THE PORTUGUESE RECTORS ON THE EUROPEAN SCIENCE FOUNDATION EVALUATION

sexta-feira, 30 de Novembro de 2007

Jovem do Ano 2007

João Guerreiro, o vencedor das Olímpiadas Ibero-Americanas de Matemática, foi eleito Jovem do Ano 2007, uma iniciativa conjunta do Rádio Clube Português e do jornal Metro. Como refere o site da Sociedade Portuguesa de Matemática, a concorrência não era fácil, incluindo Ricardo Araújo Pereira, do Gato Fedorento, Pacman, vocalista dos Da Weasel, e o jornalista João Pereira Coutinho.

Parabéns ao João e também a todos os que nele votaram! Obrigado igualmente aos nossos leitores que ajudaram a eleger o João.

quinta-feira, 29 de Novembro de 2007

Religião à portuguesa

Há qualquer coisa de bizarro no modo como a religião é vivida na cultura portuguesa. Vejamos: os mais importantes pensadores da religião cristã procuraram desde sempre distinguir a religião cristã, enquanto um sistema justificável e sofisticado de crenças verdadeiras, da mera crendice e da superstição. É verdade que podemos defender que, historicamente, esta atitude dos filósofos da religião teísta é meramente a continuação da atitude de Paulo, que precisava de vender o cristianismo a um povo civilizado e culto, no Império Romano, mostrando que o cristianismo era uma "filosofia superior" às filosofias pagãs, e não apenas uma crendice de povos ignorantes do deserto. Podemos argumentar, e é sem dúvida plausível, que a religião é intrinsecamente crendice, e que é na religião popular que se encontra a verdadeira religião, e não nas sofisticadas elucubrações dos mais importantes filósofos religiosos, de Agostinho a Tomás de Aquino, passando por Ockham e avançando até Leibniz ou até à actualidade, com Swinburne e Plantinga.

Apesar de tudo isto, a verdade é que há toda uma concepção sofisticada da religião, assim como toda uma tradição de discussão filosófica séria sobre estes temas. Ora, sempre que escrevo qualquer coisa neste blog tentando informar os leitores de tal discussão, tenho sempre uma reacção muito bizarra de alguns leitores crentes. A reacção varia entre a assunção de que realmente a religião é mera crendice popular, o que é uma afirmação surpreendente para um crente, e o protesto de que a religião está para lá do pensamento "logicista" — querendo com isto dizer o tipo de pensamento sofisticado e cuidadoso que é tradicional nesta área, tal como foi desenvolvido por Agostinho, Anselmo, Tomás ou Leibniz, para dar só uns exemplos.

O que pensar disto? Será que a religião à portuguesa tem de ser a religião da Titi do Raposão, que Eça descreve em A Relíquia? Uma religião feita de crendice e superstição? Um pensamento religioso hipócrita, sempre com medo que, ao pensar cuidadosamente, se descubra que afinal não há justificação defensável para a crença religiosa? Se for isto, é a suprema duplicidade intelectual: trata-se de afastar à partida a possibilidade de descobrir que a nossa crença religiosa é injustificável. Mas qualquer filósofo religioso diria que isto significa apenas que a fé destas pessoas é terrivelmente insegura: quem acredita realmente que a crença religiosa é justificável não tem medo de estudar cuidadosamente as bases de tal justificação, pois acredita firmemente que as vai descobrir.

Isto é deplorável, evidentemente. Mas é talvez surpreendente e informativo saber que uma razão para este tipo de atitude é... o cientismo. O cientismo é, em traços gerais, a ideia de que só a ciência e os métodos da ciência podem produzir resultados. De modo que se não vislumbramos tais métodos para discutir questões religiosas, se tudo o que vemos é a discussão aberta cuidadosa, com argumentos e contra-argumentos, objecções e refinamentos de posições, isso parece uma pura perda de tempo. Kant foi um dos primeiros filósofos a sofrer de cientismo e por isso declarou que todos os argumentos tradicionais a favor da existência de Deus eram meras ilusões, sendo intrinsecamente impossível provar se Deus existe ou não — o que ele queria dizer é que é cientificamente impossível provar tal coisa e não vale a pena andar com discussões estéreis. Acontece que esta posição é auto-refutante: pois se não se consegue provar cientificamente que Deus existe, nem que não existe, como raio conseguimos provar que não se consegue provar? Não é tal pretensa prova tão falha de cientificidade como qualquer tentativa de provar que Deus existe? Claro que sim. Essa pretensa prova é apenas um argumento tipicamente filosófico, tal como as provas tradicionais a favor da existência de Deus.

A procura da verdade provoca angústia a quem sofre de cientismo porque é tipicamente uma procura aberta, isto é, uma procura sem que tenhamos metodologias que garantam resultados. Esta angústia é um dos grandes disparates do nosso tempo, e o sistema de ensino em que estamos mergulhados tem muitas culpas no cartório. Muitas pessoas pensam que procurar a verdade só pode ser feito assim: vestimos uma bata branca, vamos para um laboratório, aplicamos as metodologias, e temos a garantia de obter resultados. Mas isto é apenas uma pequena parte da procura da verdade. Muitas vezes não sabemos sequer qual é a melhor metodologia; e não temos qualquer garantia de obter resultados. Que fazer, nessa circunstância? O cientismo diz-nos: abandona tal pretensão, pois só pode ser ilusão e sofisma. E assim a alternativa é um ateísmo ignaro ou a crendice da Titi do Raposão, que vê a religião apenas como uma espécie de masturbação espiritual, em que cada qual fala da fenomenologia da sua crendice, como se fosse a coisa mais interessante do universo.

Escusado será dizer, penso que as duas atitudes são insustentáveis e que se baseiam em confusão intelectual. Procurar a verdade é continuar a procurar mesmo que não tenhamos metodologias nem garantias. Procurar a verdade é pensar como pensamos normalmente, e não inventar sofistas sobre os limites do pensamento "logicista" — ignorando que, ironicamente, as únicas alternativas actuais ao pensamento "logicista" são precisamente as lógicas não-clássicas desenvolvidas nas últimas décadas, e não elucubrações sofísticas baseadas em jogos de palavras simplórios. Procurar a verdade é não deitar areia para os olhos das pessoas, não disfarçar um discurso redondo e circular com palavras caras e referências falsamente eruditas. Procurar a verdade é estudar quem discorda de nós, e não começar por escolher cuidadosamente os autores que dizem precisamente o que queremos ouvir, para depois os usarmos como a palavra final sobre o tema. Procurar a verdade é não impedir a discussão em curso pondo em causa os termos da própria discussão, sem qualquer razão convincente excepto o medo que temos de que tal discussão não justifique o que queremos justificar.

Finalmente, é importante dizer o seguinte: a generalidade das pessoas é incapaz de justificar adequadamente quer o seu ateísmo quer a sua crença religiosa. Isto é normal e não há qualquer problema com isso. Eu não sei justificar adequadamente a minha crença de que houve um Big Bang — não sou físico, não tenho os conhecimentos para isso. Faz parte da ciência e da filosofia a procura de justificação das nossas crenças mais básicas — por vezes descobrimos que têm justificação, outras vezes que não têm. Como somos muito limitados, quem sabe justificar o Big Bang não sabe geralmente justificar a sua crença ou descrença religiosa, e vice-versa. É conversando entre todos que podemos alargar a nossa compreensão das coisas. Mas isso exige que não se use a duplicidade intelectual para pôr fora de jogo tudo aquilo que à partida nos parece desfavorável às nossas crenças mais queridas. Estar disposto a abandonar as nossas crenças mais queridas é a condição de possibilidade da genuína procura da verdade.

Irracionalismo à solta no mundo

Está a decorrer em Boston um encontro da Materials Research Society. A organização convenceu um número de estudantes (um deles com apenas 11 anos!) a passar para post, num blog dedicado, as suas impressões do encontro. Richard Van Noorden, da Chemistry World, está igualmente a acompanhar o evento e vale a pena ler o que escreveu sobre Steven Chu, Nobel da Física em 1997, e o problema da energia.

Especialmente interessante parece ter sido a conferência inaugural, proferida por outro Nobel, agora da Química e em 1996, Harry Kroto. Harry, um verdadeiro homem da Renascença de quem o Paulo recomendou a leitura do artigo «o naufrágio da ciência britânica», com o poder comunicativo fabuloso que todos os que tiveram a sorte de assistir a uma das suas conversas confirmam, referiu as responsabilidades dos cientistas como cidadãos, os perigos das «certezas» morais e religiosas, a obsessão generalizada com a celebridade e, acima de tudo, a necessidade de educar em ciência as gerações futuras.

No parte das perguntas alguém dirigiu a Kroto uma pergunta sobre o futuro da humanidade, futuro que para Harry pode não ser muito auspicioso caso não se combata «o irracionalismo à solta no Mundo».

Desde a primeira vez que vi Harry, numa conferência da Sociedade Portuguesa de Química pouco depois da sua descoberta do C60, que este nos alerta para a onda irracional que varre o Mundo. Fiel ao que preconiza como antídoto, velas de pensamento crítico e melhor educação - não apenas em ciência, Harry é um bom exemplo de sincretismo das duas culturas -, está envolvido em várias iniciativas educativas. Uma delas, a Global Educational Outreach Initiative, pretende disponibilizar material de qualidade para professores de todo o mundo utilizarem nas suas aulas. Harry fundou igualmente o Vega Science Trust, que fornece igualmente material educativo muito interessante, que inclui powerpoints e apoio audiovisual na forma de palestras e entrevistas a cientistas que se destacaram pelo seu trabalho. Recomendo especialmente a série de palestras de Richard Feynman na Universidade de Auckland, quatro lições memoráveis sobre física básica que só o génio de Feynman poderia produzir.

Vale a pena rever

A recensão do livro «Portugal e os Judeus» pelo historiador Rui Tavares no programa Câmara Clara.

quarta-feira, 28 de Novembro de 2007

Vale a pena consultar

Título: Dicionário de Filosofia de Cambridge
Organizador: Robert Audi
Editor: Paulus, 2006, 1056 pp.

Quem não lê bem inglês e está interessado em poder consultar um bom dicionário de filosofia, actualizado e preciso, tem agora à sua disposição a edição brasileira do Cambridge Dictionary of Philosophy (2.ª ed.). O preço não é simpático, contudo: 186 reais (cerca de 67 euros). Quem lê inglês pode comprar a obra por apenas 16 libras (cerca de 22 euros).

Evolucionismo em seis questões















Os estudantes do jornal A Cabra da Universidade de Coimbra colocaram-me algumas questões sobre evolução que reproduzo aqui, juntamente com as respostas.


1 - O que é o evolucionismo?

