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É na poesia e no teatro que desponta lierariamente aquela exaltação religiosa, com mestre André Dias (1348-1437), e depois nalguns autos vicentinos de devoção, para não mais parar, até ao nosso tempo: do Maneirismo, no Barroco, no Romantismo e daí em diante, até hoje.
Basta recordar, mais ou menos ao acaso, poetas como António Ferreira, Frei Agostinho da Cruz, Diogo Bernardes, Rodrigues Lobo, D. Francisco Manuel de Melo, Jerónimo Baía, Correia Garção, Reis Quita, Cruz e Silva, Bocage, Almeida Garrett, Castilho, António Nobre, Gomes Leal, Fernando Pessoa, Vitorino Nemésio, Miguel Torga, Álvaro Feijó, António Gedeão, David Mourão-Ferreira e tantos outros..., para se ver o que o «cancioneiro de Natal» lusitano é muito abundante e variadíssimo.
Por sinal que é provavelmente com um celébre soneto de D. Francisco Manuel de Melo, «de consoada a uma sua prima», que o lado da celebração familiar e afectiva da quadra natalícia, acompanhada da troca de presentes, surge na nossa literatura, com a particularidade de ser escrito da prisão e, portanto, se contraposição a um estado de afastamento, de solidão e de tristeza (...) numa época que era tradicionalmente de jubilosa reunião de família. Mas, ainda no século anterior, a pós-vicentina Prática dos Compadres, de António Ribeiro Chiado, já descreve de modo muito colorido, no pitoresco diálogo entre o Cavaleiro e o Compadre, os usos e folguedos entre familiares e vizinhos, a propósito da ceia de Natal e da missa do Galo.
Isto tinha raízes muito antigas. O Padre Mário Martins explica a dramatização popular da liturgia de Natal a partir de uma ideia de presépio que «vinha de longe, muito antes de São Francisco de Assis» e observa que «na Idade Média (...) nem tudo era edificante, pela festa do nascimento de Jesus. Em 1473 um concílio de Aranda (...) fala-nos de representações, mascaradas, de figuras monstruosos e versos indecentes (...) que vinham a público, nas igrejas, por ocasião do Natal, da festa dos Santos Inocentes, São João Baptista, etc. Estes males, evidentemente, não paravam nas fronteiras portuguesas». Acrescentemos que essa tradição, de algum modo, vem ainda ecoar na muito mais tardia ficção literária relativa ao Natal."
Vasco Graça Moura
Imagem: Um dos muitos presépios de Estremoz.
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