segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Em defesa da liberdade



Agradeço os comentários ao meu postal anterior. Penso que é tempo de fazer um sumário. Infelizmente, nenhum dos comentadores me convenceu da iniquidade que seria o enquadramento legal da homeopatia. E não consegui mudar de ideias quanto à iniquidade que seria excluir a homeopatia do enquadramento legal.

As minhas razões são simples: qualquer profissão tem o direito de ser reconhecida pelo estado, seja ou não uma tolice, desde que não obrigue seja quem for a consumir os seus serviços. Não vejo como negar este princípio quando se raciocina de modo imparcial sobre o ordenamento de uma sociedade. Claro, se me perguntarem se prefiro viver numa sociedade com crendices ou literacia científica, eu prefiro a última. Mas dado o facto de realmente haver quem acredita em coisas que eu considero crendices — e que elas não consideram crendices — então a imparcialidade manda-me aceitar e enquadrar essas pessoas, de modo a que se sintam com o mesmo direito a estar nesta sociedade do que eu, e desde que se salvaguarde o meu direito não só de não reconhecer a cientificidade ou eficiência das suas práticas, mas também de as pôr em causa publicamente, de não as consumir e de desencorajar as outras pessoas de as consumir.

Como se vê, o que eu defendo nada tem a ver com a homeopatia ser ou não uma pseudociência. Isso é completamente irrelevante. O que é relevante é haver quem queira praticá-la — seja como homeopata, seja como cliente do homeopata.

Repito que a minha posição não é relativista. Eu seria relativista se aceitasse que as verdades são relativas ao que as pessoas pensam. Não aceito tal coisa. Se a homeopatia não for eficaz, não será eficaz, por mais que as pessoas pensem que o é. E se o for, sê-lo-á, por mais que outras pensem que o não é. Mas em questões legislativas não é a verdade que conta; são as escolhas das pessoas que contam. E estas escolhas têm sempre de ser respeitadas, desde que não prejudiquem terceiros de um modo claro e inequívoco. E quando prejudicam, precisam apenas de ser regulamentadas cuidadosamente, para salvaguardar os direitos de terceiros. O David Marçal confunde o que ele gostaria que a sociedade fosse, e que eu também gostaria que a sociedade fosse, com o que ele tem a legitimidade de impor aos outros que seja. Eu gostaria que as pessoas lessem mais literatura, filosofia e ciência, e que vissem menos telenovelas e menos futebol e que dessem menos importância à politiquice quotidiana, que fossem mais reflectidas e cultas e menos boçais e frívolas. Mas não são. E como não o são, seria da minha parte inaceitável ordenar a sociedade de modo a que elas se sintam pior na sua própria sociedade, pois têm tanto o direito a sentir-se integradas na minha sociedade como eu — desde que não me impeçam a mim de ter um estilo de vida que a elas não interessa. Precisamos de aprender a viver harmoniosamente em comum, com as nossas diferenças radicais. E se formos menos fundamentalistas, talvez até tenhamos algo a aprender uns com os outros.

Lamento que neste blog eu seja o único autor a defender inequivocamente a liberdade de ser tolo, frívolo, boçal, irreflectido, anticiência, crédulo, ignorante, etc. Há uma grande diferença entre divulgar uma maneira alternativa de ver o mundo, com a ajuda da ciência e da cultura, e impor essa maneira de ver o mundo a quem a rejeita. E é de arrepiar os poucos cabelos que me restam quando penso em David Marçal e Carlos Fiolhais a impor legislativamente a ciência às pessoas. Talvez eu esteja a ver mal, mas discordo frontalmente e publicamente dessa mentalidade ditatorial e impositiva — reconhecendo contudo o direito a que defendam tal mentalidade publicamente. Desde que me reconheçam o mesmo direito a mim, como certamente reconhecem.

A liberdade  não passa de um termo prostituído se não for precisamente a liberdade para que os outros façam o que a nós nos parece a mais rotunda tolice. E em Portugal, devido à nossa triste recente história, ainda muitas pessoas não entendem a liberdade. Quando essas pessoas são cientistas e pessoas com uma marcada e saudável intervenção pública, talvez seja uma boa ideia dar a conhecer aos leitores uma posição — mais do que uma posição, uma postura — alternativa. Faço minha a conhecida máxima atribuída a Voltaire, e que ele realmente nunca escreveu: “Discordo completamente de tudo o que dizeis, mas defenderei até à morte o vosso direito a dizê-lo”. Descontando o exagero retórico, acrescento, como John Stuart Mill e antes dele Bento de Espinosa, que a mera liberdade para ter e exprimir opiniões de pouco ou nada serve se não pudermos pô-las em prática no ensino, na profissão, no modo de vida. Defendo por isso o direito inalienável dos portugueses a abraçarem a pseudociência, a ignorância, a telenovela, o futebol e o inesgotável rol de tolices humanas. Apenas os convido, muito cordialmente, a descobrirem alternativas, se as quiserem descobrir.

37 comentários:

  1. Parabéns ao blog De Rerum Natura por ser um blog que permite o uso da liberdade, caso contrário não seriam possíveis intervenções como esta, não estando em causa acreditar ou não nas chamadas medicinas alternativas, mas sim o fato de estar completamente de acordo com o professor Desidério Murcho, talvez seja o único, a escrever artigos, com essa opinião, mas não é o único, com essa opinião que o lê. Obrigada a ambos.

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  2. Caro Prof. Desidério Murcho:
    Como sabe, o nível do debate público na esmagadora maioria das redes sociais (especialmente nos blogues de cariz político, os que conheço melhor) está pelas ruas da amargura.
    No «De Rerum Natura», por ser diferente na temática e pelo tipo de pessoas que o frequentam, era de esperar que esse nível fosse bastante diferente.
    Infelizmente muitos comentários ao seu post «Em defesa da aldrabice» não ficaram nada a dever àquele registo deplorável a que me referi.
    Há dias deparei-me com este post, de João Pinto Basto, no blogue «Estado Sentido», que ilustra bem o meu ponto de vista:
    «...o debate público em Portugal está, paulatinamente, a atingir uma preocupante dimensão de intolerância democrática. Não se dialoga, não se discute, não se aceitam pontos de vista contrários, impõem-se opiniões, instiga-se a infâmia, tudo isto a despeito de qualquer noção mínima de convivência democrática. Para piorar a situação temos a virulência que, em certos momentos, grassa inesperadamente nas redes sociais. O acusacionismo gratuito e a discussão fácil e pedestre são, por vezes, os pratos fortes nestes meios. Não se pondera, lança-se lama e estilhaçam-se reputações com uma facilidade inopinada...»

