver mais e melhor.

No ano da graça de 1755, ano em que a Terra tremeu em Lisboa (catástrofe que tanto impressionou Goethe, assim como Kant e Voltaire), nascia em Londres, mais precisamente no bairro do Covent Garden, um dos maiores procuradores de luz de todos os tempos, alguém que andou sempre atrás de mais e melhor luz. O pintor inglês J. M. Turner foi entre 1755 e 1851 um prodigioso criador de luz. Apaixonado pela luz do Sol (Turner quase cegou por ter olhado tão demoradamente para o Sol), consta que as suas últimas palavras foram “The Sun is king!”, o que, vertido em português, dá “O Sol reina!”.

A luz de Turner, a luz que em última análise provém da nossa estrela, está em exposição permanente na Tate Gallery, em Londres. Essa luz é um dos principais motivos pelo qual vale a pena ir e voltar a Londres. Na maior parte dos quadros de Turner, a luz ilumina o mar. O astro-rei aparece amarelo-alaranjado. O céu é azul de dia, o que os físicos explicam pela difusão da luz solar no ar. E o mar mostra o azul misturado com outras cores, o que os físicos também explicam.

Turner foi um estudioso da obra de Goethe “Farbentheorie” (“Teoria das Cores”), uma incursão do brilhante poeta de Frankfurt na ciência da cor. Foi uma incursão não muito feliz, porque a teoria das cores de Goethe está em grande parte errada, nomeadamente ao afirmar que todas as cores resultam da combinação de três cores fundamentais: o amarelo, o vermelho e o azul (Isaac Newton, bem anterior a Goethe, sabia mais sobre a cor!). Este exemplo mostra que os poetas não têm de ser bons cientistas, o que não traz nenhum prejuízo à apreciação da sua poesia... O livro de Goethe resultou, porém, de uma tentativa de compreender os fenómenos da luz e da cor atendendo a condições não só físicas mas também psicológicas e estéticas e tem bastante interesse para a história da ciência.

Turner foi um grande admirador de Goethe. Um dos últimos quadros de Turner, menos figurativo que os anteriores, intitula-se curiosamente “Luz e Cor (Teoria de Goethe) - A Manhã após o Dilúvio – Moisés a escrever o Livro do Genesis. Está na Tate Gallery e mostra uma grande bola amarelo avermelhado - talvez o Sol, porque nunca pode haver a certeza de nada na arte não figurativa.

Escreveu Goethe na sua “Teoria das Cores”, decerto depois de ter olhado muito para o Sol:

“O Sol, quando de vê através de uma certa neblina, apresenta um disco amarelado. O centro é muitas vezes amarelo vivo e as bordas quase se tornam vermelhas. Numa situação em que o ar está cheio de fumo... o Sol parece vermelho-rubi, tal como todas as nuvens que o rodeiam, nas últimas circusntâncias, que reflectem então esta cor. O Sol vermelho da manhã, ou ao corpúsculo, deve-se à mesma causa. O Sol anuncia-se por uma tonalidade vermelha quando brilha através de uma massa densa de nevoeiro. Quanto mais se ergue mais brilhante e amarelo se torna”.

Não foi decerto por acaso que o intenso óleo “Luz e Cor” foi pintado em 1843, na altura em que um amigo de Goethe lhe ofereceu a tradução em inglês do livro de Goethe. A “Luz e Cor” é o triunfo da luz e, portanto, o triunfo da cor. No quadro, a natureza da cor substitui a cor da Natureza, sendo o resultado quase hipnótico. Turner foi, de facto, um génio da luz e da cor e, se Goethe não teve grande relevância na história da ciência, teve-a decerto na história da arte!

SOBRE BARTOLOMEU DE GUSMÃO E O SEU BALÃO


Muito tem sido dito e escrito sobre Bartolomeu de Gusmão e o seu balão. Mas sobre esse assunto há três questões que procuram resposta:

1- Que conhecimentos tinha o padre brasileiro sobre a ciência e a tecnologia da sua época que lhe permitissem avançar e sustentar a inovação que propôs e que produziu?

2- Qual foi a sua motivação para propor ao rei a Passarola? E porque é que o monarca não hesitou em apoiar tão pronta e prodigamente um jovem ultramarino que para ele devia ser quase desconhecido?

