sexta-feira, 3 de abril de 2009

Os sentidos das vidas

"Os Sentidos das Vidas" é o título do artigo de Susan Wolf que acabo de publicar, com tradução minha. Recorde-se que dela tínhamos já publicado "O Sentido da Vida", um pequeno artigo de enciclopédia que apresenta as várias perspectivas sobre o tema.

Este tema tem tido aliás uma presença assinalável na Crítica. Em "Confissão", de Leão Tolstoi, assistimos à formulação intuitiva do problema, e à sua resposta religiosa. Simon Blackburn apresenta por contraste, em "Desejo e Sentido da Vida", uma perspectiva que não é religiosa. A resposta de Peter Singer encontra-se no seu livro Como Havemos de Viver?

As minhas próprias ideias foram desenvolvidas nos textos "O Sentido da Vida", publicado na Intelectu, "O Problema Pessoal do Sentido da Vida" e "Sísifo e o Sentido da Vida", este último um capítulo do meu livro Pensar Outra Vez. Finalmente, está para breve a edição portuguesa da antologia Viver Para Quê?, organizada e traduzida por mim.

Os leitores de língua portuguesa dispõem já de bons pontos de partida para reflectir informadamente sobre este tema. E o que pensa afinal o leitor sobre este problema?

10 comentários:

Anónimo disse...

ANTHONY FLEW E A PROCURA DO SENTIDO DA VIDA

Para os ateus deve ter interesse a trajectória pessoal e intelectual de Anthony Flew.

Embora nascido e criado numa família cristã (o seu pai era um dos mais conhecidos pastores metodistas do Reino Unido) Anthony Flew desde cedo se mostrou desconfortável com o ensino cristão, tendo abraçado uma visão do mundo naturalista e ateísta.

Durante a sua vida de estudante e professor de filosofia privou com alguns dos mais célebres filósofos, cientistas e intelectuais (v.g. Ludwig Wittgenstein, Bertrand Russell, C. S. Lewis) ateus e cristãos, em diálogo com os quais desenvolveu os seus argumentos ateístas.

Ao longo de cerca de seis décadas defendeu ferozmente o ateísmo em livros, artigos, palestras e debates.

Ele conhecia os argumentos de ateístas tão diversos como David Hume ou Bertrand Russell, argumentos esses que desenvolveu, aprofundou e sofisticou.

Recentemente, porém, algo aconteceu.

Anthony Flew, que teve sempre o mérito de manter uma mente aberta e seguir a evidência onde ela conduzisse, tornou-se teísta.

O que é interessante, considerando que se estava perante um defensor empedernido do ateísmo.

Como ele próprio diz, a sua mudança não se ficou a dever a uma experiência religiosa de qualquer tipo, antes foi um evento exclusivamente racional.

Anthony Flew explica, no seu recente livro “There is a God” (existe um Deus), as razões que o fizeram reconsiderar a sua posição.

Sem quaisquer desenvolvimentos, podemos sintetizá-las em alguns pontos:

1) a existência de leis naturais no Universo corrobora uma criação racional;


2) a sintonia do Universo para a vida corrobora uma criação racional;


3) a estrutura racional e matemática do Universo corrobora uma criação racional;


4) a existência de informação semântica codificada nos genomas corrobora uma criação racional.

Com base nestes argumentos, e principalmente no último, Anthony Flew considera agora não apenas que a posição teísta é verdadeira, mas que ela é cientifica e racionalmente irrefutável.

Embora Anthony Flew não se tenha convertido a Jesus Cristo, ele confessa que se há alguma religião digna de consideração séria, é o Cristianismo, com as figuras centrais de Jesus Cristo e do Apóstolo Paulo.

Se Anthony Flew ousasse considerar seriamente a mensagem cristã, iria ver que ela tem muito a dizer sobre astronomia, astrofísica, biologia, genética, geologia, paleontologia, etc., e que em todas essas disciplinas abundam evidências que a corroboram.

Para Anthony Flew a busca ainda não acabou.

É interessante o percurso de Anthony Flew.

Ele chegou a uma conclusão a que muitos outros já haviam chegado antes: a presença de informação codificada no genoma é evidência clara da existência de uma realidade imaterial, espiritual e mental para além da matéria, da energia, do tempo e do espaço.

Esta conclusão deveria levá-lo a uma outra: se o universo, a vida e o homem são o produto de uma criação racional, também são o resultado de uma criação intencional.

Ou seja, com Deus, o Criador, e dentro dos seus planos, a nossa vida tem um sentido.

Jesus disse: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida".

O sentido encontra-se indo pelo caminho certo.

Sobre o sentido da vida, a Bíblia diz: "Há caminhos que ao homem parecem direitos, mas o fim deles é a morte".

E Jesus ainda disse: "Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que esteja morto viverá."

António Conceição disse...

1- Desgraçadamente, a mim que comprei "O mito de Sísifo", de Camus, quando tinha dezassete anos e nunca o li, que não sou dado às angústias existencialistas francesas, o tema do "sentido da vida" só me remete para os Monty Python.