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  3. «E a ideia central é que é desejável, numa sociedade livre, que as pessoas se sintam em casa, independentemente das suas crenças e estilos de vida, desde que não prejudiquem terceiros.»

    Sou matemático, pelo que tenho pouca experiência neste tipo de discussão. Também não sei muito sobre homeopatas...
    Posto isto, vou utilizar um recurso muito típico na matemática; o caso extremo.

    Há uns tempos li sobre o caso de uma pessoa que, na internet, se oferecia para cortar braços e pernas e a matar de forma dolorosa quem estivesse interessado.

    Este caso extremo vai ao encontro (parece-me) do termo «(...)desde que não prejudiquem terceiros.(...)». Acontece que quem responder ao prestável indivíduo da internet parece não se encontrar de boa saúde mental (por facilidade, vamos definir que quem responda a tal proposta não se encontra bem de saúde). No entanto, uma pessoa pode estar mal de saúde mental hoje e estar bem amanhã. Quanto a mim, a sociedade deve dar alguma protecção a estes casos. Quero eu dizer que é necessário ter em conta a questão «desde que não prejudiquem primeiros». Com todos os perigos para a liberdade individual que a questão encerra...

    Um procedimento totalmente anti-ciência (à luz dos standards científicos da sociedade) pode cair neste enquadramento. Eu acho que é papel de uma sociedade civilizada proteger certas coisas deste tipo. Concordo totalmente com «(...) que é desejável, numa sociedade livre, que as pessoas se sintam em casa, independentemente das suas crenças e estilos de vida (...)». Mas há zonas cinzentas e acho que é a avaliação deste colorido cinzento que deve ser feita. No caso da homeopatia e não só (falo em abstracto; não percebo nada de homeopatia).

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    1. Sugiro que se deixe de referir a homeopatia, porque, na realidade ninguém percebe nada de homeopatia (ou seja está para aparecer o primeiro) e aparentemente a homeopatia só atrapalha.

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    2. Ninguém percebe de homeopatia?

      Não podia ser um disparate de maior tamanho.

      É uma concepção pré-cientifica de quem acha que diluir aumenta o efeito de uma molecula no organismo ao ponto de isto depender da também inventada "memoria da agua".

      Esta palermice tem origem ainda na palermice que existem algo como os miasmas como causa de doença.

      Em resumo, homeopatia é tratar tudo e mais alguma coisa com apenas agua e/ou açucar.

      E é só isso.

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    3. Eu não percebo nada de homeopatia e não defendo a homeopatia e a homeopatia não me interessa para nada e não vou discutir a homeopatia, nem ninguém está a discutir homeopatia...

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    4. Sim, o problema são as zonas cinzentas. É sempre esse o problema, em questões éticas e políticas. Há casos muitíssimo claros em que o estado deve intervir, como é o caso do homicídio. E há casos muito claros em que não deve intervir, como se uma pessoa usa sapatos ou sandálias.

      Em filosofia política e em ética são precisamente os casos cinzentos que nos interessa. E como procedemos para os analisar? Procuramos as justificações da medida defendida. Geralmente, as justificações populares falham porque estão mal pensadas. Estão mal pensadas muitas vezes porque ou não consideram alternativas razoável ou não se põem no lugar dos outros.

      No caso em disputa é exactamente isto que acontece.

      Primeiro, não se vê que há muitas maneiras de defender as pessoas de práticas que algumas pessoas consideram ineficazes ou até danosas, sem que isso implique negar a integração legislativa dos profissionais dessas áreas. Usando o exemplo acima da pessoa que se dispõe torturar e matar outra que a isso se disponha voluntariamente, não precisamos proibir tal coisa para precaver os casos de fragilidades mentais. O que precisamos é de regulamentar as coisas, de modo a que quem aceitar tal coisa seja submetido a um exame, para garantir que a sua decisão é tomada em plena liberdade e consciência, e não sob pressões psicológicas.

      Segundo, as pessoas não se põem no lugar dos outros. Apenas vêem as coisas do seu ponto de vista. Invocar a verdade e a prova é completamente, repito, completamente irrelevante quando as outras pessoas não as aceitam. Se eu tento convencer uma pessoa que uma dada terapia é danosa para si mesma, e nem sequer apenas ineficaz, mas a pessoa não se deixa persuadir, nada, RIGOROSAMENTE NADA, excepto uma mentalidade salazarista, poderá dar-me o direito de a obrigar, contra a sua vontade, e só porque a minha opinião é verdadeira e a dela falsa, a não seguir a terapia por si escolhida. Isto só se vê com clareza se as pessoas se puserem no lugar das outras. Coisa que só quem ama profundamente a liberdade é capaz de o fazer e é por ser capaz de o fazer que ama a liberdade.

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  4. Sugestão aceite. De facto, no terceiro comentário, as referências à homeopatia estão a mais. Não as devia ter colocado, não servem para nada no comentário.

    Só tentei suportar a ideia que consiste em dizer que «contra terceiros» pode ser algo incompleto na medida em que há casos cinzentos em que as pessoas exercem a sua livre escolha de forma condicionada (não se encontram bem, etc.). Tenho a noção do ENORME perigo em legislar «contra primeiros» uma vez que, na prática, pode servir para a sociedade apertar a liberdade individual. Mas não quero discutir para já a questão prática estando ainda a pensar na questão teórica. Parece-me bem uma sociedade civilizada proibir ofertas de desmembramento de orgãos, etc. Mas há toda uma escala de tons entre a oferta do desmembramento de orgãos até à medicina científica actualmente aceite. Na minha opinião, a discussão será sempre difícil em zonas cinzentas.

