THE PORTUGUESE RECTORS ON THE EUROPEAN SCIENCE FOUNDATION EVALUATION

terça-feira, 31 de julho de 2007

CONTINUA A HAVER TESOUROS NO QUIOSQUE


A última revista “Focus” (Nº 406 de 26/7/2007) tem como tema de capa “Feitiçaria em Portugal”. Num trabalho de 10 páginas ficamos a saber que a “magia está na moda”.

Na peça “O Exorcista de Barcelos” ficamos também a saber que Mestre Alves é uma “estrela da feitiçaria em Portugal” (terá esconjurado nada mais nada menos do que “112 espíritos malignos de vários tipos e feitios”). Como são as consultas? 0 próprio diz que começa "a conversar com a pessoa com o crucifixo na mão, vou brincando com o crucifico [sic] e fazendo perguntas (...). Se o rosto ou a voz da pessoa se modifica, se muda a personalidade, então eu percebo que há um problema de campo espiritual, que há um espírito a atormentá-la”. Nesse caso lá faz mais um exorcismo: além do crucifixo, precisa de água benta, uma estola “como a que os padres usam” e da Bíblia. A certa altura, o exorcista “mete o crucifixo no peito” do exorcizado (ai, espero que não doa muito!). Este terá ainda de tomar banhos de imersão com água e sal durante sete dias seguidos e, no final, exorcista e exorcizado vão ao “cemitério onde está sepultada a pessoa cujo espírito atormentou o seu cliente e juntos pedem para que fique em paz”. Quanto custa a aldrabice? Mil a mil quinhentos erros pois o exorcista “tem as suas despesas e acompanha sempre a pessoa”. Não diz, mas os sais de banho e os transportes para o cemitério do espírito devem estar incluídos no preço.

Há também uma senhora, conhecida por Simara, que “em pequena julgava que a avó e a bisavó eram fadas”. Agora é ela que se julga fada e faz curas com cristais. Uma consulta custa 50 euros, a que acresce o preço dos ditos cristais, que varia cada um entre cinco e dez euros. A “Focus” não diz, mas Simara (na foto, em cima) chama-se Suzete Blasco, é espanhola e já foi jornalista e cançonetista antes de se tornar cristaloterapeuta (não sei se esta profissão está registada) e taróloga (idem). Deve ser famosa pois foi ao "Big Brother dos famosos". Ela disse à revista que “sente que muitas vezes as pessoas não têm quem as ouça”. Julgo que não se poderá queixar do mesmo. Tem muita gente que a ouve e, ainda melhor, paga para a ouvir.

O trabalho parece muito completo. Até tem depoimentos do divulgador Padre Fontes e do estudioso Moisés Espírito Santo, um professor de Sociologia com um nome curiosíssimo, que costumam aparecer, juntos ou separados (normalmente juntos), sempre que se trata de feitiçaria. Como bónus, aparecem três “magias de protecção”, a última das quais é o “sortilégio das nove velas pretas”, no qual se pede “pelo poder da cruz, pelo poder da escuridão, pelo poder do fogo e do ar que se derretam as más palavras, que se convertam em nada, que assim seja e que assim se faça.”

As jornalistas que fizeram o trabalho (esta expressão não tem nada a ver com os “trabalhos” que o exorcista "faz") dizem, a abrir, que entre “mistério” e “aldrabice” cabe ao leitor o julgamento. Será que elas próprias não conseguem julgar?

A TV QUE DÁ CABO DE NÓS


Consta que o governo está muito interessado na defesa do consumidor. Sem dúvida que “simplexes” como a “casa na hora” são do agrado deste consumidor. Se os notários se estão a queixar, é sinal de que algo progride no nosso país. Confesso que nunca percebi porque hei-se pagar a um fulano que não me conhece de lado nenhum para ele me dizer que eu, afinal, sou eu.

Mas ainda falta fazer muita coisa. Este consumidor gostaria, por exemplo, que o governo – ou os tribunais ou fosse lá quem fosse – o protegesse de uma praga que o tem vindo a assolar. Julgo não estar sozinho, de modo que se este consumidor for defendido por quem de direito, muitos outros também o serão e ficaríamos todos contentes e felizes. Acontece que às horas mais inusitadas do dia e da noite e até, principalmente, aquela hora crepuscular entre o dia e a noite em que julgávamos que tínhamos direito a um jantar sossegado toca o telefone fixo ou o móvel – quando não tocam os dois ao mesmo tempo, ficando nós confundidos sobre qual devemos atender primeiro. Do outro lado está, anunciado no visor, um anónimo (esta é uma maravilha da tecnologia moderna: podemos saber que não sabemos quem nos está a telefonar!). Já que nos levantámos, dizemos-lhe educadamente “Alô”, “Boa Noite” ou o equivalente.

Do outro lado, ficamos então a saber, está a empresa da Teresinha e das suas amigas: a TV que dá cabo de nós. Não, não há coisas fantásticas. Eu já lhes disse que não estou interessado nas coisas fantásticas em que eles me julgam interessados uma vez que, da TV que dá cabo de nós, praticamente só consumo a SIC Notícias (alguns canais interessantes fecharam num insulto ao consumidor que celebrou um contrato julgando que os ia poder ver). E da Net que dá cabo de nós também já tenho o que quero. Eles insistem, de cada vez com vozes diferentes e de cada vez com ofertas diferentes. Já tentei ser pedagógico, repetindo que não estou interessado em nada mais deles além do que já tenho, mas não me acreditam em mim. E insistem mais! Eu só não lhes bato com o telefone no descanso a fazer triiim-triim porque agora já não há esses modelos que tanto jeito davam. Mas carrego no botão de desligar!

Tudo isto se poderia resolver muito simplesmente se fosse obrigatório saber no visor qual é a empresa que nos está a telefonar. Ou se fosse obrigatório que as empresas desse género que gostam de invadir a nossa privacidade retirassem da sua base de dados o nome de qualquer um de nós que se sentisse incomodado.

Eu repito, a toda a navegação, o aviso que já fiz várias vezes à Teresinha e às suas amigas e amigos: se julgam que assim aumentam os seus lucros, vão ver o prejuízo que têm. Qualquer dia mudo-me para outra TV por cabo e, se mais clientes fizerem o mesmo, em vez de serem eles a dar cabo de nós, seremos nós a dar cabo deles.

Formosura, dieta e exercício físico



É com o maior gosto que publicamos um outro texto de Rui Baptista, saído há dias no "Diário de Coimbra" e motivado pela discussão que por aqui passou sobre as dietas de Verão. A sua escrita reúne duas coisas de que gostamos aqui no blog: sabedoria e humor. A imagem é o quadro "O Banho" do pintor colombiano Fernando Botero.

“Para os gregos, a beleza é o ponto de partida”. Albert Camus

Numa época estival em que a praia deixa de tolerar “o manto diáfano da fantasia”, o oportuno artigo de opinião da nutricionista Ana Carvalhas, licenciada pela Universidade do Porto, publicado no passado dia 18 de Julho, no “Diário de Coimbra” - intitulado de uma maneira muito feliz “Espelho meu…? - , transportou-me a alguns anos atrás, altura em que proferi uma palestra nos Rotários/Coimbra sobre as vantagens do exercício físico na saúde e aparência estética das pessoas.

Na fase subsequente o saudoso Prof. Mário Mendes, catedrático de Medicina, na sua intervenção na fase de debate, contou, com a verve que lhe corria no sangue, que tendo aconselhado um seu paciente obeso a diminuir de peso lhe foi retorquido: “Senhor doutor, prefiro ser gordo a ser o magro mais elegante do cemitério!” Tudo leva a crer que esta saída baseava-se na crença enraizada de que ser “elegante” era sinónimo de carência de almoços, bem comidos e bem regados, debilitante do organismo senão mesmo responsável pelo aparecimento da tuberculose ou tísica, como era conhecida pelo povo, e lhe rendeu o medo que ela provocava pelos seus efeitos devastadores antes do aparecimento da milagrosa penicilina.

Sobre esta temática, numa conferência por mim proferida na Sociedade de Estudos de Moçambique (Lourenço Marques, 1972), de que viria a ser mais tarde presidente da respectiva Secção de Ciências, comecei precisamente por criticar a noção estética renascentista que dava corpo e alma a uma associação de gordura e formosura (em nossos dias, substituída por anorexia como padrão de beleza transportada para as passadeiras dos desfiles de modas, e que aquela nutricionista desmistifica chamando a atenção para os seus perigos que conduzem a um desenlace fatal se não tratada atempadamente.

E porque o aspecto nutricional deve estar sempre acompanhado do exercício físico, julgo que a transcrição de parte dessa minha conferência pode ajudar a fazer essa necessária ponte. Disse eu, então (deve ter-se em atenção que o texto se reporta ao inícios de 70, vindo a ser publicado num opúsculo editado por aquela Sociedade de Estudos):

“Atentemos nos efeitos perniciosos de uma civilização orientada pelo homem para sua comodidade e…extermínio, após uma vida de aparência inestética. Refiro-me à nediez, cantada pelo poeta Ribeiro Couto: ‘Que gorda esta menina, que linda! / Que gorda esta menina, que linda! / E ela ri de prazer’. Todavia, contrariando este conceito poético, temos Ricardo Jorge a escrever: ‘A plástica opulenta das belas de Ticiano e Rubens está reprovada, dando-se por mentiroso o nosso velho anexim: dá-me gordura que eu te darei formosura’.
Na verdade, para além do aspecto inestético da gordura, ela constitui, também, uma sobrecarga ao trabalho cardíaco por envolver a irrigação de uma massa inerte, o tecido adiposo. Por outro lado, a sua acumulação na região abdominal (os inestéticos ‘pneus’) constitui um pesado fardo para o estatismo da coluna vertebral, por si só, dificultado pela conquista da posição bípede que permitiu ao homem elevar as mãos em preces a Deus. Este acréscimo de tecido gordo que pode atingira foros de obesidade é responsável, entre outros factores, pelo estreitamento dos espaços intervertebrais e consequente compressão dos respectivos discos conducentes ao aparecimento de hérnias discais, por exemplo.
A propósito, ouçamos o que nos tem para dizer o Prof. Duchosal da Universidade de Genebra: ‘Engordando e perdendo o tónus muscular expõe o homem o sistema circulatório a outro perigo – o desequilíbrio metabólico que acelera o processo de arteriosclerose' ”.


