The rules of the game: the evaluation of Portuguese research units

terça-feira, 1 de Junho de 2010

O FIM DAS HUMANIDADES? (3)

(CONCLUSÃO)

A antologia de textos de Brockman, escritos por eminências como Stephen Jay Gould, Richard Dawkins ou Paul Davies, entre muitos outros, evidencia a possibilidade de se escrever de modo claro, acessível e não raro brilhante para um público não iniciado. E saboreia-se, com gozo traçado de alguma melancolia, as farpas lançadas por Jay Gould aos intelectuais tradicionais: “A terceira cultura”, diz o autor de O Sorriso do Flamingo, “é uma ideia extremamente poderosa! Existe algo de parecido com uma conspiração, entre intelectuais literários que se tomam por donos da paisagem intelectual e das revistas de avaliação crítica, quando, de facto, há um grupo de escritores de não ficção, largamente oriundos das ciências, que possuem todo um exército de ideias fascinantes sobre que as pessoas querem ler". E, sublinha com fina ironia, “alguns de nós são escritores decentes e exprimem-se razoavelmente bem.” Gould cita, em abono da sua causa, o laureado com o Nobel, pelos seus estudos sobre imunologia, Sir Peter Medawar, além de mais, notabilíssimo escritor, “um cientista humanista e classicamente educado, [que] afirmou ser injusto que um cientista que não conhecesse nem arte nem música muito bem fosse, entre a gente da literatura, considerado um pateta e um filistino, ao passo que os literatos pensavam não terem necessidade de conhecer fosse o que fosse de ciência, para serem considerados pessoas educadas; tudo o que uma pessoa educada teria que saber era arte, música e literatura, mas não qualquer pedacito de ciência.” As espadas desembainhadas começavam a brilhar com fulgor intenso nas mãos de alguns dos mais notáveis cientistas que se mostravam, na esteira de Pascal, Descartes, Whitehead ou Russell, exímios ou mesmo grandes escritores (um deles, Russell, para grande pirraça de não poucos, laureado com o Nobel da... Literatura). O grande biólogo Richard Dawkins, por exemplo, reagiu à arrogância exclusivista dos humanistas com estas palavras desbocadas e certeiras: “Sinto-me um tanto paranóico com aquilo que tomo por um autêntico assalto dos media intelectuais por parte da gente literária. Não se trata apenas da palavra «intelectual» . Eu reparei, aqui há dias, num artigo, da autoria de um crítico literário, intitulado “Teoria”. Vocês querem acreditar? “Teoria” aparecia ali a significar apenas “teoria na crítica literária”. Aparecia num periódico generalista, como um diário de domingo. A própria palavra “teoria” foi tomada de assalto para fins literários extremamente paroquiais e de vistas estreitas – como se Einstein não tivesse teorias; como se Darwin não tivesse teorias.” Mais acutilante ainda – e dou-vo-lo como acepipe – o físico teórico e notabilíssimo popularizador de ciência, Paul Davies diz coisas como esta: “A maior parte dos políticos, os media e as pessoas que controlam os media – são licenciados de Oxford. Como resultado disso, a percepção pública de um intelectual é a de um gentleman de óculos e cabelos grisalhos, que estuda mitologia grega, beberica sherry e impele com vara preguiçosa e contemplativa o barco, rio abaixo, por entre os terrenos de algum colégio antigo. E é com esta percepção que é dado um status que sugere serem os intelectuais das artes e das letras que detêm o monopólio outorgado por Deus das grandes questões da existência.” Mas Davies, além de caricaturar sobre um aflitivo fundo de verdade, avisa: “O facto de os cientistas começarem a ser ouvidos, captando não só os espíritos mas também os corações da população – como se evidencia pelo fenomenal êxito dos livros de ciência – está a provocar o que se parece muito com uma gritaria territorial para os lados das letras. A repercussão disto tem assumido a forma de um palavreado histérico nos jornais e periódicos , e uma chuva de livros que denunciam os cientistas como fraudes arrogantes e interesseiras. [...] Durante anos e anos, os cientistas foram ignorados porque não eram ouvidos; agora que começam a ser ouvidos, são violentamente atacados por uma máfia intelectual.”