Evolucionismo era um termo utilizado para designar a ideia de que a vida na Terra resulta de um longo processo de evolução. Essa ideia foi avançada por Darwin há quase 150 anos. Segundo Darwin, as espécies foram-se modificando ao longo da sua história evolutiva, muitas se extinguiram e outras surgiram, num processo extremamente dinâmico. Darwin propôs como principal mecanismo para a evolução das espécies a selecção natural. A este conjunto de ideias chamamos teoria de evolução.


2 - Porque defende esta teoria?

As teorias científicas são grandes modelos explicativos de um conjunto muito grande de factos conhecidos sobre a natureza. E tudo o que temos vindo a conhecer sobre o funcionamento dos seres vivos ou sobre as interacções entre eles são concordantes com a teoria da evolução. Quando se descobriu como é que a informação para produzir um ser vivo estava guardada - o que iniciou a revolução molecular - não fazíamos ideia se haveria um ou vários códigos genéticos. Hoje sabemos que há só um, o que significa que todos os seres vivos actualmente existentes descendem de um antepassado comum, onde surgiu esse código. Defendo a teoria da evolução porque é a melhor explicação conhecida para a evolução dos seres vivos e porque os factos que vamos conhecendo são concordantes com ela.


3 - Que argumentos utiliza o evolucionismo contra o criacionismo?
O evolucionismo ou teoria da evolução é uma teoria científica. O criacionismo não. Uma pretende ser uma explicação científica de porque é que temos uma fisiologia igual à de outros animais - e testamos fármacos em ratinhos - ou porque é que partilhamos 98% dos nosso genes com os chimpanzés. A outra é uma construção dogmática de um grupo de pessoas, não cientistas, que tenta fazer passar por conhecimento sólido um conjunto de 'a prioris' religiosos de grupos religiosos que fazem leituras literais da Bíblia, como acreditar que a Terra não tem mais de 6 mil anos, ou que as espécies não evoluem. Além disso, o criacionismo, mesmo na sua versão 'light' designada 'intelligent design', viola princípios básicos de toda a ciência, da física à astronomia.
Os criacionistas mobilizam consideráveis recursos económicos nos Estados Unidos, mas também na Europa, para fazerem uma campanha de propaganda contra a ideia de que as espécies evoluem. Milhares de professores receberam um pesado e caro livro de descarada propaganda criacionista no último ano, a que chamei tijolo criacionista no blog De Rerum Natura.


4 - Qual a teoria proposta por Darwin e o que trouxe de novo à ciência?
A teoria de Darwin propõe uma evolução das espécies. Isso significa que se considerarmos quaisquer duas espécies actualmente existentes, se andarmos suficientemente para trás, encontraremos um antepassado comum às duas. Significa também que muitas das características singulares que temos resultaram de uma evolução adaptativa. Somos dotados de um cérebro que é o órgão mais complexo que conhecemos, em resultado da vantagem que cérebros crescentemente mais complexos tiveram para os nossos antepassados. Sempre que apanhamos uma constipação, ela pode tornar-se uma gripe ou não, que pode ou não ser fatal, em resultado da evolução do vírus que nos ataca. É o facto de evoluir tão rapidamente que torna o vírus da SIDA tão difícil de combater.

Hoje todos os biólogos são evolucionistas porque a teoria da evolução é, actualmente, a grande teoria da Biologia.


5 - Os evolucionistas do século XX adoptaram a teoria de Darwin mas corrigiram-na em alguns aspectos. Que aspectos foram esses?
Sim, mas podemos dizer que essas correcções são uma espécie de notas de rodapé. A teoria, no essencial, estava correcta.
Quando Darwin propôs a sua teoria, a genética ainda não existia. Havia umas noções de hereditariedade - sabia-se que se queriam criar um cão que corresse muito havia que escolher os animais mais velozes para reproduzir entre si. Quando as leis da genética ficaram conhecidas percebeu-se que estas eram ainda mais concordantes com a teoria proposta por Darwin do que a teoria de hereditariedade que ele avançou na altura. Sabe-se que há outros processos que conduzem à evolução além da selecção natural, o que não contraria a teoria geral proposta por Darwin.

Um dos aspectos mais fascinantes desta teoria é que ela propõe a evolução da complexidade da vida que conhecemos por um processo mecanístico, sem ser dirigida por um engenheiro muito, muito inteligente. E as imperfeições que encontramos nos órgãos aparentemente perfeitos, como os nossos olhos, são as marcas da sua evolução.


6 - Que força tem o evolucionismo em Coimbra? E em Portugal?
Tem a força de uma teoria científica. Não é nenhum movimento social ou manifesto que junte à sua volta espíritos desejosos de demonstrar a sua validade. Como todas as teorias científicas, está sujeita a um duro teste, dia a dia, perante as evidências das descobertas científicas. É um instrumento fundamental para os biólogos portugueses e de todo o mundo para desenharem as suas experiências e interpretarem os seus resultados e, desse modo, fazer avançar o nosso conhecimento sobre o mundo vivo de que fazemos parte.

Vale a pena ler

Título: A minha palavra favorita
Edição: Jorge Reis-Sá
Editor: Centro Atlântico, 2007

Um dicionário de palavras pessoais. Perguntando a tantos qual a sua palavra favorita, pedindo a mais dê-me a sua palavra, reunimos 90 figuras de relevo da sociedade portuguesa e as suas palavras sobre a palavra. Escolhendo uma, pedimos: defina-a, dê-lhe luz, troque-lhe as sílabas, escreva um poema, lembre o cheiro das letras. E eles fizeram-no.

"Onde há a palavra, há a verdade. A palavra é usada para conversar e sem verdade não há conversa. Usa-se a palavra para conversar sobre afectos, realidades, crenças, pensamentos, medos, desejos, memórias, futuros e tudo o mais. Sem a verdade, a conversa seria uma mera manifestação de subjectividades solipsistas e imunes ao erro, discursos paralelos sem triangulação possível entre si e a realidade. " (Desidério Murcho)

Ainda "O Segredo"

A TSF, no programa "Mais cedo ou mais tarde" está a transmitir até quinta-feira uma série de três programas sobre o livro "O Segredo". Eis o resumo dos dois primeiros programas:

27 de Novembro de 2007

15h - 16h: O livro "Segredo" foi lançado há um ano e é um dos mais vendidos em todo o mundo. A obra de Ronda Byrne que fala sobre o poder da lei da atracção já despertou a curiosidade de milhares de pessoas (e são muitos os que tentam pôr em prática a Lei da atracção). Mas há quem questione a Lei da Atracção. Sobretudo cientistas. Um deles é Palmira Silva, professora de Química no Instituto Superior Técnico, e co-autora do blogue De Rerum Natura, um blogue que fala também de várias coisas do mundo, procurando expor a sua natureza..

[Esta é a primeira de uma sequência de três conversas, em três dias seguidos, sobre O Segredo; sempre a esta hora, até quinta-feira]

28 de Novembro de 2007

15h - 16h: Contínuamos a falar sobre o livro "O Segredo" (160 mil livros vendidos em menos de um ano - contra os 120 em Espanha - de acordo com a editora; no mundo são quase dez milhões de livros vendidos).

Convidamos Lúcio Lampreia, que encontrou no Segredo algumas coisas boas, mantendo no entanto algumas reservas. Lúcio Lampreia é director da Egor, uma empresa de consultoria em todas as áreas de Recursos Humanos.

Nesta hora também vamos ouvir Karen Kelly a autora do livro "O segredo do Segredo". em que se questiona o livro de Ronda Byrne.

terça-feira, 27 de Novembro de 2007

Aprender a rezar na era da técnica


Informação recebida da editora Caminho:

Amanhã dia 27 de Novembro, pelas 18 h, no Hotel Roma em Lisboa, é lançado o novo livro de Gonçalo Tavares: "Aprender a rezar na era da técnica".

Apresentam a obra António Mega Ferreira. José Pacheco Pereira e Manuel Gusmão.

A moda dos alimentos enriquecidos


Nas férias de Verão publicámos alguns textos da nutricionista Ana Carvalhas, a quem de novo pedimos um "post". Aqui está:

A rápida evolução das ciências da alimentação e nutrição nas últimas décadas veio modificar os nossos hábitos de comer, que passaram a estar intimamente ligados à prevenção e à cura de doenças. Os investigadores identificaram vários compostos bioactivos (nomeadamente, compostos de origem vegetal, designados por fitoquímicos) com efeitos positivos na saúde, os quais têm sido aproveitados por uma indústria alimentar sempre ávida de aumentar a venda dos seus produtos. Por outro lado, cada vez mais pessoas se preocupam com aquilo que ingerem de modo a prevenir enfartes, tromboses e cancros, entre outras terríveis patologias, e, portanto, acrescentando anos à sua vida.

Com apregoados objectivos de nutriprevenção e nutriterapêutica, encontramos hoje nas prateleiras dos supermercados leite enriquecido com ómega-3, cálcio, vitamina D e isoflavonas de soja, margarinas com fitosteróis, água com fibras, iogurtes que baixam o colesterol, ovos com ómega-3 que foi adicionado na ração dos aviários, etc. Enfim é tal a proliferação de produtos enriquecidos que temos de perder algum tempo à procura de um litro de leite de vaca que pastou na Natureza, de uma dúzia de ovos postos por galinhas normais ou de um pacote das velhinhas bolachas “Maria”. A questão é: haverá realmente vantagens em consumir alimentos enriquecidos?

De facto, nenhum destes produtos consegue substituir os alimentos próprios da época, frescos ou bem conservados, que devem ser variados todos os dias. De facto, os alimentos tal como nos chegam da Natureza podem fornecer todos os nutrientes que necessitamos. O leite, por exemplo, sempre conteve cálcio em quantidade suficiente para satisfazer as nossas necessidades diárias. E só em situações muito especiais poderá haver vantagem num complemento deste mineral. Uma coisa é certa: se o cálcio for a mais, o organismo terá de o excretar, pois, caso contrário, a sua lenta deposição por todo corpo transformar-nos-ia em estátuas. Felizmente que os rins trabalham para eliminar o cálcio excedentário, embora exista a possibilidade de formação de cálculos.

Por outro lado, a quantidade de ácidos gordos ómega-3 adicionada ao leite ou às bolachas para prevenção cardiovascular fica muito aquém do que seria necessário e falta provar se têm o mesmo efeito dos que são ingeridos quando se come peixe gordo (sardinha, salmão, atum, cavala, etc.), que é o “ambiente” natural dos ácidos gordos ómega-3.

A fim de baixar o colesterol, alguns alimentos são enriquecidos com fitosteróis, moléculas de origem vegetal que têm uma acção benéfica, embora muitíssimo pequena, na redução do colesterol. No entanto, não é ainda bem conhecida a sua acção quando são adicionados à margarina e aos iogurtes.

