The rules of the game: the evaluation of Portuguese research units

sexta-feira, 31 de Agosto de 2007

"SOU PROFESSOR SEM VOCAÇÃO"

Vergílio António Ferreira, professor; Vergílio Ferreira, escritor. O ofício do primeiro em frequente litígio com o do segundo, ou o contrário. Nada a fazer, pois professor e escritor são neste, como em muitos outros casos, uma e mesma pessoa.

Uma brevíssima nota biográfica da pessoa, para que se perceba como, durante uma vida, conviveu com os dois ofícios. Foi em 1916 que nasceu e em 1996 faleceu. Entrou no seminário do Fundão com dez anos e saiu pelos dezasseis, terminou o curso liceal no Liceu da Guarda e passados quatro anos entrou no curso de Filologia Clássica da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Nesta mesma cidade, com vinte e quatro anos, iniciou-se na profissão de professor, no Liceu D. João III (actualmente Escola Secundária de José Falcão), onde fez o estágio, depois passou por Faro e Bragança, deteve-se em Évora (na fotografia) e, mesmo a finalizar a década de cinquenta, assentou em Lisboa, no liceu Luís de Camões.
O seu outro ofício, a escrita, acompanhou estes lugares e as circunstâncias que lhe proporcionaram, quem o diz é Eduardo Lourenço: se o aluno e, depois, o professor, não tivesse deambulado por onde deambulou, das mãos do escritor teria, certamente, saído outra poesia (como muito escritores, também Vergílio se iniciou neste género) e outra prosa.

Esta íntima ligação entre os dois ofícios faria, talvez, prever que o escritor, pelo facto de conviver com as palavras, gostasse “naturalmente” de as ensinar, desejasse contribuir para que outros rejubilassem como elas; que fosse um entusiasta do convívio com aqueles que se iniciam nos livros. Não é bem assim em Vergílio:

“– As aulas, como procurou você essa vida? Ensina por vocação?
– Não, se por vocação subentende prazer. Rumei para aqui, realmente, obedecendo apenas ao que julguei ‘conveniências’ (…). Ensinar implica, além de outros, o clássico suplício de Sísifo, na interminável repetição das matérias, o regresso ao início depois de terminado o curso. Mas esclareça-se: o escrúpulo e até a eficácia não dependem estritamente do prazer (…)
Mas, a priori, a profissão julgo-a um entrave à minha actividade literária. Não será ela igualmente um ‘derivativo’, uma pausa útil nessa actividade? De qualquer modo, o que julgo indubitável é que em nada tal profissão me favoreceu directamente (em temas, problemática) a minha realização literária (…) E no que se refere globalmente a uma formação humana de nós próprios, estou convencido que a profissão de professor retarda ou impede uma certa qualidade de ‘adulto’ pelo contacto quase exclusivo com jovens. De modo que, num balanço geral, é provável que o saldo seja negativo.
– Nas suas andanças como professor de liceu, o que guarda de melhor dessa experiência?
– Pouco de ‘melhor’, quase tudo de ‘pior’. Proponho-lhe este ‘jogo’. Você escolhe a sua música favorita e eu condeno-o a ouvi-la centenas de vezes seguidas…Com a diferença de que não é bem uma bela música a que eu tenho de ouvir ou de ouvir-me.”


Há nesta reflexão de Vergílio três aspectos que, na vertente da pedagogia, interessam salientar.

O primeiro, é que essa entidade mítica que é a “vocação”, entendida como um chamamento interior de ordem superior, como se de uma revelação divina se tratasse, tem gerado inúmeros equívocos: um deles é estabelecer-se uma relação directa e linear entre a qualidade do desempenho profissional e esse sentimento inicial de que se foi “escolhido” para a desempenhar. Na verdade, nem todas as pessoas que sentem ter vocação para ensinar são bons professores (este conceito de “bom professor” é bastante discutível, mas entendamo-lo como aquele que provoca mudanças positivas nos alunos) e o contrário também é verdade. Certamente que haverá professores que sentem ter vocação para o ensino e serão bons professores…

O segundo, é a frequente associação entre a noção de vocação e um certo tipo de arte que se conjectura que o ensino, como profissão, será. Num tom acentuadamente romântico faz-se, por vezes, crer que todo o trabalho do professor decorre de uma certa espontaneidade, e se exerce com leveza, sem dificuldades ou contrariedades, sempre com prazer e boa-vontade. E, contudo, não é bem assim: o ensino, tal como muitas profissões, tem as suas asprezas, implica responsabilidades várias, dilemas e dificuldades frequentes, momentos de insegurança e… esforço.

Nesta linha de pensamento, surge o terceiro aspecto: que o professor constrói tacitamente os seus saberes na prática, à medida que eles vão sendo requeridos. Alguns dos saberes dos professores serão assim construídos, mas, tal como se espera que os médicos aprendam medicina para exercerem medicina, também se espera que os professores aprendam a ensinar para ensinarem. Tendo em conta a frequente omissão da palavra “ensino” convém aqui salientar que a tarefa dos professores é mesmo isso: ensinar. E convém também salientar que se aprende a ensinar.

Bom: quarenta anos de ensino requerem alguma reconciliação com a memória ou, então, a vida parecerá completamente inútil... Talvez por isso, Vergílio ameniza a sua reflexão:

“Mas então tudo ‘mau’? Decerto que não. Para lá do tempo livre que a profissão me permite, há a discreta e íntima satisfação de assistir, de ano para ano, à evolução dos rapazes e pensar que eu tive nisso a minha quota-parte. Ou encontrar um dia um antigo aluno, que passou no turbilhão dos milhares de alunos que passaram, e ouvir-lhe dizer espontaneamente que eu disse coisas para a sua formação. É uma bela recompensa. A gente acaba por admitir que afinal não foi de todo inútil.”

Obras referidas:
Ferreira, Vergílio (1991). Um escritor apresenta-se (Apresentação e prefácio de Maria da Glória Padrão). Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda.
Lourenço, Eduardo (1994). O canto do signo. Lisboa: Editorial Presença.

O eclipse do átomo

Foi lançada em Trancoso há cerca de mês e meio a primeira pedra do Centro de Interpretação da Cultura Judaica Isaac Cardoso. O projecto de Gonçalo Byrne é dedicado ao médico e filósofo que mereceu de Marcelino Menéndez y Pelayo no capítulo II da sua famosa obra «Historia de los heterodoxos españoles»:

«Se excluirmos Bento Espinosa, não há no século XVII judeu de maior conhecimento nem homem de saber mais profundo e alargado que Isaac Cardoso. O seu nome figura lado a lado com os de Gómez Pereyra e Francisco Vallés entre os reformadores da filosofia natural em Espanha».