E se à dieta [ou talvez melhor dito, à selecção dos alimentos a ingerir], por si só, tem sido cometido papel de relevo no processo de emagrecimento, outro tanto, deve suceder no que respeita ao exercício físico, por vezes e impropriamente, tido como suficiente isoladamente. Assim, o exercício físico, ainda que mesmo feito com persistência (e não somente quando o verão se faz anunciar!), por si só, não resolve o problema de excesso de peso já que abrindo o apetite não contraria o desequilíbrio metabólico com predomínio assimilativo. Consequentemente, para a obtenção de um peso ideal aliado a proporções físicas de estatuária grega deve ser preconizado o exercício físico acompanhado por uma alimentação correctamente planeada [é conveniente chamar a atenção para o facto de nem sempre a balança ‘falar verdade’, por o tecido muscular ser mais denso que a gordura].

Para já o conselho aqui fica. Para emagrecer, segundo cânones estéticos da sociedade contemporânea, torna-se necessário muito exercício físico, impõe-se uma equilibrada dieta e…exige-se enorme espírito de sacrifício para não se ficar pelas intenções, porque, como diz o ditado, ‘cheio de boas intenções está o inferno cheio’! A haver uma fórmula mágica é pela certa esta, pese embora aos adoradores de pílulas milagrosas e fáceis de tomar [vivia-se então um tempo em os médicos da moda não tinham feito a sua aparição no universo ioiô: emagrece, engorda, emagrece, engorda…].

Entretanto, no aspecto alimentar também se fazem sentir os efeitos nefastos da civilização hodierna. Ela destrói, quase por completo, a defesa do homem moderno, o instinto que mereceu do médico Silva Melo o seguinte comentário: ‘Ainda que reconhecendo-se hoje que o instinto pode ter as suas dúvidas e os seus desvios, sendo capaz de conduzir a erros e prejuízos, constitui uma das forças mais poderosas de que dispõe o ser animal para orientar a sua existência e garantir a sua vida’. Ou seja, perdendo o instinto animal, quase por completo, e num grau tanto ou mais elevado quanto maior for o nível civilizacional, fica o homem entregue à orientação de um requintado paladar, mau conselheiro na escolha dos alimentos mais saudáveis.

O alcance e a manutenção de um peso corporal saudável é um favor que se fica a dever ao binómio exercício físico/alimentação equilibrada. O médico e humanista espanhol, Gregório Marañón, não se escusa mesmo em afirmar: ‘Por isso não exagero quando sou a dizer a alguns doentes, aos que custam trabalho convencer que devem emagrecer, que por cada quilo de peso que perdem ganham dois anos de vida’ (“Educação Física ao Serviço da Saúde Pública”, edição da Sociedade de Estudos de Moçambique, pp. 31-33, 1973).

E mesmo que a “linha” não seja uma coisa que preocupe demasiado o leitor pouco dado a “modas corporais” e seus sacrifícios, traduzidos na exigente e dupla disciplina do exercício físico e de uma alimentação equilibrada, enfatizo o papel de ambos no bem-estar físico e psicológico da pessoa numa sociedade dominada pelo “stress” diário num mundo de feroz competição por bens materiais e em que a beleza feminina das curvas de Vénus de Milo ou as formas físicas masculinas apolíneas ressurgem com renovada pujança. Por último, estando também em cima da mesa que por cada quilo corporal a mais que se perca ganham-se dois anos de vida, apostemos nesta cartada. É singelo contra dobrado! Ou, em alternativa, como disse um fisiólogo sueco: “Se não gosta de fazer exercícios, compre um cão”. Ambos beneficiarão com os passeios diários à rua!

P.S.: Narciso Moura, após três anos de dieta rigorosa, muito exercício físico e uma vontade inabalável, perdeu 100 quilos (“Diário de Coimbra”, 1.ª página, 21.Julho.2007)

O ERRO E A SUA AMIGA VERDADE

“Em vez de falar dum oceano de incerteza em torno de uma ilha de certeza, pode ser preferível falar dum oceano de incerteza no qual pequenas rochas de certeza constantemente aparecem e desaparecem.”
John Watkins, 1990, 99.

“Assim nos erguemos do marasmo da ignorância, assim atiramos ao ar uma corda e trepamos por ela desde que atinja um ponto de apoio, um ínfimo galho de árvore, por mais precário que seja.”
Karl Popper, 1996, 164.

No domínio científico, parece ser possível afirmar que o único critério possível para se demarcarem erros é tomar como referência verdades que se conseguiram reunir. Mas, logo de seguida, temos de acrescentar que este critério não é completamente seguro, pois há razões para admitir que as verdades, mesmo as mais consistentes, podem ser (não quer, necessariamente, dizer que o sejam) incompletas, imperfeitas e provisórias. Ainda assim, não nos parece tratar-se de um critério inválido ou sem qualquer relevância.

Para explicar melhor esta ideia é importante desmistificar um grave equívoco que lhe anda associado: sendo as verdades científicas, como todas as outras verdades, construídos por pessoas, não têm outro valor além daquele que elas lhe atribuem, ou seja, têm apenas e só valor para determinada(s) pessoa(s) ou comunidade(s), não havendo qualquer possibilidade de determinar o seu valor objectivo. Ora, daqui até se desvalorizarem as verdades ou se manifestar antagonismo contra o seu valor é um pequeno passo que, lamentavelmente, tem sido dado vezes demais.

Este é um raciocínio em que não podemos nem devemos cair, pois como escreveu Bronowski (1973, 373), “aquilo que conseguimos conhecer, apesar de sermos falíveis” mesmo que rodeado de alguma incerteza, possui um valor inestimável. E Popper (1999, 9; 122) acrescentou: “o conhecimento científico e a racionalidade humana que o produz são, em meu entender, sempre falíveis ou sujeitos a erro, mas são também, creio, o orgulho da humanidade”. Este último autor explicou que, de uma vez por todas, “devemos renunciar à ideia de que somos espectadores passivos do mundo, e acolher a ideia de que somos responsáveis, pelo menos em parte, pelo entendimento que temos dele”, até porque “uma das principais tarefas da razão humana é tornar o universo em que vivemos algo compreensível para nós” (1999, 63). Esse entendimento não será completo nem perfeito, porém, é preferível, notou Moles (1995, 16) com muita simplicidade, “saber de forma incerta do que não saber rigorosamente nada”.

Mas que verdades são estas, produzidas no seio da ciência e que, com alguma confiança, permitem demarcar erros? Watkins (1990, 14) explica de modo quase redundante que se trata de “um corpo organizado de saber sem a implicação de estar livre de erro” e Ziman (1999, 450) sublinha que o seu apuramento decorre da “resolução de disputas factuais” isto é, da submissão das proposições em debate — que, só por si, requerem integridade lógica — a provas empíricas. São verdades que se ajustam à realidade, “que se baseiam em dados verificados e que são aptos para fornecer predições correctas” (Morin, 1994, 19).

Ao contrário do que o pós-modernismo faz crer, não dependem tais verdades nem do consenso retórico nem do consenso democrático, uma vez que as estratégias de apuramento que as originam — o convencimento conseguido através da sedutora eloquência argumentativa e a eleição da opinião maioritária que se assume como legítima — não apresentam garantias factuais capazes de, com segurança, os rejeitar ou aceitar. No domínio científico, o consenso possui um sentido muito particular: reporta-se à “convergência entre diferentes indivíduos, raciocinando todos para chegar à verdade” (Nagel, 1999, 42), mas sempre apoiados em dados apurados, tanto quanto é humanamente possível, de maneira imparcial, sem interferência, portanto, de ideologias e de preconceitos alheios a essa intenção. São esses dados, e não outros, que permitem confirmar ou infirmar as proposições em debate.

A exigência de facticidade, num ambiente de objectividade — que a ciência impôs a si própria e se tornou, afinal, a sua característica mais marcante (Gil, 1999, 10) — permite atribuir, criteriosamente, a determinados dados, o estatuto de verdades e a outros o estatuto de erros.

Popper (1990, 48) — inspirado em dois pensadores por quem teve especial apreço, Immanuel Kant e Alfred Tarski — considerou, assim, que a reabilitação do conceito de verdade objectiva, ou seja, a verdade de acordo com a demonstração dos factos constitui “um dos resultados mais importantes da lógica moderna”, “o valor fundamental” da ciência e, afinal, “o grande baluarte” contra a suposição de que o puro pensar se basta a si próprio ou, como escreveu Brochard (1971, 16), de que é “sem sair de si mesmo, e pela virtude própria, que o espírito descobre a verdade”.

Não vejamos, pois, neste conceito de verdade objectiva qualquer indício de defesa do empirismo ou do dogmatismo positivistas mas, pelo contrário, o sustentáculo da actividade científica que possibilita, na opinião de Holton (1998), a redução de incertezas, que permite evitar alguns erros e ultrapassar outros.