Sem negar mais do que alguma razão aos motivos que têm tido os cientistas para reagir, devemos, no entanto, lamentar que as coisas tenham chegado a este ponto – porque a nenhuma das partes aproveitam. As ciências são obviamente importantes mas, para existirem e se imporem, não precisam de aniquilar, no seu progresso, as humanidades. A “terceira cultura” que visionava Snow – uma interfecundação entre as duas que lhe pre-existiam – parece-me bem mais produtiva (menos destrutiva) do que aquela que Brockman nos veio apresentar. Contei já, noutro lugar, a história do chefe de empresa que deparou com dificuldades aparentemente insanáveis, quando se dispôs a dar aos seus engenheiros a oportunidade de subirem pelo organigrama acima até aos lugares de topo. Até certo nível da hierarquia, tudo corria bem mas, a partir de um certo nível, nem os engenheiros se sentiam muito confortáveis com os lugares, nem os lugares pareciam ajeitar-se demasiado bem aos engenheiros. Qual a razão? O chefe da empresa quebrou a cabeça durante anos, até que lhe apareceu a incrível solução do mistério: o que faltava aos seus engenheiros para fluírem suavemente pela escada acima era um pouco de “cultura geral”.

Peço licença para transcrever, a concluir, o que então escrevi sobre este conto exemplar e verídico. “Custara-lhe [ao chefe de empresa] chegar a uma conclusão que agora o ofuscava, pela sua evidência, mas não tinha dúvidas: 'aquilo' que a cultura geral dá – uma [abertura] de espírito, uma visão alargada dos comportamentos humanos da complexidade do ser humano, da beleza, do conhecimento e do seu valor, dos incentivos que o homem valoriza, da complexidade dos relacionamentos, do apreço pelo prazer que a música e a literatura e a arte dão, para além do que ensinam, a descoberta de que 'os escritores transformam os factos que o mundo produz – pessoas, lugares e objectos – em experiências que sugerem significados' – tudo isto dá a quem o 'possui' um maior à vontade, uma maior fluência no comércio de todos os dias com os outros, seja no âmbito privado, seja no âmbito profissional. São vantagens que ajudam quando, no desempenho das suas profissões, o engenheiro [ou o médico] não tem que se confinar ao técnico, mas tem, sobretudo, que resolver problemas de relacionamento com os outros: de persuasão, de convicção na 'venda' de uma ideia ou de um projecto, que em muito depende de uma avaliação correcta do interlocutor, ou da empatia que se saiba construir e pode depender de uma súbita revelação de sintonia de gostos ou de valores....” O ensino das humanidades pode trazer tudo isto e muito mais aos cientistas, aos técnicos, aos empresários e até aos economistas – estes últimos em grande parte responsáveis pela introdução, nas universidades, de um economicismo redutor” e incapaz de medir o valor e a necessidade de um certo “desperdício” que a universitas convoca e sempre convocou – Einstein “desperdiçou” os últimos 30 anos da sua vida na busca infrutífera de uma via que em tudo se desviava das correntes dominantes da Física do seu tempo. Não consta que a sua universidade lhe tenha pedido contas do tempo investido nem o tenha intimado à produção de n papers por ano lectivo. O economicismo que actualmente devora o ensino superior é um cancro devastador e significa o triunfo de uma miopia de efeitos nefastos. Nisto, também, um bom banho de humanidades poderá ajudar a transformar o universo universitário e empresarial. “É por isso que”, dizíamos nós no texto que há pouco dedicámos a este tema, “mais do que estar [criminosamente] a transformar os departamentos de humanidades em 'escolas de línguas', para os 'salvar' de forma pífia, haveria que utilizar o saber dos seus docentes, no sentido de se poder ensinar aos alunos de todos os departamentos da Universidade aquele 'sistema de ideias vivas que o tempo possui' (Gasset) e dá pelo nome de ...cultura.” Que não é, nem deve ser, evidentemente, património exclusivo dos literatos e humanistas, mas que, ao longo dos séculos, tem sido por eles protegido, acarinhado e desenvolvido. Assim se poderia “aproveitar”, de modo fecundo, um saber e um estar na cultura de que poderiam fruir no melhor sentido, os alunos de biologia, de medicina, de física, de química, de engenharia, de arquitectura, de agricultura... Ter lido Dickens, ou Stendhal, ou Sófocles, ou Tácito, ou Camões, ou Cesário Verde não é, para o estudioso de cultura científica, tão irrelevante como possa parecer. Einstein dizia, sem pestanejar, que tinha uma visão artística do universo. O fim das humanidades? Só se não tivermos imaginação para fazer melhor.