De facto, o racionalista, por nascimento português (Celorico da Beira, 1615), não agraciou muito tempo solo nacional com a sua presença. Depois de estudar em Salamanca, onde se doutorou em Filosofia e Medicina, ascendeu ao cargo de médico-mor da Corte de Madrid. Como Yosef Hayim Yerushalmi indica no livro «From Spanish Court to Italian Ghetto: Isaac Cardoso», marrano por imposição da coroa portuguesa, sentiu o apelo da religião dos seus antepassados e refugiou-se primeiro em Veneza, a República Sereníssima e livre, e depois em Verona onde professou abertamente o judaísmo.

No frontispício da sua obra mais conhecida, a filosofia tão livre quanto ele considerava a república de Veneza, a cujos governantes dedica o livro Philosophia Libera (1673), encontramos as alegorias da filosofia e da liberdade, sendo a primeira para Cardoso a racionalidade e a segunda condição necessária ao exercício da razão. Quando não há liberdade, para Cardoso, as ciências são servas de seitas (scientias è servitutis iugo liberandas viam operit, ut assensum non Secta, sed ratio promouet), que estrangulam a razão e impedem a inquirição da verdade.

Embora Cardoso seja prudente na condenação do jugo de servidão imposto pelas seitas ao conhecimento e à razão, que refere ter sido útil no passado, a sua obra tem um cariz não só abertamente anti-aristotélico como especialmente anti-escolástico. Os escolásticos, nas palavras do insuspeito José Sebastião da Silva Dias, «Continuaram a subordinar a filosofia à teologia, a razão à autoridade, a criação ao comentário, quando as ciências particulares lutavam pela sua independência e os homens cultos procuravam bases puramente racionais para a filosofia».

Isaac foi igualmente um dos primeiros atomistas explícitos e assumidos após o eclipse do átomo - e o único português desta época que conheço a fazer a apologia do atomismo -, nomeadamente no capítulo «Principiis Rerum Naturalium» onde Cardoso afirma que a existência de átomos é quasi imposta pela razão, Sunt Atomi rerum principia.

De facto, a Idade Média é uma época de eclipse do átomo, e para a continuação da história do atomismo foi fundamental a redescoberta da versão integral do poema de Lucrécio que deu nome a este blog, o que aconteceu, segundo alguns historiadores, em 1417 por Poggio Bracciolini. Alistair Crombie conta-nos no segundo volume do seu livro «Medieval and Early Modern Science» que:

«Certamente as ideias de Lucrécio não eram desconhecidas antes desta data: elas aparecem, por exemplo, nos escritos de Hrabanus Maurus, William de Conches, e Nicholas de Autrecourt. Todavia, o poema de Lucrécio parece ter sido conhecido apenas parcialmente, em citações nos livros dos gramáticos. Ele foi impresso mais tarde no final do século XV e depois disto reimpresso muitas vezes».

O referido Nicholas de Autrecourt protagonizou a primeira (e única durante uns séculos) tentativa de recuperação do atomismo. Como é reconhecido pela Stanford Encyclopedia of Philosophy, Autrecourt figura em praticamente todas as histórias da filosofia medieval pelo facto de ter sido censurado e condenado pela Igreja, evento considerado um dos mais relevantes em Paris no século XIV.

A filosofia natural de Autrecourt mantinha que a matéria, constituida por átomos, é eterna e não se corrompe e que as mudanças no mundo natural se devem ao movimento dos átomos. Embora Autrecourt assegurasse quem o lia ou ouvia de que falava apenas como um filósofo natural e que não pretendia contradizer a fé católica, tal não foi a leitura do papa e demais eclesiásticos que o julgaram e condenaram em 1346. Os ensinamentos de Autrecourt foram declarados falsos, perigosos, presunçosos e heréticos, a sua obra foi queimada e o filósofo foi obrigado a retractatação pública.

A condenação pela Igreja do atomismo como uma heresia materialista e anti-cristã explica este eclipse do átomo durante a Idade Média. George Depue, autor de «Lucretius and his Influence», refere no livro que o atomismo foi especialmente repudiado pela Igreja Católica por negar a doutrina da transubstanciação. Isto é, um filósofo cristão que advogasse o atomismo ( ou o nominalismo) estaria a atacar as próprias fundações da fé católica. A condenação do atomismo pela Igreja de Roma agudizou-se após a Reforma protestante já que os protestantes defendiam a consubstanciação e negavam a transubstanciação, isto é, «O pão e o Corpo de Cristo estão realmente, mas não substancialmente nem essencialmente presentes» na eucaristia.

Para reafirmar as doutrinas católicas tradicionais e fazer frente à reforma protestante que se tinha espalhado por todos os países da Europa Ocidental e da Europa Setentrional, com vários reformadores a reinterpretar o cristianismo para além de Lutero, como Ulrico Zuínglio, Guilherme Farel, Filipe Melanchton, João Calvino ou João Knox, foi convocado o Concílio de Trento em Dezembro de 1545. A última sessão do Concílio decorreu no dia 4 de Dezembro de 1563, dia em que foram lidas as decisões tridentinas, formalmente aprovadas pelo Papa Pio IV em 26 de Janeiro de 1564. As decisões tridentinas marcaram a ascendência de Tomás de Aquino, isto é, Aristóteles, no catolicismo e a doutrina católica foi definida não apenas do ponto de vista teológico, mas claramente no domínio científico.

Nomeadamente, ao reafirmar a doutrina da transubstanciação, a Igreja condenou o atomismo que afirmava serem os átomos ou mínima a substância de um objecto e as percepções sensíveis produto dessas partículas. Se durante a eucaristia as percepções sensíveis do pão e do vinho não se alteram após a consagração então não ocorre transubstanciação e esta consequência do atomismo aproximava-se perigosamente das teses de Lutero e dos protestantes. Isto é, «cor», «odor» e «sabor» eram palavras do domínio teológico, designavam antes de mais o milagre eucarístico, e qualquer tentativa de explicação natural destas propriedades constituía uma heresia a ser combatida.

Aliás, Descartes apercebeu-se dessa implicação do seu Traité de la Lumière (Tratado da Luz) e impediu a sua publicação, embora numa carta ao seu amigo padre Mersenne, datada de 25 de Novembro de 1630, tenha referido que, como em quase toda a sua obra, tentava conciliar religião católica e ciência: «querendo aí explicar as cores, em consequência fico obrigado a explicar como a brancura do pão permanece no Santo Sacramento».

Não é assim de espantar que no final do século XVI e início do século XVII a teoria atomista se tenha desenvolvido sobretudo no mundo protestante, nomeadamente em Inglaterra com os círculos de Northumberland e Newcastle, não obstante a tentativa de conciliação do atomismo com a doutrina católica protagonizada pelo padre Pierre Gassendi, contemporâneo de Descartes, Blaise Pascal e François de La Mothe Le Vayer.

