sexta-feira, 17 de agosto de 2007

“À proa dum navio de penedos”

Post convidado que antes foi publicado no Diário “As Beiras”. A propósito do centenário do nascimento de Miguel Torga, o texto de João Boavida sugere-nos a leitura e a viagem.

Cem anos são cem anos, e embora ainda não se saiba se é pouco ou muito, não sou indiferente a um poeta que marcou a cidade de Coimbra, desde que a conheço, para além da grande figura literária que é. Há duas ou três coisas que sempre admirei em Miguel Torga. Uma, talvez a que durante muitos anos foi a mais falada, tem que ver com a resistência no puro sentido da palavra. Foi um resistente de primeira qualidade; uma referência intelectual e moral que incomodava o regime salazarista, e era uma esperança para todos nós de liberdade política e de ressurreição cultural e social.

Mas em Miguel Torga agrada-me sobretudo a coerência da pessoa e a dimensão oficinal da obra. Tudo nele parecia coerente: a figura, como que ainda há pouco tirada da rocha, os lugares que habitava (os móveis do consultório, presos ao passado, a velha máquina de escrever e a sacrificada secretária cumprindo missão) e sobretudo o ar esforçado que transmitia. Sentia-se nele a eterna moral do trabalho com esforço, a grandeza humana do fazer e refazer incessantemente, o honrado labor do artesão insatisfeito que nunca acha a obra acabada. E a que a simplicidade dos livros e a desprotecção editorial e visual em que apareciam tornavam no símbolo de trabalho solitário, humilde, mas com o orgulho da sua humildade desprotegida mas forte. Sempre admirei os escritores que trabalham a palavra; só esses o são de facto, e Torga dava essa ideia (di-lo muitas vezes no Diário) e toda a obra o manifesta. Nada na sua escrita é espontâneo ou repentista; ou mesmo que o seja como intuição e inspiração, nunca a ideia dispensa o trabalho, o escopro, a plaina e a grosa de quem elimina o inútil, corta e alisa à procura da forma intuída no início, e tão difícil de alcançar.

O melhor dele é a escolha da medida certa, do equilíbrio (a regra de oiro de todo o artista) entre o simples e o complexo, o explícito e o implícito, o dito e o sugerido, essa forma ideal de que cada poema, ou conto, se deve aproximar o mais possível, mas que, como diz frequentemente, poucas vezes terá alcançado, para a sua insatisfação de artista. Torga sempre foi, neste domínio, um dos melhores exemplos da literatura portuguesa do século XX. É neste sentido uma poesia mais decantada que, por exemplo, a de Régio ou a de Nemésio, ou mesmo a de Sophia de Mello Breyner, seus contemporâneos; mais trabalhada, e por isso mais clássica. O que o afasta talvez dos gostos mais modernos da poesia, mas, como se sabe, nestas coisas não se deve correr a foguetes.

Além disso Torga insere-se como poucos (só Aquilino se lhe compara) na terra portuguesa, e acima de tudo, no Douro. Talvez não seja fácil apreciá-lo a partir de uma certa Lisboa que nunca viveu a emoção essencial e ancestral da largueza dos montes e do vento nas fragas; que o sabe da literatura mas não o sentiu com a dimensão que isso pode ter. Torga compreende-se como anseio do alto da Galafura, por exemplo; mais como anseio que como obtenção. Ali, naquela proa rochosa onde S. Leonardo toma com tristeza a barca que o leva à eternidade (é lindíssimo o poema, no volume IX do Diário, e voltado a Poente na parede da capela) quem, face à beleza, não sente uma ansiedade à procura de saída, pelo alto, mas se confronta também com a limitada condição humana? Foi este o seu combate, imagem pessoal da luta entre a desmesura da paisagem duriense e o amor do homem a dominá-la e a torná-la mais bela ainda. O grande tema de Torga é este, e duplo: a limitação do homem face ao mistério do Mundo, que o seduz, e a força frágil do artista face à ansiedade da criação, que procura sublimar.

S. Leonardo da Galafura

À proa dum navio de penedos,
A navegar num doce mar de mosto,
Capitão no seu posto
De comando,
S. Leonardo vai sulcando
As ondas
Da eternidade,
Sem pressa de chegar ao seu destino.
Ancorado e feliz no cais humano,
É num antecipado desengano
Que ruma em direcção ao cais divino.

Lá não terá socalcos
Nem vinhedos
Na menina dos olhos deslumbrados;
Doiros desaguados
Serão charcos de luz
Envelhecida;
Rasos, todos os montes
Deixarão prolongar os horizontes
Até onde se extinga a cor da vida.