Os produtos enriquecidos podem ser uma alternativa pontual, desde que haja uma orientação da dieta alimentar, mas é melhor fixar as nossas escolhas nos alimentos frescos, simples e variados. A absorção dos nutrientes deve ser preferencialmente feita através dos alimentos onde eles existam naturalmente, sempre com conta, peso e medida.

A nutriprevenção e nutriterapêutica são mesmo úteis, mas de uma forma orientada e com base em alimentos da época. Os fabricantes bem podem louvar os seus produtos com publicidade científica ou pseudo-científica. Mas os consumidores que somos nós devemos evitar que a propaganda da indústria alimentar nos leve a escolher alimentos enriquecidos cujas vantagens são discutíveis mas cujo preço é indiscutivelmente mais elevado.

O desporto dos jovens e o Parlamento Europeu



Mais um texto do nosso habitual colaborador Rui Baptista:

“O homem não se concebe sem movimento e de há muito que os filósofos vêm usando a imagem do anti-homem representado pela ostra fixada ao rochedo” (Jean-Pierre Gasc).

O desporto de alto rendimento exige do atleta “ser sempre o melhor e permanecer superior aos demais”, transformando-o numa espécie de máquina humana desprovida de vontade própria. A esta máquina de bater recordes e vencer campeonatos desportivos contrapõe José Esteves, no seu livro “O Desporto e as Estruturas Sociais”, a utopia “de não trocar um êxito desportivo, de repercussão internacional, de um atleta ou de uma selecção portuguesa, pelo prejuízo da iniciação desportiva de alguns milhares de rapazes e raparigas das nossas escolas primárias”. Os deuses do Olimpo jamais perdoarão a um simples mortal tamanho descaro e desafio!

Entretanto, a malfadada Educação Física, personificada na figura de um Atlas, ajoujado ao peso de um mundo de falsos preconceitos, tarda em libertar-se da funesta sombra secular perpetuada na copa frondosa do vitalismo de finais do século XVIII, que teima em estigmatizar, ainda mesmo em nossa contemporaneidade, as actividades corporais apresentando-as como fábricas de hercúleos mentecaptos, paradas de estampas físicas destituídas de racionalidade ou mesmo campos férteis da imoralidade.

A título de exemplo, basta evocar Ramalho Ortigão quando desanca o par do reino Vaz Preto por ele se opor na Câmara dos Pares à criação de ginástica nas escolas femininas… porque a considerava uma prática imoral! Embora Vaz Preto tenha sido derrotado, fez-se este alto dignitário acólito de uma forma de obscurantismo que Ramalho (o vulto das letras portuguesas que mais e melhor se bateu pela exercitação física dos escolares) iluminou com o archote de polémica prosa ateada por centelha de génio: “E francamente devo dizer que levantar trinta quilos em cada pulso, trepar a um quarto andar por uma corda, saltar a pés juntos um fosso com dois metros de largura, me parece, com relação ao domínio do homem sobre o mundo exterior, uma cousa tão importante, pelo menos, como fazer análise gramatical e a análise lógica de uma oração de Cícero”.

Hoje, mais do que nunca, numa sociedade juvenil amarrada à televisão e aos computadores e em que a obesidade dos jovens em idade escolar se transformou numa verdadeira epidemia precursora, muitas vezes, de distúrbios cardiovasculares e de diabetes na idade adulta, a educação física escolar assume um papel de grande importância que não se coaduna com um estatuto menor que teimam, por vezes, em atribuir-lhe pessoas menos informadas ou mais enfeudadas a preconceitos que desvalorizam o corpo.

Mas porque vivemos em época em que, segundo Albert Einstein, “é mais difícil quebrar um preconceito do que um átomo”, respaldo-me no formosíssimo texto de uma entrevista da jornalista Clara Ferreira Alves (CFA) à festejada escritora Agustina Bessa-Luís (ABL) no “Expresso”, corria o ano de 1989:

CFA: “Observa as pessoas como quê? Personagens? Não é bem isso, pois não?”
ABL: “Robôs divinos. O ser humano é um robô perfeito. Quando há uma determinada reacção quero saber a mola que disparou, a engrenagem que não funcionou”.
CFA: “Qual a realidade desses robôs? Que corpo têm? Têm corpo ou são só inteligentes?”
ABL: “O corpo é uma inteligência”
.

A relevância do desporto na educação dos jovens foi posta em destaque pelo Parlamento Europeu ao aprovar recentemente por ampla maioria (590 votos a favor, 56 contra e 21 abstenções) um relatório em defesa de uma carga horária de educação física no ensino básico e secundário que contempla um mínimo de três horas semanais. Este relatório refere ainda que os jovens portugueses, espanhóis e italianos excedem em 30% os níveis de peso e obesidade nas crianças entre os 7 os 11 anos. E acrescenta que este excesso de peso não se fica tanto a dever a uma elevada ingestão mas a uma declarada inactividade física: essas crianças não comem mais, mexem-se menos. Para contrariar este “statu quo” foi proposto um equilíbrio entre os períodos de tempo dedicados às actividades intelectuais e físicas nas escolas.

Este importante relatório de um parlamento directamente eleito pelos cidadãos da União Europeia para representar os seus interesses devia merecer do Ministério da Educação de Portugal a melhor das atenções para que a execução das medidas aí preconizadas fosse levada a efeito com a urgência requerida numa cultura e numa sociedade cada vez mais vitimadas pela inactividade física. Por consequência, povoada de jovens que são “ostras fixadas ao rochedo” !

segunda-feira, 26 de Novembro de 2007

Estudantes perguntam sobre evolução


Declarações que fiz à "Cabra", jornal dos estudantes da Universidade de Coimbra:

- Em que consiste o evolucionismo?

Evolucionismo ou teoria da evolução é a descrição que a ciência depois de Darwin faz do desenvolvimento dos organismos vivos ao longo dos tempos. A palavra teoria não nos deve enganar: falamos de teoria como em física se fala de teoria da relatividade, mas trata-se de uma descrição unificada do mundo vivo que tem sido confirmada por todas as observações. Todas, tal como a teoria da relatividade na física! Do ponto de vista científico não tem, portanto, rival. Claro que tem lacunas nos pormenores e alguns aspectos controversos, mas isso é normal: faz parte da natureza de uma teoria científica. Todos os biólogos são evolucionistas assim como todos os físicos aceitam a teoria da relatividade.

- Porque defende esta teoria?

Porque conheço e confio no método científico. Defendo não só eu como a esmagadora maioria dos cientistas porque se trata da única que está de acordo com os factos, em particular com o vasto e rico registo fóssil e também com os ensinamentos da moderna genética. A genética molecular - que tem por base a molécula do ADN - veio nas últimas dezenas de anos fornecer um amplo suporte à teoria da evolução. Sabemos agora quais são os seus mecanismos ao nível biológico básico.

- Recentemente, comemoraram-se os 100 anos da publicação do livro de Henri Bergson, filósofo francês. Que importância teve este livro para o evolucionismo?

Em 1907, o filósofo francês Henri Bergson publicou o seu livro "A Evolução Criadora". Do ponto de vista estritamente científico não adiantou nada, mas isso também era esperado porque Bergson não era um cientista (é, de resto, conhecida a sua oposição à teoria da relatividade de Einstein, uma oposição que carecia de fundamento científico). Mas do ponto de vista filosófico foi uma obra importante da corrente intuicionista que, no início do século XX, se contrapôs ao pensamento positivista do século anterior. O centenário dessa obra é uma boa oportunidade para discutirmos as relações, que são férteis, entre ciência e filosofia.

- Que força tem o evolucionismo em Coimbra?


Em Coimbra como em todas as boas Universidades do mundo, ensina-se a teoria da evolução. Tem, portanto, toda a força! Estará a pensar no oposição por parte dos chamados criacionistas. Essa poderá ser uma posição religiosa mas não tem nada, rigorosamente nada, de científico. Nos Estados Unidos e também nalguns sítios da Europa há alguns fundamentalistas religiosos que não só não aceitam o ponto de vista científico sobre o desenvolvimento da vida como querem passar como científico aquilo que manifestamente o não é. Querem fazer passar por ciência aquilo que é o seu credo religioso. É um manifesto abuso. A atitude dessas pessoas é bastante perigosa pois atenta contra os fundamentos da sociedade democrática e laica e convém, por isso, estar atenta a ela e contrariá-la activamente, como fazemos no nosso blog De Rerum Natura. Mas em Portugal, país onde a religião católica tem grande difusão, essas ideias não têm grande número de aderentes, que normalmente se encontram mais em alguns grupos protestantes. Devo dizer que muitos católicos e até protestantes não têm problema nenhum em acreditar em Deus e ao mesmo tempo na teoria da evolução, ou, mais em geral, em tudo o que a ciência descobriu.

- Num dos posts do seu blog, lemos que lhe colocaram um livro sobre o criacionismo no seu cacifo. Como encarou esta atitude? Qual a proporção do conflito entre evolucionistas e criacionistas actualmente?

Sim, mão anónima ofereceu-me um livro criacionista brasileiro. Não sei por que é que o dador foi anónimo. Ou talvez saiba: os criacionistas têm medo do ridículo a que estão sujeitos na comunidade científica e na sociedade em geral. A sua atitude é indefensável do ponto de vista científico. Chegam a difundir erros monumentais como, por exemplo, tomar como factos científicos as afirmações do "Génesis", o primeiro livro da Bíblia. Claro que cada um pode acreditar no que quiser, mas não pode impor aos outros as suas crenças religiosas servindo-as como se fossem ciência. Não faz nenhum sentido que a religião seja ensinada na escola como ciência e, pior, em vez da ciência. A ciência é o que é e tem a força que tem porque está separada de crenças como as crenças religiosas. Na ciência verifica-se tudo mas só fica aquilo que se baseie na observação e na experiência.

O cesto de papéis da sociedade

Numa época em que os discursos “politicamente correctos” respeitantes à educação, afirmam a diferença entre povos, culturas, sociedades, etnias ou grupos, salientando a especificidade de cada um e o direito que têm à mesma, a realidade parece caminhar no sentido oposto, ou seja, no sentido da uniformização.
A verdade é que a educação, pelo menos no que respeita aos seus problemas, é muito semelhante em todo o mundo ocidental.

Não sendo minha intenção relativizar os problemas que emergem no nosso sistema de ensino, aqui deixo um texto, datado de 1994, da autoria de Andy Hargreaves, investigador da área da Pedagogia que tem identificado e debatido de modo particularmente claro, rigoroso e contundente os grandes dilemas com que as escolas e os seus professores se confrontam na actualidade.