3- Que diferenças havia entre o balão que foi demonstrado na prática e a extraordinária nave que havia sido prometida? De onde veio a fantasiosa gravura que o jornal austríaco publicou em primeira mão e que depois haveria de ser reproduzida em Portugal?

Embora seja difícil responder cabalmente, vejamos, por ordem, as explicações que me parecem mais plausíveis:

1- Gusmão não foi propriamente um cientista, mas sim um inventor, isto é, um autor de artefactos que visam intervir no mundo para obter maior conforto humano. De resto, a tecnologia não estava na época tão intimamente associada à ciência como está hoje. Apesar da qualidade do ensino nas escolas onde o jovem Bartolomeu estudou, em particular o Colégio Jesuíta em S. Salvador da Bahía (que fazia parte de uma vasta rede de escolas da Companhia de Jesus, da qual o Colégio de Jesus, em Coimbra, tinha sido um dos primeiros), não se pode dizer que ele, nos seus estudos de preparação para a função eclesiástica, tivesse ficado a par do que de mais recente se fazia na ciência no alvorecer do século das luzes. Tão pouco terá adquirido conhecimentos de índole científica na Universidade de Coimbra, uma vez que se inscreveu no curso de Cânones (isto é, Leis da Igreja Católica), estudos esses que só bem mais tarde viria a concluir. A ciência em Coimbra, dominada pelos jesuítas, não estava especialmente avançada. Mas, ainda no Brasil, antes de rumar a Coimbra, Bartolomeu tinha revelado o seu espírito inventivo ao propor uma bomba hidráulica para resolver uma questão prática no Seminário de Belém, na Cachoeira, Bahía, que frequentou.

Um Manifesto atribuído ao próprio Gusmão e que, tal como a cópia da Petição de privilégio real, se conserva na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, faz luz a respeito da interrogação colocada. Nele se defende a ideia de voar, numa linguagem em que a ciência é inseparável da filosofia (abstendo-se, porém, de considerações teológicas, que seriam naturais num clérigo). Lembre-se aliás que a física era, na época, chamada filosofia natural e o seu discurso estava eivado de retórica filosófica. Vejamos um excerto, que lembra a cadenciada linguagem barroca do Padre António Vieira:

“Três coisas pois são necessárias á ave para voar, convém a saber: asas, vida e ar; asas para subir; vida para as mover; e ar para as sustentar. De sorte que faltando um destes três requisitos, ficam inúteis os dois; porque asas sem vida não podem ter movimento; vida sem asas não pode ter elevação: ar sem estes indivíduos não pode ser sulcado. Porém, dando-se estas três circunstâncias de asas, vida e ar, a qualquer artificio conforme a necessária proporção, é infalível o voo no lenho, como o estamos vendo na ave. Entra agora o nosso invento com as mesmas três circunstâncias, em que infalivelmente devemos dar lhe o voo por certo. O nosso invento tem asas, tem ar e tem vida. Tem asas porque lhas formamos à mesma imitação e proporção das da ave; tem ar porque este se acha em toda a parte, e tem vida, nas pessoas que o hão-de animar para o movimento. É logo infalível que não pode ser frustraneo este artifício, supostos nele os três requisitos necessários para o voo: que se a esta fábrica se podem dar estas três circunstâncias por factíveis, de que não há dúvida, infalivelmente delas se lhe hão-de produzir as mesmas operações, que vemos na ave, como efeito produzido da causa. E não fazemos menção das aves, que costumam andar na terra, porque suposto tenham estas três circunstâncias, ou não voam, ou têm o voo violento, como a galinha, o peru, o pato, a perdiz, etc., o que lhe procede de terem as asas defeituosas, em quanto à proporção necessária ao peso do corpo.”

Mas, depois do triunfo no século anterior da mecânica de Galileu e Newton, a física mais moderna, no século XVIII, dizia mais respeito à electricidade do que ao voo das aves... Nos salões reais e aristocráticos começavam-se a realizar divertidas experiências baseadas na electricidade estática que desafiavam as mentes mais curiosas. É elucidativo que o ano de 1709 tenha ficado marcado na história da ciência pela publicação do tratado da autoria do inglês Francis Hauksbee, um membro da Royal Society, intitulado Physico-Mechanical Experiments on Various Subjects Several Surprizing Phenomena Touching Light and Electricity, Producible on the Attrition of Bodies, contendo numerosas experiências de electricidade (a Biblioteca Joanina conserva uma tradução francesa de 1754). O Gabinete de Física Experimental da Universidade de Coimbra, fundado pelo Marquês de Pombal na mesma data da sua Reforma da Universidade, contém algumas máquinas electroestáticas do século XVIII.