Imagem: Desenhando-se (1948) de Maurits Cornelis Escher

Referências bibliográficas:

Brochard, V. (1971). Do erro. Coimbra: Atlântida.
Bronowsky, J. (1973). The ascent of man. Boston. Litle, Brow and Company.
Gil, F. (1999). A ciência tal qual se faz e o problema da objectividade in F. Gil (Coord.). A ciência tal qual se faz. Lisboa: Ministério da Ciência e Tecnologia/João Sá da Costa, 9-29.
Holton, G. (1998). A cultura científica e os seus inimigos. Lisboa: Gradiva.
Moles, A. (1995). As ciências do imprevisto. Lisboa: Afrontamento.
Morin, E. (1994). Ciência com consciência. Lisboa: Europa-América.
Nagel, T. (1999). A última palavra. Lisboa: Gradiva.
Popper, K. (1992). Em busca de um mundo melhor. Lisboa: Fragmentos.
Popper, K. (1996). O conhecimento e o problema corpo-mente. Lisboa: Edições 70.
Popper, K. (1999). O mito do contexto: em defesa da ciência e da racionalidade. Lisboa: Edições 70.
Watkins, J. (1990). Prefácio à edição portuguesa. Ciência e cepticismo. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.
Ziman, J. (1999). A ciência na sociedade moderna in F. Gil (Coord.). A ciência tal qual se faz. Lisboa: Ministério da Ciência e Tecnologia/João Sá da Costa, 4

segunda-feira, 30 de julho de 2007

PROBLEMAS COM CALCULADORAS


Faço a seguinte proposta para a utilização massiva de calculadoras no primeiro ano do ensino básico. Os professores poderão utilizar calculadoras mas apenas em problemas como o seguinte:

"Se já tens duas calculadoras e te derem duas novas calculadoras, com quantas calculadoras ficas?"

Os alunos poderão fazer o cálculo digitalmente, isto é, contando com os dedos. Usarão modelos antigos pois assim fica mais barato!

O PAÍS PÁRA PARA BANHOS


Chegou o Verão e o país, como está à beira-mar, pára para banhos... Em breve estarão, com o calor estival, esquecidos problemas com a miserável média nacional a Matemática no 9º ano (o novo programa de matemática do básico vai insistir, pasme-se, nas calculadoras!), os erros de palmatória em várias provas de exame (a culpa morreu solteirinha porque ninguém quis casar com ela!) e até as diatribes da senhora directora regional de educação do Norte (parece que ainda é a mesma, mesmo depois de ter sido completamente desautorizada!). Somos assim: custa-nos a aprender. Oxalá me engane, mas temo que para o ano havemos de voltar a banhos depois de cometer as mesmas asneiras...

MARCONI ENTRE NÓS

Passaram no dia 21 de Julho passado 70 exactos anos sobre a morte, no ano de 1937, do físico e inventor italiano Guglielmo Marconi (nascido em Bolonha em 24 de Abril de 1874), Prémio Nobel da Física em 1909. A ele se deve a generalização e a comercialização da telegrafia sem fios (TSF), embora a descoberta das ondas de rádio se deva ao alemão Heinrich Hertz e a primeira patente sobre a TSF se deva ao físico norte-americano de origem croata Nikola Tesla.

Ao contrário de Einstein, que passou em Portugal despercebido em 1925 (já depois do seu prémio Nobel de 1921), Marconi foi recebido em Portugal com todas as honras e por três vezes: em 1912, em 1920 e em 1929. Da primeira vez celebrou um contrato com o governo português, que não viria a ser cumprido da parte deste. Da segunda vez, veio a Sintra, a bordo do seu iate-laboratório, e foi recebido pelo Ministro da Marinha. Da terceira vez visitou a Companhia Portuguesa Rádio Marconi, que tinha sido fundada em 1925 (e que foi incorporada na Portugal Telecom em 1995).


A foto seguinte, extraída deste sítio, ilustra a visita de 1912, na qual foi recebido pelo Presidente da República Bernardino Machado, ele próprio um cientista.


Da segunda vez, veio a Sintra, a bordo do seu iate-laboratório, e foi recebido pelo Ministro da Marinha. Sobre a visita de 1912, transcreve-se deste sítio a notícia da "Ilustração Portuguesa", que está no cimo deste post:

“Visitantes Ilustres” - “Marconi e sua familia visita Lisboa”

Foto 1:

“O «yacht» italiano «Electra» em que viaja Marconi.”

“Marconi, o sabio ilustre que todo o mundo admira, chegou a Lisb
oa, onde veiu pela primeira vez, a bordo do explendido “yacht Electra”. Acompanhavam-no sua esposa e filha e foi recebido com as honras que o prestigio do seu nome tem direito. Marconi é o descobridor da telegrafia sem fios e é por isso um dos nomes que a humanidade deve escrever em letras d’oiro. Quantas vidas salvas, que inenarráveis serviços o seu invento tem prestado? Pois o sabio Ilustre veiu até Portugal e visitou Cintra a bela, tão bela que lord Byron que tudo achava detestavel não teve malquerenças para ela. O sr. ministro da Marinha ofereceu-lhe no hotel Costa um almoço e o sr. ministro de Italia um banquete no Avenida Palace. Marconi achou delicioso o nosso paiz e a bordo do seu “yacht” saíu o nosso porto com destino a Gibraltar, d’onde seguirá para Sevilha.”

Foto 2:
“O celebre inventor Guglielmo Marconi. – Marconi e a sua filha na escadaria do Paço de Cintra.”
p.311


Fonte: Ilustração Portugueza, nº741, 3-5-1920, p.311-312.

Da terceira vez que Marconi nos visita, a situação em Portugal era de ditadura militar (Salazar era ministro das Finanças). Marconi tinha entrado no Partido Fascista Italiano em 1923, tendo servido o regime de Mussolini à frente da Academia de Itália. No final da sua vida, exigia ser tratado por "Sua Excelência o Senador Marquês Guglielmo Marconi, presidente da Real Academia de Itália, Membro do Grande Conselho Fascista."

Soprar com hélio...



Com hélio a música é outra!

Desafio de férias aos leitores


Já por mais do que uma vez o DE RERUM NATURA se referiu a invenções, um tema a que o blogue SORUMBÁTICO também não é indiferente. Assim, propõe-se (em simultâneo em ambos os blogues) um desafio que consiste em dizer, até às 18h de 31 de Julho (3ª-feira), «qual a invenção que esta gravura de 1880 pretende documentar» - o que era e para que servia. Seguidamente, será dada a "resposta oficial", afixando o texto que acompanhava a gravura original.

NOTA: Estando em causa - digamos... - uma "investigação", o SORUMBÁTICO oferece, como prémio ao primeiro leitor que, em "Comentários", der a resposta certa (a hora será a que estiver indicada no "Comentário"), um dos seguintes livros, à escolha do vencedor: «Crime Impune», «Betty», «O Tempo de Anais» ou «Os Cúmplices» (de Georges Simenon); «12 Aventuras de Sherlock Holmes» (de Conan Doyle); «Um Crime no Expresso do Oriente» (de Agatha Christie).

domingo, 29 de julho de 2007

Ver o céu do alto do Convento de Mafra


Informação recebida do Observatório Astronómico de Lisboa (OAL) / Centro de Astronomia e Astrofísica da Universidade de Lisboa

ACTIVIDADES DE VERÃO NO OAL - VENHA A MAFRA VER ESTRELAS À NOITE

O OAL desenvolve durante este Verão uma colaboração com o Palácio Nacional de Mafra para a realização de sessões de observação nocturna a partir do telhado do Palácio.

As datas previstas para esta actividade são: 4, 18 e 25 de Agosto das 21h30 às 00h30. Visitas para grupos máximos de 30 pax mediante marcação prévia

Telef: 261 817550 (até Sábado às 17 h)
Fax: 261 811947 (até 6ª feira anterior às 17h)
Email: pnmafra@ippar.pt (até 6ª feira anterior às 17h)
Custo: 8 Euro/pax (inclui chocolate quente)
Aconselha-se o uso de vestuário cómodo e quente, ténis e 1 lanterna.

Nota:
A visita estará dependente das condiçães meteorológicas. Para confirmação da adequabilidade das condições meteorológicas da visita Telef: 261 812 105 (Escola Prática de Infantaria de Mafra) das 17h30m às 21h30m.

Olhar o céu...

A observação astronómica do céu é um fascínio que, devidamente acompanhado, torna-se uma paixão ainda maior. Nestas noites iremos espreitar por bons telescópios guiados por astrofísicos, poetas da natureza e trovadores dos céus, para contemplar o Universo.

Nos planetas do sistema solar começamos com as crateras e montanhas da Lua, a face de Vénus cuja atmosfera espessa não permite ver o solo. Júpiter com o anticiclone perene na Grande Mancha e as 4 luas galileanas (Io, Europa, Calisto e Ganimedes) que orbitam rapidamente este gigante gasoso. Ver Saturno e os seus anéis dá forma ao imaginário que temos desde criança.

Depois afastamo-nos do Sol e observamos as estrelas próximas de cores diversas, as nuvens gasosas onde se formam (nebulosas de emissão) e os gases em expansão rápida que ejectam, quando morrem como nebulosas planetárias (M57) ou como supernovas, autêntico renascer do cosmos.

Depois de ver os enxames jovens de estrelas no disco da nossa galáxia, viajamos aos enxames globulares de estrelas (M13 de Hércules), que guardam das estrelas quimicamente mais puras e velhas do universo.

Se o céu o permitir fugimos à Via Láctea e saltamos para as outras galáxias, começando pela vizinha Andrómeda cuja luz a abandonou há 2,3 milhões de anos. Progredimos depois até às galáxias tão longínquas cuja luz é velha quanto o próprio universo...

E depois vem a paz.

O cancro da mama, a arte e a internet

















O cancro da mama é um tipo de cancro que afecta uma elevadíssima percentagem de mulheres em todo o mundo. Calcula-se que cerca de 1 em cada 10 mulheres virá a desenvolver cancro da mama ao longo da sua vida. Apesar dos desenvolvimentos terapêuticos, continua a ser a principal causa de morte nas mulheres, entre os 35 e os 55 anos e a segunda entre mulheres de todas as idades.

Em Portugal, anualmente são detectados cerca de 4500 novos casos de cancro da mama, e 1500 mulheres morrem com esta doença.

Apesar de uma propensão familiar ser um dos factores de risco, há muitos outros a considerar, entre os quais, não ter filhos, exposição a substâncias cancerígenas, uma menarca precoce e uma menopausa tardia.

Recebi uma informação sobre os prémios CES (Centro de estudos Sociais – Coimbra) para jovens cientistas sociais, que apresentava um dos textos premiados, reflectindo sobre este drama feminino.