“As pessoas estão sempre a querer que os professores mudem. Raramente isto foi tão verdadeiro como o tem sido nos últimos tempos. Como todos os momentos de crise económica, os tempos actuais de competitividade global estão a originar um imenso pânico moral sobre a maneira como estamos a preparar as gerações do futuro nos nossos países. Em momentos como este, a educação, em geral, e as escolas, em particular, tornam-se naquilo a que A. H. Hasley chamou «o cesto de papéis da sociedade»; receptáculos de políticas nos quais são depositados, sem cerimónia, os problemas não resolvidos e insolúveis da sociedade. Pouca gente quer fazer algo relativamente à economia, mas todos — os políticos, os meios de comunicação de massas e o público em geral — querem fazer algo na educação.

Com tantos baluartes tradicionais da economia ocidental a parecerem cada vez mais precários, no contexto de um mercado global em expansão, os sistemas escolares e os seus professores estão a ser incumbidos de tarefas onerosas relativas à regeneração económica. Estão a ser pressionados no sentido de darem mais ênfase à matemática, à ciência e à tecnologia, de melhorarem o desempenho ao nível das competências básicas e de restaurarem os padrões tradicionais de exigência académica, para os colocarem a par ou acima dos níveis de exigência das economias adversárias.

Para além da regeneração económica, em muitos locais espera-se que os professores ajudem a reconstituir culturas e identidades nacionais (…) espera-se que as escolas satisfaçam estas exigências acrescidas em contextos de severa restrição económica. Os estados, submetidos a pressões no sentido da redução de despesas e do peso destas na assistência social a uma população cada vez mais envelhecida, estão a desembaraçar-se de grande do seu esforço financeiro na escolarização e esperam que as escolas e os seus professores, através da competição no mercado e de uma gestão local frugal, caminhem melhor pelos seus próprios pés.

Para muitas das escolas actuais e para muitos dos seus professores, a submissão ideológica e a auto-suficiência financeira tornaram-se, pois, as realidades gémeas da mudança. Em muitos locais do planeta, o feito destas realidades são claramente visíveis numa multiplicidade de reformas e de inovações com as quais os professores têm agora de se confrontar. São estas reformas e inovações com constituem a substância da mudança, as mudanças reais às quais os professores têm de se dedicar” (páginas 5-6).

Referência da obra citada:
Hargreaves, A. (1998). Os professores em tempo de mudança: O trabalho e a cultura dos professores na idade pós-moderna. Lisboa: Mc Graw-Hill.

Imagem retirada de:
https://www.netdocs.com.pt/NetDocs/publicSite/images/publicCaixotePapeis.jpg

Na Fronteira da Ciência

De 12 de Dezembro de 2007 a 16 de Julho de 2008 decorrerá na Fundação Gulbenkian um ciclo de palestras subordinado ao tema «Na Fronteira da Ciência». O director de ciência da Gulbenkian, João Caraça, explica-nos de forma fabulosa o que se pretende com a iniciativa.

«A ciência dedica-se ao estudo dos fenómenos da natureza e das suas interacções. Sendo o universo infinito, o processo de o apreendermos, acompanhando o progresso da ciência, não pode parar nem retroceder. A fronteira pula e avança.

Mas a ciência é também um poderoso veículo da cultura das sociedades contemporâneas e do exercício da cidadania. Por este motivo, torna-se necessário que cada vez se faça mais investigação e em melhores condições. O conhecimento científico está na base do espírito crítico, da atitude participativa, da verificação sistemática das condições do funcionamento da realidade de todos os dias.

A democracia é o único regime político que permite questionar livremente a relação da ciência com a sociedade. Ciência e democracia estão, pois, indissoluvelmente ligadas. Importa assim que todos compreendam os desafios e as perspectivas novas que decorrem das actividades na fronteira da ciência. Essas percepções são um poderoso indicador das oportunidades bem como das dificuldades com que se depara a nossa sociedade.

A leitura que fazemos do presente com vista ao futuro é a utopia que se tornará realidade no intervalo de uma geração. Torna-se assim tão importante falar sobre a ciência como fazer investigação na sua fronteira. É este encontro entre a ciência e os cidadãos que é fundamental promover. Para que as suas implicações sejam claras para todos – e para que o gosto pela aventura e pela descoberta perdure como aspiração colectiva».

domingo, 25 de Novembro de 2007

Fé e justificação

Os meus posts sobre os argumentos tradicionais a favor e contra a existência de Deus provocaram vários comentários interessantes, e vale talvez a pena esclarecer alguns aspectos importantes.

Os posts não pretendiam, de modo algum, ser a última palavra sobre a discussão — mas apenas o início da discussão. Claro que para cada argumento apresentado nos posts há respostas, objecções e contra-argumentos. E depois há contra-argumentos a essas respostas... É isto a filosofia e a ciência: a procura incansável da verdade, apesar de nunca ser fácil encontrar a verdade. Uma coisa que me deixa sempre muito desconcertado, e com pouca fé na humanidade, é o facto de muitas pessoas desistirem deste processo por o acharem trabalhoso e aborrecido: tudo o que querem é receitas fáceis, respostas, resultados. Estão demasiado habituadas a aceitar por autoridade o que ouvem na televisão, o que aprenderem na escola, ou os resultados da história ou da física — quando se deparam com problemas em aberto declaram logo ingenuamente que não vale a pena tentar descobrir a verdade das coisas. Isto é infeliz, pois as respostas que hoje temos em história ou física ou filosofia ou seja o que for resultaram da tentativa de descobrir as coisas quando descobri-las não era fácil. O objectivo do post era ajudar os leitores a dar os primeiros passos no estudo de uma área que aparentemente é muito popular entre eles, dada a profusão de comentários que qualquer matéria religiosa sempre suscita.

Uma segunda questão, relacionada com esta, é a seguinte: alguns leitores manifestaram a ideia de que o estudo de tais argumentos é largamente irrelevante. O argumento usado a favor desta ideia, mais ou menos vagamente aludido, é algo do seguinte género: as pessoas não acreditam ou deixam de acreditar por causa de tais argumentos, por isso estes são irrelevantes — são "um mero exercício de retórica", como escreveu um leitor.

Há algo de verdadeiro neste tipo de reacção, mas também há algo de ilusório. O verdadeiro é que realmente as pessoas geralmente não acreditam ou deixam de acreditar por causa de tais argumentos — argumentos que a maior parte das pessoas não conhece sequer. Isto é verdade, mas é também irrelevante. A maior parte das pessoas também acredita que os objectos caem, mas não baseiam tal crença no nosso melhor conhecimento científico sobre a queda dos objectos: é apenas uma crença acrítica. O papel da ciência e da filosofia é estudar cuidadosamente estas crenças acríticas para ver se são verdadeiras ou falsas. É claro que as pessoas devem ser politicamente livres de acreditar no que quiserem, com ou sem justificação; mas outra coisa é saber se têm o direito cognitivo a tais crenças — e só têm tal direito se houver boas justificações para elas.

Justifica-se uma crença, seja ela qual for, fazendo três coisas. Primeiro, mostra-se que há boas razões para aceitar tal crença. Segundo, mostra-se que há boas razões para rejeitar os melhores argumentos contra essa crença. E por último, mostra-se que, no cômputo geral, os argumentos a favor da crença são mais fortes do que os argumentos contra a crença. Uma das ilusões muito comuns é pensar que basta apresentar um qualquer argumento a favor do que pensamos que é verdade para termos uma boa justificação cognitiva para isso; isto é ridículo, pois há sempre argumentos a favor de seja o que for, desde que sejamos imaginativos. Haver apenas argumentos a favor de algo não conta para coisa alguma; é preciso que tais argumentos sejam bons, e que sejam melhores do que os melhores argumentos contra isso.

Finalmente, a própria noção de fé levanta um problema interessante, que talvez capte o que alguns leitores sentiram. Imagine-se que amanhã aparecia uma prova largamente irrefutável da existência de Zeus: por exemplo, uma voz plena de beleza e sabedoria ouvia-se por todo o mundo, em cada país na sua língua, por exemplo, com mensagens plenas de sabedoria. Muitos filósofos, como Kierkegaard, diriam que nesse caso as pessoas não poderiam já ter fé em Zeus — precisamente porque passariam a ter boas justificações para crer na sua existência; tão boas, na verdade, que passariam a saber que Zeus existia, e não apenas a crer que Zeus existia. Por isso, Kierkegaard defendia que a verdadeira fé é sempre uma crença injustificada. Há algo de estranho na posição de Kierkegaard, que por isso não é aceite pela maior parte dos filósofos teístas da religião. Contudo, é realmente verdade que se tivermos boas justificações para ter fé, não podemos ter fé — temos apenas uma crença correctamente justificada, como a crença de que o nosso vizinho existe. Portanto, o dilema é este: ou há boas razões para ter fé, e nesse caso não é fé, é apenas crença justificada; ou não há boas razões para ter fé, e nesse caso é cognitivamente ilegítimo ter fé. Em qualquer dos casos, a fé parece pura e simplesmente indefensável.

Assim, é defensável a intuição de alguns leitores quanto à irrelevância dos argumentos a favor e contra a existência de Deus. Só que, correctamente articulada, esta intuição implica que a fé nunca é defensável. E por certo não é isso que muitos dos nossos leitores crentes querem defender. Mas esta é sem dúvida a intuição de muitos leitores ateus.

Muitos filósofos teístas defendem hoje em dia a posição de Tomás de Aquino, segundo a qual as pessoas entendidas não têm fé na existência de Deus, precisamente porque têm uma crença justificada na sua existência; quem tem fé na existência de Deus são as pessoas comuns, que não compreendem sequer os argumentos sofisticados a favor da existência de Deus. É um pouco como a crença de que a água é H2O: a maior parte das pessoas acredita nisso por mera autoridade dos cientistas, e seriam incapazes não só de determinar se isso é verdade, como até de compreender qualquer justificação que a Palmira ou outro cientista possa dar dessa verdade. Analogamente, Tomás de Aquino defendia que as pessoas comuns só por confiança na igreja poderiam ter fé na existência de Deus. Mas os filósofos teístas defendem que mesmo eles não podem saber certas coisas sobre Deus, que são inacessíveis à razão — e essas só podem saber por revelação ou iluminação. Contudo, popularmente pensa-se erradamente que se pode defender que todos os aspectos da crença em Deus podem ser deste género, por revelação. Ora, isto é falso porque só depois de termos boas razões para acreditar que Deus existe é que temos boas razões para acreditar na revelação. Por exemplo, só depois de termos boas razões a favor da existência de um deus criador é que temos boas razões para acreditar num determinado livro sagrado; o livro sagrado em si não é uma boa razão para acreditar que o que ele diz que existe existe mesmo, pois para aceitarmos que o livro é realmente sagrado temos de começar por aceitar que o deus que o livro sagrado diz que existe realmente existe.