Mas não consta que Gusmão se tenha interessado pela electricidade, mas mais pela física dos fluidos. É certo que os princípios da impulsão tinham sido estabelecidos por Arquimedes, muitos séculos antes de Gusmão, e tinham sido revisitados por Galileu, um século antes, quando este efectuou experiências sobre corpos flutuantes, mas a impulsão desses autores dizia respeito a objectos sobre líquidos e não a objectos em gases. O estudo dos gases ainda estava, em pormenor, por ser feito...

2- Assegurar a coesão e a unidade do império português que era proporcionada por um meio rápido de locomoção (a velocidade sugerida na sua Petição ao rei D. João V ultrapassava certamente os 50 quilómetros por hora), talvez tenha sido subjacente à ideia do jovem padre. As duas viagens que ele já tinha então empreendido de barco do Brasil até Portugal tinham sido demoradas e cansativas. E a ideia utópica do Quinto Império, tão cara ao Padre António Vieira, e tão bem expressa na sua História do Futuro, não lhe era estranha. Ao fim e ao cabo, esse famoso jesuíta, embora não tenha sido professor de Gusmão, passou poucos anos antes dele pelo mesmo colégio onde o inventor da Passarola andou e aí deixou com certeza marcas. Quanto à protecção especial de que Gusmão gozou em Portugal tal se deverá ao facto de terem causado espanto as suas capacidades (designadamente, de memória) logo na sua primeira vinda à metrópole, em 1707, ao 3.º Marquês de Fontes, D. Joaquim Francisco de Sá Almeida e Menezes, um dos nobres mais poderosos do reino e, por isso, próximo do rei. O Marquês não hesitou em nomeá-lo preceptor de Matemática do seu filho adolescente.

3- Como outrém já afirmou, julgo que se deve distinguir claramente entre o “instrumento de voar pelos ares” para a qual foi concedido o alvará e o “corpo esférico com de pouco peso”, que, com os meios postos à sua disposição pela coroa, Gusmão foi capaz de construir e demonstrar. Há a Passarola, impressa no jornal vienense aionda antes das experiências, que nunca voou, e o balãozinho, que começou por se incendiar e a seguir se elevou no Paço Real. A primeira é retratada de um modo caricatural na gravura austríaca, que terá sido congeminada pelo próprio Gusmão, com a ajuda do filho do Marquês, que o assessorava nos trabalhos oficinais de preparação dos ensaios aeronáuticos, com o intuito de iludir a curiosidade geral que se instalou e de desviar as atenções do público. Conta-se que, numa “manobra de diversão”, o desenho terá sido abandonado de propósito numa via pública para ser posto a circular como se fosse autêntico. Se foi isso que aconteceu na realidade, tal acabou por se revelar contraprudecente para o inventor, pois o desenho de um enorme pássaro, semelhante às criaturas imaginárias que apareciam representadas em mapas e atlas fantasiosos, mais não serviu do que para descredibilizar o seu autor. E há, por outro lado, o balão de ar quente que o núncio descreveu como “um corpo esférico com pouco peso” numa carta ao Papa. Esse balão não seria muito diferente, embora em escala reduzida, dos actuais balões, servindo uma pequena barquinha de vaso da combustão para produzir o ar quente. Se a Passarola era um “instrumento” enorme que, tal como foi representado, nunca poderia voar, já o pequeno balão o conseguiu fazer com relativa facilidade. É impossível reproduzir o primeiro para uma experiência actual de ascensão, mas é relativamente fácil fazer o mesmo com o segundo.