    Sendo assim, no comentário, «homeopatia» deve ser substituído por «zona cinzenta» (não sabendo eu se a homeopatia é zona cinzenta, nem mesmo sabendo limitar a zona cinzenta). Ainda que concordando com o pano de fundo do autor, não fiquei a perceber bem se este concorda com a liberdade total «desde que não chateie terceiros» ou se admite a existência de zonas cinzentas. Na realidade, este parece-me o factor relevante desta discussão.

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  5. Desidério:

    Como parece que cheguei tarde a esta discussão e o meu comentário ficou enterrado entre os outros vou aproveitar para repostar. Espero que me conceda essa liberdade (pun intended).

    Para começar eu também acho que não se deve proibir a pseudomedicina porque essa não é a maneira de lutar contra coisas populares que assentam na ignorancia. A maneira de lutar é a hardua via da paciencia educativa.

    Mas mesmo assim acho que o Desidério se engana em muitos pontos fundamentais, para lá do facto preocupante de não explicar convenientemente onde é que acaba a liberdade de uns e começa a de outros, nomeadamente a liberdade de quem quer escolher um mundo onde os seus filhos não sejam vitimas de profissionais da extorção, já que acha que qualquer profissão pode ser legalizada.

    Essas outras coisas são:

    O desidério engana-se em alguns pontos importantes.

    Em primeiro lugar, a homeopatia é treta por tudo o que se pode saber. Não parece haver um melhor exemplo do que é uma mentira popular e uma pseudociencia do que a homeopatia. Até a astrologia tem melhores argumentos para ser ciencia. O problema da demarcação não é um problema neste caso. Claro que há sempre quem acredite em qualquer coisa, mas por isso é que sabemos que acreditar e saber sao coisas diferentes.


    Em segundo lugar não é inofensivo deixar as pessoas escolherem tretas para tratar da saude só porque é apenas agua. O não tratamento é potencialmente perigoso, inclusivé para terceiros.

    Terceiro, regular algo é uma forma de trazer uma limitação. Por isso, o Desidério aceita que há algo em que as pessoas precisam de limites e de protecção, não deixando as coisas entregues à anarquia. A razão porque isso não se estende à homeopatia não é clara, por este motivo.

    Quarto, só porque muita gente quer uma coisa isso não quer dizer que essa coisa esteja certa. E só porque uma pessoa quer uma coisa não quer dizer que essa coisa estaja certa e ou tenha de lhe ser dada.

    Quinto: liberdade não é só o numero de acções que se pode tomar em absoluto; é muito mais o numero de opções boas que se pode ter. Para um ser humano, por isso, a liberdade tem muito a ver com a informação que tem. Que liberdade há de escolher para o doente, se ele acha que o que é mentira lhe vai salvar a vida? Isso não é uma redução do seu leque de escolhas, ter sido enganado (intencionalmente ou não)?

    Por ultimo, o método de tripla ocultação, controlado, randomizado e com numeros grandes é tudo menos um decalque impensado do que se faz na fisica.

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    1. Eu e o João iniciamos uma discussão sobre este assunto, tendo eu respondido ao post anterior (transcrevo):

      João,

      Se calhar era interessante, definir esses critérios ou outros à sua escolha, e tentar aplicá-los a actividades, que as pessoas consideram normais e até saudáveis.

      Diz que não deve ser regulado por ser "uma treta" e por "não ser inofensivo".

      Ora veja lá o número de actividades que poderia proibir (nessa sua ânsia expurgadora e restritiva) beber bebidas alcoólicas, actividade desportiva (a profissional pelo menos), jogos de azar (a dinheiro), programas televisivos de entertenimento, ... (pode continuar a lista de coisas que são tretas e não são infensivas e vai ver que há muitas)

      Depois deve reparar que isso de ser treta (ou não ser inofensivo) é algo subjectivo, pelo que seria necessário (ou conveniente) parametrizar a tretisse ou a malfeitoria para se poder expurgar a sociedade dessas maldições.

      Há uma solução mais prática que é deixar isso, ao cargo de um número pequeno de pessoas, o que tem sido feito nos regimes ditatoriais de que já terá ouvido falar. Bom e em regimes democráticosd isso também é possível, todas essas atribuíções passam para números pequenos de pessoas que são eleitas para efeito, ou seja é uma espécie de tirania democrática, os cidadãos vão passando os seus direitos, não um a um como seria conveniente, mas aos molhos (em pacote), para o estado (e ficam todos contentes porque puderam escolher os seus opressores), no fim deste execício todo ficaram convencidos que limitaram de uma forma racional e inteligente (e democrática) as suas escolhas (a vida até pode parecer mais saudável, mas não é). Depois imagine-se a ir ao supermercado, onde terá um sabonete para escolher (tudo o resto era treta), haverá um iogurte (tudo o resto era menos saudável), etc..., quando ligar o rádio terá um músico para ouvir infindavelmente.

      No fim a sua vida ficou muito mais simples ficou com muito menos escolhas, e conseguiu fazer isso tudo permanecendo com a ampla liberdade que restou.


      Bem vê que isto está um pouco exagerado e se calhar até o vai achar absurdo, mas é consistente com a sua maneira de ver o mundo.




      O João pensou que o que tinha escrito era um julgamento à sua maneira de ver o mundo (que eu apenas acho um pouco ingénua e perigosa, pelo que o tentei esclarecer):

      Começo por lhe dizer que não fiz nenhum julgamento da sua pessoa, para mim deve prezar a liberdade tanto quanto eu. A questão é que há valores que devem ser protegidos e a ideia de que o estado deve ter a função essencial na protecção dos direitos das pessoas é uma falácia, que já conduziu a resultados horrendos. E nesta altura (de crise económica e social) trata-se de algo perigosíssimo, bem vê que na procura da eficácia (económica e social), ideias que levaram à existência de regimes totalitários estão e vão florescer cada vez mais. Tal como já aconteceu antes, nomeradamente no período de crise económica 1910 - 1930. Também nessa altura pareceu razoável às pessoas abdicarem um pouco da sua liberdade (a troco de quê?).

      Acha que por os critérios serem científicos, ou outros as coisas são diferentes, não seja ingénuo, o problema é que os intervenientes serão sempre pessoas (cada um com as suas virtudes e os seus defeitos, pessoas).