A Origem das Espécies

Em 24 de Novembro de 1859, fez ontem 148 anos, foi publicado o livro de Charles Darwin que trata da «selecção natural como principal causa da origem, multiplicação e evolução das espécies».

O livro provocou uma verdadeira revolução na época, embora as ideias de Darwin não fossem originais, isto é, as questões que lhe suscitaram a escrita deste livro marcante já tinham sido levantadas por outros naturalistas, inclusive pelo seu avô, Erasmus Darwin, e especialmente por Pierre Louis Moreau de Maupertuis. O matemático e filósofo francês antecipou Darwin em um século propondo algo muito semelhante a selecção natural no «Venus Physique» de 1745 e no «System of Nature», publicado em 1751. No primeiro livro, Maupertius sugere que as formas de vida da Terra surgiram através de variações casuísticas associadas a sobrevivência e reprodução diferenciadas que permitiram uma acumulação de adaptações funcionais.

Mas Darwin foi o primeiro a responder satisfatoriamente às questões que a observação da Natureza levantava desde os primórdios da História, nomeadamente tinham sido abordadas por Anaximandro (610-546 a.C.), que especulou sobre o início e a origem da vida e nos fornece o primeiro registo histórico sobre a ideia da evolução dos seres vivos.

Aristóteles por seu lado interrogava-se no Physicae Auscultationes, vol. II, cap. 8, sobre «O que impediria que fossem meramente acidentais as relações entre as diversas partes do corpo? (...) O mesmo pode ser dito quanto às demais partes do corpo, que também são adaptadas a um determinado fim. Por conseguinte, todas as partes de um certo conjunto são constituídas para alguma finalidade específica e, enquanto servem para essa finalidade,são preservadas. Essa constituição adequada, na realidade, decorre tão somente de alguma espontaneidade interna. Uma vez que as que não forem assim constituídas desaparecem e ainda estão desaparecendo».

O fundador do Jardim, Epicuro, propôs mesmo uma teoria de evolução biológica e social do homem que o poeta romano que o cantou apresenta no poema que deu título ao blog. Para Epicuro, a criação do universo não teria sido obra dos deuses. Tudo o que existe - o céu, a Terra, as plantas, os animais, o homem - teria origem no movimento aleatório dos átomos. Seria esse mesmo movimento que produziria todos os fenómenos da Natureza, a vida inclusive.

Mas se os pensadores mais marcantes da Antiguidade Clássica se questionavam já sobre o que ficaria consagrado no termo «evolution», derivado do latim «evolutio» – que significa «desenrolar-se como um pergaminho» - e que começou a ser usado no século XVII para designar uma sequência ordenada de eventos, parece que persistem atavicamente resquícios do pensamento mágico que dominava antes da grande revolução do pensamento que foi a filosofia grega.

Quase 150 anos depois da publicação da «Origem das Espécies» e mais de 2500 anos depois de terem sido esboçados as primeiras concepções evolucionistas, persistem, naqueles que se recusam a olhar o mundo com olhos de ver e sim com os olhos da fé, as objecções de Matthew Hale (1609-1676) em relação ao atomismo considerado ateu de Epicuro. O lord Chief Justice (o juiz presidente) de Inglaterra - que acreditava em bruxas já que foi responsável pela sentença que resultou na execução de duas mulheres acusadas de feitiçaria -, verberava ser impossível que colisões «fortuitas e sem sentido de átomos mortos» tivessem dado origem ao homem pois não continham os princípios ou as «sementes primordiais» (semina) do mesmo.

As objecções de Hale em relação ao atomismo (a que se referiu como evolução) persistem até hoje, isto é, existem criacionistas que confundem evolução e atomismo e negam a existência de átomos, já que consideram que o atomismo «é incompatível com os princípios judaico-cristãos porque o atomismo apresenta a matéria independente de Deus, seja porque existe por toda a eternidade e nega a criação por um Desenhador Inteligente seja porque os seus movimentos e acontecimentos são independentes do controle por um Ser Soberano».

Por outro lado, aquele que a enciclopédia de filosofia de Stanford descreve como um virtuoso diletante, é responsável pela associação de evolução a ateísmo para além de ter alimentado em alguns a ideia errónea com que nos matraqueiam incessantemente de que a «evolução» fala de cosmologia, da origem do universo e da origem da vida.

Como refere Phil Plait no blog de ciência Bad Astronomy, dois dos (muitos) problemas da «ciência» da criação é não ser ciência, e, como todos os nossos leitores já se aperceberam no nosso espaço de debate, os seus defensores terem uma postura autista quando os múltiplos erros pseudo-científicos (na realidade anti-ciência) que promovem são apontados.

Uma vez que é impossível qualquer tipo de debate com criacionistas, o astrónomo sugere que, em vez da desmontagem das mentiras que são a base única da sua argumentação, o humor é a única resposta possível às inanidades debitadas. Nomeadamente com esta paródia do que passa por projectos de investigação submetidos ao oxímoro Instituto da Investigação da Criação - e que está completamente de acordo com a pseudo «investigação» que por lá fazem, ou seja, é difícil distinguir a sátira do produto que a originou. Vale a pena ler não só os resumos dos projectos como as apreciações do «painel» avaliador.

Referências:
Atomism, Atheism, and the Spontaneous Generation of Human Beings: The Debate over a Natural Origin of the First Humans in Seventeenth-Century Britain
Matthew R. Goodrum, Journal of the History of Ideas, 63, (2002), 207.

sábado, 24 de Novembro de 2007

Comissão Europeia considera banir milho GM

De acordo com um relatório preliminar a que o International Herald Tribune teve acesso, as agências ambientais europeias propuseram banir sementes de milho transgénico produzidas pela Pioneer Hi-Bred (DuPont), Dow e Syngenta. Segundo o IHT, a decisão final sobre o assunto é esperada para breve e as conclusões preliminares do relatório circulam já pelos corredores da Comissão Europeia. O IHT informa igualmente que manifestações de cepticismo em relação a esta proibição circulam igualmente pelos mesmos corredores, essencialmente devido a receios das reacções da indústria e de um exacerbamento das tensões com importantes parceiros comerciais como sejam os Estados Unidos.

O comissário europeu do ambiente, Stavros Dimas, refere no relatório que as espécies geneticamente modificadas em questão - que não são cultivadas na Europa - podem ser eficazes a matar algumas espécies benéficas, como sejam borboletas, como a borboleta-monarca, e outros insectos que entram na cadeia alimentar de predadores aquáticos. Segundo Dimas, a morte destes insectos pode ter consequências inesperadas e drásticas nestes ecossistemas.

Apenas uma semente de milho geneticamente modificado é cultivada na Europa, um variante de milho BT produzida pela Monsanto e nove outras companhias. O milho BT teve origem exactamente na mesma França cujo presidente, Nicolas Sarkozy, asseverou o mês passado pretender proibir o cultivo de GMs no país. De facto, desde 1938 que a bactéria B. thuringiensis passou a ser utilizada em larga escala para prevenir os estragos nas plantações francesas produzidos por várias pestes, incluindo a larva da broca europeia do milho, Ostrinia nubilalis. Durante quase 70 anos não se detectaram quaisquer efeitos adversos deste pesticida natural de forma que a bactéria é utilizada nas culturas ditas orgânicas.

Esta bactéria mata insectos através de duas classes de toxinas: citolisinas (Cyt) e delta-endotoxinas ou proteínas Cry (proteínas presentes em inclusões cristalinas produzidas durante a esporulação do Bacillus thuringiensis). Enquanto as proteínas Cyt são tóxicas para insectos das ordens Coleoptera (escaravelhos) e Diptera (moscas), as proteínas Cry afectam especialmente a ordem Lepidopterans (borboletas e traças).

As proteínas Cry são protoxinas que necessitam ser partidas por enzimas digestivas do próprio insecto, como a tripsina, para libertar um peptídeo que funciona como insecticida. A tripsina está presente em lepidópteros, dípteros e coleópteros. Uma vez partida a proteína, esses peptídeos, cuja estrutura depende da delta-endotoxina original, ligam-se a receptores específicos na membrana das células epiteliais (do intestino do insecto), o que resulta na ruptura dessas células e na morte do insecto. Diferentes estirpes de BT apresentam diferentes proteínas Cyt e Cry e a identificação dos genes que codificam estas proteínas permitiu escolher os alvos da sua acção insecticida e simultaneamente garantir que não são tóxicas para humanos.

A produção de milho BT assenta no biotecnólogo da Natureza, uma bactéria chamada Agrobacterium tumefaciens que induz o crescimento de tumores em muitas espécies de plantas dicotiledóneas. Estes tumores são devidos a uma transformação bacteriana única que envolve os plasmídeos Ti (Tumour Inducing) que coordena a inserção de parte do ADN deste plasmídeo (t-ADN contendo genes da sintase de opinas) no ADN cromossomal da planta. As opinas são nutrientes para as bactérias que as plantas não infectadas são incapazes de produzir, isto é, a A. tumefaciens manipula geneticamente a célula vegetal para os seus próprios interesses.

Substituindo parte da sequência de t-ADN da A. tumefaciens com os genes pretendidos (como os que codificam proteínas Cry) foi possível utilizar este mecanismo para produzir monocotiledóneas, como milho ou arroz, alteradas.

A resistência à introdução do milho BT, na realidade milhos BT que produzem diferentes proteínas Cry dirigidas a pestes específicas, cultivado em larga escala nos Estados Unidos e noutros países, tem-se verificado particularmente na Europa.

Jorgo Riss, director europeu da Greenpeace, com o apoio da Friends of the Earth e outros grupos, escreveu a Durão Barroso corroborando as recomendações de Stavros Dimas. Riss pede ainda que a decisão de banir estas sementes não seja adiada e afirma que «A grande maioria dos cidadãos europeus opõe-se a plantas geneticamente alteradas na agricultura e na alimentação».

Barbara Helfferich, porta-voz de Dimas, informou que as conclusões do comissário europeu podem ser avaliadas nas próximas semanas, mas quer ela quer um porta-voz de Durão Barroso afirmaram que ainda não foi estabelecida uma data para a tomada de decisão.

Referências:

1. Van Frankenhuyzen, K. in Bacillus thuringiensis, An environmental biopesticide: Theory and practice (John Wiley & Sons, 1993).

2. Whalon, M.E. & Wingerd, B.A. Bt: mode of action and use. Arch Insect Biochem Physiol 54, 200-211 (2003).

sexta-feira, 23 de Novembro de 2007

BERGSON, EINSTEIN, COIMBRA E O PROBLEMA DO TEMPO


A propósito do aniversário do livro principal de Bergson recupero um texto meu antigo que foi publicado num volume de actas de homenagem a Leonardo Coimbra. Assim fica acessível na Net. Não volto a colocar textos longos tão cedo, prometo.