Uma gravura (figura em cima) cuja antiguidade é desconhecida anexa, embora solta, a um volume manuscrito setecentista, conservada na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, será porventura uma extrapolação mais plausível para o tamanho humano do modelo do balão esférico. Tem, de facto, parecenças com um “barco voador”, embora com a vela substituída por uma pirâmide insuflada. Mas nenhum engenho com tripulante, semelhante a esta gravura, deve ter voado. Trata-se, a avaliar pela escala da figura humana, de um aparelho algo menor do que a Passarola impressa no diário vienense. Mas será pouco mais exequível do que esta.

sábado, 25 de setembro de 2010

AINDA HAWKING E DEUS


O habitual destaque aos sábados para a coluna do físico Robert Park:

"MEMO TO SCRUTON: AT LEAST HAWKING GOT THE RIGHT ANSWER.
An op-ed by Roger Scruton in The Wall Street Journal this morning was  titled,
"Memo to Hawking: There’s Still Room for God." An English philosopher, Scruton
is a visiting scholar at the ultraconservative American Enterprise Institute
in Washington, DC. "Almost no one" he writes, "believes there is a rational
scientific theory that tells us how the universe emerged from nothingness."
No one, that is, except those that might be expected to know, physicists,
who labor to make such a theory possible. In addition to Kant, Scruton invokes
Newton and Einstein to make his point, but unlike philosophy, physics is tightly
bound to observation."
.
Robert Park

DE ESPANHA BOM VENTO E NENHUM CASAMENTO


A ministra da Cultura anunciou há dias, com grande candura, a falência iminente do Estado social. Com muito mais propriedade podia ter anunciado a falência iminente do Estado cultural. É talvez devido a ela que a "rentrée" nas instituições culturais estatais está bem aquém do que seria desejável.

Só para dar um elucidativo exemplo. Entre os dia 11 de Março e 30 de Maio esteve patente em Badajoz, no MEIAC - Museu Estremenho e Ibero-Americano de Arte Contemporânea, uma grande exposição sobre as relações culturais, mais precisamente literário-artísticas, luso-espanholas no início do século XX, mais precisamente de 1890, data do começo do simbolismo português, até 1936, data de eclosão da guerra civil espanhola. A ambiciosa mas muito bem conseguida mostra, intitulada "Suroeste" (do nome "SW Europa Sudoeste" de uma revista escrita apenas por Almada Negreiros e da qual saíram apenas dois números em 1935), enquadrou-se na Presidência Espanhola da União Europeia, tendo tido a presença do Rei de Espanha e tendo o catálogo prefácio do primeiro-ministro espanhol.

Pois bem. A exposição que era para agora estar patente em Lisboa, na Assembleia da República, não será vista entre nós: foi desmanchada e dissolvida sem que o público português possa apreciar os esforço de cooperação de intelectuais ibéricos num tempo em que os comboios para a Espanha eram de muito pouca velocidade. Além de Almada Negreiros (amplamente representado na Exposição por amabilidade do Museu Gulbenkian), que trabalhou em Madrid, nomes portugueses que tiveram a ver com Espanha naquela época foram Eça de Queirós, Eugénio de Castro (cujo epistolário está conservado na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, que o cedeu para Badajoz), Teixeira de Pascoais, Fernando Pessoa, etc. Do lado espanhol avultam nomes como Miguel de Unamuno, Ramon Gomez de la Serna e Vasquez Días. As relações luso-espanholas, se eram recíprocas na época, hoje, dada a falência do estado cultural português, já não o são. O primeiro-ministro português nem ajudou a pagar a exposição nem ao menos escreveu uma palavrinha para pôr ao lado das do seu amigo Zapatero ("La Cultura Corazón de Europa"), na portaria do grande catálogo, em edição trilingue (português, espanhol e inglês).

A Assembleia da República devia ter recebido a mostra, uma vez que havia um compromisso com Espanha nesse sentido, mas, como se diz agora, borregou. Vale-nos a distribuição entre nós do utilíssimo catálogo, que se encontra nas livrarias nacionais graças à Assírio e Alvim, para minorar a nossa insuficiência cultural. Mas é uma vergonha que a exposição, que foi toda feita e bem feita sob a batuta luso-espanhola de Antonio Saez Delgado, Luís Manuel Gaspar, Juan Manuel Bonet, Sara Afonso Ferreira e Antonio Franco Dominguez, não seja vista entre nós...

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Ainda os rankings


O "QS TOP WORLD UNIVERSITIES 2010" foi este ano, pela primeira vez, publicado em separado do Times Higher Education Supplement. A partir de 2010 a Times passa a ter uma parceria com a Thomson Reuters para organizar o seu ranking. No TOP200 (TIMES/TR) não aparece nenhuma universidade portuguesa, como acontece aliás no QS desde o seu início em 2005.