Passo a transcrever:
“Susana de Noronha vence em ex aequo a 5ª edição internacional do Prémio CES para Jovens Cientistas Sociais de Língua Oficial Portuguesa atribuído pelo Centro de Estudos Sociais (Laboratório Associado da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra).

O texto premiado (A Tinta, a Mariposa e a Metástase: a arte enquanto experiência, conhecimento e acção transformativa na instalação do cancro entre a pele da mama e o lugar digital) destaca as relações entre arte, doença oncológica e conhecimento através de um trânsito entre a experiência incorporada, o objecto de arte e os espaços internéticos da sua exposição.

Os resultados da 5ª edição do referido prémio destacam a produção feminina de conhecimento académico, atribuindo o galardão ex aequo e duas menções honrosas a quatro jovens investigadoras.

Prémio ex aequo: Susana de Noronha e Clara Santos
Menções Honrosas: Jacqueline Sinhoretto e Maria Carvalho”

Para quê este gongorismo discursivo? Será que a clareza é difícil, ou desinteressante?

BREVE HISTÓRIA DAS ACADEMIAS CIENTÍFICAS

Escrito em colaboração com António José Leonardo:

O desenvolvimento da ciência e da filosofia esteve sempre relacionado com a existência de instituições que promovessem a criação e comunicação de saberes. Na Antiguidade a instrução estava associada à religião, ocorrendo sobretudo em templos. Foi na Grécia antiga que surgiram as primeiras instituição seculares dedicadas ao ensino, como a Academia de Platão ou o Lycaeum de Aristóteles. As escolas e universidades fundadas na Idade Média tiveram como função principal a transmissão de conhecimentos. Os conteúdos ensinados baseavam-se nos escritos antigos que eram destilados com escasso espírito crítico.

A academia como sociedade de sábios com o objectivo de promover a pesquisa científica, estimulando a discussão entre pares, é uma das instituições criadas logo no início da ciência moderna, sendo ela própria parte do método científico. Uma teoria científica, para se afirmar, necessitava de ser comunicada a um conjunto de sábios que a podiam criticar livremente.

As primeiras academias resumiam-se a encontros informais, em princípio regulares, na casa de um nobre ou mecenas, onde um grupo de eruditos debatiam temas que iam da poesia à matemática, passando pela astrologia / astronomia, filosofia e medicina. Um exemplo foi a casa dos Medici, em Florença, no século XV. Estes grupos evoluíram para sociedades, mais ou menos organizadas, das quais a mais famosa foi a Accademia dei Lincei (o nome revela a pouca modéstia dos seus membros, que se julgavam possuidores de uma perspicácia de lince!), fundada por quatro jovens aristocratas em 1603, entre os quais o Príncipe Federico Cesi. Galileu foi membro desta academia e nela divulgou as suas descobertas astronómicas. O nome “telescópio” foi mesmo proposto num banquete dos “linces” em honra de Galileu. Foi através desta academia que Galileu publicou o seu opúsculo em que anunciava a descoberta das manchas solares e onde já defendia o sistema de Copérnico.

A primeira sociedade científica a receber uma autorização oficial da Igreja Católica foi, porém, a Accademia del Cimento (isto é, academia da experimentação), fundada em Florença, em 1657, por dois pupilos de Galileu. Contou com o patrocínio do Príncipe Leopoldo de Medici, irmão do Grão-Duque Fernando II, que conseguiu reunir a maior colecção de equipamento científico da época ao longo dos seus dez anos de existência. Estas sociedades satisfaziam os caprichos dos seus patronos, dos quais dependiam economicamente, sem posuírem uma estrutura coerente de pesquisa científica. Nos “Ensaios das Experiências Naturais” da Accademia del Cimento publicados em 1667 destacam-se as mais variadas experiências nas áreas da pneumática, som, magnetismo, movimento, etc. realizadas com os instrumentos da academia.

O papel da Itália como centro da “nova ciência” terminou com a extinção da Accademia del Cimento e com a assumpção, por parte da Igreja, de uma postura repressiva de novas ideias que contrariassem os escritos de Aristóteles e Ptolomeu. A Inglaterra herdou o legado italiano, ao criar a Royal Society. Desde 1645 que um grupo de cientistas, na altura designados “filósofos naturais”, se reunia em Londres, com alguma regularidade, para discutir novas ideias e comunicar resultados obtidos individualmente. Tratava-se de um conjunto de personalidades bem informadas que mantinham correspondência com os principais cientistas europeus. Em 1662, este grupo tornou-se na Royal Society, formalizada por Carta Régia de D. Carlos II (no mesmo ano em que este se casou com Catarina de Bragança, filha do rei de Portugal D. João IV). Não tinha quaisquer obrigações para com o governo e o próprio D. Carlos II nunca a levou muito a sério (chamava aos membros os "meus bobos"). Apesar de o rei ser o patrono no papel, ele nunca lhe atribuiu qualquer subsídio (concedeu apenas algumas benesses como o envio da correspondência externa pela mala diplomática). A Royal Society tinha membros estrangeiros notáveis, como o holandês Christiaan Huyghens. Apesar da dedicação de muitos dos seus associados, a Royal Society não se tornou um verdadeiro instituto de ciência nas décadas que se seguiram à sua fundação, funcionando sem programa e ao sabor do impulso das reuniões.


Com um cariz governamental surgiu em Paris, quatro anos após a Royal Society, o seu equivalente francês – a Académie des Sciences. Após a morte do Cardeal Mazarino, em 1661, e a ascensão ao trono do jovem Luís XIV, estavam criadas as condições para um reforço da importância da investigação científica francesa. Ao contrário da corte inglesa, o rei francês decidiu criar a Academia das Ciências não só como uma forma de afirmação da coroa francesa na Europa mas também para alimentar as suas pretensões ao nível de inovações aplicadas à guerra, à navegação, à arquitectura e engenharia. Desta forma, e por Carta Régia de 1666, providenciou aos cientistas fundos e instalações adequadas. Em troca, os cientistas reconheciam certas obrigações perante o estado francês. A selecção dos académicos esteve a cargo do ministro francês Jean-Baptiste Colbert, que não se esqueceu de incluir Huyghens na sua lista.

Por iniciativa do filósofo e matemático Gottfried Wilhelm Leibniz, surgiu em 1700 em Berlim a Akademie der Wissenschaften. Seguindo o exemplo francês, a academia berlinense teve como primeiro patrono o futuro rei de Brandeburgo-Prússia, Frederico I.

A divulgação das ideias era sustentada pela publicação de livros, normalmente escritos na língua franca da ciência – o latim -, e pela correspondência trocada. Era, porém, necessário compilar os novos conhecimentos de forma a extrair deles uma “verdadeira filosofia da natureza.” Uma preocupação das academias científicas foi, portanto, que os seus membros e colaboradores publicassem os seus trabalhos sob a forma de livro, o que nem sempre era possível em virtude de dificuldades financeiras (essas obras não tinham grande procura por parte do público!). Uma forma de despertar o interesse e o apoio do público ao trabalho realizado nas sociedades científicas foi então a publicação periódica dos conteúdos das reuniões. O primeiro exemplo deste tipo de publicações surgiu em França em 1665, com o nome de “Journal des Savants”. Abrangia todos os campos do conhecimento e incluía documentos entregues por membros da Academia das Ciências francesa. Mas esse jornal durou apenas três meses.

Talvez estimulado pelo exemplo francês, o secretário da Royal Society, Henry Oldenburg, põs ainda em 1665 em circulação em Londres as “Phylosophical Transactions”. Este periódico mensal fazia a divulgação da actividade científica da sociedade e incluía alguma correspondência e a lista de livros recebidos do estrangeiro. Tinha também por objectivo concitar a curiosidade do público mais informado. A selecção dos conteúdos esteve a cargo de Oldenburg, na qualidade de editor e proprietário, revertendo parte dos lucros para a Royal Society. Oldenbourg contava com adjuntos científicos e matemáticos, como Robert Boyle e John Collins, que o apoiavam na selecção e tradução dos textos. As “Actas Filosóficas” ganharam grande notoriedade, sendo muito procuradas no estrangeiro. Foram traduzidas para latim e para várias línguas europeias, multiplicando-se o número dos autores que enviavam artigos para publicação. Estava criado o periódico científico – o veículo da divulgação dos documentos científicos a toda a comunidade de investigadores e também ao público em geral. Este tipo de revista científica foi imitada noutros locais: por exemplo, o “Giornale dei Letterati”, em Roma, as “Acta Eruditorum”, em Leipzig (fundadas por Leibniz) e as “Mémoires de l’ Académie des Sciences”, em Paris. Se bem que a revista científica foi vital para o desenvolvimento da ciência, o livro científico conservou o seu alto estatuto, nomeadamente na transmissão de conteúdos mais abrangentes e com maior impacto.

Em Portugal, a primeira academia dedicada ao cultivo da ciência foi fundada pela rainha D. Maria I em 24 de Dezembro de 1779, com o nome de Academia Real das Ciências de Lisboa. Como membros fundadores destacam-se o Duque de Lafões, seu primeiro Presidente, e Domingos Vandelli, seu primeiro secretário, o Abade Correira da Serra e o Padre Teodoro de Almeida. Os seus fundadores afirmaram que a Academia “é consagrada à glória e felicidade pública, para adiantamento da Instrução Nacional, perfeição das Ciências e das Artes e aumento da Indústria Popular”. Provavelmente por influência francesa, a Academia Real das Ciências de Lisboa iniciou a publicação do seu periódico científico, as “Memórias”.