2- Noto que, como habitualmente, o comentador anterior não chega (como diz que aconteceu com Anthony Flew) a Deus pela razão. Ele crê em Deus e, depois, agarra-se a qualquer argumento que sirva para fundar a sua pré-crença.
Essa pré-crença até pode estar correcta, mas é uma pré-crença. E se os argumentos que Anthony Flew nos apresenta são os que ele refere, não são novos e não acrescentam nada. Convencem os que os já estavam convencidos sem eles.
Citar a Bíblia também não ajuda. Na Bíblia, como em qualquer livro, está tudo e o seu contrário.

João Moedas Duarte disse...

2) a sintonia do Universo para a vida corrobora uma criação racional;

Sim, por isso é que há vida por todo o lado fora do planeta.

António Conceição disse...

Tomemos um frasco com grãos de areia branca em cima e grãos de areia preta em baixo. Agitemos o frasco. Agitemo-lo simplesmente. Os grãos de areia misturam-se, naturalmente. A areia branca e a areia preta misturam-se. Qual é a probabilidade de os grãos de areia branca ficarem outra vez todos de um lado e os grãos de areia preta do outro?
Ínfima. Mas não nula. Num tempo finito embora incomensuravelmente grande, essa separação dos grãos de areia acabará por ser uma fatalidade. Direi então que o facto de ela ocorrer revela uma intenção racional de criação, que há um desígnio inteligente no agitar do frasco?
Claro que não. Tratou-se apenas de o agitar sem sentido nenhum, durante o tempo suficiente.
As teorias criacionistas do desígnio inteligente assentam em duas hipóteses não demonstradas: que as combinações de elementos geradoras da vida são impossíveis sem uma vontade criadora e que o universo tem meia dúzia de anos, não tendo sido ainda decorrido o tempo necessário para que uma combinação ocasional de elementos que gere a vida, de improvável, se tenha tornado uma fatalidade.

joão viegas disse...

Primum vivere, deinde philosophare.

Não ha nenhuma corrente de filosofia antiga - portanto de filosofia a sério - que tenha ignorado essa verdade elementar, que implica que a filosofia é necessariamente (como muitas outras coisas) instrumental.

Decorre do exposto que a filosofia começa por ser ética (ou moral). Os outros problemas, vêm por acréscimo, ou por consequência. Ora o problema do "sentido da vida" é o problema ético por excelência. A ética é precisamente a parte da filosofia que procura compreender como, na realidade, damos sentido às nossas vidas : quais os bens que prezamos, quais as relações que fazemos entre esses bens, etc. Incidentalmente, mas de forma necessaria, a ética procura também saber em que medida o "sentido" é um "bem". Isto esta exposto, na minha modesta opinião de uma forma insuperada até hoje, nas éticas de Aristoteles (nomeadamente nos livros I, VI e X da Etica de Nicomaco).

Dai o meu espanto ao verificar que, no primeiro dos teus textos que citaste, passas mais de metade do tempo a demonstrar que o problema "do sentido da vidsa" é interessante para a filosofia. E obvio que é. Se o problema não fizesse sentido, nada justificaria que abrissemos um livro de filosofia, nem sequer acerca de outros problemas...

Quando constato o trabalho que tens para demonstrar esta evidência (não vejas aqui nenhuma critica aos teus textos, que estão escritos de maneira douta, argumentada, etc., não é isso que esta em causa), não posso impedir-me de pensar que perdemos completamente o sentido da filosofia.

Esta maneira de "filosofar", inquinada de essencialismo, leva a um impasse : uma filosofia que abdica completamente de dizer algo de util, ou de valioso...

Não conheço bem as correntes analiticas. Ao ler autores como Austin, chego às vezes a pensar que eles tomaram consciência desse problema. Outros, não sei...

E quanto ao fundo, vou tentar responder à maneira antiga, com um paradoxo : que a vida tem sentido (ou seja, que o sentido da vida não se confunde com a sua mera existência), eis o que muitos filosofos antigos (e não so) provaram da maneira mais forte possivel, de maneira perfeitamente imparavel : suicidando-se quando acharam que a sua vida havia deixado de ter sentido...

Tempos aureos em que o fosso entre a vida e a filosofia não era o que é hoje, na nossa sociedade de clérigos...

Anónimo disse...

Mas por que raio havia a vida de ter algum sentido?

E se tivesse sentido, porque é que o sentido havia de fazer sentido.

E afinal o que é a vida?

Penso que tudo o que foi escrito sobre esses assunto antes de Darwin e da compreensão do ADN é lixo.

(a vida é apenas uma doença mortal - e uma doença transmitida por via sexual).

José Simões

Anónimo disse...

É bastante difícil discutir este assunto sem ser iniciado na coisa. E mais ainda qd os profissionais da coisa já perceberam que é melhor mudar de conversa.

O "projecto" existe ou não? Só o velhote é que sabe, mas ele não nos ouve, por mais que se lhe berre à porta.