O método usado pela TIMES/TR para seriar as universidades é interessante, porque dá um peso significativo ao ensino (30%), à investigação (30%, quantidade de projectos, valor total e reputação), ao impacto na comunidade científica da investigação realizada (32,5%), mas também à transferência de tecnologia e inovação (2.5%) e à capacidade de atracção de alunos e staff (5%).

É importante realçar este quadro referente ao TOP200 da Times/Thomson-Reuters:


Estes números merecem alguma reflexão, nomeadamente no caminho que é necessário seguir para ter algumas universidades portuguesas no TOP100 das Universidades de todo o mundo (objectivo de longo prazo). Se repararem, no TOP100 não existem universidades portuguesas, nem espanholas, nem italianas, nem holandesas, nem belgas, nem dinamarquesas, nem austríacas, nem finlandesas, nem norueguesas, nem turcas. Mas no TOP200, já só Portugal e Itália não estão representados. A Turquia tem duas universidades no TOP200.

Este cenário repete-se no ranking QS.

Os rankings, apesar de toda a discussão, têm esta vantagem de mostrar um cenário global. E esse não é, infelizmente, nada animador para Portugal.


:-)

NAS ENTRANHAS DA TERRA


Minha crónica publicada no "Sol" de hoje:

Todo o mundo tem acompanhado com emoção as operações de salvamento dos 33 mineiros que ficaram presos numa mina chilena de cobre e ouro, a 700 metros de profundidade. No dia 5 de Agosto deu-se um desabamento que isolou uma equipa de trabalhadores na mina, tendo passado cerca de duas semanas até serem recebidos sinais de que estavam vivos. Uma mensagem emergiu, rascunhada num papel por um dos desaparecidos, depois de passar por um furo construído para os procurar. E hoje, por esse e por mais dois furos, entram na mina ar, energia, alimentos e alguns meios de socorro. Entra também e sai informação, tanto em forma escrita como audiovisual. A tecnologia de fibras ópticas permitiu que os mineiros vissem, em directo, o jogo de futebol do Chile contra a Ucrânia que teve lugar em Kiev.

Para salvar os refugiados não há um mas três planos. O Plano B, apesar de ser o segundo em nome, é o que vai mais adiantado. A ponta da perfuradora Schramm T-130 SX chegou no dia 18 de Setembro a uma galeria acessível aos mineiros, a cerca de 630 metros de profundidade, sendo agora necessárias seis semanas para alargar o diâmetro do furo de tal modo que eles possam ser retirados, um a um, dentro de uma estreita cápsula, do terrível local onde se encontram. A máquina do plano A ainda não chegou a metade do caminho e a gigantesca máquina petrolífera do plano C, que é a mais rápida de todas, só há pouco começou a operar.

De entre as numerosas mensagens de solidariedade e encorajamento que têm chegado ao fundo da mina uma das mais curiosas veio de uma equipa de seis astronautas russos, europeus e chineses que estão a simular uma viagem a Marte dentro de uma nave fechada num laboratório em Moscovo: “Permaneçam ocupados, cuidem da vossa saúde e mantenham a rotina dia-noite”. Nesta experiência, planeada para 520 dias, o isolamento não é total, pois os tripulantes comunicam com o exterior embora com o atraso que haveria numa viagem real ao planeta vermelho. Ensaios de confinamento deste tipo interessam não só à agência espacial da Europa, que nela participa, mas também à NASA, com vista a melhor preparar missões espaciais de longa duração.

Como pode haver sucessão dos dias e das noites fora da superfície da Terra? Dentro da mina ou da nave, essa sucessão é proporcionada por luz artificial. Mas o que se passa sem luz nem relógios? Experiências realizadas por espeleólogos no interior de grutas, à margem do tempo, mostraram que o nosso corpo tem um ritmo próprio, bem diferente do que é imposto pelo movimento de rotação da Terra: ele prefere dias de 48 horas em vez de dias de 24 horas. No interior da mina chilena, o ritmo de vida é idêntico ao de cá de cima, até porque em breve os mineiros devem estar à superfície.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Analfabetos com aulas de dança


Com a devida vénia, e porque versa o tema da educação aqui tão discutido, transcrevemos a coluna de Pedro Lomba (jurista) que saiu hoje no "Público":