      Noto que, hoje em dia, a ciência ser usada para credibilizar qualquer coisa (o que já aconteceu no passado - quer o Nazismo/fascismo ou o Comunismo ambos tentaram fazer a ,mesmíssima coisa com os resultados que estão à vista de todos).

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    2. Talvez devesse ler melhor tudo o que escrevi. Não proponho proibir as pseudomedicinas.

      As razões são a sua popularidade. Há outras coisas que temos de proibir. Por exemplo os médicos não gozam da mesma sorte de deitar a ciencia para o lixo quando são acusados de má pratica. E assim tem de continuar.

      Engana-se no seu ad hitlerum. O ocultismo e pseudiociencia eram correntes fortes no nazismo, e a perseguição aos judeus deixou as faculdades vazias.

      Da mesma maneira Mao é o responsável pela re-introdução da acupunctura na China que estava proibida desde há seculos antes por ser considerada charlatanisse. Mao re-introduzio a acupunctura porque não tinha maneira de dar cuidados medicos a toda a gente, e ele proprio não recorria a acupunctura.

      Para além disso, a China é a responsavel por re-introduzir a acupunctura no ocidente tendo iniciado esse processo com recurso a aldrabice para convencer os visitantes ocidentais que estavam a operar sem anestesia e coisas afins.

      Outra coisa,a liberdade deve ser a liberdade de fazer coisas boas, não coisas más. A questão está que proibir algo tão popular iria ter consequencias nefastas.

      Por fim, não responde satisfatóriamente a nenhum dos meus pontos chave. Continua apenas a julgar que eu quero proibir isto e a comparar-me a ideologias assassinas (quer proibi-las talvez?) por razões inventadas.

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    3. João,

      Eu já li o que escreveu. Nem sequer percebo porque designa essas práticas como pseudomedicinas (são tão medicinas como as outras).

      A única coisa que é perigosa (muito mais que as suas pseudomedicinas e as suas pseudociências) é a sua fé (irracional) na ciência. E o problema não é essa fé ser sua, mas antes o ser partilhada por demasiada gente, que aparentemente não tem nem ideia das limitações da ciência. O problema da ciência é que todos os dias alguém descobre que afinal as coisas não são bem como a teoria estabelecida as descreve são um pouco (ou muito) diferentes. Em ciência sabe-se que há poucos absolutos e muitas descrições apenas descrevem razoavelmente a realidade, por isso as leis (conhecidas) devem ser com precaução, e não serem aplicadas ao acaso (muitas dessas leis vêm apenas de correlações empiricas e a sua validade é questionável).

      Por exemplo, relativamente à evolução, quando eu estava a estudar o homem moderno descendia do "homem de deandertal", que descendia do "homem de cromagnon", era o que a ciência dizia, hoje sabe-se que não é bem assim. Hoje para quase toda gente o "Big Bang" foi uma realidade, quando é apenas uma hipótese.

      Mesmo outras coisas como por exemplo o aquecimento global é atribuído à acção do homem quando não existe nenhuma prova concreta desse facto, contudo é ensinado às criancinhas que tem tanta validade como "2+2=4", os cientistas que trabalham na área são marginalizados e estigmatizados, sendo muito difícil para qualquer um publicar qualquer artigo que ponha em causa essa ideia e são quase tratados como herejes (e o problema não é eles terem ou não razão, que a este respeito acho que ninguém sabe quem tem razão), de qualquer modo como vê ainda há poucos dias David Marçal e Carlos Fiolhais publicaram um livro onde consideram isso pseudociência (parece-me que é isto mas não estou certo, posso estar a ser injusto). E o problema é este é a maneira como a sociedade reaje ao que é diferente, seja em ciência, seja noutra coisa qualquer. O diferente foi, é e será hostilizado, mesmo pelas pessoas que é suposto terem a mentalidade mais aberta. Há demasiadas coisas que são tomadas como certas em ciência, que carecem de prova, mas ninguém parece querer ter reservas quanto a essas verdades, e elas são apresentadas ao comum dos mortais (e aos restantes cientistas que não são especialistras na área como verdades inquestionáveis). Este é um dos grandes problemas da ciência. Bom, e claro depois há outro que é o das pessoas (e cientistas) encararem estas coisas com mais fé do que o comum dos crentes na sua própria religião ou no seu Deus. ESte é que é o problema. E ESTE TAMBÉM É O SEU PROBLEMA, ESTE CIENTÍSMO RELIGIOSO ABSURDO.

      Quanto à tentação de usar a ciência para justificar as suas razões, isto é bem conhecido e escusa de dizer que é apenas pseudo-ciência. É ciência (quer nos regimes comunistas ou nazi-fascistas), veja o investimento feito por estes regimes em ciência, muitas vezes apenas para finalidades propangandistas, nomeadamente na área aero-espacial ou armamento (isto em simultâneo com um reduzido nível de vida dos cidadãos).

      Devo dizer que não estou a defender nenhuma das terapias a que se refere, não tenho nenhum interesse especial por elas, não tenho nenhum contacto, nem quero ter, realmente tenho alguma desconfiança (não fundamentada, uma vez que confio nas suas opiniões sobre elas, que já me foram referidas por muitas outras pessoas).

      No final a questão essencial continua a ser o de eu poder ter mais escolhas. A esse respeito espero ter sempre o máximo de escolhas possíveis, dá um gosto muito particular ser eu mesmo a restringir essas escolhas e gostava que o estado interferisse o mínimo possível.

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  6. Como parece que pode haver duvidas acerca de se eu quero proibir ou não, já que é frequente na internet uns acharem que sabem mais sobre o que os outros querem do que eles proprios, aqui está o que escrevi em 14 de Setembro, sem confrontos com outros, sobre este assunto:

    http://cronicadaciencia.blogspot.pt/2012/09/regular-as-medicinas-alternativas.html

    Em suma eu discordo sobretudo das razões que o Desidério apresenta para não proibir.