No ano de 1922, na revista "Águia", Leonardo Coimbra publicava uma curta recensão de um livro, acabado de sair, da autoria de um filósofo que ele muito admirava, o francês Henri Bergson. A obra, intitulada "Durée et Simultaneité. À propos de la theorie d'Einstein", valia, tal como Coimbra reconheceu imediatamente, uma boa polémica, pois recusava a interpretação corrente da teoria da relatividade restrita, nomeadamente os aspectos relacionados com a descrição do tempo físico. A crítica de Bergson a Einstein estava e está, no essencial e do ponto de vista científico, errada, como sabem hoje todos os físicos. É notável que um filósofo, português no caso, se tenha logo apercebido, no essencial, do erro. Vejamos em súmula os argumentos esgrimidos.

Segundo o princípio da relatividade, na versão proposta por Einstein em 1905, todas as leis da física têm a mesma forma em todos os sistemas de inércia. São factos experimentais a existência de uma regulamentação no mundo físico, de referenciais - chamados de inércia - onde essa legislação é particularmente simples e da teoria da relatividade, que permite consistentemente passar de uns para os outros. Dado um sistema de inércia, é também de inércia qualquer outro com uma velocidade constante em relação ao primeiro.

Uma consequência do princípio da relatividade é que as leituras do tempo efectuadas por dois observadores, Henrique e Alberto digamos, em dois sistemas de inércia distintos são diferentes. O tempo decorre a ritmo diferente para Henrique e Alberto. Os relógios em movimento atrasam-se, isto é, o intervalo de tempo entre dois acontecimentos registados pelo observador em movimento, Alberto, suponhamos, é menor do que a correspondente quantidade lida por Henrique, que está parado. O tempo para Alberto corre mais lentamente. Trata-se do fenómeno da dilatação do tempo, suspeitado por Lorentz, colocado em bases sólidas por Einstein, confirmado nos anos 40 por experiências de detecção de muões da radiação cósmica e reconfirmado recentemente por meio de relógios de alta precisão a bordo de aviões a jacto. O efeito é pequeno mas observável e, portanto, real.

Bergson baseia-se na ideia da reciprocidade dos dois observadores para concluir que, se o tempo de Alberto está dilatado em relação a Henrique, o tempo de Henrique também deve estar dilatado em relação a Alberto. Para evitar a confusão, deveria existir um tempo igual para todos, o tempo das consciências, que está para além das aparências experimentais. Os dois observadores enganar-se-iam simplesmente quanto à duração do tempo do outro. O físico francês Paul Langevin propêos em 1913 um paradoxo, chamado "paradoxo dos gémeos" ou "dos relógios", aproveitado por Bergson para desenvolver uma discussão que sabemos hoje estar viciada. Suponhamos que Henrique e Alberto são irmãos gémeos. Se Alberto parte numa nave espacial com uma velocidade constante, muito próxima da velocidade da luz, em direcção a uma estrela distante, por exemplo Vega, inverte a marcha quando chega à estrela e regressa com a mesma velocidade da ida, vai no fim encontrar na Terra o seu irmão Henrique já morto, quer dizer, não o vai encontrar. Dois anos para Alberto correspondem a duzentos anos para Henrique. Até aqui o facto pode ser estranho mas ainda não é paradoxal. O paradoxo provém da aplicação do argumento da reciprocidade: o gémeo Henrique que ficou pode afirmar, pelo menos enquanto for vivo, que o irmão é que viaja, e o gémeo Alberto, por sua vez, pode retorquir que é ao contrário, porque ele está parado em relação à nave e vê a Terra afastar-se. Concluindo: cada um, em vida, pode reclamar que o outro é que está morto, sendo a situação perfeitamente caricata.

Leonardo Coimbra foi, além de filósofo, um divulgador de ciência prendado. Num texto de 1921 sobre "A ideia de tempo" substitui os irmãos por mãe e filha, escrevendo de forma pitoresca: "Seria a autêntica fonte da juventude, podendo a jovem mulher que partisse num sistema regressar ao fim de dois anos e encontrar na Terra, onde deixara um loiro bebé, bisnetos, que, desconhecendo-a, dela ainda se enamorassem." Coimbra devia estar a fazer uma adaptação em ficção científica da trama de "Os Maias"... De qualquer modo, o conhecido físico e divulgador George Gamow, a quem se reconhece um notável sentido de humor, não conseguiria ilustração melhor para expressar uma possível concretização da utopia da longevidade, que desde os tempos mais remotos tem perturbado alguns membros da espécie humana.

Vejamos como Coimbra reage às afirmações de Bergson sobre o tempo medido por dois observadores em movimento. Fornece duas razões para não acreditar em Bergson, a saber:

"1.o porque falando do tempo físico é ele que determina a consciência e não esta que o marca. De modo que Pedro e Paulo [os nomes de Alberto e Henrique no texto de Bergson] devem ser ambos a simples percepção dos registos dos contadores; 2.o porque Bergson se coloca no único caso dum sistema S e dum sistema S', que são em perfeita reciprocidade, desprezando as acelerações."

É, de facto, verdade. Quanto ao primeiro quesito, a questão entra no domínio da fronteira, quase sempre difusa e imprecisa, entre ciência e filosofia. O que é o tempo? Existe só um ou existe mais do que um tempo? Em que medida os tempos físico e psicológico diferem e, se diferem, qual é a respectiva relação? Parece que não há uma diferença fundamental de comportamento entre os relógios simples que são alguns sistemas naturais e esse relógio complexo que é o homem. O tempo físico que marca um sistema termodinâmico marca também o cérebro e a consciência. Se um sistema em movimento experimenta o fenómeno da dilatação do tempo, então também o ritmo dos processos biológicos, incluindo os que estão envolvidos no funcionamento da mente, se deve atrasar em conformidade. O tempo dos seres vivos será tão físico como outro qualquer porque a maquinaria de que a vida é tão física como outra qualquer.

Quanto ao segundo quesito, ele é apenas científico. O paradoxo dos gémeos fica mesmo eliminado quando se nota que não existe, no caso em apreço, a reciprocidade pretendida por Bergson. Os dois sistemas onde vivem Henrique e Alberto coincidem inicialmente. Para voltarem a coincidir, tem a nave espacial primeiro de acelerar, depois retroceder e, finalmente, travar à chegada. A Terra pode, em boa aproximação, ser considerada um sistema de inércia, mas a nave não o é de modo nenhum. As observações nos dois sistemas não têm de ser equivalentes. Não pode o viajante pretender que a Terra, o Sol, a estrela Alfa do Centauro, e todo o resto do Universo se moveram, enquanto ele esteve parado e quieto. Se só existisse a Terra e a nave, o argumento da reciprocidade valeria, mas o seu ponto fraco é que, quando se inverte a situação dinâmica, tem de se supor que, além da Terra, todo o Universo está a fugir da nave, o que é científica e filosoficamente desconfortável. Alberto experimenta de resto, no seu próprio corpo, as acelerações e as travagens. Henrique, que fica em Terra, envelhece mais rapidamente, acabando por morrer, enquanto o irmão gémeo lhe pode teoricamente sobreviver muitos anos (teoricamente porque viagens com a velocidade pretendida são impossíveis com a tecnologia actual). Não há, assim, paradoxo nenhum. Einstein e Coimbra têm razão e Bergson está errado ao pretender que a dilatação do tempo é inobservável.

Não é necessário, como por vezes se diz, invocar a teoria da relatividade geral, que trata de sistemas não inerciais, para esconjurar o paradoxo dos gémeos. A teoria da relatividade restrita pode tratar de todos os movimentos, mesmo acelerados, desde que observados a partir de sistemas inerciais, e o movimento do gémeo-astronauta, embora acelerado, pode ser analisado do interior do sistema inercial terrestre.

Vale a pena analisar com mais algum pormenor o desenrolar histórico da polémica entre Bergson e Einstein, para desembocar na decisão experimental recente, a qual, se o raciocínio não bastasse, serviu para mostrar que as asserções de Bergson sobre o tempo relativista devem ser tomadas como um "equívoco de um homem de génio" (a expressão é de Coimbra). Tal descrição servirá ainda para mostrar as relações de influência mútua, mas nem sempre directa e clara, entre ciência e filosofia.

As ideias relativistas de Einstein, nomeadamente o conceito de interligação do espaço e do tempo, provocaram ampla discussão tanto entre os físicos como entre os filósofos. Aliás, no início do século XX, a distinção entre uns e outros não era tão nítida como hoje, quando os espécimes de cada fauna se refugiam em nichos ecológicos bem específicos. Hoje a ciência é aquilo que um cientista faz, enquanto a filosofia é aquilo que um filósofo faz. No início do século, nem toda a gente era assim arrumada. Por exemplo, Poincaré e Russell tinham tanto de cientistas como de filósofos. Henri Poincaré quase chegou à relatividade antes de Einstein mas também dissertou sobre "O Valor da Ciência", e Bertrand Russell foi autor dos "Principia Mathematica" mas nunca achou estranho nenhum tema do conhecimento humano. Atente-se ainda, a meio do século, no caso paradigmático de Niels Bohr, cuja ciência e filosofia floresceram a par, com benefícios e malefícios mútuos.

As ideias de Einstein foram bem menos controversas entre os físicos, que rapidamente as aceitaram, do que entre os filósofos, em cujo seio se verificaram algumas reacções virulentas, como é ilustrado pela intervenção de Bergson. Em Portugal, por razões que os historiadores e sociólogos haverão de esclarecer melhor, quase não havia cientistas na época. (Um parêntesis para perguntar: tendo havido algum movimento literário e cultural no século XIX, por que razão ele não foi contemporêaneo de desenvolvimento científico?). A recepção inicial de Einstein foi efectuada entre nós quase exclusivamente por filósofos. David Gagean e Manuel Costa Leite já chamaram a atenção para esse facto, que tem algo de singular no panorama europeu. Por vezes, a dificuldade da compreensão da ciência reside na linguagem hieroglífica em que vem embrulhada, nomeadamente o quase sempre inevitável formalismo matemático. Mas a matemática da relatividade é tão simples que bastam conhecimentos de nível liceal para a manejar. Assim, o autor de "O Criacionismo" foi o primeiro em Portugal a escrever as equações da relatividade restrita, salvo erro em 1912. Haveria mais tarde de as repetir em várias ocasiões, enfatizando sempre a simplicidade e a elegância da matemática relativista e do pensamento que lhe está associado.