A condenação católica do atomismo foi renovada durante o século XVII com muita insistência, especialmente pelos jesuítas, que proibiram pela primeira vez o ensino do atomismo, uma «moda» humanista, no dia 1 de Abril de 1623. Em Portugal, essa proibição mantinha-se em pleno século XVIII, como é ilustrado pelo decreto de 1746 do reitor do Colégio das Artes de Coimbra que proibia «quaisquer conclusões opostas ao sistema de Aristóteles» e, em particular, «opiniões novas, pouco recebidas e inúteis para o estudo das Ciências Maiores, como são as de Renato Descartes, Gassendi, Newton e outros».

quinta-feira, 30 de Agosto de 2007

MIGUEL BOMBARDA: MÉDICO, FILÓSOFO E POLÍTICO

O nome de Miguel Bombarda é conhecido de muita gente por ter ficado associado a um hospital (o mesmo aconteceu com outro médico contemporâneo de Bombarda, Júlio de Matos) e a várias ruas (uma ligada às artes no Porto). Mas não serão muitos os que conhecerão a vida e a obra do homem, no qusdro da sociedade portuguesa do século XIX e início do século XX.

Miguel Augusto Bombarda, nascido em 1851 no Rio de Janeiro (mas os pais eram portugueses e Miguel veio cedo para Portugal) e morto, em circunstâncias trágicas (já lá irei) nas vésperas da implantação da República foi um dos personagens mais singulares da medicina, da filosofia e da política portuguesa.

Frequentou o Curso de Medicina da Escola Médico Cirúrgica de Lisboa, tendo em 1877 defendido a tese “Do delírio das perseguições” (outro título dele semelhante a este foi "O Delírio do Ciúme", republicado pela Ulmeiro, em 2001). Do título da tese vê-se logo que a sua área foi a Psiquiatria. Ficou professor na escola onde estudou, tendo nela exercido uma influência fecunda. Trabalhou no Hospital de S. José e foi Director do Hospital de Rilhafoles. Introduziu várias inovações na teoria e na prática psiquiátricas. Defendeu a medicina social, isto é, o livre acesso dos cidadãos aos benefícios da ciência médica. E chegou a ganhar nome internacional, nomeadamente quando presidiu à organização, em 1906, de um Congresso Internacional de Medicina em Lisboa, que constituiu uma das maiores reuniões mundiais de médicos da época.

Mas a sua actividade esteve longe de se limitar à docência e à clínica. Bombarda foi um pensador, pode-se dizer mesmo um filósofo muito atento às correntes da sua época (marcada pela visão termodinâmica de Helmholtz, Clausius e outros, pela teoria da evolução de Darwin e pela filosofia positivista de Comte). Proselitou uma cosmovisão materialista. Sustentou o determinismo científico ao ponto de o estender à realidade social. Nessa perspectiva, o crime seria uma doença semelhança à infecção causada por uma bactéria.

E, como se isso não bastasse, empenhou-se na actividade política. Defendeu a República por oposição à monarquia. Mas, ao contrário do seu colega Júlio de Matos. Que foi desde muito cedo um republicano ultra-liberal, Bombarda aderiu tardiamente ao ideal republicano. Foi socialista e anti-clerical. A sua obra “A Ciência e o Jesuitismo”, de 1900, é um bom documento sobre o nosso “fin de siècle”. Bombarda opõe a sua visão científica do mundo à visão religiosa dos jesuítas, em particular a do “padre sábio” Manuel Fernandes Santana, com quem estava em polémica. Hoje em dia essa polémica, apesar de desactualizada, não deixa de ser interessante. No recente livro “Miguel Bombarda. Médico e Político” (Caleidoscópio, 2007), Paulo Araújo cita as seguintes frases radicais de Bombarda:

“Penso que não pode ser jesuíta quem o queira; há cérebros predispostos para esse mal, como os há feitos para o crime vulgar, como os há talhados para a loucura ordinária” (…) “O misticismo jesuítico [é] uma forma paranóica que, embora incurável, deveria ser isolada nos manicómios, pelo mal que faz à humanidade”.

Bombarda pertenceu, portanto, a um grupo de portugueses inconformados com a situação de atraso do país, que se revia nas Conferências do Casino de Antero de Quental e outros e que queria urgentemente renovar o país, culpando a Igreja pelo atraso. Para ele não havia apenas que curar o doente individual mas também o doente colectivo que era a nação.

O facto é que Portugal passou no século XIX, em escassas décadas, desde o seu início quando era o quinto país mais rico do mundo (a crer nos dados publicados pelo economista David Landes em “A Riqueza e a Pobreza das Nações”, Gradiva, 2001) para o fundo da tabela dos países europeus no final do século XIX. Esse declínio é talvez a maior marca dessa época. Para ele contribuiu decerto a insuficiente educação: não conseguimos acompanhar o processo de escolarização explosivo que então se deu na Europa. A baixa escolaridade impediu-nos de ter cientistas e pensadores em número e valor suficientes. Mesmo na Medicina, se tivemos Miguel Bombarda e Júlio de Matos (para só referir a Psiquiatria), faltou-nos alguém com a projecção do espanhol Ramon y Cajal, descobridor dos neurónios e um dos primeiros prémios Nobel da Medicina. Segundo Landes, que apresenta Portugal como um exemplo de um país rico que ficou pobre, o número de analfabetos em 1900 em Portugal era uma autêntica vergonha quando comparado com o padrão europeu. Como poderia ser desenvolvido um país que não sabia ler? Bombarda defendeu: "Eduquemos (...) os cérebros. Não os deixemos cair nas trevas e na barbárie. Eduquemo-los na independência, na liberdade, na consciência da dignidade do ser humano."

Mas tinha prometido contar a história da morte de Bombarda, ocorrida dois dias antes da revolução do 5 de Outubro. O médico foi morto a tiro por um doente mental, um tenente que ficou depois internado numa instituição psiquiátrica. A revista “Ilustração Portuguesa” legendava uma ilustração do clínico prostrado num leito hospitalar com a legenda:

“O Sr. Dr. Miguel Bombarda, no Hospital de S. José, antes da operação para a extracção das quatro balas com que o feriu o seu antigo cliente o tenente Aparício Rebello e que causaram a morte do ilustre democrata”.

Para a história ficaram as últimas palavras de Miguel Bombarda, que mostram, mesmo próximo da morte, não só informação como compaixão:

- “Não lhe façam mal. Ele é um doente!”

Wordpress bloqueado na Turquia


David Berlinski, um «senior fellow» do templo do neo-criacionismo ou desenho (pouco) inteligente, alucina sobre a implausibilidade da evolução de ... vacas em baleias ... o que segundo a luminária criacionista, confirma que a evolução não passa de uma anedota! Esta incrível anedota coisa foi disponibilizada na página do Discovery Institute por Robert Crowther, que certamente considera este um argumento irrefutável para a necessidade de um «designer». Um excelente vídeo sobre a evolução das baleias pode ser encontrado aqui.