E já agora como parte da coisa, como é q a linguagem nos "arranja"? Em tempos li umas coisas dum senhor com nome de calças de ganga e de outro, Franês, J. Lacan, contaminado pelas teorias de Freud. Pareceu-me pano para mangas.

O Sousa da Ponte - João Melo de Sousa disse...

Uma possivel resposta:

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

"Constituição íntima das cousas"...
"Sentido íntimo do Universo"...
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.

O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.
Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!


A. Caeiro, o guardador de rebanhos.
Fragmento

Anónimo disse...

Uma vez que não sabemos (com certeza absoluta e sem margem para dúvidas) e não podemos provar de modo seguro que deus (não) existe (ou qualquer força, ser, entidade ou princípio análogo, independentemente do nome que lhe dermos), e que, por consequência, (não) existe um desígnio inteligente universal que, à escala cósmica, biológica e/ou humana tenha simultaneamente criado a estrutura e oriente a evolução do universo, da vida e do homem para uma(?) qualquer finalidade transcendente que confira valor e significado a tudo o que existe (há factos e argumentos pró e contra esta perspectiva, embora não necessariamente equivalentes e, logo, indecidíveis), a tese que vou propor e defender é independente disto se verificar ou não, tornando essa questão parcialmente irrelevante para o caso. A resposta simples e directa à questão de saber se a vida tem ou não um sentido seria simultaneamente sim e não, dependendo da forma como vivemos! Pensando só na vida humana, talvez a vida possa fazer sentido (na tripla acepção de conter um valor, um significado e uma finalidade) quando realizamos aquilo que potencialmente somos como indivíduos e como seres humanos, e não tenha qualquer sentido quando não conseguimos ou sequer tentamos fazê-lo! Assim, a questão do sentido da vida depende directamente daquilo que somos e do conhecimento que temos disso, da nossa natureza e condição! Ora, se aceitarmos, como os clássicos fizeram, que o homem é (pelo menos à face da terra, e o único conhecido) um animal racional e o definirmos como homo sapiens sapiens (e quanta pretensão, arrogância e vaidade se escondem nesta “simples” definição científica, não é verdade?!), então aquilo que devemos ser consiste em realizar esse potencial natural, essa diferença específica da nossa espécie (passe a redundância) e tornarmo-nos aquilo que somos em potência, isto é, sábios e racionais, conscientes e inteligentes, no pensamento e na acção, no conhecimento e na vida, visando o aperfeiçoamento e o desenvolvimento da nossa natureza, tanto individual, como colectiva, como da espécie. “Torna-te naquilo que és”, diziam os antigos (e Nietzsche repetia e fazia sua); ”conhece-te a ti mesmo”, dizia Sócrates, fazendo sua a inscrição do templo a Apolo em Delfos; “todo aquele que realiza a sua natureza, atinge a perfeição “, diz o Baghavad-Gita; a compreensão e o cruzamento destas três máximas indica o caminho para uma resposta à questão do sentido da vida: devemos conhecer-nos a nós mesmos porque, não só somos os únicos seres conhecidos capazes de o fazer, mas porque só sabendo quem somos e o que somos, donde vimos, para onde vamos, onde estamos e o que fazemos aqui (como indivíduos e como humanidade) podemos ser verdadeiramente aquilo que somos e quem somos, tornando-nos efectivamente conscientes, inteligentes e racionais, em suma, sábios! Mas como a sabedoria, a virtude e a perfeição humanas são virtualmente impossíveis de alcançar na plenitude, resta-nos amar, procurar e tentar infinitamente realizar esses ideais reguladores, cada um de nós à sua maneira própria, relativa e diferenciada, atendendo à identidade singular de cada um no seio de humanidade comum a todos, mas orientados pelos únicos princípios e fins absolutos que podem verdadeiramente dar um sentido à vida humana: a verdade, o bem, a justiça, a beleza e a sabedoria! Para além disso, como somos simultaneamente partes e produto do universo, parte e produto da vida (partes na estrutura e produto na evolução), nós somos e representamos a possibilidade e a capacidade que o universo, a natureza, a matéria e a vida têm de se auto-conhecerem, de se tornarem inteligentes e conscientes de si; nós somos (até prova em contrário, os únicos) a consciência e inteligência do universo, no seu processo de auto-descoberta e auto-compreensão! Realizar esta vocação é cumprir o sentido da nossa vida; não o fazer, desperdiçando-o, é um pecado contra nós próprios e a “ordem natural das coisas”, é falhar o alvo, é não cumprir a nossa função e papel – que derivam da nossa natureza e posição no cosmos (como mente(s) consciente(s) do cosmos)-, e aí, sim, a vida não faz qualquer sentido!


João Carlos Silva

Rui leprechaun disse...

Diante dos muros da cidade, uma noite de Inverno,
um homem que tinha sofrido muito
gritou, desesperado: 'Qual é o sentido da vida?'
E o eco respondeu-lhe claramente: 'A vida!'


Frans Wilde

"A escola como plataforma do comércio"

    Artigo de opinião do Professor Mário Frota, especialista em Direito do Consumo, publicado no jornal As Beiras de hoje, 12 de Maio de 20...