Bergson não pretendeu, honra lhe seja, mudar um símbolo sequer da matemática de Einstein. O que ele quis modificar, na boa tradição da filosofia, foi a interpretação. Aqui encontra-se uma diferença de âmbito entre a ciência experimental e a filosofia. A primeira trata de quantidades e relações entre quantidades, sendo tanto as quantidades como as respectivas relações passíveis de observação, e a segunda de ideias e relações entre ideias que se desenvolvem no intelecto. Note-se que também Einstein foi, à sua maneira, filósofo: também ele assumiu uma posição algo semelhante à de Bergson, quando não negou um sinal que fosse da matemática da mecânica quântica, mas recusou a interpretação operacional fornecida por Bohr e pela sua escola de Copenhaga, sobrepondo assim as obsessões do intelecto às simples constatações sobre o funcionamento do mundo. Até aqui, não há nada de errado nem em Bergson nem em Einstein. Contudo, Bergson, partindo de uma ideia sobre o mundo - a ideia metafísica de que o tempo existe ("dura") dentro de cada ser pensante - acabou por se colocar no lugar e papel do cientista exacto, ao não renunciar ao formalismo matemático e ao fazer nessa base previsões sobre o comportamento do mundo. Embrulhou-se, caindo implicitamente no tempo absoluto de Newton, um tempo único que corre de igual modo para todos os observadores, um tempo que nega a característica fundamental do tempo metafísico, que é o devir, a mudança, a irreversibilidade. Esqueceu à chegada o seu ponto de partida, o tempo psicológico, desigual conforme os observadores e até, em condições diferentes, desigual para o mesmo observador (por vezes o tempo voa, enquanto noutras ocasiões custa a passar). O esquecimento, a perda de informação, é, de resto, um dos sinais do tempo psicológico. Leonardo Coimbra não compreendeu o que se tinha passado na cabeça de Bergson e até afirmou, um pouco imaginativamente, que o tempo de cada observador da relatividade vinha em abono do tempo individual de Bergson. Conseguiu ser mais bergsoniano do que Bergson...

Convém referir que Einstein e os seus seguidores refutaram consistentemente as críticas de Bergson, impedindo qualquer regresso do tempo universal e absoluto. Um dos maiores defensores da teoria da relatividade foi o filósofo e matemático Bertrand Russell (tem até, traduzido em português, um livro intitulado "O ABC da Relatividade", que fez época). Russell chegou a atacar o intuicionista Bergson de modo galhofeiro quando disse que "a evolução culminou por um lado no intelecto, que encontrou o seu desenvolvimento completo nas matemáticas e, por outro lado, no instinto, que está particularmente desenvolvido nas abelhas, nas formigas e em Bergson" . Contam as más línguas que o dito se deveu à suspeição por Russell de que as ideias de Bergson estavam a atrair o seu colaborador dos "Principia", Alfred Whitehead.

Bergson interpelou Einstein criticamente quando, em 1921, o sábio alemão visitou Paris e proferiu conferências no Collège de France e na Sociedade Francesa de Física (a Academia dos Imortais não se dignou recebê-lo!). Um físico einsteiniano (hoje, claro, somos todos), d'Abro de seu nome, redigiu e publicou em 1927 uma resposta formal a Bergson. Mas, apesar disso, o Prémio Nobel da Física só foi atribuído tardiamente a Einstein, em 1921, 16 anos depois da relatividade, tendo a Comissão Nobel deixado claro que se tratava de recompensar a teorização do efeito fotoeléctrico, proposta também em 1905, e não a teoria da relatividade. Um cientista sueco, Arrhenius, julgou até conveniente referir em público, aquando da cerimónia de atribuição do prémio, em 1922, que a relatividade era matéria epistemológica, discutida nos círculos filosóficos, tendo destacado, para que constasse, o nome de Bergson. O prestígio filosófico teve, portanto, a sua influência na avaliação do mérito científico.

Einstein nunca tomou a discussão com Bergson como um caso pessoal. Chegou a integrar com ele um Comité de Intelectuais ligados à Sociedade das Nações, cujo programa almejava a construção da paz (a história haveria de mostrar que todos os esforços nesse sentido saíram baldados). Mas, sobre a compreensão que Bergson fazia da física, afirmou um dia simplesmente: "Gott verzeih Ihm!" ("Que Deus lhe perdoe!"). Como que a dar razão a Einstein, os modernos editores das obras completas de Bergson, nos anos 70, resolveram não incluir "Duração e Simultaneidade". As obras completas ficaram deste modo evidentemente incompletas...

O historiador de ciência e filósofo norte-americano Milic Capek tentou nos mesmos anos 70 reabilitar o pensamento de Bergson sobre a relatividade, naquilo que ele teria de reabilitável. Devotou por isso um capítulo do seu livro "Bergson and Modern Physics- A reinterpretation and reevaluation" a discutir o assunto, dizendo que Bergson, pesem embora as suas contradições, tinha muitas vezes razão e que d'Abro não o compreendeu bem. É a isso que se dedicam alguns historiadores de ciência obstinados: descobrir alguma claridade na obscuridade mais cerrada. Mas, com a preocupação de defender a sua dama, Capek esqueceu-se de que em física existem afirmações sem duas interpretações, nomeadamente as que prevêem categoricamente o resultado de uma experiência. As afirmações das ciências físicas, por definição, são falsas ou não conforme o juízo concludente da experiência. Segundo Popper (um realista admirador de Russell e Einstein, a cujo patronato científico muitos cientistas profissionais gostam de se acolher), as teorias podem ser dadas como falsas mas nunca como verdadeiras. A experiência dos relógios foi realizada na década de 70, quando um físico levou um relógio atómico a bordo dum avião a jacto numa viagem à volta do globo e depois o comparou com um relógio parado. Não se tratou de uma volta ao mundo em 80 dias, onde se ganhou tempo com os fusos, mas de uma volta ao mundo em algumas horas, onde se ganhou uma pequena fracção de segundo devido à relatividade. O fenómeno é real: o relógio em movimento atrasa mesmo. Reside aqui uma diferença de âmbito entre a ciência e a filosofia: as duas, embora companheiras, encontram delimitação no juízo da experiência aceite sem contestação pela primeira e não considerado muito limitativo das lucubrações da segunda. Ninguém espera, com efeito, que a experiência decida que um certo sistema filosófico deva ser eliminado, por falso, e substituído por outro. Ciência e filosofia estão ligadas, num casamento que nem sempre tem sido bem sucedido mas para o qual não existe possibilidade de divórcio.

O problema do tempo pode assim servir de pretexto para assinalar algumas fronteiras entre ciência e filosofia. No entanto, a forma como a discussão entre os bergsonianos e os einsteinianos foi conduzida esconde o essencial do problema do tempo. A questão fundamental envolve um paradoxo muito maior que o dos gémeos até porque não foi até agora resolvido com o agrado geral. Acontece que a mecânica relativista, assim como a mecânica newtoniana ou a quântica, não conseguem explicar a origem da irreversibilidade temporal que encontramos nos fenómenos naturais. As opiniões sobre o tempo dividem-se. De um lado podemos colocar Bergson com o seu "tempo-duração", ligado à intuição dos homens, e do outro Einstein com o seu "tempo - eternidade", ligado inextrincavelmente ao espaço e à matéria omnipresentes. O tempo de Bergson é, reconheçamos, bem mais temporal do que o de Einstein.

Para Bergson, o "tempo é invenção ou não é absolutamente nada" , querendo por invenção significar mudança, inovação, criação. Para Einstein, "o tempo é ilusão" , querendo significar que a distinção entre passado e futuro é espúria do ponto de vista da física dos processos fundamentais. Reside aqui o verdadeiro problema do tempo, problema que ainda hoje persiste e que é atacado, embora de prismas diferentes, tanto por físicos como filósofos. No quadro da relatividade, que é parte do nosso actual corpo de ciência, o tempo pode ser medido com resultados diversos por cada observador mas flui reversivelmente para todos. Quer dizer, não existe para ninguém diferença essencial entre o ontem e amanhã. Da vida quotidiana sabemos, porém, que existem um ontem e um amanhã e que estes são, costumam ser, radicalmente diferentes. Recordamo-nos do ontem mas não do amanhã (só o Padre António Vieira escreveu a "História do Futuro"). Esquecemo-nos do ontem mas não do amanhã. O que vem a ser afinal o tempo?

Da sua experiência pessoal concreta, sabe cada ser humano que o tempo é mais a diferença entre o ontem e o amanhã do que o pano de fundo da eternidade. Um tempo eterno é a ideia de S. Tomás de Aquino, mas já não de S. Agostinho para quem Deus não teria esperado um tempo infinito para a certa altura e de repente criar o mundo. Tê-lo-ia criado, de facto, mas antes do mundo haveria um Deus intemporal (a relatividade, com a ideia da indissociabilidade do espaço-tempo, teria vindo nos tempos modernos fornecer argumentos a favor de Santo Agostinho, se uma validação desse tipo e a essa distância fizesse algum sentido). Leonardo Coimbra conta uma história curiosa sobre a definição de tempo como aquilo que fica depois de se ter retirado tudo, matéria e espaço incluídos:

"Lembramos um velho professor de Mecânica que começava as suas lições universitárias por convidar o curso a imaginar um comboio deslizando na linha, dizendo depois solene: 'suprimam o comboio, a paisagem, a linha, o solo, etc., o que fica?' E o curso, perplexo, debalde tratava de pensar o que ficaria. Depois duma pausa misteriosa, era o professor que deste modo respondia: 'O Tempo!'."

A relatividade impede na prática o isolamento deste suposto tempo - cenário, remetendo-o para a história das ideias científicas.

Como se vê, a questão do tempo assume um papel central na discussão das fronteiras da física com a filosofia, mostrando como uma entra no território da outra. O astrónomo inglês Arthur Eddington fez notar: "Em qualquer tentativa para estabelecer uma ponte entre os domínios da experiência que pertencem aos lados espiritual e físico da nossa existência, o tempo ocupa a posição chave" .

Existem, como se disse, na história da filosofia e da ciência duas posições antagónicas sobre o tempo, que podemos associar às filosofias de Bergson e de Einstein, e que passamos a substanciar. A primeira procura legitimar o tempo irreversível, por a julgar a única macroscopicamente aceitável, e a segunda elimina a noção de tempo - mudança por a julgar ilusória. Bertrand Russell está definitivamente do lado de Einstein: "Num certo sentido - mais fácil de sentir do que de exprimir - o tempo é uma característica não importante e superficial da realidade. O passado e o futuro têm de ser reconhecidos como tão reais como o presente e uma certa emancipação da escravatura do tempo é essencial para o pensamento filosófico." Acrescentou Russell em 1921: "É um mero acidente que não tenhamos qualquer memória do futuro"(...) "Aperceber-se da irrelevância do tempo é o portão da sabedoria".