A Scientific American informa-nos que o senhor Harun Yahya ou Adnan Oktar, autor do tijolo criacionista que tem sido enviado em massa para escolas na Europa e Estados Unidos, conseguiu que o governo turco interditasse o domínio wordpress.com. Numa manobra que demonstra a completa incoerência dos criacionistas de todos os flavours, que carpem serem «censurados» pela ciência e se apresentam como vítimas da «ortodoxia» científica, o senhor Yahya conseguiu bloquear na Turquia os cerca de 1 milhão de blogs alojados no wordpress, que segundo Matt Mullenweg, mereciam mais de 12 milhões de visitas por mês da Turquia.

Por outras palavras, o dito senhor, que afirma no seu tijolo que se devem aos «darwinistas» todos os males do mundo, não gostou que alguns blogs deste domínio desmontassem o amontoado de inanidades que constituem o «Atlas da Criação», e usou o seu poder político e económico para censurar todo um domínio.

Aparentemente o senhor Yahya considera não ser ofensivo - só para dar alguns exemplos - colocar nos seus museus do disparate da criação retratos de Darwin emoldurados em sangue, plagiar descaradamente os satânicos evolucionistas (as únicas «originalidades» nas imagens apelativas do tijolo foram inscritas a vermelho) aos mesmo tempo que os denuncia como terroristas, fascistas e comunistas, aliados de Satã que urdiram «a conspiração ateia que estabeleceu a evolução». Mas alguns bloggers chamarem os bois pelos nomes e avaliarem o tijolo criacionista pelo que é - um monte de disparates anti-científicos - constitui uma ofensa tal que só pode ter como resposta a que decidiu o novo governo islâmico: a interdição total do wordpress na Turquia!

MAIS HUMOR NA CIÊNCIA - O PAI NATAL NÃO EXISTE


Na sequência do texto sobre o Inferno, outro, também de autor desconhecido e também a circular há algum tempo, sobre o Pai Natal. Pode haver gente que não conheça:

Na Terra, há cerca de dois mil milhões de crianças (por criança, entende-se todo o indivíduo com menos de 18 anos). Contudo, como o Pai Natal não vai visitar as crianças muçulmanas, hindus, judias ou budistas (salvo eventualmente no Japão), o volume de trabalho para a noite de Natal fica eventualmente reduzido a 15% do total, ou seja, a 378 milhões. Contando uma média de 3,5 crianças por casa, temos 108 milhões de casas. O Pai Natal dispõe de cerca de 31 horas de trabalho na noite de Natal, devido à existência de diferentes fusos horários e à rotação da Terra, admitindo a hipótese de que viaja de Leste para Oeste, o que, de resto, parece lógico.

Tal equivale a 967,7 visitas por segundo, o que significa que para cada lar cristão com uma criança bem comportada pelo menos, o Pai Natal dispõe de cerca de um milésimo de segundo para estacionar o trenó, sair, descer pela chaminé, encher as meias com as prendas, distribuir o resto dos presentes junto ao pinheiro, provar as guloseimas que lhe deixam, voltar a subir a chaminé, saltar para o trenó e dirigir-se para a casa seguinte.

Supondo que essas 108 milhões de paragens se distribuem uniformemente à superfície da Terra (hipótese que sabemos falsa, mas que aceitamos como primeira aproximação), teremos que contar com cerca de 1,4 km por trajecto, o que significa uma viagem total de mais de 150 milhões de quilómetros, sem contar com os desvios para reabastecimento ou fazer chichi.

O trenó do Pai Natal desloca-se pois à velocidade de 1170 km/s (3000 vezes a velocidade do som). A título de comparação, o veículo mais rápido fabricado pelo homem, a sonda Ulisses, não vai além dos 49 km/s e uma rena média consegue correr quando muito a 27 km/h. A carga útil do trenó constitui igualmente um elemento interessante. Supondo que cada criança apenas recebe o equivalente a uma caixa de Legos média (cerca de um quilo), o trenó suporta mais de 500 mil toneladas, sem contar com o peso do Pai Natal. Em terra, uma rena convencional não consegue puxar mais de 150 kg. Mesmo supondo que a famosa "rena voadora" tem um desempenho dez vezes superior, o Pai Natal não consegue cumprir a sua missão com 8 ou 9 animais; precisará de 360 000, o que vem aumentar a carga útil em mais 54 000 toneladas, abstraindo já do peso do trenó, o que corresponde a sete vezes o peso do Príncipe Alberto (o barco, não o monarca). 600 000 toneladas a viajar a 1170 km/s produzem uma enorme resistência do ar, a qual provoca um aquecimento das renas, tal como um engenho espacial ao entrar na atmosfera terrestre. As duas renas da frente absorveriam cada uma a energia de 14 300 milhões de joules por segundo. Em resumo, entrariam quase instantaneamente em combustão, pondo perigosamente em risco as duas renas seguintes. O rebanho de renas vaporizar-se-ia completamente em 4,26 milésimos de segundo, isto é, o tempo exactamente necessário ao Pai Natal para chegar à quinta casa.

Tal, porém, não é o pior. O Pai Natal, passando fulgurantemente da velocidade instantânea nula a 1170 km/s num milésimo de segundo, ficaria sujeito a uma aceleração tremenda. Um Pai Natal de 125 quilogramas (que seria ridiculamente magro) ver-se-ia esmagado contra o fundo do trenó por uma força de 2157 507,5 quilogramas-força, o que lhe reduziria instantaneamente os ossos e os órgãos a uma pequena massa pastosa.

Isto é: se o Pai Natal existiu, já morreu!

quarta-feira, 29 de Agosto de 2007

GÉNIOS DA FÍSICA


Ficou famosa a resposta de Oscar Wilde quando, na Alfândega de Nova Iorque, lhe perguntaram se tinha alguma coisa a declarar: "Nada a não ser o meu génio". O mesmo Oscar Wilde declarou a André Gide: "Sabe qual é o maior drama da minha vida? É que pus todo o meu génio na minha vida, na minha obra só pus o meu talento".

Tal como a literatura a ciência tem os seus génios. É sempre difícil dizer quais são os génios de uma dada época. Nem todos declararão à alfândega a sua genialidade. Uns porão a genialidade na sua vida e outros não. Mas, quando a época passa, torna-se mais fácil reconhecer um génio. Todos os génios costumam transformar-se em lendas. Deste ponto de vista, o século XX, que já passou, foi um verdadeiro alfobre de génios da física. Um "século de oiro"!

À frente de todos eles há que colocar sem sombra de dúvida Einstein, escolhido pela "Time" na passagem do milénio para "pessoa do século". Há um largo consenso em torno do seu primeiro lugar. Uma sondagem publicada pelo Instituto de Física britânico, também na passagem do milénio, colocou Einstein não só à cabeça dos físicos do século XX mas também de todos os tempos. Nesse "top ten" dos maiores físicos de sempre aparecem sete do século passado (os três intrusos foram Newton, Maxwell e Galileu, por ordem de selecção)...