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  7. Dizer mal da homeopatia tornou-se, para alguns, uma obsessão.Eu não sei se a homeopatia é terapêuticamente válida ou não. Não tenho conhecimentos nessa matéria, que me permitam afirmar que sim ou que não. Mas sei, por exemplo, que Luc Montagnier, prémio Nobel da Medicina em 2008, defende a validade da homeopatia. Por isso, essa temática será certamente controversa e não inequívoca, ou vamos admitir que um homem como Luc Montagnier fala levianamente quando defende a homoeopatia ? Mas a questão de fundo, que Desidério Murcho, coloca, a meu ver, está deslocada. Por mim, penso que se justificará o enquadramento legal da homeopatia, se houver fundadas razões para a reconhecer como prática clínica cientificamente válida. Mas ela já o é em Portugal, por via do Infarmed, quando reconhece os medicamentos homoepáticos. E a própria OMS também reconheceu a homoepatia como medicina alternativa à medicina alopática.Alguns médicos e psiquiatras contestam a eficácia terapêutica dos antidepressivos e há estudos que os equivalem a meros placebos. Aqui pergunto aos detractores da homoepatia: porque há alguns cientistas e estudos, que asseveram a ineficácia terapêutica dos antidepressivos e até lhes destacam graves efeitos colaterais, vão também defender que os antidepressivos sejam retirados das farmácias ? A questão essencial é outra. Quando deu jeito à classe médica adoptar a Acunpunctura, a Ordem dos Médicos veio reconhecê-la como boa prática clínica. E o mesmo se poderá passar com as medicinas alternativas. Quando os interesses economicistas dos médicos convencionais falarem mais alto, eu vou-me fartar de rir quando vir que as medicinas alternativas, tão denegridas, passarão a fazer parte das recomendações e comando da nossa Ordem dos Médicos. Esperem para ver...

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  8. In 2009, Montagnier published two controversial research studies[3] that some homeopaths claimed as support for homeopathy. Although Montagnier disputed any such support,[4] many scientists greeted his claims with scorn and harsh criticism.[3][5][6]

    Da wikipedia na entrada sobre montagnier.

    Por outro lado, fazer cherry picking de especialistas para o apelo à autoridade dá sempre borrada. A ciencia faz-se de consensos, paradigmas não de ovelhas tresmalhadas que essas há uma para cada ideia mais louca.

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    1. A Ciência faz-se de consensos, mas também de controvérsias e o apelo a uma autoridade científica tem, pelo menos, o mérito de demonstrar que há cientistas com as maiores diversas formas de pensar os assuntos do seu específico âmbito de investigação. E isso da Ciência se fazer de consensos é uma ideia muito gira, quando os interesses economicistas falam mais alto.Volto a insistir no reconhecimento, pela Ordem dos Médicos, da Acunpunctura quando, durante vários anos, os acunpunctores das medicinas alternativas foram sistematicamente denegridos, até ao momento em que a Ordem dos Médicos veio reconhecer que, afinal, era essa instituição que estava equivocada, não os acunpunctores. Provavelmente,antes da a Ordem dos Médicos ter decidido reconhecer a validade terapêutica da Acunpunctura, também alguns devem ter andado a denegri-la, afirmando que seria apenas mais uma " ideia louca". Agora, o Governo pretende regulamentar o exercício da Homeopatia e é muito fácil de perceber porquê. Há muita gente desencantada com a medicina alopática e opta por aderir às medicinas alternativas. A Ordem dos Médicos, que de estúpida não tem nada, já percebeu que é melhor cavalgar a onda das medicinas alternativas do que ficar submergida por ela.Os grupos de interesses, em Portugal, sempre mandaram muito, só os ingénuos é que não percebem isso. Os espertalhões e finórios, esses, gostam muito de cavalgar as ondas do descontentamento àcerca dos efeitos colaterais ou ineficácia de algumas práticas da medicina alopática, como o caso, já centificamente controverso, dos antidepressivos. O resultado está à vista: mais uma vez, os espertalhões venceram. Conseguiram cavalgar a onda das medicinas alternativas e querem controlá-la para seu lucrativo proveito. Os ingénuos, esses, continuam a discutir o sexo dos anjos.

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  9. Quanto à OMS defender a homeopatia:

    http://news.bbc.co.uk/2/hi/health/8211925.stm

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    1. Quanto à OMS defender a homeopatia,recomendo a leitura da parte preambular da Lei nº 45/2003, de 22/8, que regulamenta as terapias não convencionadas reconhecida pela OMS, como, por exemplo, a homeopatia:

      Artigo 1º: " A presente lei estabelece o enquadramento da actividade e do exercício dos profissionais que aplicam as terapias não convencionais, tal como são definidas pela Organização Mundial da Saúde".

      Artigo 3º, nº 2: " Para efeitos da aplicação da presente lei, são reconhecidas como terapêuticas não convencionais as praticadas pela acunpunctura, homeopatia, osteopatia,naturopatia, fitoterapia e quiropráxia"

      Será que a Assembleia da República andou a mentir aos portugueses quando elaborou essa Lei, invocando, designadamente, que a homeopatia estava incluída como terapia não convencional, reconhecida pela OMS ?

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  10. Desidério,

    Dizes que "em questões legislativas não é a verdade que conta; são as escolhas das pessoas que contam". Não sei se será assim. Por exemplo, se são as escolhas das pessoas que contam, iríamos chegar ao absurdo de ter um SNS a comparticipar tratamentos em que a comunidade científica não acredita, só por respeito às escolhas das pessoas. E se não comparticipa, como se percebe então que legitime a homeopatia? Não me parece que haja uma solução de compromisso possível.

    Também argumentas contra a tua própria tese quando escreves que as "escolhas têm sempre de ser respeitadas, desde que não prejudiquem terceiros de um modo claro e inequívoco". Ora, se alguém escolhe ser homeopata e convence outro a ser por ele tratado, adiando-se o tratamento pela medicina convencional que o poderia salvar, o homeopata não está a prejudicar essa pessoa? E o argumento derradeiro: se é uma criança que fica dependente do homeopata e de um pai adepto da homeopatia, não estaremos a prejudicá-la, de um modo claro e inequívoco?