Por isso, é devagar que se aproxima
Da bem-aventurança.
É lentamente que o rabelo avança
Debaixo dos seus pés de marinheiro.
E cada hora a mais que gasta no caminho
É um sorvo a mais de cheiro
A terra e a rosmaninho!


(Miguel Torga, in Diário IX)

6 comentários:

Anónimo disse...

"Nada na sua escrita é espontâneo ou repentista; ou mesmo que o seja como intuição e inspiração, nunca a ideia dispensa o trabalho, o escopro, a plaina e a grosa de quem elimina o inútil, corta e alisa à procura da forma intuída no início, e tão difícil de alcançar."
Destaco esta passagem do texto de João Boavida, não só me parece caracterizar bem a obra de Torga como, num tempo de "refeições" rápidas como o actual, é uma máxima que deve ser difundida junto dos jovens. Pelos menos, dos artistas.

Existe a ideia generalizada que a obra de arte é resultado da inspiração súbita ou da iluminação instantânea do seu criador. Eu discordo dela. Não é que não haja grandes génios para quem (visto por nós, de fora) tudo parece fácil mas prefiro a ideia de que uma obra de arte são 10% de inspiração e 90% de suor, como princípio para um sólido alicerce. O valor da inspiração inicial pode ser enorme, mas também pode ser só mais uma ilusão. É curto como a manta que ou tapa pés ou tapa cabeça.

A valorização do esforço e a divulgação do seu mérito não é um dos apanágios do sistema de ensino porque, coitadinhas das crianças, para quê estar a aborrece-las tentando ensiná-las a contar e a escrever correctamente se elas já têm as calculadoras e o corrector do word.

Artur Figueiredo

Fátima André disse...

A propósito do último parágrafo do comentário anterior, a ideia amplamente difundida de que o esforço não é boa "peça" ...convém lembrar que o sucesso não é obra do acaso, não é milagre e não se consegue sem muito trabalho, muita dedicação e muito esforço, ponto. Não incutir isto nas crianças desde a mais tenra idade, não é boa pedagogia, nem bom ensino.
Também há muito boa gente, no ensino e na pedagogia, que confunde sucesso escolar com sucesso educativo. E para muitos é tudo igual, mas na verdade, não é. O sucesso educativo, o tão desejado, é muitas vezes confundido com o sucesso Institucional (escolar), ou seja aquele que é identificado com a passagem de ano, de ciclo, de disciplina, a obtenção de um diploma, etc. Isto, como é óbvio, não significa que os alunos aprendam ou tenham grandes conhecimentos... Diria que não é deste sucesso que o país precisa, ou talvez precise para as estatísticas, mas não para o seu desenvolvimento. E, nem mesmo assim, à custa de tantas reformas e contra reformas e da panóplia de documentos e normativos que entopem a vida das escolas, o nível de insucesso baixou nos últimos dez anos, pelo contrário, a tendência é de um ligeiro aumento, com excepção para o 1º ciclo. Podemos confirmá-lo pelos dados estatísticos do INE de 2006 referente ao ano anterior. Isto só prova que defender a passagem administrativa ou automática (chamem-lhe o que quiserem) não resulta, nem à custa de tanto facilitismo (não só as calculadoras ou os correctores de word de que fala o comentador anterior)...

Fátima André disse...

Só para completar a ideia que perdi no post anterior: em relação ao sucesso educativo, este é muito mais abrangente que o sucesso escolar. Refere-se a uma formação integral, do "homem todo".
Esta também é competência da escola, embora muitos defendam que não, que a escola só serve para transmitir conhecimento. A escola tem, entre muitas outras funções, a tranmissão conhecimentos, mas também a trasmissão de valores...
Esta ideia, da formação do homem inteiro, e não só intelectualmente, não é uma inovação do séc. XXI, é uma ideia que vem dos Gregos e que está presente na Paidéia Grega, e talvez não fosse má ideia tomámo-la como referência na nossa Educação. Penso que é essa a ideia que está presente em todas as orientações da OCDE, embora a nossa LBSE não lhe dê grande valor; pelo contrário, as ideias que repassam por lá são mesmo de que tudo vale, e todos os valores são relativos...

Anónimo disse...

So podemos saber se uma criança foi bem preparada, segundo os cânones da educação total (ou integral), quando ela atingir a maioridade.

Anónimo disse...

gug

Anónimo disse...

http://grand-unification-blog-html.blogspot.com/

GUG - GRACELI GRAND UNIFICATION - Sinfonia Complet

"A escola como plataforma do comércio"

    Artigo de opinião do Professor Mário Frota, especialista em Direito do Consumo, publicado no jornal As Beiras de hoje, 12 de Maio de 20...