"É uma das nossas grandes certezas: a necessidade de aprendizagem, de educação, o progresso do nosso conhecimento através do ensino paciente e metódico. Mas a educação é um problema e, evidentemente, um problema político sério. Quase sempre, reduz-se qualquer insuficiência individual a uma questão de falta de educação e de ensino. Rousseau foi um pensador importante por isso mesmo. O seu Émile tornou-se uma obra tão ou mais transformadora que o Capital de Marx. O que nos disse Rousseau é que a desigualdade, a imperfeição e o conflito entre pessoas só se podem atenuar através de uma educação pública e igualizadora. Por isso, a educação do jovem Émile segue um programa optimista e abstracto. Émile não aprende com o passado, não aprende para triunfar sobre os outros, para resistir à violência ou para preservar um mérito. É educado para ser um bom cidadão, igual a outros. É educado para essa harmonia social que é a igualdade entre todos os seres humanos, superadora da alienação e das diferenças. O programa de Émile é, no entanto, uma ilusão. A primeira ilusão que comanda a nossa esperança na aprendizagem universal é a educação igualitária. A verdade é que a educação não consiste necessariamente numa experiência feliz ou vitoriosa. Porque os nossos limites são revelados por aquilo que aprendemos e não aprendemos.

Claro que a cultura do "eu" com a qual vivemos, tão marcada pelo romantismo, não aceita com facilidade esta limitação. É curioso como todos somos românticos, emotivos, individualistas. Estamos metidos até aos pés no meio desse imperialismo dos sentimentos. Da literatura de salão ao prosaísmo da imprensa mais idiota, da iliteracia musical ao mundanismo público, somos e queremos ser românticos. Eu não aspiro a ser um cidadão exemplar ou um homem virtuoso. O que eu quero é satisfazer a minha vontade romântica, criadora e expressiva. Aprender a ser eu mesmo. A exprimir a minha autenticidade.

Pode a educação clássica estar em crise. As pessoas não lêem Camões, não escrevem um português rigoroso, não dominam a arte da oratória. Mas nunca foi tão grande a disposição de todos para essa educação emotiva. Paradoxalmente ou não, o ser humano tem um irrefreável impulso de querer saber mais e mais sobre os assuntos que lhe interessam. A oferta é ampla Podemos aprender design de moda e as técnicas orientais de sublimação. Aprender o feng-shui ou receitas vegetarianas. Aprender a suportar a conjugalidade e a neurose. A arte da paternidade e a técnica do parto. Línguas previsíveis ou esotéricas. A dançar e a escrever. Numa história do escritor americano Donald Barthelme, Snow White, uma mulher aplica-se com esmero a estudar as seguintes disciplinas: A mulher moderna: os seus privilégios e responsabilidades, guitarra clássica, os poetas ingleses, as bases da psicologia, a pintura a óleo.

Na verdade, conhecemos bem esta mulher. Ela não se educa para nada, a não ser para o seu próprio prazer emotivo. É uma vítima dos seus desejos e da vulgarização da educação. Esta sua aprendizagem não é nada e, provavelmente, ela nem a usa. Limita-se a exprimir a sua personalidade, o seu "eu" sentimental e carente de informação.

Na era do ensino emotivo, vivemos entre estes dois extremos: a igualdade e a individualidade. Mas não estamos, curiosamente, nem mais iguais, nem mais autênticos. Nem ainda mais educados. Estamos mais sozinhos. Esta educação construída à nossa imagem representa toda uma nova ignorância e criou uma legião de analfabetos. De analfabetos com aulas de dança."

Pedro Lomba

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Sem ofensa...



A estas horas já os leitores saberão que um rapazinho que aparenta andar no 1.º ou 2.º Ciclo do Ensino Básico se apresenta no YouTube a imitar a Senhora Ministra de Educação quando, na abertura do ano lectivo discursou ao país, usando para tanto uma mensagem vídeo publicada no sítio do Ministério da Educação.

Li que a Senhora Ministra declarou não se ter sentido ofendida… Eu acrescentaria que, além disso, se devia sentir orgulhosa pelo facto de haver crianças que apreenderam a importância, tão firmada nos documentos curriculares, de serem criativas, inovadoras, capazes de partirem de situações reais, do quotidiano, autênticas, para desenvolverem competências pessoais e sociais.