O segundo lugar dos génios da física do século XX já é mais disputado mas há uma forte tendência para ele ser dado a Niels Bohr, o criador da teoria quântica antiga e o grande adversário intelectual de Einstein (de resto, ele ganhou a Einstein a polémica a respeito da teoria quântica, uma disputa com implicações filosóficas). Ganhou, de facto, o segundo lugar no inquérito britânico.

Einstein e Bohr têm um biógrafo comum, o físico norte-americano de origem holandesa Abraham Pais, que conheceu Einstein em Princeton e Bohr em Copenhaga. Pais é o autor de "Subtil é o Senhor. Vida e Pensamento de Albert Einstein" (Gradiva, 1993) e de "Niels Bohr's Times" (Oxford University Press, 1991, sem tradução em português). É curioso notar que Pais partilha com os dois génios a ascendência judaica (a genealogia de Pais remonta a judeus portugueses) . Porque é que há tantos génios judeus? Já foi muito debatida essa questão, mas talvez se possa encontrar a resposta no sistema de educação das famílias judaicas.

Ainda de Abraham Pais, a Gradiva publicou em 2002 o livro "Os Génios da Ciência", subintitulado "Uma galeria de retratos de físicos do século XX". Inclui, claro, Einstein e Bohr, sendo um excelente resumo das anteriores biografias dos dois. Mas vêm lá descrições de outros génios, como, por exemplo, Paul Dirac, o físico inglês que "casou" a teoria quântica com a teoria da relatividade (de certo modo uniu Bohr e Einstein), John von Neumann, o matemático norte-americano de origem judaica, nascido na Hungria, que escreveu uma obra essencial sobre a teoria quântica, e Eugene Wigner, o físico norte-americano de origem também judaica e também nascido na Hungria que aplicou a teoria quântica aos átomos e aos núcleos.

Os três físicos anteriores partilharam com Einstein o exílio americano durante a Segunda Guerra Mundial (e todos eles, excepto Dirac, viveram em Princeton, que foi assim a "capital dos génios"). Pais fala de uma "geração de ouro", que teve o azar de ter vivido a maior guerra de sempre. Pois em todos estes casos há génio nas suas vidas além do génio que há nas suas obras...

Pais faz notar que na visita de Einstein ao Japão, quando o físico foi recebido pelo Imperador, o centro de todas as atenções foi ele e não o Imperador. Einstein tinha experiência de lidar com reis pois correspondeu-se durante muito tempo com a rainha da Bélgica. Bohr, para não ficar atrás, também tem histórias com monarcas: quando se tornou professor em Copenhaga foi recebido, conforme a tradição, pelo rei da Dinamarca. Mas este associou o nome de Niels Bohr ao seu irmão Harald, que era um famoso jogador de futebol. A palavra é de Pais no resto desta deliciosa história:

"Após a apresentação, o rei disse que tinha muito prazer em conhecer o famoso futebolista Bohr, ao que Bohr respondeu algo como 'Tenho pena, mas Vossa Majestade deve estar a pensar no meu irmão'. O rei ficou surpreso pois, de acordo com as regras do jogo, não se deve contradizer o monarca durante uma cerimónia pública. Então o Rei Cristiano recomeçou tudo de novo, dizendo como estava satisfeito, etc. Bohr ficou muito desconfortável e replicou que, de facto, ele era futebolista, mas que tinha um irmão que era o famoso futebolista. Depois do que o Rei disse 'a audiência está terminada' e Bohr saiu, recuando, como o protocolo recomenda".

Também Dirac, von Neumann e Wigner têm histórias engraçadíssimas. Dirac perguntou um dia ao seu colega norte-americano Robert Oppenheimer, o chefe civil do projecto Manhattan da bomba atómica, que passava o tempo a ler Dante: "Como pode fazer física e poesia? Em física tentamos explicar em termos simples algo que ninguém sabia antes. Em poesia é exactamente ao contrário". Em rsposta Oppenheimer tentou oferecer-lhe livros de ficção, mas Dirac recusou amavelmente: "Ler livros interfere com o meu pensamento". Quanto a von Neumann, um personagem gordo e bonacheirão que também esteve no projecto Manhattan (Los Alamos foi um esconderijo de génios!), "era capaz de conduzir 200 km para jantar num restaurante mexicano favorito... Era capaz de contar tudo menos calorias". E Wigner tem uma curiosa relação pessoal com Dirac, um cientista solitário que parecia condenado a ficar solteiro: mas, em 1934 (no ano anterior, quando recebeu o Nobel, um jornal inglês chamou-lhe "o génio que receia todas as mulheres"), visitou Princeton e conheceu a irmã de Wigner. Acabou por se casar com ela, pelo que Wigner passou a chamar a Dirac "o meu famoso cunhado".

Todos este génios são hoje lendas da ciência. São mesmo génios!

Passatempo com prémio


Como já sucedeu em Agosto, este passatempo sobre invenções antigas decorre simultaneamente nos blogues DE RERUM NATURA e SORUMBÁTICO, e durará até às 24h do próximo dia 31 de Agosto.

Trata-se de ver qual é o primeiro leitor capaz de identificar a invenção que a gravura documenta - uma geringonça de finais do século XIX que aqui se vê "arrumada para transporte".

As respostas deverão ser dadas em "Comentário" (podendo sê-lo em qualquer dos dois blogues), mas só serão consideradas válidas as que forem afixadas depois das 12h 00m (inclusive) do dia 30 de Agosto. A hora considerada será a que aparecer indicada no "Comentário".

O prémio será um par de livros (de ficção científica e policiais) a escolher pelo vencedor de uma lista que lhe será depois enviada. Finalmente, a solução será divulgada recorrendo a uma outra gravura, onde se poderá ver a gloriosa maquineta em funcionamento.

Filosofia da química e atomismo


Apontamentos de Jöns Jakob Berzelius, o «pai» do atomismo químico, ou, como refere Alan Rocke*, «Se John Dalton foi o pai da teoria atómica, então Jacob Berzelius foi a parteira e o pai adoptivo, cumprindo talvez o papel mais importante no desenvolvimento do atomismo tanto químico como físico durante as segunda, terceira e quarta décadas do século XIX.»

«Todas as tentativas de aplicar métodos matemáticos no estudo de questões químicas é profundamente irracional e contrário ao espírito da química ... se a análise matemática alguma vez tiver um lugar proeminente em química - uma aberração que é felizmente quase impossível - daria lugar a uma rápida e generalizada degeneração desta ciência» Auguste Comte, Cours de Philosophie Positive, 1830.