Eugénio Lisboa

8 comentários:

  1. Eugénio Lisboa tem 2 vantagens sobre Rui Batista:

    1. Não está sempre a falar da injustiça feita à anos atrás aos licenciados quando as Escolas Superiores de Educação começaram a...
    2. As citações estão mais integradas no resto do texto. Parecendo que não...

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  2. Tudo... num só "adjectivo": gratuitidades! JCN

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  3. Caro Eugénio Lisboa,

    A generalidade das pessoas que estudam e/ou praticam ciência nunca tiveram a intenção de acabar com as humanidades, infelizmente (para as humanidades) quem tudo fez para terminar com elas foram os seus praticantes.

    Exemplos? De que trata o pós-modernismo? Como pode alguém colocar em questão a especialidade? A especialidade existe, porque o conhecimento é demasiado vasto para continuarmos a viver no período renascentista. É simplesmente impossível, alguém conseguir saber alguma coisa com alguma profundidade sem se especializar nessa temática, porque o conhecimento não pára e se essa pessoas se distrai três ou quatro anos, terá sido completa e absolutamente ultrapassada por quem continuou a aprofundar os seus conhecimentos nessa área em particular.

    Outro exemplo que me parece lapidar é a forma um pouco arrogante como as humanidades têm tratado as ciências. Como o comum dos mortais percebe que sem ciência não haveria cuidados de saúde, computador, automóvel, alimentação na quantidade e qualidade que é hoje oferecida, entre muitos outras pequenas coisas que temos como adquiridas, naturalmente que não leva estas pessoas a muito a sério e, por vezes, até as apelida de forma pouco simpática.

    Portanto, julgo que as conclusões a que chegou carecem de comprovação científica, apesar de todas as relevantes citações no seu texto.

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  4. Houve uma coisa que me irritou no primeiro post desta serie mas que não comentei. Como hoje volta a ser repetida vou comentar.
    Essa teoria de que o Einstein desperdiçou os últimos 30 anos da vida numa teoria inútil é falsa. O que acontece é que não é fácil apresentar teorias e leis novas todos os anos. Há quantos anos não é apresentada uma grande teoria nova na Física? Mas por não haver teorias novas todos os dias isso não quer dizer que não se faça nada, pode sempre continuar-se a trabalhar nas teorias existentes, é o que toda a gente faz e foi o que o Einstein fez, na relatividade, por exemplo, aliás, ainda hoje há pessoas a trabalhar em relatividade, como é evidente.
    Quem quiser ver a lista de publicações do Einstein pode ir à wikipedia e confirmar que alguns papers científicos que ele publicou nos últimos 30 anos são bastante importantes:

    http://en.wikipedia.org/wiki/List_of_scientific_publications_by_Albert_Einstein

    Claro que antes disso fez um trabalho mais importante, mas como já disse, nõ é possível apresentar teorias revolucionárias todos os dias, nem todas as décadas.
    Quanto aos científicos terem que estudar humanidades acho isso demasiado exagerado. Ninguém precisa de estudar humanidades para gostar e saber de literatura, o Saramago que o diga, e quem diz esse diz muitos outros. Nem me consta que o Picasso ou o Dali tivessem completado cursos de pintura. Para não dizer que do milhão de pessoas que esteve ultimamente no Rock In Rio nem 0,1 por cento deve ter algum curso de música.
    Não faltam aí pessoas com cursos em ciências que gostam de literatura. Mal estavam os escritores se só vendessem livros a quem tem um curso em humanísticas, não se safavam.
    Isso dos estudos humanísticos é bom para os académicos que gostam de escrever umas teses pesadas sobre esses assuntos, que só vão interessar aos colegas, ao resto do mundo não aquecem nem arrefecem por aí além.
    luis

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  5. L'humanisme est une relation de l'homme à l'Infini, comme il est une relation de toutes choses à l'homme."