O ADMIRÁVEL DOUTOR MYRON L. FOX OU O EFEITO DE SEDUÇÃO EDUCATIVA

O “eduquês”, o “politiguês”, o "economês", o “sociologuês” e outras estranhas formas de falar e escrever, existem por duas razões: primeiro, porque alguém as usa; segundo, porque alguém as aprecia. Sim, é verdade, parece que temos tendência para valorizar os discursos rebuscados e incompreensíveis, sobretudo se o seu autor evidencia entusiasmo, determinação e forte carisma, agilidade no uso das palavras, das metáforas e das citações e, além disso, opina facilmente sobre qualquer assunto. Quem discursa desta maneira só pode ser um distinto intelectual; quem não entende, um vulgar ignorante… Este convencimento será tanto mais forte quanto mais prestígio social e/ou académico…) o discursista reunir.

Este fenómeno é bem conhecido dos políticos que, numa tentativa de o optimizar, não olham a gastos com peritos no assunto para se fazerem valer. A este propósito, disse o grande matemático e filósofo Bertrand Russell, que também teve a sua incursão na política:

As qualidades que tornam um político bem sucedido numa democracia, variam de acordo com o carácter dos tempos (…) em tempos de agitação é necessário ser orador impressivo — não necessariamente eloquente no sentido convencional (…) mas determinado, apaixonado e audacioso. A paixão pode ser fria e controlada, mas tem que existir (…) um político precisa é de ter capacidade de persuadir a multidão de que os seus desejos apaixonados podem ser alcançados e que ele, graças, à sua determinação implacável, é o homem para os realizar” (Russelk, 1993, 35).

Muitos escritores têm captado ampla e diversamente esta tendência, acontecendo, por vezes, imprimirem-lhe um fino tom irónico. Lembro-me, de imediato, de Gonzalo Torrente Ballester, que num livro interessantíssimo sobre as sempre conturbadas relações colegiais na universidade, põe este aspecto no centro do romance:

“D. Frederico, o Decano, era um professor extraordinário. Uma dessas pessoas que nos têm agarrados aos bancos só pela força das suas palavras. Sabia muito, mas, a maneira como dizia as coisas… Creio não exagerar. Mesmo que dissesse patetices, dava gosto ouvi-lo (...). Chegava, sentava-se a um canto da mesa, e sentar-se é uma maneira de dizer, encostava-se, dirigia-se a nós, nunca a ninguém em particular” (Balester, 1993, 67).

Já que estamos no plano académico, saliento que têm sido vários os epistemólogos, literatos, filósofos e cientistas a declinarem tal forma de comunicar, tanto entre pares, como entre estes e os leigos. Karl Popper, foi particularmente esclarecedor quando afirmou:

“[há] loucuras que não devemos tolerar. Antes de mais, a que leva os intelectuais (…) a escreverem num estilo petulante, impressivo (...). Este estilo, o estilo das palavras grandiloquentes, obscuras, impressivas e ininteligíveis, este estilo deveria deixar de ser admirado ou sequer tolerado. Ele é intelectualmente injustificável. Destrói o bom-senso e a razão.” (Popper, 1992, 173).

E, continuando nesse plano, recordo a denúncia bem urdida e bem disposta que Alan Sokal fez da aceitação deste estilo, mesmo entre aqueles que devem estar preparados para o rejeitar. Dispenso-me de explicar a “brincadeira” deste físico-matemático, dado que ela é por demais conhecida, mas não resisto a deixar uma frase do livro que ele escreveu em parceria com Jean Bricmont:

“Encontrámos um estudante em Paris que, depois de ter concluído de forma brilhante uma licenciatura em física, se voltou para a filosofia, em particular para Deleuze. Esforçava-se por compreender Différence et répétition [mas] admitiu que não via muito bem onde Deleuze queria chegar. Não obstante, a reputação de profundidade daquele filósofo era tal que o estudante hesitava em concluir que se, depois de ter estudado seriamente o cálculo diferencial e integral, não compreendia esses textos, era provavelmente porque eles não queriam dizer grande coisa” (Sokal & Bricmont, 1999, 203).

Ora bem, estamos perante um assunto que já foi estudado no âmbito da Pedagogia. Passo a explicar:

Nos anos de 1970, a questão do entusiasmo do professor interessou vários autores, nomeadamente Jacob Konin, a quem se deve a formalização dum quadro conceptual que permitiu, por exemplo, a Barak Rosenshine observar os seus efeitos em sala de aula (Vaz, 1989). Mas, foram D. H. Naftolin, J. E Ware & F. A. Donnelly que, em 1972, realizaram uma investigação que, quase de imediato, se tornou famosa, constituindo uma referência incontornável no debate sobre as implicações deste aspecto na aprendizagem.

Conjecturavam estes autores que os estudantes tendem a avaliar o desempenho dos professores pelas características de personalidade com que se apresentam.

Para testar a sua hipótese, contrataram um actor profissional que devia fazer-se passar por “especialista” na suposta “aplicação da teoria do jogo matemático à formação de médicos, e proferir uma palestra destinada a formadores profissionais.

Assim, um fictício Doutor Myron L. Fox, depois de ter sido devidamente apresentado, com realce para credenciais académicas de elevado nível – argumento da autoridade – usou de um discurso plausível, inspirado e envolvente mas sem sentido, tendo, para isso recorrido a neologismos, contradições, frases desconexas e, aqui e ali, um toque de humor.
Acontece que a assistência, além de não ter desconfiado do engano – nem mesmo o apelido do especialista, Raposa, o denunciou –, avaliou positivamente a palestra como bem organizada, claramente apresentada e estimulante (Sprinthall & Sprinthall, 1983). Ou seja, teve a ilusão de ter aprendido, mesmo quando não havia conteúdo para aprender!

Este curioso fenómeno – que ficou conhecido por "efeito de sedução educativa" – desencadeou durante a década em causa, diversos outros estudos cujo objectivo foi verificar se a expressividade do professor favorece ou não os resultados da aprendizagem. Apesar de os dados obtidos não apontarem todos no mesmo sentido, Perry, Abrami, & Leventhal (1979), com base num estudo de revisão da literatura, evidenciaram que esse aspecto do ensino tende a influenciar as apreciações favoráveis dos alunos, mas não o seu aproveitamento, o qual depende primordialmente do conteúdo da lição.

São várias as ilações que podemos tirar desta linha de investigação para o campo da educação; saliento uma que me parece de primordial importância: a necessidade de preparar tanto investigadores como educadores e educandos para, por um lado, valorizarem discursos claros, organizados, rigorosos, lógicos e, por outro lado, falarem e escreverem desta maneira. Só assim se adquire informação que se torna significativa e só assim é possível debater ideias, ingredientes fundamentais para o avanço do conhecimento e para se assumir a responsabilidade social que lhe está associada.

Dentre as muitas pessoas que têm procurado empreender esta dupla tarefa, e que se têm saído muito bem, recordo o físico Richard Feynman, prémio Nobel e grande divulgador de ciência, por ter sido das que primeiro me despertou para este assunto ao ler uma frase da sua autoria que nunca mais esqueci: “Se não fores capaz de explicar a física à tua avó é porque não percebeste grande coisa.”


Referências bibliográficas:

Ballester, G. T. (1993). A morte do decano. Lisboa: Caminho.
Natuflin, D. H.; Ware, J. E. & Donnelly, F. A. (1973). The Dr. Fox lecture. A paradigm of educational seduction. Journal of Medical Education, 48, 630-635.
Perry, R. R.; Abrami, P. A. & Leventhal, L. (1979). Educational seduction: the effect of instructor expressiveness and lecture content on student ratings and achievement. Journal of Educational Psychology, 71, 107-116.
Popper, K. (1992). Em busca de um mundo melhor. Lisboa: Fragmentos.
Russell, B. (1993). O poder: uma nova análise social. Lisboa: Afrontamento.
Sokal, A. & Bricmont, J. (1999). Imposturas intelectuais. Lisboa: Gradiva.
Sprinthall, A. & Sprinthall, R. C. (1993). Psicologia educacional. Lisboa: Mc.Graw-Hill.
Vaz, M. P. (1989). Contributos para o estudo do curso magistral. Universidade de Coimbra: Faculdade de Ciências e Tecnologia, documento policopiado.

POST 500

A acreditar no contador de "posts", este é o número 500. Mais um número redondo atingido pelo "De Rerum Natura"... Obrigado a todos!

IMBATÍVEL NAS DAMAS


Minha última crónica do "Sol":

O jogo do galo que consiste em colocar três cruzes ou três bolas em linha, se for bem jogado pelos dois lados, conduz sempre a um empate. Acaba de ser provado que o mesmo acontece com o jogo das damas.

Com efeito, o programa informático Chinook, criado por uma equipa da Universidade de Alberta, no Canadá, foi utilizado intensivamente para investigar todas as configurações possíveis do jogo (que são muitas: um número dificilmente imaginável com vinte zeros). O resultado, recentemente anunciado na revista Science, é que o programa é imbatível nas damas, podendo quando muito sofrer um empate. A máquina ganha sempre contra um humano porque ela não faz erros, ao contrário de um jogador de carne e osso (errar é humano!). Em 1997 o Chinook foi reconhecido pelo Livro Guinness dos Recordes como o primeiro computador a ganhar um campeonato do mundo. Neste momento, o computador já nem entra em competição com humanos pois seria como “bater em mortos”. Os cientistas canadianos têm agora um outro objectivo: criaram um programa, chamado Polaris, que vai enfrentar os melhores jogadores de póquer. Vamos ver se o Polaris também consegue fazer “bluff”…

Note-se que as damas jogadas pelo Chinook são as damas anglo-americanas e não a variante do jogo mais popular entre nós, as damas espanholas, que além da Península Ibérica se jogam no Norte de África. Nas nossas damas, a máquina ainda não ganha… Tal como ainda não há, que eu saiba, uma máquina que nos vença na sueca.

E o jogo do xadrez? Este é muito mais complexo do que o jogo das damas e, por isso, a análise automática de todas as possíveis jogadas ainda não está à vista. Mas o computador já é na prática imbatível. No ano de 1997 o campeão do mundo de então, o russo Garry Kasparov, perdeu o “match”, hoje lendário, com o programa Deep Blue, da IBM. O actual campeão do mundo, o também russo Vladimir Kramnik, que sucedeu em 2000 a Kasparov, jogou há poucos meses contra um outro programa, o Deep Fritz. E o computador revelou-se, mais uma vez, imbatível!

sábado, 28 de julho de 2007

Desenho Químico Inteligente

Os quatro elementos de Empedócles: uma alternativa à materialista e ateísta Tabela Periódica (clique na imagem para aumentar), distribuída pelo re-Discovery Institute.