A formulação mais radical deste pensamento foi talvez aquela utilizada por Einstein, numa carta à família do seu grande amigo Michael Besso, com quem trocou ao longo de anos interessantíssima correspondência científico - filosófica: "Michael precedeu-me por pouco, ao deixar este mundo estranho. Isso não tem qualquer importância. Para nós físicos convictos, a distinção entre passado, presente e futuro não passa de uma ilusão, ainda que persistente". Em várias cartas a Besso encontra-se a insistência de Einstein na reversibilidade dos fenómenos fundamentais e a ênfase na natureza acidental da irreversibilidade dos fenómenos complexos protagonizados por uma multidão de partículas.

Mas Bergson, por outro lado, é categórico: "Do tempo - invenção a física não consegue dar conta". E explanou em "A Evolução Criadora": "O Universo dura. Quanto mais aprofundarmos a natureza do tempo, melhor compreendemos que duração significa invenção, criação de formas, elaboração contínua do absolutamente novo". Porque é que a física não consegue dar conta do tempo, como "elaboração contínua do absolutamente novo"? Acontece que o tempo irreversível não aparece nas equações da física microscópica mas apenas na termodinâmica, que por sua própria natureza é macroscópica e, portanto, supostamente redutível. Muita boa gente defende ainda hoje a tese de Einstein de que a irreversibilidade é particular e casual, pois se deve a condições no início muito especiais e assimétricas. Por exemplo, de um frasco de perfume que seja aberto num canto duma sala libertam-se triliões e triliões de moléculas que fazem, ao afastar-se, com que o cheiro seja sentido ao fundo da sala (antes não havia cheiro e depois passa a haver: a história conta o aparecimento do odor). As moléculas não voltam, pelo menos em massa, à boca do frasco de onde saíram. Mas Einstein insiste que a concentração inicial de moléculas no frasco é artificial e forçada. Uma vez atingido o estado de equilíbrio - o cheiro do perfume espalhado por toda a sala - deixa, mesmo num sistema complexo como esse, de haver história e, portanto, de haver tempo. O começo do equilíbrio é o fim da história. O filósofo neo-positivista Reichenbach, nos anos 50, chamou a atenção para o facto de o devir, a irreversibilidade, ter necessariamente de aparecer nas equações da física matemática e não apenas ser uma intuição fluida, um pensamento vago ou uma interpretação discutível:

"Não existe nenhuma outra maneira para resolver o problema do tempo sem ser por meio da física. Mais do que qualquer outra ciência, a física tem-se preocupado com a natureza do tempo. Se o tempo é objectivo, a física devia ter descoberto esse facto. Se existe devir, o físico tem de o saber; mas se o tempo é apenas subjectivo e o Ser é intemporal, o físico deve ter sido capaz de ignorar o tempo na sua construção da realidade e de descrever o mundo sem a sua ajuda... Constitui um empreendimento sem esperança procurar a natureza do tempo sem estudar a física. Se existe uma solução para o problema filosófico do tempo, ela está escrito nas equações da física matemática".

Como resolver essa tensão entre uma filosofia que quer o tempo e uma ciência que o recusa ou, se o procura, não o encontra? Como ultrapassar a fronteira que essa diferença constitui? Como encontrar a moderna fronteira entre a ciência e a filosofia?

As fronteiras entre a ciência e a filosofia conheceram desde Bergson e Einstein (portanto, desde o tempo de Leonardo Coimbra) constantes rearranjos. A ciência ocupa lugares que anteriormente eram apenas metafísicos, tais como a discussão sobre a origem do cosmos. A filosofia trata de questões que conheceram importantes ilustrações na física, como o tema da harmonia platónica emergente na teoria das forças e partículas fundamentais.

A imagem de uma fronteira extraordinariamente recortada, fractal, em que um dos territórios cerca o outro e é cercado pelo outro em numerosos sítios afigura-se perfeitamente adequada. Há ainda, apesar da especialização desenfreada, cientistas que são ao mesmo tempo filósofos, e que encontram numa certa filosofia o motivo para a prática da sua ciência ou o conforto para algum insucesso prático. Como Reichenbach, acham que ciência e filosofia são inseparáveis.

Para dar um bom exemplo, refira-se o químico belga Ilya Prigogine, que está convencido de se encontrar na boa pista para descobrir a origem da irreversibilidade na atureza e, por conseguinte, alcançar uma nova visão científica do tempo, eventualmente extensível a outros domínios do saber humano. Esse pensador, que bebeu na filosofia de Bergson, entende que as posições do filósofo francês não são irreconciliáveis com as dos fundadores da ciência moderna, Einstein, Bohr e outros nomes ilustres. São até, na sua própria expressão, "articuláveis". Considera que há uma ponte a erguer, que até já está semi-erguida, entre a necessidade filosófica do tempo-mudança e as expressões empíricas da ciência positiva onde a variável tempo aparece. Deparam-se-lhe, porém, ainda alguns problemas de construção. Se é certo que os sistemas não lineares, nos quais existe sensibilidade extrema às condições iniciais, podem fornecer situações típicas de historicidade em mecêanica clássica e na sua continuação que é a mecânica estatística, a mecânica quântica parece ser um domínio, nesse aspecto, dissemelhante. As flutuações podem ser fonte de história em sistemas extensos mas, ao nível dos átomos e das partículas, o mundo revela-se demasiado coerente.

O tempo existe. Mas o tempo, a existir, deve, segundo Prigogine, ser só um. Tem de estar impregnado no cosmos por todo o lado e da mesma maneira, tanto no muito pequeno como no muito grande. O pensador belga, ao procurar o conhecimento do tempo, percorre como um equilibrista exímio a fronteira entre a física e metafísica. Fá-lo, por exemplo, quando avança uma explicação não convencional para a origem do universo. Num livrinho traduzido em português intitulado "O Nascimento do Yempo" fala de universos anteriores que, por um processo de transição de fase, teriam dado a vez ao nosso. Propõe deste modo uma química do universo todo, com um universo a suceder-se a outro por uma reacção violenta, tão violenta que não fica memória dos universos anteriores. Estamos decerto, porque surgem quantidades inobserváveis, na presença de uma travessia da fronteira entre ciência e filosofia. Trata-se de juntar S. Agostinho e a ideia de criação com S. Tomás e a ideia de eternidade.

Prigogine não teme correr esse risco. Já em "A Nova Aliança" o tinha assumido deliberadamente, miscigenando a história das ciências e das técnicas com a história das ideias metafísicas e conjecturando que o estudo dos sistemas complexos permitirá novas formas de um diálogo, que sempre existiu mais ou menos manifesto, entre as ciências do homem e as ciências naturais, entre o espírito e a matéria.

Por tudo isso, penso que Leonardo Coimbra consideraria estimulante ler Prigogine. Esta afirmação trata-se, devido à óbvia irreversibilidade da vida, de pura ficção e, na impossibilidade de tal aniquilação do tempo, resta-me sugerir aos meus contemporâneos que, além da biblioteca de Coimbra, onde se devem encontrar ao lado um do outro e tranquilamente Bergson e Einstein, consultem a biblioteca moderna que está a ser construída com as obras de Prigogine, Eigen, Jantsch, etc., sobre os processos naturais de auto-organização. Uma pequena flutuação pode ser a origem de um novo estado global do sistema, um estado que até pode ser de constante criação a partir de energia disponível do exterior. Os sistemas abertos são fonte permanente de inovação. Pode observar-se neles a construção do futuro. O paralelo com os processos criativos desenvolvidos na mente humana impõe-se por si próprio.

A concluir a sua análise do livro de Bergson, escreveu Coimbra: "E veremos, no próximo número, em mais demorada crítica, que pela sua inserção na matéria o espírito é tocado daquele tempo [o tempo de Einstein], embora pela memória dele se liberte e atinja a nova dimensão, que chamamos a dimensão espiritual."

Deduzo que, em última análise, Coimbra, embora deslumbrado pela física do real palpável, buscou sempre, com a sua galopante curiosidade, algo mais, algo a que se poderá chamar espírito e que para diferentes pessoas assume contornos diferentes. Coimbra, segundo Santanna Dionísio, gostaria não tanto de transformar a psicologia numa física mas, ao contrário, de transformar a física numa psicologia. Escreveu em "Do Amor e da Morte": "A mecânica não é mais que uma psicologia simplificada". Explica Dionísio: "A realidade, nem genética nem funcionalmente deve tentar explicar-se em função do degradado, mas do elevado: em vez de se cadaverizar o vivo para se salvar a universalidade da ordem 'mecânica', deveria proceder-se em sentido diferente: tentar, acima de tudo, salvar a universalidade da ordem 'espiritual' das coisas; e, portanto, não tomar como tipo modelar o inerte mas o espontâneo, não o reversível mas o irreversível".

É um programa recheado de dificuldades, de incongruências e impossibilidades, mas, apesar disso, prosseguido de alguma maneira nos dias de hoje pelos cientistas que colocam a ênfase no espontâneo e no irreversível ou por filósofos que acham que o pensamento metafísico não deve menosprezar os dados da ciência. é o programa da construção de novas fronteiras entre os domínios de uns e outros,um programa decerto temerário mas, por isso mesmo, extraordinariamente humano. É que sempre os homens, mesmo os mais dotados, procuraram as tarefas para as quais lhes faltavam as forças. Chamo a este o "paradoxo dos génios".

Alfred North Whitehead sumariou lapidarmente a dificuldade principal que o problema do tempo coloca: "É impossível meditar no tempo e no mistério do processo criativo da natureza sem se ter uma emoção esmagadora sobre as limitações da inteligência humana."

BIBLIOGRAFIA:
- H. Bergson, "Durée et Simultaneité. À propos de la theéorie d'Einstein",Paris, 1922.
- M. Capek, "Bergson and Modern Physics- A reintrepretation and reevaluation", Boston Studies ion the Philosophy of Science, Reidel, 1971.
- L. Coimbra, "Dispersos II - Filosofia e Cultura", Verbo, Lisboa, 1987.
- S. Dionísio, "Leonardo Coimbra", 2.a edição, Lello e Irmão, Porto, 1983.
- A. Pais, "O Senhor é Subtil", Gradiva, Lisboa, 1992.
- I. Prigogine, "O Nascimento do Tempo", Edições 70, Lisboa, 1990.
- I. Prigogine e I. Stengers, "A Nova Aliança", Gradiva, Lisboa, s.d.
- W. Rindler, "Special Relativity", 2.a edição, Oliver and Boyd, Edimburgo, 1966
- B. Russell, "ABC da Relatividade", Europa - América, Mem Martins, 1989.