sábado, 26 de maio de 2007

Vale a pena ler

«Buckminster Fuller, An Anthology for a New Millennium» é, em minha opinião, um livro que vale mesmo a pena ler. Para um químico, o nome de Fuller evoca os fullerenos, a nova classe de compostos que a IUPAC consagrou com o nome proposto por Harry Kroto para o C60 - e foi galardoado com o Nobel pela sua descoberta da Bucky ball ou futeboleno. Tive o prazer de conhecer e conversar com o Harry em finais da década de oitenta, pouco depois da descoberta do C60. Harry confessou a sua admiração pelo génio do século XX, e não só pelo facto de a geometria da biosfera que Fuller desenhou para o Pavilhão norte-mericano da Exposição Mundial de 1967 (na Ile Sainte-Helene em Montreal) o ter inspirado na proposta da estrutura do C60.

As razões do Harry podem ser apreciadas nesta obra, editada por Thomas Zung, aluno de Buckminster Fuller. O livro consiste numa antologia que reúne capítulos seleccionados das vinte principais obras de Richard Buckminster Fuller, o inventor, matemático, ecologista, humanista e arquitecto considerado por muitos o Leonardo da Vinci do século XX. A introdução a cada capítulo é redigida por pensadores notáveis como Steve Forbes, Ed Applewhite, Arthur C. Clarke e o próprio Harry Kroto. Diria que depois de ler excertos de obras como «Utopia» ou «Oblivion» e «Epic Poem on the History of Industrialization» o leitor inundará as editoras nacionais de pedidos de tradução para português das obras deste visionário para muitos desconhecido. Recomendo igualmente o livro «Critical Path» que discute as questões energéticas que hoje enchem as agendas internacionais e no qual Fuller mostra a insustentabilidade de um padrão de vida dependente do petróleo.

Bucky Fuller é provavelmente mais conhecido pelas suas invenções arquitectónicas futuristas, como a cúpula geodésica, desenhada de acordo com uma «geometria energético-sinergética» que reflecte a sua visão única da ciência e tecnologia na construção de um futuro melhor. Foi aliás Fuller quem cunhou o termo sinergia - do grego synergía, sýn, em conjunto e érgon, trabalho - que permeou quer o léxico do quotidiano quer da ciência, da química à teoria de sistemas. Sinergia significa simplesmente que é necessário ter uma visão holística de muitos sistemas, em que há cooperação de vários factores que se reforçam fazendo com que o todo seja maior que a soma das partes.

Fuller cunhou ainda o termo «Tensegrity», tensegridade ou integridade tensional, que rapidamente extravasou para os domínios das estruturas biológicas. Nas palavras do próprio Fuller «Os grandes sistemas estruturais do Universo são formados por ilhas de compressão inseridas num todo contínuo de tensão. Tensegridade deriva de ' estruturação de integridades tênseis'. Todas as cúpulas geodésicas são estruturas de tensegridade, tanto fazendo que as ilhas diferenciadas de compressão, isoladas do todo tensional, sejam visíveis ou não. As esferas geodésicas de tensegridade fazem o que fazem porque têm as propriedades das estruturas hidráulicas ou pneumáticas insufladas.»

Fuller inventou diversos objectos e edifícios ecológicos, auto-sustentáveis e de baixo custo, e trabalhou conceitos como «mais por menos» - mais quantidade e qualidade por menor custo, esforço, tempo, e, principalmente menor impacto ambiental-, «dymaxion» (dinâmica + maximização), e design 4D ( o design de um edifício deve incluir a coordenada tempo, o edifício deve ser pensado para durar). Infelizmente a maioria dos projectos auto-sustentáveis de Fuller nunca chegou a ser produzida em larga escala. Talvez seja altura de recuperar algumas das ideias deste homem que foi apelidado «planet's friendly genius» (o génio amigo do planeta)!

4 comentários:

  1. O título mais emblemático de Buckminster Fuller, "Operating Manual for Spaceship Earth", está editado em Portugal pela Via Óptima:

    "Manual de Instruções para a Nave Espacial Terra"

    http://www.viaoptima.online.pt/pag.php?ref=DU5S1

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  2. Que bom, o Fuller aparecer aqui!Excelente exemplo de interacção entre várias áreas do conhecimento.

    Os urbanismos e arquitecturas de utopia, são férteis nestas associações.
    Infelizmente também são frequentemente mandados para os baús do conhecimento por conservadorismo próprio da espécie humana e por predominância de conceitos fast food de investimento presentes em muitas teorias da economia.

    Como princípio, é muito positivo todos nós revirarmos esses baús com assiduidade.

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  3. Por lapso não me idetifiquei no comentário anterior.
    Artur Figueiredo

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  4. Gostaria só de chamar a atenção para o facto de Buckminster Fuller não ter sido o primeiro criador da cúpula geodésica. O laboratório da Zeiss na Alemanha já tinha uma uns anos antes da exposição universal de 1967 e esse facto foi prontamente admitido pelo próprio Buckminster.

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