Esta frase, que poderia constar da antologia de grandes erros do Carlos, ajudou-me a perceber, ainda enquanto aluna, a aparente contradição de em todas as minhas aulas de química, de química analítica a química orgânica passando por bioquímica, a constituição atómica da matéria ser apresentada como um dado adquirido para os químicos do século XIX, enquanto nas aulas de física me era reiterado peremptoriamente que a atomicidade e existência de moléculas só tinham sido estabelecidas sem sombra de dúvidas por Einstein no seu Annus Mirabilis.

Não parece existirem quaisquer dúvidas da existência de átomos na química desde pelo menos o início do século XIX, com o trabalho de Jakob Berzelius (que propôs igualmente o primeiro modelo de ligação química), e de moléculas desde que Amedeo Avogadro resolveu em 1811 os problemas apontados por Joseph Louis Gay-Lussac 6 anos antes, distinguindo átomos de agregados de átomos a que chamou moléculas. A hipótese de Avogadro estava de acordo com as observações de Gay-Lussac e implicava que as massas relativas das moléculas podiam ser determinadas sem ser necessário observar um átomo ou molécula individual. Em Setembro de 1860, Stanislao Cannizzaro distribuiu aos participantes no International Congress of Chemists em Karlsruhe o artigo famoso em que descrevia o seu novo sistema de determinação de pesos atómicos. Entre os presentes contava-se Dmitri Ivanovitch Mendeleev, um dos pais da tabela periódica, publicada no livro «Princípios da Química» em 1869 e igualmente desenvolvida, de forma independente, por Julius Lothar Meyer.

Dois anos antes da publicação dos «Princípios», August Kekulé, um químico orgânico proeminente que propôs a estrutura cíclica do benzeno em 1865, tinha escrito:

«Eu espero que consigamos um dia descobrir a explicação matemático-mecânica para aquilo a que chamamos agora átomos e que explique as suas propriedades».

Isto é, umas largas décadas antes de Einstein publicar o artigo «Acerca do movimento de pequenas partículas em suspensão num líquido como requerido pela teoria cinética-molecular do calor» e a sua tese de doutoramento «Uma nova determinação das dimensões moleculares», que vemos frequentemente descritos como os artigos fundamentais para o estabelecimento da Teoria Atómica e Molecular, os químicos não só não tinham dúvidas sobre a existência de átomos e moléculas como descreviam as estruturas tridimensionais destas últimas e aventavam os primeiros modelos de ligação química (isto é, entre átomos). De facto, ainda no século XIX, em 1874, o primeiro Nobel da Química, Jacobus Hendricus Van’t Hoff, resolveu o problema de Pasteur com a actividade óptica de sais de ácido tartárico (ácido 2,3-di-hidroxi-succínico), um constituinte das uvas. Achille Jacques Le Bel e Van’t Hoff, independentemente, explicaram porque dois isómeros ópticos rodavam o plano de polarização da luz em sentidos opostos propondo assimetria na estrutura molecular destas substâncias, nomeadamente propondo a existência de carbonos assimétricos, isto é, carbonos ligados a quatro grupos diferentes.

Sempre me intrigou esta ignorância do papel fundamental do atomismo na química, praticamente desde o seu nascimento como ciência, mas a observação de Comte e o parto tardio da química ajudam a explicar que se considere que a Teoria Atómica e Molecular só foi reconhecida (pela física) com os artigos de Einstein.

Embora a maioria dos historiadores de química tracem o seu nascimento à publicação em 1661 do The Sceptical Chemist, («O Químico Céptico»), de Robert Boyle, seguida cinco anos mais tarde por «A Origem das Formas e Qualidades», a realidade é que o estabelecimento da química como ciência foi um processo demorado e com recaídas. Muitos cientistas respeitados - como Johann Becher, Georg Ernst Stahl (o introdutor do flogisto que Lavoisier demonstrou inexistente) ou mesmo Isaac Newton - fizeram incursões mais ou menos abertas pela alquimia em pleno século XVIII. Como referi no post «O Fim da alquimia», as grandes «guerras» da química neste século tinham a ver com a demarcação da alquimia, considerada uma charlatanice pura e dura que impedia o progresso da verdadeira ciência, a química.

Isto é, a química estabeleceu-se depois de as «guerras» do atomismo terem sido travadas e os principais obstáculos – teológicos, experimentais e teóricos – terem sido ultrapassados pela física e pela filosofia. No início do século XVII, o atomismo era uma filosofia proscrita, uma explicação ateísta que ameaçava a visão escolástica do mundo e como tal era devidamente condenada (em França, por exemplo, o atomismo foi proibido em 1624 e a sua defesa era merecedora da pena de morte). No século XVIII a constituição atómica da matéria era já uma hipótese «conservadora» e a ciência, a filosofia e a religião começavam a dissociação que muitos hoje em dia contestam, pelo menos na parte que à religião diz respeito. Assim os químicos aderiram imediata e entusiasticamente à obra de Dalton publicada em 1808, «A New System of Chemical Philosophy».

Por outro lado, até ao século XX a química era encarada como a ciência quasi estritamente experimental que apenas se ocupava da natureza da matéria e, especialmente, das suas transformações. Isto é, ninguém imaginava origens filosóficas para o atomismo químico mas abundavam objecções filosóficas em relação ao atomismo físico. Nem alguém se referiria a um químico, como o fez Einstein em relação a Ernst Mach, um anti-atomista, como um bom cientista mas um filósofo deplorável. Provavelmente porque não há muitas lucubrações filosóficas a extrair de uma síntese química ou de uma purificação - excepto talvez para um Primo Levi - enquanto muitos grandes nomes da física e matemática se destacaram igualmente pelas suas reflexões filosóficas, é muito raro encontrar um químico-filósofo, pecha que continua (Ilya Prigogine ou Michael Polanyi são excepções) e se manifesta ainda na raridade de filósofos da química.

De facto, se olharmos para as publicações de filosofia das ciências descobrimos que se a física tem a parte de leão e a biologia, ciências cognitivas e afins começaram a merecer muita atenção nos últimos tempos, é preciso um esforço considerável para descobrir algo sobre filosofia da química. Isto é, dir-se-ia que a combinação química e filosofia é essencialmente não-ligante (ou mesmo anti-ligante), talvez porque a física consegue traçar as suas origens claramente à filosofia e a química, excluindo a alquimia, traça as suas origens à física.

Como refere este artigo que incide sobre a negligência na filosofia da química (formato pdf), ainda hoje muitos consideram a química apenas como uma pequenissima parte da física, a parte que se restringe à escala dos nanómetros e ao electromagnetismo, e como tal consideram que todas as questões filosóficas interessantes em química são cobertas na filosofia da física.

