Na verdade, eles não eram, na altura em que vieram ao mundo, nem são hoje, numa primeira abordagem, propriamente bons exemplos. Sublinho “numa primeira abordagem” porque, claro, numa segunda abordagem, e depois de se pensar nisso, descobre-se que o são. Por seu lado, as aventuras em que se meteram (sendo isso mesmo, aventuras), dão voltas e mais voltas, envolvem perigos, dilemas, hesitações, despertam sentimentos vários (alguns dos quais não estarão muito de acordo com certas exactidões morais imediatistas) e desencadeiam, umas vezes, comportamentos recomendáveis, e outras nem por isso…
Estas devem ser, conjecturo eu, algumas das razões que remeteram As Aventuras do Huckleberry Finn para o Index Librorum Prohibitorum, como, aliás, a Palmira um dia destes lembrou neste blog. Ou seja, nas escolas norte-americanas, o grande amigo de Tom Sawyer é persona non grata, talvez porque o desejo de liberdade que o levou a fugir numa jangada Mississipi abaixo, para fugir a um pai irremediavelmente bêbado, não se coaduna com as preocupações “pedagógicas” de alguns educadores mais zelosos.
Mas, o Aventuras de Tom Sawyer, publicado em 1876, também tem os seus “perigos pedagógicos” (espero que ninguém veja nesta minha ironia um pretexto para o fazer constar num qualquer Índex daquele género).
“O professor, um homem idoso e grave, interveio, mas, mal virou as costas, Tom puxou o cabelo a um rapaz do banco seguinte e mostrou-se absorto na leitura, quando ele se virou para trás; passados uns momentos espetou um alfinete noutro, para o fazer gritar e apanhar uma reprimenda do professor. Todos os companheiros de Tom eram do mesmo modelo – irrequietos, barulhentos e maçadores. Quando os chamavam para recitar a lição, nenhum sabia bem os versículos e tinham de ser ajudados a todo o tempo.”
Outro perigo é dar a entender que os professores podem não se comportar à altura da sua elevada função:
“As senhoras professoras ‘exibiram-se’ curvando-se ternamente sobre os alunos a quem acabavam de esbofetear, ameaçando graciosamente com o dedo os rapazinhos maus e acariciando os bons. Os senhores professores ‘exibiram-se’, dando pequenas repreensões e fazendo outras demonstrações de autoridade e amor à disciplina.”
Tenho percebido que uma das grandes preocupações de alguns educadores e pais é darem a ler às crianças (só) livros “pedagógicos”, sendo que com isto se quer dizer livros que passem directa, linear e instantaneamente uma “mensagem positiva”… de tudo: de “tolerância face à diversidade”, de “respeito pelo meio ambiente”, de “interesse pelo mundo que nos rodeia”, “de paz no mundo”, “de amizade e solidariedade” etc.
Sem qualquer critério científico – este é um texto de opinião que, nessa condição, vale o que vale –, mas com alguma curiosidade, tenho lido alguns desses livros, o que me tem feito perceber algumas coisas, por exemplo:
- as personagens com quem supostamente as crianças se devem identificar, assemelham-se mais a anjos do que a gente de carne e osso;
- as situações são simples e óbvias, não apresentam desvios em relação ao fim em vista, contém as componentes necessárias e nada mais.
Não tenho, obviamente, nada contra as “mensagens positivas” – de facto, acho que elas devem constituir um ponto de referência, tanto para educadores como para pais –; só me parece que, para serem críveis, nada perdiam em ter uma ligação mais forte com a realidade. Só que a realidade – não me refiro necessariamente àquela realidade restrita em que o sujeito vive, e de que muito se fala no presente – tem “muito que se lhe diga”, como, de resto Twain dá a entender na sua escrita.
Post Scriptum:
Não terá muito a ver com o texto, mas gostaria de acrescentar, caso não tenha ficado claro, que da palavra “pedagogia” e “pedagógico/a” se usa e abusa, em muitos casos, para justificar o contrário do que se encontra teorizado e investigado cientificamente na Pedagogia.
Aproveito também para notar que dar a ler o Huckleberry Finn e apresentar o seu autor a fumar cachimbo com um ar radiante é que não seria, na perspectiva dos defensores de uma certa “pedagogia” nada, mas mesmo nada, “pedagógico”!
10 comentários:
ainda assim, está a milhas de uma vulgar «lição do tonecas»...
Sugestão:
Corrigir, logo no início, a gralha Mark Tawin
Também a nossa Mesa Censória inquisitorial proibiu, não só a leitura de "Some Thoughts corcerning Education", de John Lock, como também a sua tradução. Há mentes e mentes, rocas e fusos. Quem o quiser ler clandestinamente, sem me denunciarem, podem fazê-lo neste link
http://en.wikisource.org/wiki/Some_Thoughts_Concerning_Education
No post anterior a tecnologia dos novos tempos comeu a última palavra do link:
Education.
Mas Deus é grande e quando somos crianças e jovens passamos por cima das "mensagens positivas" e só damos atenção mesmo à aventura e divertimento. Pelo menos era o que me acontecia a mim ao ler coisas como os livros dos 5, que só mais tarde me apercebi que tinham muitas "mensagens positivas", que felizmente ignorei completamente. Na verdade eu acho que a educação não deve ter mensagens subliminares positivas ou negativas. Deve ter ideias interessantes e divertimento e conteúdos histórica e cientificamente correctos. Ponto. Se queremos "passar mensagens morais", é porque somos umas bestas e estamos a educar mal. Para ensinar uma criança de 11 anos que não se deve ser racista devemos dizer-lhe isso explicitamente e explicar-lhe porquê. Enfim, esta é a minha opinião radical e nada científica.
o mais importante, a meu ver, é estimular a imaginação.
Eram, há mais de 50 anos, livros oferecidos a rapazes.
Li-os, assim como os de J.Verne, admitindo que estava a prevaricar e isso já era estimulante.
A corrente de aventuras, encantamentos, deambulações e devaneios nunca mais deixou de me empurrar para os rios da descontraída imaginação.
Livros soberbos que ofereci, desde cedo, aos filhos/as.
Os meus filhos ainda não têm idade para ler mas já vão vendo em DVD, e gostando, felizmente, das Aventuras de Tom Sawyer em desenhos animados, exactamente aqueles que há 20 e tal anos fizeram as minhas delícias.
Pronto, confesso: e que ainda fazem.
Gaspar.
Olá Helena:
Muito precioso seu texto.
Abraço
Marta Bellini
Brasil
Partilho em absoluto com a opinão expressa por Desidério Murcho. E congratulo-me por alguém chamar a atenção para a anormalidade dos amnuais escolares.
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