    Há uma certa brandura em relação à homeopatia por se pensar que, na pior das hipóteses, não cura mas também não agrava o problema. É um erro. Se a homeopatia desviar a pessoa de uma cura eficaz, é muito menos branda do que à partida se pensa. Aprecio os que se prestam ao papel de "contrarian", mas creio que neste caso não tens mesmo razão.
    vmb

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    1. 1) A questão do financiamento é fugir do assunto. Primeiro, porque se pode integrar legislativamente a homeopatia sem a financiar com dinheiros públicos. Segundo, porque a questão é irrelevante: se as pessoas têm direito a escolher a homeopatia, então segue-se que têm o direito de escolher financiar com o dinheiro dos seus impostos a homeopatia.

      2) Os homeopatas não vão a casa das pessoas, apontam-lhes uma arma à cabeça e arrastam-nas para o consultório. Se o fizessem, fariam mal. Mas não por serem homeopatas. Se um médico ou um arquitecto fizer isso age mal também. Não há terceiros prejudicados porque as pessoas escolhem livremente fazer homeopatia, não são obrigadas a isso. No máximo podemos conceder que as pessoas podem decidir-se pela homeopatia sem muita ponderação e sem conhecimentos adequados. Mas é evidente que 1) as pessoas têm o direito a ser tolas, irreflectidas e ignorantes desde que não prejudiquem terceiros e 2) o melhor a fazer nesses casos é esclarecer as pessoas em liberdade.

      3) O caso das crianças envolve sempre uma ilusão cognitiva curiosa. Em nome dos superiores interesses da criança, impõe-se uma vontade alheia aos pais da criança. Como já expliquei noutro comentário isto nunca é aceitável. A intervenção do estado em nome de uma criança só é permissível se houver da parte dos pais não apenas uma prática que, do nosso ponto de vista, prejudica a criança, mas uma prática que seja inequivocamente reveladora de negligência, maus tratos e má-fé. Quando os pais de uma criança, em boa fé, prejudicam o seu filho, ninguém tem permissão para intervir -- porque isso seria reivindicar para os outros a infalibilidade que não se reconhece aos pais. Como é óbvio, com a melhor das boas intenções tanto pode ser o estado a falhar quando intervém em nome de uma criança, como os pais. E, regra geral, é o estado quem mais falha, e não os pais.

      Por fim, não há qualquer brandura da minha parte. Pensar isso é completamente não entender coisa alguma do que escrevi. Por isso me repito: as pessoas têm direito a prejudicar-se, desde que não prejudiquem terceiros.

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  11. Caro Desidério Murcho

    É muito triste voltar a ler nas suas palavras tão grave equívoco. Mais do que uma vez, foi chamado à atenção que nada nas palavras de David Marçal indicava que o que se pretendia era a proibição das Terapias não convencionais. Se voltar a ler com atenção o texto, as palavras de Marçal eram apenas uma crítica - um direito a que, pelos vistos ele (David Marçal e todos os que o apoiaram, não têm direito. Porque mal a pronunciam são acusados de impor uma ditadura e de cortar a liberdade aos outros.

    É muito fácil pegar num cavalo de batalha - a proibição das TNC - e lutar contra essa posição. Se ao menos fosse essa a questão... O problema, é que mesmo sendo chamado a atenção quanto à crítica que foi feita, recusou-se a ver a diferença entre uma crítica ao que o Estado deve ou não fazer e uma proibição seja lá do que for.

    Não vou voltar a repetir os argumentos anteriores, quero acreditar que a maioria das pessoas é capaz de perceber que os terapeutas das TNC tinham, têm e terão liberdade para continuar a desempenhar a sua actividade estando regulamentada pelo Estado ou não.

    O que me preocupa são estas ideias pós-modernistas onde se eleva a opinião pessoal a ciência. Onde todas as ideias são válidas e merecedoras de atenção. Onde o conhecimento é equiparado a fantasia.

    E custa-me ver que essa confusão de ideias tenha chegado ao ponto de se desejar uma sociedade onde se ensine que a terra é plana, que o corpo é composto por meridianos, que o Homem nunca foi à lua e que os extraterrestres construíram as pirâmides. Isso não é liberdade, isso é um elogio à ignorância.

    Melhores cumprimentos

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    1. Você não compreendeu. Eu não sou pós-modernista nem relativista, como é fácil de verificar lendo os meus livros e artigos. O que se passa é que você é incapaz de compreender um princípio fundamental da liberdade. Esse princípio é a aceitação incondicional de ideias e práticas e estilos de vida que sabemos serem falsos e danosos para as próprias pessoas. É isso que você não consegue entender. Por isso repito: todo o teor crucial do meu pensamento é que é irrelevante saber se homeopatia é científica ou não, porque o que está em causa é saber se as pessoas têm ou não direito pleno a algo completamente errado. E eu defendo que têm.

      Já respondi também ao que me parece o sofista de afirmar que as pessoas têm o direito de praticar a homeopatia, mas esta não deve ser regulamentada e integrada no nosso regime jurídico. Isso é apenas malabarismo verbal, indigno de pessoas com formação científica. É exactamente como uma vez ouvi um professor salazarista defender em sala de aula: que as pessoas podiam perfeitamente ser comunistas no tempo do Salazar, desde que não fizessem nada. Hoje em dia ouve-se o mesmo malabarismo verbal quanto aos homossexuais: que têm todo o direito a sê-lo, mas não a andar na rua de mão dada ou a ver-se legislativamente integrados. Isto é só malabarismo verbal.

      Por isso, repito: a única coisa que é necessário para que um grupo de profissionais veja a sua profissão regulamentada é esses profissionais existirem e haver quem queira os seus serviços e estes serviços não prejudicarem seja quem for excepto quem escolhe usá-los.

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    2. Caro Desidério Murcho,

      Eu não compreendo, realmente. E julgo que o senhor se engana quando se afirma não pós-moderno.

      Um princípio fundamental da liberdade não é "a aceitação incondicional de ideias e práticas e estilos de vida que sabemos serem falsos e danosos para as próprias pessoas". O princípio fundamental da liberdade é a aceitação de ideias, práticas e estilos de vida na condição de não serem danosas para elas próprias e especialmente para terceiros.