As investidas criacionistas na terra do Tio Sam, que se traduzem na pretensão de que se deve ensinar religião como se fosse alternativa à ciência - como diz um dos candidatos republicanos à presidência norte-americana, Sam Brownback, os criacionistas apoiam a 100% toda a ciência que não esteja em desacordo com o mais fiável e provado livro de ciência do mundo, a Bíblia - deram origem a sátiras sortidas. Claro que as maiores anedotas são mesmo as pretensões criacionistas, algumas das quais já abordadas em posts anteriores. Mas destaco entre essas sátiras, para além da Igreja do Monstro do Esparguete Voador, a Teoria da Queda Inteligente, publicada na minha Cebola favorita, a Deometria ou matemática para crentes e a deoeconomia, «o estudo da distribuição de recursos que assume que Deus é a 'mão invísivel' que energiza o motor da economia dos Estados Unidos», em que são decalcados os argumentos dos criacionistas.

A teoria da Queda Inteligente era até aqui a minha sátira preferida já que mimetiza na perfeição o discurso criacionista. De acordo com a sátira da Onion, os proponentes da Queda Inteligente, «cientistas» do Centro Evangélico para a Explicação Baseada na Fé, ECFR, afirmam que a «teoria da gravidade» tem falhas e que as diferentes teorias utilizadas pelos físicos «seculares» para explicar a gravidade não são internamente consistentes pelo que mesmo os críticos da Queda Inteligente admitem que as ideias de Einstein sobre a gravidade são irreconciliáveis matematicamente com a mecânica quântica. Estes factos provam que a gravidade é uma teoria em crise, facto irrefutável que apenas a visão materialista e ateísta dos seus proponentes impede reconhecer.

«Os defensores da gravidade de mentes fechadas não conseguem arranjar forma de fazer corresponder a teoria da relatividade geral de Einstein com o mundo sub-atómico» afirmou a Dra. Ellen Carson, uma das principais peritas em Queda Inteligente conhecida pelo seu trabalho com o Ministério da Juventude do Kansas. «Têm tentado fazê-lo quase há um século e, apesar de todas as suas observações empíricas e dados compilados cuidadosamente ainda não sabem como fazê-lo». Carson conclui o «óbvio»:

«Os cientistas tradicionais admitem que não conseguem explicar como funciona a gravitação. O que é necessário que os cientistas em defesa da agenda da gravidade percebam é que 'ondas gravitacionais' e 'gravitões' são apenas palavras seculares para 'Deus pode fazer o que quer que queira'».

Estas sátiras são completamente fiéis ao discurso criacionista, o que as torna acutilantes, já que mostram claramente a argumentação non sequitur que o caracteriza. Mas recentemente descobri o website satírico mais bem conseguido de todos, até no nome: o re-Discovery Institute.

Ironicamente descobri este site no mesmo dia em que um criacionista (anónimo, como sempre) da Terra jovem deixou um comentário num post do Rerum Natura que parece inspirado neste site satírico. Recordando aos nossos leitores o que escrevi no «Uma Crítica Construtiva», isto é, que não penso que as alarvidades anónimas que enchem as nossas caixas de comentários sejam representativas dos cristãos, bem pelo contrário, reproduzo o referido comentário substituindo evolução por «ligação química» e «crença evolucionista» por «crença na Tabela Periódica», já que, pelas razões óbvias, fiquei rendida à argumentação criacionista aplicada à química.

«Assim, muitas das supostas evidências da ligação química não passam de interpretações cuja "força probatória" se encontra totalmente dependente da prévia aceitação da crença na Tabela Periódica. (o que não deixa de ser uma falácia: o raciocínio circular)».

Este excerto poderia perfeitamente constar da lucubração satírica perfeitamente deliciosa, intitulada «O Químico Cego» que, de forma magistral, desmonta quimicamente todos os criacionismos. Na realidade, proteínas, ADN, neurotransmissores, etc. são apenas moléculas, cujas propriedades decorrem da respectiva ligação química e forças (ou interacções) intermoleculares. Ou aceitamos que é um misterioso designer que actua a nível da ligação química, ligações de hidrogénio e forças de van der Waals ou revertemos aos inícios do século XVIII e ao Query 31 do Opticks de Newton.

«Eles (os cristãos que aceitam o naturalismo químico) parecem acreditar que o Criador pode ter um papel na biologia, astronomia ou geologia mas não em química. Estas distinções são falsas, como demonstrado na transformação moderna da biologia numa ciência molecular. Todos os sistemas biológicos são no fundo sistemas moleculares. A vida, no cerne, não passa de química muito complexa. Deus não pode influenciar a biologia se lhe é negado um papel na ligação química e nas interacções moleculares. Deus actua ao nível da Química».

A Tabela Periódica acima reproduzida que, na linha dos «cientistas com senso comum», nega a existência de átomos, «incompatível com os princípios judaico-cristãos porque o atomismo apresenta a matéria independente de Deus, seja porque existe por toda a eternidade e nega a criação por um Desenhador Inteligente seja porque os seus movimentos e acontecimentos são independentes do controle por um Ser Soberano», é o equivalente químico do criacionismo puro e duro, a interpretação literal do Genesis.

Por sua vez, poderemos imaginar um Desenho Químico Inteligente que aceite a existência de átomos e moléculas, apenas indique que há «complexidade irredutível» em muitos sistemas químicos que não pode ser simplesmente atribuída às propriedades periódicas dos elementos e que mostra, literalmente, a «mão» de um criador inteligente. E podemos mesmo prever parte do discurso: que o facto de existirem várias abordagens materialistas à ligação química, o enlace de valência, a teoria de orbitais moleculares, teoria de bandas, etc., confirma que há discordância entre os cientistas sobre as bases da teoria; que muitas das supostas evidências que eram esgrimidas como corroborando a periodicidade das propriedades dos elementos se revelaram falsas, o que confirma a fragilidade científica da «teoria» da ligação química. Que por exemplo, há muitos mais, a electroafinidade do azoto é menor que a do carbono, a energia de ionização do alumínio é menor que a do magnésio. Isto para não falar na contracção dos lantanídeos...

Voltando à argumentação do nosso anónimo comentador, esta faz tanto sentido em termos de biologia como o faz no equivalente químico, «a teoria da ligação química, se pretende ser científica, tem que estar aberta à crítica, inclusivamente à crítica que pretenda pôr em causa a própria ideia das propriedades periódicas no caso de não existir evidência que a suporte suficientemente. Se a teoria da ligação química não tem qualquer base científica sólida, isso deve ser publica e abertamente afirmado, não contra a ciência, mas apenas contra a teoria da ligação química (a bem e em nome da ciência)». Assim e «pelo contrário, a complexidade da química e as coincidências antrópicas favoráveis à formação de moléculas são uma forte corroboração científica da visão bíblica do mundo.» Como tal, já é tempo de os materialistas assumirem a cristodinâmica quântica, que indica claramente qual é a força responsável por todos os fenómenos químicos:

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Ecologia e biocombustíveis


O artigo «PRESENT FOREST BIODIVERSITY PATTERNS IN FRANCE RELATED TO FORMER ROMAN AGRICULTURE» do número de Junho da revista Ecology apresenta dados completamente inesperados. Mais concretamente, o estudo sugere que, contrariamente ao que se pensava de estudos análogos em outros pontos do globo, os efeitos da actividade agrícola na biodiversidade local persistem pelo menos por dois milénios e não apenas algumas centenas de anos.

O estudo incide sobre Tronçais, uma antiga floresta de carvalhos na região de Auvergne - que deve o seu nome aos Arvernes, uma tribo gaulesa que durante as Guerras Gálicas tinha como rei o Vercingétorix que uniu as tribos gauleses e foi derrotado por Júlio César na célebre batalha de Alésia.

Como curiosidade, transcrevo um trecho do De Bello Gallico de Júlio César, obra escrita e divulgada durante as Guerras Civis de Roma e que serviu essencialmente para promover e divulgar os feitos de César na Gália e na Bretanha, que nos informa que os bretões tinham hábitos não muito diferentes dos gauleses, nomeadamente no que respeita à agricultura, e indica a importância da Isatis tinctoria, pastel ou pastel-dos-tintureiros, na Bretanha pré-romana:

«A maioria dos interioranos não semeiam cereais, mas vivem de leite e carne, vestidos de peles. Todos os Bretões, porém, pintam-se com um pastel que produz uma cor azul, e têm por isso aspecto bem horrível na guerra. São de cabelos compridos e corpo todo raspado, excepto a cabeça e o lábio superior. Cada dez ou doze têm, entre si, esposas comuns, principalmente irmãos com irmãos, pais com filhos. Os nascidos destes, se os houver, são tidos como filhos daqueles a quem foi cada virgem entregue primeiro».

Voltando à ecologia moderna, nos últimos anos os arqueólogos têm descoberto uma série de vestígios de explorações agrícolas romanas, cerca de 108, na floresta de Tronçais. Uma investigação conjunta com biólogos levou à conclusão que embora estas explorações tenham sido abandonados com o colapso do Império Romano, deixaram uma marca que ainda hoje se manifesta numa maior biodiversidade vegetal e animal em relação a áreas vizinhas.

O artigo indica ainda que o estudo dos ecossistemas localizados em antigos sistemas agrícolas romanos em florestas francesas contemporâneas sugerem que, contrariamente ao que se pensava, é necessário levar em linha de conta a história da utilização de um dado solo para se entender a biodiversidade encontrada em muitas florestas, milénios após a exploração agrícola desses locais ter sido interrompida.

