sexta-feira, 29 de maio de 2009

COMO ERA A PASSAROLA?


Fig. 1 Gravura austríaca de 1709.

Neste Ano Gusmão, celebrado em Portugal e no Brasil, vale a pena voltar ao tema da forma da Passarola, o primeiro balão construído pelo Padre Bartolomeu de Gusmão. E vale a pena transcrever o excerto relevante do livro de Rómulo de Carvalho "História dos Balões" (3ª edição da Atlântida de 1976; há uma reedição mais recente da Relógio d'Água; para uma minha recensão do livro ler aqui):

"Os desenhos da Passarola do padre Voador

Um dos assuntos relativos às experiências de Gusmão que maior curiosidade tem despertado é o de conhecer o feitio que teria a sua Passarola. Infelizmente nada sabemos de certeza embora existam desenhos da época que foram divulgados como representação da máquina voadora.

O desenho mais antigo que se conhece é de Maio de 1709, isto é, anterior de três meses à data das experiências de Lisboa, e faz parte dum folheto publicado em Viena de Áustria! A partir dessa data aparece o mesmo desenho reproduzido noutras publicações, com algumas diferenças de pormenor.

A fantasiosa estampa (ver fig.1) foi imaginada pelo próprio Bartolomeu de Gusmão que desse modo infeliz se quis divertir com a ansiosa expectativa dos lisboetas nas vésperas das anunciadas experiências. Fingiu o inventor que perdera o desenho da sua máquina, deixando-o cair do bolso em qualquer lugar público. Este desenho, ou sua cópia, depressa seria conhecido na Áustria por intermédio da correspondência da rainha [a esposa de D. João V era austríaca].

Mais de meio século depois da publicação da estampa de Viena de Áustria, editou-se em Lisboa outra estampa, muito semelhante à anterior (ver fig.2) e que é a primeira que se conhece impressa em Portugal. Esta estampa é acompanhada duma explicação relativa a cada uma das letras que nela se vêem. Comparem-se as duas figuras e repare-se que na de Viena as letras têm a mesma disposição excepto as G e H que estão trocadas.
Fig. 2 Gravura de 1774

Como se vê, trata-se de uma barca em forma de ave. A letra A indica o "velame, que servirá para fazer cortar os ares"; B a cauda da ave, que faz de leme; C o corpo da barca, construído de modo a esconder, dentro de si, um conjunto de canos ligados a foles destinados a fornecerem o vento necessário à deslocação da Passarola, quando lhes faltassem o vento natural! Em D estão as asas laterais que equilibrarão a barca.

Começa agora a parte mais fantasiosa da descrição, relativa às esferas assinaladas com as letras E. São de metal e contêm pedaços de magnetite, pedra natural de poder magnético, a que os antigos portugueses chamavam pedra de cevar. Para facilitar a elevação da Passarola seria o seu corpo, que era construído de madeira, todo forrado de chapas de ferro. A pedra de cevar, contida nas esferas, atrairia as chapas de ferro, fazendo-a subir!...

A parte das figuras indicada com a letra F não tem, em ambas, igual configuração, Na estampa de Viena, vê-se uma rede que cobre a barca; na de Lisboa vê-se uma fila de pequenos corpos suspensos, que fazem lembrar as borlas duma cortina. A aplicação que acompanha esta última diz que "F) Mostra a coberta feita de arames, a modo de rede, em cujos fios se tem enfiado muita soma de alambre..."

"Alambre" é forma antiga da palavra "âmbar". É sabido que esta substância, quando friccionada com um pedaço de lã, se electriza e adquire a propriedade de atrair certos corpos leves como, por exemplo, pedaços de palha. Este fenómeno já é conhecido desde tempos anteriores a Cristo.

O autor do desenho da Passarola, que não era ignorante destas coisas, reforçava a acção da pedra de cevar, para tornar mais fácil a ascensão da barca, cobrindo-a interiormente de palha de centeio que seria atraída pelos pedaços de âmbar suspensos"! Juntando o útil ao agradável, também a palha servia "para a comodidade da gente, que levará até dez homens, e com o seu inventor onze".

A letra G da estampa de Lisboa indica a agulha de marear, para a orientação dos navegadores aéreos.

Em H vê-se o aeronauta, servindo-se de um instrumento com o qual "toma a altura do sol, para ver sonde se acha". A seus pés encontram-se as cartas de navegação.

Finalmente em I, dum lado e doutro da barca, vêem-se as combinações de roldanas para o manejo do velame indicado com a letra A.

O gracejo do Padre Gusmão, ao divulgar o falso desenho da máquina, saiu-lhe bem caro. Muitos estudiosos dos assuntos respeitantes à história da conquista do ar não têm dado apreço nem crédito às experiências do nosso compatriota, julgando-as fantasiosas, só por deitarem os olhos à excêntrica máquina voadora representada na estampa. No decorrer do tempo apenas serviu para desprestigiar o inventor.