Na realidade, há sobreposição (e colaboração) das duas ciências em muitas áreas, nomeadamente no que os físicos chamam física-química e os químicos química-física, na física de estado sólido ou na termodinâmica (física ou química). Mas há não só áreas completamente distintas como abordagens diferentes ao mesmo problema, que se manifestam inclusive na forma como químicos e físicos enunciam, por exemplo, a segunda lei da Termodinâmica, para nós dirigida essencialmente ao equilíbrio químico. Assim, embora o post sobre o átomo e a liberdade de expressão tenha proporcionado uma discussão muito interessante, antes de continuar a história do atomismo gostaria de frisar que para a maioria dos químicos, desde que a química se estabeleceu como ciência, o atomismo é estritamente científico sem quaisquer implicações filosóficas - exceptuando, claro, aquelas que integrámos no método científico.

*Alan J. Rocke, Chemical Atomism in the Nineteenth Century – From Dalton to Cannizzaro, página 66, Ohio State University Press, 1984.

terça-feira, 28 de Agosto de 2007

O factor "uau" ou Há tesouros nas livrarias


Leiam-se estes tesouros da asneira que aparecem no livro "O Segredo", de Rhonda Byrne, Lua de Papel, 2007 (p. 160), que é actualmente não só um dos mais vendidos em Portugal como em todo o mundo:

"Nunca estudei ciências nem física na escola e, no entanto, quando li livros complexos sobre física quântica percebi-os perfeitamente porque os queria perceber. O estudo da física quântica ajudou-me a ter uma compreensão mais profunda do Segredo, a um nível energético. Para muitas pessoas, a sua fé é fortalecida quando vêem a perfeita correlação entre o conhecimento do Segredo e as teorias da nova ciência.

Deixe-me explicar-lhe como é que você é a torre de transmissão mais poderosa dio Universo. Em termos simples, toda a energia vibra com uma certa frequência. Como energia que é, você também vibra com uma frequência, e o que determina a sua frequência a qualquer momento é aquilo em que está a pensar e a sentir. Todas as coisas que deseja são feitas de energia, e estão também a vibrar. Tudo é energia.

Aqui está o factor "uau". Quando pensa naquilo que quer, e emite essa frequência, faz com que a energia daquilo que quer vibre nessa frequência e com que isso seja trazido a Si! Ao focar-se naquilo que quer, está a mudar a vibração dos átomos dessa coisa e está a fazer com que vibre para Si. A razão pela qual você é a torre de transmissão mais poderosa do Universo é o facto de lhe ter sido dado o poder de focar a sua energia através dos seus pensamentos e de alterar as vibrações daquilo em que está focado, e que é depois magneticamente atraído até si."

RECEPÇÃO DE DARWIN E NIETZSCHE EM PORTUGAL



















O século XIX já não é o século passado. Já podemos falar sobre ele com maior distanciamento. É tempo, portanto, de olhar com maior acuidade o que se passou – ou o que não se passou - neste canto da Europa.

Passou-se muita coisa aqui, mas houve coisas que não se passaram aqui no devido tempo. No século XIX deu-se, na Europa do Norte e Central, uma revolução científico-industrial (já havia desde o século anterior a máquina a vapor, mas a partir de 1800 foram aparecendo a turbina e o motor eléctricos, a iluminação eléctrica e a transmissão de informação à distância). Essa revolução foi sendo acompanhada por desenvolvimentos no campo da filosofia e das ciências humanas em geral. Ao mesmo tempo, deu-se uma explosão sem precedentes na escola e na escolarização, que fez com que estratos sociais mais alargados acedessem aquilo que alguns autores da época chamaram os “benefícios da civilização”. Contudo, Portugal dificilmente conseguiu acompanhar na mesma medida que os países da Europa do Norte e central quer esses progressos científico-técnicos quer os desenvolvimentos na área das humanidades quer ainda o alargamento da população escolar. Importámos, é claro, alguns “benefícios da civilização”, mas não participámos no esforço criador que lhes deu origem.

Ao longo do século XIX, o nosso atraso no “ranking” da riqueza das nações foi-se agravando, um atraso de que ainda hoje temos sequelas (ver o capítulo “O Atraso Português” do meu livro “A Coisa Mais Preciosa que Temos”). É interessante estudar a recepção em Portugal dos grandes cientistas e pensadores oitocentistas. Quando chegaram cá as suas obras? Como?

Charles Darwin, que foi talvez o maior cientista do século XIX (apesar de não ter tido um impacto na vida quotidiana tão imediato como tiveram Faraday, Maxwell e Hertz), é um bom exemplo do afastamento dos portugueses da ciência no século XIX. Não se trata neste caso de ciência ligada à tecnologia, mas sim de ciência ligada à cultura, à visão do mundo ao qual pertencemos. O biólogo da Universidade de Lisboa (infelizmente já falecido) Germano da Fonseca Sacarrão já chamou a atenção para a forte resistência às ideias darwinistas entre nós, uma resistência decerto movida por causas semelhantes à resistência actual ao darwinismo nalguns estados norte-americanos devido a fundamentalistas religiosos. É curioso que o livro fundamental de Ana Leonor Pereira sobre a recepção de Darwin em Portugal (“Darwin em Portugal (1865-1914). Filosofia. História. Engenharia Social”, Almedina, 2001) evite as referências religiosas: a autora declara logo no prefácio que não abordará o darwinismo na perspectiva teológica. Até porque, ela própria faz questão de dizer, isso seria um outro livro, não tanto sobre o darwinismo, mas mais sobre o anti-darwinismo. E com muitas mais páginas do que as 629 que constituem o volume em causa...

Quando chegou o darwinismo a Portugal? Pois foi em 1865 pela mão de um botânico da Universidade de Coimbra, Júlio Castro Henriques. Lembre-se que o livro fundador da teoria da evolução, “A Origem das Espécies”, foi publicado em Inglaterra em 1859, tendo imediatamente suscitado uma grande procura (até 1913 publicaram-se nada mais nada menos do que 148 edições!).

O atraso foi, por isso, só de seis anos, atenuado pelo facto de a recepção de Júlio Henriques ter sido favorável... Mas já a tradução em português da “Origem das Espécies”, na Livraria Chardron, só apareceu em 1913 (a tradução de “A Origem do Homem”, cujo original é de 1871, ocorreu em 1910, portanto um pouco antes). Pasme-se com este atraso de 54 anos da edição portuguesa quando já havia edições por todo o mundo! Tal atraso poderá ser justificado pela acessibilidade das traduções francesas e pelo facto de a cultura francófona ter reinado entre nós nos finais do século XIX e inícios do século XX. Mas é, convenhamos, uma fraca explicação! Como é que se poderia ser darwinista ou antidarwinista sem se conhecer Darwin no original ou, pelo menos, sem ter uma boa tradução em português com a concomitante incorporação na cultura nacional?

No que toca às relações de Portugal com Darwin valhe-nos, para de certo modo “salvar a honra do convento”, um açoreano, Francisco de Arruda Furtado, que, apesar de ter morrido muito novo, se correspondeu com o sábio inglês e, inspirado nele, realizou estudos de malacologia nos Açores. Foi de resto Arruda Furtado quem escreveu uma notável homenagem por ocasião da morte de Darwin, que ocorreu em 1882 (o autor da teoria da evolução, a quem o açoreano chamou o “Newton da biologia”, tinha nascido em 1809: para o ano comemoram-se os 200 anos).