    (Charmont, L'humanisme et l'humain, Paris, 1934, p. 23.

    Vi ontem um bicho
    na imundície do pátio
    catando comida entre os detritos.

    Quando achava alguma coisa,
    não examinava nem cheirava:
    engolia com voracidade.

    O bicho não era um cão,
    não era um gato,
    não era um rato.

    O bicho, meu Deus, era um homem.

    (Manuel Bandeira, Poesia e prosa, Rio de Janeiro, ed. Aguilar, 1958, vol I, p. 356)

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  6. Anónimo de 1 de Junho às 23:50:

    No uso do direito ao contraditório, discorda este anónimo do facto de eu estar sempre a falar ”da injustiça feita à anos atrás aos licenciados quando as Escolas Superiores de Educação começaram a…”(sic.).

    Falemos claro! Eu não estou a falar, apenas, de uma injustiça do passado. Falo do passado, do presente e de um desejado futuro em que se quer fazer com que a opinião pública tenha como coisa boa tomar o gato por lebre. Ou seja, haver como justo, como se fosse uma mesma coisa, formar um professor na universidade para ministrar uma única disciplina no 2.º ciclo do ensino básico e um outro para dar, simultaneamente, duas disciplinas com formação obtida no politécnico (escolas superiores de educação) ou, até, em escolas privadas. Escolas privadas que em verdadeiro processo de alquimia transformaram, num estalar de dedos, diplomados das antigas escolas do magistério primário em professores licenciados para o 2.º ciclo do ensino básico.

    Encontrei comprovação desta minha antiga posição, em Reis Torgal, catedrático de Letras de Coimbra que, numa breve, mas incisiva intervenção, num debate promovido pela Associação Académica de Coimbra (19.Fev.2003) “se insurgiu contra a formação de professores do 2.º ciclo do básico com diferentes níveis de exigência” (“Do Caos à Ordem dos Professores”, Rui Baptista, edição do SNPL, Janeiro de 2004, p.79).

    E se, como escreveu José Luís Borges, “temos como futuro o esquecimento”, estarei sempre na linha da frente do combate a uma situação odiosamente tirânica. Seja como for, ninguém é obrigado a honrar-me com a leitura atenta e crítica dos meus muitos textos passados, actuais e futuros sobre esta temática. Perder batalhas não significa perder a guerra da qualidade de um ensino preocupado com a exigência da formação académica dos seus docentes.

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  7. Estes posts sobre humanidades são (entre outros, o tempo é escasso) inquestionavelmente: muito bons! Informação documentada de enorme qualidade e honestidade. Pena tenho de não ter mais tempo para comentar várias coisas que achei interessantíssimas.

    Quanto ao que aí alguém escreveu sobre Rui Baptista, como ele próprio diz, não é uma questão de passado ou presente, é uma questão de futuro. Quem não o entende é incauto. E a argumentação ininteligível: as questões de injustiça e bom-senso nunca serão anacrónicas e nunca serão motivo pequeno para por elas não se lutar. Então os critérios que garantem a qualidade dum curso superior, e do ensino em geral, não têm de ser garantidos para uma sociedade que se pretende estimulante e civilizada?

    Anónima da Silva

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  8. Prezada Anónima da Silva:

    Como é óbvio, pela parte que me toca, sinto-me reconfortado pelas suas amáveis palavras.

    A questão de um mau ensino e denunciá-lo não é uma coisa de somenos importância.É uma questão de cidadania e de promoção cultural de um povo para evitar que de futuro os nossos escolares venham para a vida adulta a dar erros de português de palmatória. A sua contribuição teve esse inegável mérito.

    Cordiais cumprimentos.

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