Sem forçarmos a nota de patriotismo podemos afirmar que Bartolomeu Lourenço de Gusmão foi o inventor dos aeróstatos. Não há dúvida nenhuma sobre a efectivação das suas experiências em Lisboa, durante as quais fez subir, ao ar, alguns balões feitos de arames, papel grosso e madeira fina. Também não há dúvida de que se serviu do fogo para os fazer subir. Seriam, portanto, balões de ar quente. "

RÓMULO DE CARVALHO

6 comentários:

  1. É pena que em Portugal não se assista a festivais de baonismo como ocorrem no estrangeiro e entre nós como homenagem a Bartolomeu de Gusmão.

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  2. Afinal está prevista uma homenagem a
    Bartolomeu de Gusmão e aos 300 anos da Passarola incluída no Festival dos Oceanos, entre 1 e 15 de Agosto próximos, também ligado ao Ano Internacional da Astronomia.

    A alusiva à "Passarola Bartolomeu de Gusmão" ocorrerá na Estação do Oriente, na Praça da Figueira e Jardins Vieira Portuense, nos dias 8 e 9 de Agosto.

    Infelizmente ignora-se em que termos, e com que meios, ocorrerá.

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  3. No Público de 08.08.2006 respigo esta notícia com outra luz:

    “O primeiro balão de ar quente feito em Portugal vai sobrevoar hoje Lisboa, 297 anos depois de o padre Bartolomeu de Gusmão ter colocado a voar um objecto conhecido como a "passarola".

    “No dia 8 de Agosto de 1709, o padre luso-brasileiro Bartolomeu de Gusmão efectuou, em Lisboa, a primeira experiência prática documentada daquilo que viria a ser o balonismo mundial. Duzentos e noventa e sete anos depois, a escola de pilotagem ANAC (Associação Nacional de Aviação Clássica e Experimental) vai realizar uma homenagem pública àquele que é considerado o precursor mundial do balonismo. A homenagem vai decorrer em Lisboa e consiste numa sessão solene na autarquia lisboeta e num voo de balão a partir da Praça do Comércio.”

    Este acontecimento pode ser visionado aqui como hipótese do que ocorrerá nos dias 8 e 9 de Agosto.

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  4. A homenagem do Brasil

    1- Na poesia de Olavo Bilac

    O Voador

    Em Toledo. Lá fora, a vida tumultua
    E canta. A multidão em festa se atropela...
    E o pobre, que o suor da agonia enregela,
    Cuida o seu nome ouvir na aclamação da rua.

    Agoniza o voador. Piedosamente, a lua
    Vem velar-lhe a agonia através da janela.
    A febre, o Sonho, a Glória enchem a escura cela,
    E entre as névoas da morte uma visão flutua.

    "Voar ! varrer o céu com asas poderosas,
    Sobre as nuvens ! correr o mar das nebulosas,
    Os continentes de ouro, o fogo da amplidão!..."

    E o pranto do luar cai sobre o catre imundo...
    E em farrapos, sozinho, arqueja moribundo
    Padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão.

    2 - No Decreto n.º 4.208, de 23.04.2002, de Fernando Henrique Cardoso que dispõe sobre a medalha "Bartolomeu de Gusmão" que insere novas disposições ao Decreto n.º 68.886, de 06.07.1971 que a criou.

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  5. O facto de Padre Bartolomeu de Gusmão ser cognominado de "Voador", tem a sua sede na incredulidade das pessoas numa máquina que pudesse voar, daí o ar jocoso com que se referiam ao inventor, denominando-o "Padre Voador", ou simplesmente "O Voador".

    A este propósto, o bacharel Pedro de Azevedo Tojal (16..-1742), num poema herói-cómico, "O Foguetário" (França Amado Editor, Coimbra, 1904) traduz essa sensibilidade, ao colocar na voz de Bartolomeu de Gusmão:

    "Eu sou o Voador bem conhecido
    Por meus varios ardis na Lusa Corte,
    ... ... ... ... ... ...
    Hum navio inventei que ao Céo subido
    Havia navegar do Sul ao Nórte...
    Mas logo a este ponto aqui tornando
    Quem sou te irei primeiro relatando."

    O cognome de "Padre Passarola" parece também ter vingado, de acordo com um estudo romântico, baseado em factos reais ou prováveis vivido pelo padre Bartolomeu de Gusmão, publicado em VI folhetins, com o título "O Voador. 1709-1724", do escritor Francisco Maria Bordalo (1821-1861), oficial da Marinha Portuguesa, no jornal "O Panorama" (vol. XII, 4.º da 3.ª série, Lisboa, 1855, pp. 250-252, 262-264, 278-280, 284-285, 293-294, e 301-303).

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  6. Só tenho a agradecer a João Boaventura tantos e tão bons acrescentos!
    Carlos Fiolhais

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