Os romanos fertilizavam os solos com cinzas, estrume e «lixo» doméstico, incluindo restos de cerâmica. Esta alteração química induzida há milénios pelo homem teve efeitos «possivelmente irreversíveis» via alteração nos ciclos biogeoquímicos dos solos fertilizados. No caso das antigas explorações romanas, a acção humana traduziu-se no aumento da biodiversidade - após abandono das explorações - mas este artigo dever-nos-ia fazer reflectir nos efeitos, igualmente «possivelmente irreversíveis» mas certamente com efeitos opostos na biodiversidade, que a nossa acção induz nos solos.

Um artigo recente de Jesse H. Ausubel, o director do Program for the Human Environment da Universidade Rockfeller em Nova Iorque que foi um dos pioneiros a trazer para a praça pública a questão do aquecimento global, aborda directamente a utilização de solos na produção de energias renováveis. Embora seja céptica em relação à defesa da energia (de cisão) nuclear elaborada ao longo artigo, concordo com Ausubel que é necessário «quebrar o tabu de falar sobre aspectos fortemente negativos das energias renováveis». Nomeadamente em relação à energia renovável que foi alvo da recente Conferência Internacional sobre Biocombustíveis, organizada pela UE, conferência que segundo o presidente brasileiro será repetida daqui a um ano no Rio de Janeiro.

«A fundamental credo of being green is that you cause minimal interference with the landscape. We should be farming less land, logging less forest and trawling less ocean - disturbing the landscape less and sparing land for nature. But all of these renewable sources of energy are incredibly invasive and aggressive with regard to nature. Renewables may be renewable, but they are not green».

Alvos principais nesta crítica de Ausubel, que ecoa críticas de muitos outros ecologistas, são os chamados biocombustíveis, derivados essencialmente de cana de açúcar, cereais, palma e soja, cuja cultura, embora por enquanto maioritariamente para outros fins, já invadiu as florestas tropicais brasileiras e asiáticas. Nomeadamente na Malásia, as plantações destinadas à produção de óleo de palma (óleo de dendê no Brasil) foram responsáveis, entre 1985 e 2000, por 87% da desflorestação neste país, pondo em risco o habitat natural de inúmeras espécies.

Nos últimos anos, milhões de hectares de floresta tropical na Sumatra, Bornéu, Malásia e Indonésia foram arrasados para alimentar a produção de biocombustíveis. Correm risco de extinção, entre outros, o orangotango (relatório em formato pdf da UNEP e UNESCO) e o rinoceronte de Sumatra. As estimativas publicadas num relatório recente das Nações Unidas indicam que 98% da floresta tropical da Indonésia estará degradada ou destruída em 2022. E a produção de óleo de palma destinado ao mercado europeu de biocombustíveis é actualmente a causa principal de desflorestação naquele país.

George Monbiot, o meu colunista favorito do Guardian, alerta desde 2004 para os problemas ecológicos e não só da agricultura destinada a alimentar carros, não pessoas. O seu artigo no Guardian de 27 de Março é especialmente contundente em relação aos programas europeus e norte-americanos referentes aos biocombustíveis a que chama «uma fórmula para o desastre ambiental e humanitário».

Monbiot indica que «o preço do milho duplicou desde o princípio do ano passado. O preço do trigo atingiu o máximo dos últimos dez anos, enquanto que as reservas mundiais dos dois cereais desceram para o valor mais baixo dos últimos 25 anos. Já houve motins por causa de comida no México e chegam de todo o mundo relatos de que os pobres estão a sentir o impacto. O Departamento de Agricultura americano avisa que 'se tivermos uma seca ou uma colheita muito pobre poderemos presenciar o tipo de volatilidade que vimos nos anos 70 e, se não acontecer este ano, estamos a prever igualmente reservas mais baixas para o próximo ano'. Segundo a FAO, das Nações Unidas, a principal razão é a procura de etanol: o álcool utilizado como combustível, que tanto pode ser produzido a partir do milho como do trigo».

Embora eu distinga os biocombustíveis obtidos por reciclagem de «lixo» sortido, os biocombustíveis secundários que considero de facto verdes, partilho as dúvidas de Monbiot em relação à bondade da produção de biocombustíveis primários. Pessoalmente espero que o ITER, Reactor Termonuclear Experimental Internacional, projecto internacional que tem como presidente do Conselho de Administração do consórcio europeu o meu colega Carlos Varandas e que constitui a maior experiência mundial de fusão nuclear, nos permita ter disponível em breve energia barata, abundante e produzida com impacto ecológico praticamente nulo.

Espero ainda que os muitos projectos em curso, por exemplo o projecto que integra uma equipa do Instituto de Biologia Molecular e Celular da Universidade do Porto (IBMC), «Engineered Modular Bacterial Photoproduction of Hydrogen» - que pretende criar cianobactérias geneticamente modificadas para funcionarem como fotoreactores eficientes para produção de hidrogénio - permitam em breve a produção limpa e barata do único combustível cuja queima não produz CO2.

De facto, os biocombustíveis são compostos de carbono e como tal a sua combustão produz CO2. Monbiot no seu último artigo cita um estudo conjunto da consultora ambiental holandesa Delft Hydraulics, da Wetlands International e do Alterra Research Center da Universidade de Wageningen que indica que, considerando a destruição da floresta e solos de turfa associados à produção de óleo de palma, o balanço total de CO2 na utilização de biocombustíveis derivados de óleo de palma não é nulo como se pensava, pelo contrário, a sua utilização é francamente pior em termos de emissões de CO2 que o uso de derivados do petróleo.

quarta-feira, 25 de julho de 2007

Argumentação e subjectividade

A argumentação é um dos instrumentos mais importantes para alargar a nossa compreensão do mundo e melhorar a nossa intervenção nele. Infelizmente, este facto passa muitas vezes despercebido na nossa cultura. Ao longo dos séculos, Portugal não tem sido um grande produtor de conhecimento; estamos habituados a importar o conhecimento do estrangeiro. E por isso não compreendemos os processos de descoberta, pois nunca temos de descobrir — alguém, numa universidade, laboratório ou atelier estrangeiros, descobre por nós. Olhemos à nossa volta: todos os produtos humanos são fruto do conhecimento e da intervenção humana no mundo. As ideias científicas, tecnológicas, políticas, religiosas, artísticas e filosóficas são fruto do esforço dos seres humanos para compreender melhor o mundo e para, com base nessa compreensão, melhor podermos intervir nele. Todavia, quase nenhumas das ideias que são o fundamento de todas estas coisas que nos rodeiam nasceram em Portugal.

É imperioso mudar esta cultura de dependência da importação de ideias; é imperioso que a nossa cultura seja dinâmica, criativa, autónoma, inteligente. A nossa cultura não pode continuar a ser a mera repetição da cultura alheia; é preciso que Portugal conquiste um lugar cultural e científico e que acrescente valor ao mundo. Para isso é necessário fornecer aos estudantes instrumentos que lhes permitam descobrir ideias novas e propor novos rumos. É necessário colocar os estudantes portugueses a par dos seus colegas dos países mais desenvolvidos, que desfrutam de um sistema de ensino baseado no estudo criativo e rigoroso de problemas, teorias e argumentos.

As teorias são construções humanas que procuram resolver problemas reais — não são elucubrações meramente formais para fazer carreira escrevendo obscuras teses de doutoramento que imitam a seriedade académica usando sem compreender uma linguagem especializada. Essas teorias defendem-se com base em argumentos. É o que acontece na história, na psicologia, na filosofia, na física, na musicologia, etc. Mas se o ensino não for baseado no estudo dos problemas, teorias e argumentos, o que é apenas teoria será ensinado como dogma para repetir, não permitindo que o estudante pense por si — sobretudo quando nem se lhe explica quais são os problemas que a teoria procura resolver. O estudante fica assim reduzido ao trabalho de repetição acéfala, sem estímulo nem instrumentos para avaliar as ideias que estão em discussão por esse mundo fora — imaginando que as últimas modas pós-modernas, ou pragmatistas, ou retóricas, ou liberais, ou o que quer que seja, são Verdades que não podem ser discutidas. No meu entender, esta é uma das raízes do atraso português.

O correcto ensino da lógica pode ser um antídoto para este estado de coisas. Pois é aí que se pode sublinhar a importância da argumentação no difícil e paciente processo de tentar descobrir a verdade das coisas; é aí que se pode sensibilizar o estudante para a importância de saber pensar, dando-lhe instrumentos lógicos adequados. O resultado que se pode almejar são cidadãos mais criativos e críticos, que trarão uma competência fundamental para um país que tanto carece de pessoas com capacidade para resolver os nossos problemas, produzir riqueza e bem-estar, e estimular com o seu exemplo os outros cidadãos a fazer o mesmo. Sem uma cultura criativa e crítica, informada e rigorosa, a discussão pública é sempre deficiente, e as decisões são sistematicamente tomadas pelos interesseiros que têm mais força ou que gritam mais alto, e não um resultado da reflexão criativa e rigorosa, informada e inovadora.

Numa cultura apartada da descoberta científica e da inovação cultural — uma cultura cinzenta e formalista — há a tendência para pensar que tudo o que não vem já matematicamente decidido nos livros importados do estrangeiro é «muito subjectivo». Esta posição tem consequências terríveis na vida pública, contribui para o subdesenvolvimento e a estagnação da sociedade, e impede o acesso à cultura das pessoas mais talentosas — pois se a opção é entre o que se decide matematicamente e com todas as garantias, mas já está nos livros, e o que não está nos livros mas é «muito subjectivo», nenhuma pessoa talentosa vê qualquer interesse em desenvolver o estudo e o pensamento, a cultura e a ciência, a sociedade e a economia. Portugal precisa de boas ideias, soluções engenhosas, debate informado e talentoso — e não de ideias feitas, soluções ingénuas, debates de café. Ensinar a debater ideias, avaliar argumentos, precisar pontos de vista, levantar contra-exemplos e objecções é, consequentemente, uma das tarefas mais importantes do professor.