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  12. Creio bem que o que subjaz a esta discussão é um equívoco (da parte de D.Murcho) entre proibir e regulamentar uma dada prática (a homeopatia, de que eu também não sei nada, como é evidente).
    A coisa transparece logo no primeiro par. deste poste, quando se fala, em termos de alternativa, de enquadramento legal e exclusão de e.l. daquela dita prática.
    É preciso esmiuçar: ha a proibição e a não proibição, mas esta última pode receber duas formas distintas, a regulação (que significa em certos termos uma consagração) e a não regulação.
    Estarei a fazer-me entender? A profissão de 'sapateiro', por exemplo, não é proibida, mas também não é regulada, é simplesmente permitida.
    Creio que a discordância aparente entre D.Marçal e D.Murcho assente aqui: D.Marçal critica (só isso, vamos lá ver)a regulação, que significará na prática uma consagração (mas não tem nada a opor à situação presente, de simples permissão da actividade); D.Murcho discorda, porque assimila ( a meu ver, ilegitimamente) a não regulação à proibição.
    Concluo: está certo D.Marçal (que aliás estou curioso de ler, a respeito, mais cedo ou mais tarde).

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    1. O problema não é ser regulada em si. Se fosse regulada em face da ciencia teria de ser preenchido um termo de resposabilidade onde explicava que a pessoa consentia ser submetida a uma pratica irracional.

      O problema é que sabemos quem está por trás desta regularização e em que moldes vai acontecer. Não vai haver nada a chamar a atenção para a treta e vai soar a "suporte institucional" para a maoria das pessoas, coisa que vai efectivamente ser na prática.

      Afinal não podemos vender a Lua porquê? Só porque não há quem a compre? Não, porque qualquer con-artist sabe que há muitas Luas com muitos compradores. A diferença é a maioria achar isso mal. E achar bem a homeopatia.

      Mas não é por isso que devemos passar por cima do que sabemos e dar-lhe um ar de honestidade e veracidade.

      Proibir não. Mas tratá-la com respeito é que não mesmo.

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  13. Eu fico na dúvida se tanto eu como todos os outros comentadores falámos numa língua estranha qualquer, talvez em Klingon...

    O professor criou todo um argumento na base de uma caricatura de "cientismo" opressor que simplesmente não existe e continua a bater na mesma tecla. «Coitados dos aldrabões que não os deixam brincar aos médicos e cientistas». Talvez repetindo pela enésima vez e agora por tópicos a coisa vá lá.

    1. Ninguém quer proibir a homeopatia ou qualquer outra terapia alternativa até porque isso teria o mesmo resultado em termos práticos do que proibir a religião, ou seja, nenhuns;

    2. Ninguém quer tirar a liberdade de as pessoas serem "ignorantes" (palavras suas)ou acreditarem no que quiserem;

    3. Ninguém proibia a homeopatia antes de haver legislação;

    4. A legislação não serve para permitir a homeopatia nem para separar o trigo do joio (como se separa algo que não funciona de algo que também não funciona?), serve sim para validar algo que não poderia nunca ser validado de outra forma;

    5. O que precisa de ser defendido é liberdade de crítica, não é a liberdade de "aldrabar", porque é a primeira que está constantemente sob ataque. E aqui sim fazia sentido inserir a citação de Voltaire.

    Conclusão: Ambos os seus textos são um não assunto porque atacam um problema completamente ficcional.

    Os melhores cumprimentos

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    1. 1) O problema é mesmo este: é a minha convicção profunda de que pessoas como você proibiriam mesmo a religião se achassem que com isso conseguiriam acabar com as pessoas religiosas. Se você achasse que proibir a homeopatia acabaria com ela, defenderia a sua proibição. E eu discordo desta mentalidade. Penso que esta mentalidade salazarista está errada, e não contribui em nada para uma sociedade onde todos possamos sentir-nos melhor.

      2) Quer sim. Veja-se 1. Apenas se pensa que, por acaso, não funcionaria tentar fazer tal coisa.

      3) Verdade. Mas a inexistência de legislação põe as pessoas que querem a homeopatia numa situação de desvantagem injusta. Em primeiro lugar, porque estão menos protegidas dos piores charlatões.

      4) A legislação serve para distinguir o que é um homeopata de um mero curioso da área. E isso é uma vantagem para quem quer seguir ou experimentar a homeopatia. E como se separa as coisas? Como já expliquei, não faço ideia. Também você não faz ideia de como se separa um filósofo competente de um que o não é, ou um historiador. Geralmente, só os próprios profissionais de uma área sabem como distinguir entre eles. E é isso que os homeopatas querem fazer.

      5) A liberdade de crítica é cega: tanto permite criticar a homeopatia como as ideias políticas de quem ataca a regulamentação da homeopatia.

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    2. “Como já expliquei, não faço ideia.”

      É a minha convicção profunda que o problema aqui é mesmo este, o professor cometeu o erro de escrever sobre uma temática sem antes se informar devidamente sobre todas as suas vertentes e problemáticas. Resultado, uma série de preconceitos e opiniões infundadas, que apesar disso estão protegidos pela liberdade de expressão e ainda bem que assim é! Nem todos têm essa sorte, especialmente se ousarem colocar-se entre o charlatão e a sua fonte inesgotável de vítimas voluntárias. O que é triste é não se conseguir admitir os erros, acabando por se descer ao ponto mais baixo que é o ataque ao carácter em vez do argumento. E enquanto assim for esta será uma discussão completamente infrutífera. E a não ser que para além de filósofo seja também médium, tenho dúvidas que saiba realmente o que pessoas como eu fariam em relação à religião, mas se calhar ficaria surpreendido.

      “Também você não faz ideia de como se separa um filósofo competente de um que o não é”

      Pelo contrário, foi a única coisa produtiva desta nossa pequena troca de ideias, que obviamente não vale a pena continuar.

      Os melhores cumprimentos.

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  14. Caro Desidério, agradeço-lhe este segundo "post" onde volta a defender a charlatanice na saúde e a alegre liberdade de matar e de roubar dinheiro às pessoas com alegações falsas.