Quem desconhece a lógica e está mergulhado numa cultura onde o debate de ideias é circense tem tendência para pensar que a argumentação é «muito subjectiva». Mas mal se estudam os elementos básicos da argumentação compreende-se que isto é uma ilusão. Sem dúvida que não há soluções fáceis e argumentos decisivos com três ou quatro proposições; para cada solução levantam-se problemas inesperados; para cada argumento levantam-se contra-argumentos e objecções. Mas isto não é surpreendente para quem conhece a história do pensamento humano. Para cada grande feito da ciência, da cultura e das artes havia multidões de Velhos do Restelo a dizer que era impossível fazer-se, munidos do discurso paralisante do costume. E, no entanto, essas coisas fizeram-se e as dificuldades ultrapassaram-se. Será mesmo verdade que é tudo «muito subjectivo»? E, nesse caso, será «muito subjectivo» afirmar que é tudo «muito subjectivo»?

Entre o algoritmo e o oráculo — que dispensam Verdades Absolutas aos pobres mortais —, e o paralisante relativismo e subjectivismo — que torna tudo igual a tudo —, não haverá alternativas? E que garantias oferece a opinião de quem nada ou quase nada sabe de lógica e argumentação, mas declara, confiante, que na argumentação é tudo «muito subjectivo»? No Capítulo 12 vimos como a pretensa diferença entre a demonstração, do «domínio do apodíctico» (o oráculo), e a argumentação, do «domínio do verosímil» (o subjectivismo, ou o inter-subjectivismo — a sua encarnação mais sofisticada) se baseia em confusão e falta de informação. Não será que é isso que se passa em geral? Afinal, quem nunca assistiu aos jogos olímpicos não acreditaria que um ser humano consegue saltar um muro de dois metros de altura sem lhe tocar.

Em qualquer domínio do conhecimento, das artes ou da vida pública, temos problemas para resolver e decisões para tomar. Para cada proposta, há argumentos a favor e argumentos contra; esses argumentos terão força desigual — uns serão mais fortes, outros mais fracos. O nosso trabalho é estudar cada um dos argumentos e tomar uma decisão, ou optar por uma proposta. Não há garantias; é preciso arriscar. Mas trata-se de um risco calculado. Em muitos casos, nomeadamente nos aspectos mais teóricos do conhecimento, podemos mudar de ideias; noutros casos, pode ser demasiado tarde para mudar uma decisão — a ponte pode já estar construída no sítio errado, ou o novo estádio de futebol financiado pelo estado pode já estar em construção. Somos todos seres humanos e temos de ser tolerantes para com os erros alheios — pois precisamos dessa tolerância quando for a nossa vez de errar. Mas devemos e podemos evitar os erros tanto quanto possível — e isso consegue-se através da discussão séria de ideias. É essa forma de discutir ideias — que produz riqueza e bem-estar, que alarga a experiência e o conhecimento humano — que urge ensinar. O lugar próprio desse ensino é a disciplina de Filosofia, que deu à humanidade esse instrumento espantoso do pensamento correcto que é a lógica. Aprender a pensar correctamente é a mais humana das aprendizagens.

Retirado do livro O Lugar da Lógica na Filosofia (Plátano, 2003)

Ideias realmente perigosas


É curioso que o Desidério tenha escrito o post sobre ideias perigosas numa altura em que nos Estados Unidos o grupo American Vision (A Biblical Worldview Ministry) lança a campanha contra o ateísmo e a racionalidade de que este vídeo é apenas um exemplo.

No website criado para combater o ateísmo e a razão pode ler-se:

«American Vision is launching a relentless and systematic response to militant atheism. We've produced a brilliant 2-minute commercial that we plan to broadcast globally via the Internet and Television».

A ameaça de globalizar este ataque insano ao ateísmo não é vã: as emissoras cristãs dominam os media nos Estados Unidos, se não ainda em audiência, pelo menos nas costas Leste e Oeste, para já no número de estações que integram a National Religious Broadcasters, NRB. A história do crescente domínio cristão nas ondas hertzianas é descrita no número de Maio/Junho de 2005 do Columbia Journalism Review, bem elucidativamente denominado «The Rise of Faith Based News», especialmente no artigo «Stations of the Cross». Por exemplo, a Trinity Broadcasting Network (TBN) possuía 13 estações de televisão em meados dos anos oitenta e em 1999 detinha 406 estações de TV nos Estados Unidos, 346 no resto do mundo, alimentava 4 886 sistemas cabo, 10 milhões de antenas satélite e dispunha de 2.5 milhões de watts de poder radiofónico.

Aliás, o documentário que a American Vision oferece na sua loja do criacionismo, Darwin's Deadly Legacy: The Chilling Impact of Darwin's Theory of Evolution - que pretende mostrar «porquê a evolução é uma má ideia que devia ser descartada no caixote de lixo da História» já que (o criacionista) Hitler seria, supostamente, um evolucionista - passou em muitas destas estações de televisão.

A American Vision, uma instituição dominionista fundada em 1978 por Steve Schiffman e dirigida actualmente pelo criacionista da Terra jovem Gary DeMar, tem como missão «equipar e dar poder aos cristãos para restaurar as fundações bíblicas da América». Para estes dominionistas, a democracia «é o primeiro passo para o fascismo» e a sua primeira linha de acção passa pela afirmação da supremacia das lei de Deus sobre as iníquas leis dos homens, nomeadamente pela aplicação de castigos «bíblicos» aos «pecados bíblicos», isto é, pena de morte para «crimes» como a homossexualidade, adultério, apostasia, heresia, aborto e muitos outros.

É no mínimo irónico que a mesma instituição que advoga a perseguição e condenação à morte dos que não seguem a sua mundivisão, considere que é necessário combater o ateísmo porque:

«The French Revolution, Communism, Nazism, etc. have taught us that the atheistic worldview will inevitably lead to the persecution of Christians and the killing of anyone who gets in the way. What's worse is that atheism is paving a wide road for Islam to advance in our nation and around the world».

Para além do estafado argumentum ad nazium ou reductio ad Hitlerum que utilizam para tudo e mais umas botas, desmistificado há mais de meio século por Leo Strauss no capítulo II do livro «Natural Right and History», tal como PZ Myers acho bizarro que os dominionistas americanos considerem que o ateísmo seja o caminho para o islamismo. Especialmente se considerarmos que Sam Harris e Christopher Hitchens, dois dos mais vocais ateístas norte-americanos, são especialmente críticos do fundamentalismo islâmico...

Acho especialmente bizarro que um evangélico cite a Revolução Francesa e Robespierre já que, tal como os protestantes, Robespierre, um deísta, se opunha veementemente ao poder do Vaticano, não à religião. Aliás, a oposição ao conceito de uma igreja centralizada sob a autoridade papal recebeu o nome de «galicanismo» por se ter manifestado com mais vigor em França, desde os primórdios da Contra-Reforma. De facto, o rei, que até aí nomeava os bispos, opôs-se à aplicação em território francês da reforma tridentina e apenas em 1615 os decretos do Concílio de Trento foram promulgados neste país. O galicanismo foi retomado mais tarde pela Revolução Francesa e, depois, pela monarquia francesa restaurada, tornando-se no século XIX, como reacção ao concílio Vaticano I de Pio IX*, o modelo seguido por grande parte dos Estados onde a maioria da população era católica.

Os argumentos apresentados neste anúncio descrito como «brilhante» (brilliant não bright...) são completamente imbecis. Por exemplo, é afirmado que «Sam Harris usa palavras como 'racional,' 'razão,' e 'realidade,' e pensa que Deus não é real» o que, na linha de (ir)raciocínio desenvolvida pelos «brilhantes» dominionistas, transformaria, por exemplo, o papa Bento XVI num perigoso ateísta!

Como diz o Desidério, sob a capa do respeito pelas diferenças é politicamente incorrecto e seria visto por muitos como um «ataque ao cristianismo» desmontar as palermices e falácias destes dominionistas, aos quais estou certa que a esmagadora maioria dos cristãos se opõe. Considerando os seus objectivos, é de facto assustador, muito assustador que seja considerado uma ideia perigosa dizer que a irracionalidade e a mundivisão destes (poucos) cristãos é um mal.


*Numa carta circular dirigida aos governos europeus, o chanceler Bismarck alertou os seus congéneres para o facto de que, após o concílio Vaticano I, os bispos se tinham tornado meros instrumentos do Papa. Num discurso no Reichstag em 1872, Bismarck afirma mesmo que:

«Não acredito que, depois dos dogmas recentemente expressos e publicamente promulgados pela Igreja Católica, seja possível a um poder secular chegar a uma concordata, sem que esse poder seja, em certa medida ou de alguma maneira, humilhado.»

Otto von Bismarck unificou a Alemanha sob controle prussiano e após a incorporação dos estados católicos do sul e parte do que é hoje a Polónia, não via com bons olhos que os católicos, representados pelo Partido do Centro Católico - que uns anos depois daria de bandeja a chancelaria a Hitler, que pretendia combater o ateísmo da República de Weimar -, colocassem a autoridade papal acima da autoridade do estado alemão. Assim, tentou restringir e conter o poder político de Roma com a Kulturkampf (a luta cultural que estabeleceu, por exemplo, o casamento civil, devidamente condenada por Pio IX na encíclica de 1875 Quod Nunquam), especialmente com o Kanzelparagraph - que ameaçava com até dois anos de prisão os clérigos que fizessem declarações políticas dos púlpitos.

A recusa de Pio IX em reconhecer a legitimidade dos governos que não aceitassem a autoridade temporal do Vaticano, nomeadamente a recusa de Pio IX em aceitar o novo estado monárquico constitucional italiano e a excomunhão de todos os católicos que participassem em qualquer processo democrático, tiveram como consequência o oposto do pretendido pelo Papa. De facto, o poder de Roma na sociedade civil foi diminuindo um pouco por toda a Europa, nomeadamente com a secularização do ensino e a instituição do casamento civil, mesmo em países como a Áustria, um país tradicionalmente católico.