    É que quando o senhor demonstra tão profunda ignorância do tema que está a tratar, comparavel apenas, pela argumentação, à dum "troll" da seita New Age, pois cai nas mesmas falácias e nos mesmos "red_herrings", não poderia ter prestado melhor serviço à Medicina Convencional.

    Assim fica bem patente a sua amoralidade, a sua inconsciência, o seu desconhecimento da Democracia Ateniense e, sobretudo, a sua triste ignorância sobre Filosofia da Ciência.

    Sugiro também a seguinte experiência, como a Gravidade é uma resultante da força gravítica na Terra, mas tem muito menos provas do que a Ciência tem da Homeopatia ser uma vigarice assassina, atire-se duma boa altura, digamos uns 12 metros, e parta uma perna, ou as duas.

    Mas tome primeiro um analgésico homeopático, e trata-se com um bom charlatão com uma licenciatura em reiki, e depois venha contar-nos a sua desejável e rápida recuperação.

    Se não resultar e contrair uma septicemia também não faz mal, é tudo questão de opinião e sobretudo da sua liberdade.

    Prove então o seu remédio libertário. Demonstre cabalmente a sua tese.

    Quanto à analogia do olho do cu do namorado, que empregou para me responder, observo que lhe ficou muito bem, que condiz ao sair da sua boca.

    Cumprimentos



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    1. Este senhor Martins enquadra-se perfeitamente no ambiente de discussão prevalecente nas redes sociais, o qual referi num comentário acima e que volto a reproduzir.
      «...o debate público em Portugal está, paulatinamente, a atingir uma preocupante dimensão de intolerância democrática. Não se dialoga, não se discute, não se aceitam pontos de vista contrários, impõem-se opiniões, instiga-se a infâmia, tudo isto a despeito de qualquer noção mínima de convivência democrática. Para piorar a situação temos a virulência que, em certos momentos, grassa inesperadamente nas redes sociais. O acusacionismo gratuito e a discussão fácil e pedestre são, por vezes, os pratos fortes nestes meios. Não se pondera, lança-se lama e estilhaçam-se reputações com uma facilidade inopinada...».
      In João Pinto Basto, blogue «Estado Sentido».

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    2. Nem sequer o li. Ao fim das primeiras palavras já se vê o que se segue, e passo à frente.

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  15. Aliás, de bom proveito por vos a homeopatia. Vai aplicando-a em boa dose. E, de repente, cabelo. É claro, confiscada a parruca de Lavosier.


    Mas, no que faz uma criatura estudada com nível de vossa herança, mendigar sentido a palavra de, terceiros. Bem, ouso! É claro do meu passo à frente e, agradeçô-o professor Desidério Murcho.

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  16. Desidério,

    Gostava de perceber porque é que dizes ser mau «negar a integração legislativa dos profissionais dessas áreas.» Por exemplo, o caso do Tarot. Deve o Estado certificar alguns profissionais de Tarot de forma a separar o “trigo do joio”, ou seja, aqueles que verdadeiramente lêem o futuro nas cartas dos outros, menos competentes, que apenas se deitam a adivinhar sem um método fiável? Deve o Estado certificar rituais religiosos, para distinguir os profissionais competentes capazes de apaziguar os deuses, louvá-los e pedir-lhes favor de forma eficaz, daqueles que, por recorrerem a fórmulas e gestos menos adequados, ou dirigir-se aos deuses errados, não conseguem produzir os efeitos desejados? Deve o Estado publicar listas das superstições certificadas, como o gato preto dar azar, para as distinguir de outras que não merecem certificação, como a da sexta feira 13, de forma a integrar legislativamente estas crenças?

    Por mim, deixava isto tudo por conta das pessoas pelo simples facto de não haver ponta por onde se pegue nestas coisas para distinguir umas das outras. São tudo treta. Dar consultas de homeopatia requer a mesma integração legislativa que fazer horóscopos, contar anedotas ou pintar canecas de loiça. Não me parece ser coisa que mereça uma certificação governamental.

    Tu aparentemente achas que sim. Por isso peço que esclareças:

    Se o que defendes para a homeopatia não se aplica ao tarot, à astrologia e ao artesanato, então o que é que a homeopatia tem de mais certificável do que estes exemplos para que o Estado intervenha na certificação dos seus profissionais?
    Se defendes que a mesma “integração legislativa” se deve aplicar a todas as profissões, como propões que o Estado certifique coisas como o tarot ou o stand-up comedy?

    Nota, para evitar a confusão em que tens insistido, que eu não defendo restrições à liberdade das pessoas. Quando me oponho a uma entidade certificadora das anedotas não estou a proibir pessoas de contar anedotas ou sequer de fazer disso profissão. Apenas defendo que o Estado não tem nada que certificar isso. Quando me oponho a uma entidade certificadora da astrologia ou homeopatia faço-o pela mesma razão. Não para proibir estas actividades, mas por achar absurdo, e até enganador, o Estado dizer que certos astrólogos ou homeopatas são certificados. Não há nada a certificar nesses casos...

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  17. Alguém me poderia esclarecer uma dúvida?
    A certificação profissional por parte do Estado significará o reconhecimento da competência para a prática das TNCs? É essa a intenção legislativa?

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  18. Há uma coisa que eu ainda não percebi nesta história toda - como é que regular qualquer coisa é um acto de liberdade?
    Na minha opinião a regulação de qualquer actividade humana é sempre uma redução da liberdade individual, seja em que aspecto for da actividade humana, logo sempre que o estada regula qualquer coisa está a limitar a liberdade de alguém da fazer essa mesma coisa.

    Assim não entendo como é que o facto de algo não ser regulado pelo estado pode ser um atentado contra a liberdade de alguém.

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  19. Correndo o risco de ser tolo, ou até mesmo homeopata: excelente postal

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  20. Grande Reportagem SIC (29 de Novembro 2012)
    Provavelmente, a melhor reportagem feita sobre o assunto.

    "Como as várias formas de medicina podem ser complementares"
    http://www.youtube.com/watch?v=wWmklmihn20&list=UL

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Ó meu pobre coração, perdes tudo

Ó meu pobre coração, perdes tudo. Não sabes tu inventar outra rua. E por ela fluísse o ar mais puro, A boca e a palavra sempre nua.