Por outro lado, um dos filósofos mais notáveis do século XIX foi decerto o alemão Friedrich Nietzsche. Nietzsche é um personagem “sui generis” desse século: radical e iconoclasta. Para ele Deus morre sendo substituído pelo “Superhomem”. Será que a filosofia de Nietzsche entrou cá facilmente? Não, como esclarece o livro de António Enes Monteiro, “A Recepção da Obra de Friedrich Nietzsche na Vida Intelectual Portuguesa (1892-1939)", Centro Regional do Porto da Universidade Católica Portuguesa e Lello Editores, 2000 (são 501 páginas de texto!). A penetração das ideias nietzschianas em Portugal foi muito lenta, demorando bastante após a morte do pensador, que ocorreu em 1900, quando ele tinha 56 anos. Só depois da implantação da República houve algum interesse por Nietzsche, tendo ele sido manifestado pela revista “Águia”, pelo grupo da “Renascença Portuguesa” (Jaime Cortesão, Teixeira de Pascoaes e Leonardo Coimbra), pela revista “Seara Nova” e pelos modernistas (Fernando Pessoa e Almada Negreiros, entre outros). Em todos esses casos a reivindicação era de “nascer de novo” depois do ocaso oitocentista e nada melhor para assinalar o novo do que a violência de Nietzsche. Só em 1916 surgiu a primeira tradução portuguesa de um seu livro, nomeadamente “O Anti-Cristo”, na Guimarães. Outras obras teriam de esperar: parece incrível, mas “A Gaia Ciência” só apareceu vertida em português em 1966, na mesma Guimarães.

Chegam os exemplos de Darwin e Nietzsche? Outros poderiam ser dados...

Religião, filosofia e argumentação

Sempre que, em qualquer post, há algo que tem a ver com a religião, chovem os comentários. É um tema popular. E é bom que as pessoas estejam dispostas a discutir abertamente a religião. Contudo, sinto-me sempre algo incomodado com isso.

Porquê? Porque uma das regras centrais da argumentação é a igualdade entre quem argumenta. Não pode haver verdadeira argumentação sobre a matemática dos fluidos entre um especialista na área e eu porque eu nada sei sobre tal coisa. Para eu poder discutir o que quer que seja com tal especialista, tenho primeiro de dominar a matemática dos fluidos, o que implica um estudo de alguns anos. Caso contrário, o tal matemático pode até ser um sacana que me está a enganar e eu não posso saber.

É por isso que nunca me sinto bem a discutir temas religiosos com as pessoas que desconhecem a filosofia: eu estou numa posição de vantagem porque conheço os argumentos a favor da existência de Deus, e respectivas objecções; conheço os pensadores que fazem desse tema o ponto central da sua investigação; e por isso, mesmo não sendo a filosofia da religião a minha especialidade em filosofia, estou numa situação de vantagem ilegítima relativamente aos crentes que procuram demolir as minhas ideias ateias e justificar as suas ideias religiosas. Por essa razão, irei abster-me de discutir aqui temas religiosos. Irei apenas oferecer indicações objectivas sobre as dificuldades deste ou daquele argumento, e falarei de questões metodológicas. Indicarei também bibliografia — se bem que tenho sempre a desagradável sensação de que a maior parte das pessoas quer apenas conversa de café amena sobre estes temas, e não estudar cuidadosamente nem que seja um livrito ou dois.

Para encerrar, vou responder ao leitor Bernardo Motta, que respondeu ao meu postSerá Razoável Acreditar em Deuses sem Provas?”, abandonando muito amavelmente o anonimato (a conversa até sabe melhor assim). Note-se também que o meu post não procurava argumentar directamente a favor do ateísmo, mas apenas apresentar uma questão metodológica geral, sobre a irrazoabilidade de acreditar em algo sem provas, mas a sua relativa inevitabilidade (porque somos humanos, demasiado humanos).

O Bernardo fala do seu axioma (a origem divina da revelação), mas a questão é precisamente saber se esse axioma é razoável ou verdadeiro. É irracional aceitar axiomas à balda, ou porque dão jeito, ou porque são verdes, apesar de ser uma cor bonita. Que razões há para pensar que há deuses, capazes de se revelarem? Serão boas? Melhores do que as razões para pensar que não há deuses capazes de tal coisa?

Protestou o Bernardo contra a ideia de haver muitos deuses e argumentou que não pode haver mais de um infinito. Isto não é estritamente verdade (há, de facto, mais de um infinito, e infinitos maiores uns do que outros), mas o mais incrível é a sua identificação do infinito com o seu Deus — ora, há muitas concepções de deuses, e nem todas proclamam que tais deuses são infinitos. Ao longo da história da humanidade a esmagadora maioria das comunidades era politeísta — e não estamos apenas a falar de comunidades pouco sofisticadas, mas de algumas das civilizações mais sofisticadas. Na verdade, todos os crentes são ateus em relação a uma imensidão de deuses — Vixnu, Zeus, Apolo, Ámon, Rá, Mitra, Baal, Tor, Wotan, etc. Só não são ateus em relação ao seu deus ou deuses.

Finalmente, serão os filósofos crentes tolos? Note-se que, ao contrário do que o Bernardo afirma, não são apenas os filósofos pré-cartesianos que eram crentes. Há filósofos crentes depois de Descartes (como Leibniz — e o próprio Descartes era católico); e há filósofos contemporâneos crentes, como Swinburne ou Plantinga, que desenvolveram argumentos extremamente sofisticados, hoje muito estudados.

Serão então tolos? Não. Penso apenas que estão enganados. Penso que os argumentos deles não funcionam e é por isso que sou ateu. Há muitos filósofos que dizem isso mesmo. Por isso não podemos limitar-nos a escolher as autoridades que nos apetecer, para basear nelas o nosso juízo; dado que as autoridades na matéria discordam, temos de pensar por nós próprios. Não podemos fazer como o Bernardo: escolhe os filósofos crentes, como Tomás de Aquino, e ignora tranquilamente os outros.

Escolher as autoridades que concordam connosco e ignorar as outras é um dos piores vícios intelectuais: é o mesmo que a supressão de provas. Se embarcarmos nesta prática, conseguimos provar tudo, incluindo que há Zeus e fadas e o Pai Natal. E este é o grande problema dos argumentos do Bernardo: limitam-se a escolher os dados favoráveis à sua crença, ignorando tudo o resto. Por exemplo, o Bernardo fala da autoridade das palavras de Jesus; mas todas as religiões tiveram os seus profetas, alguns tão historicamente reais como Jesus, como é o caso de Buda. Além disso, uma religião pode pura e simplesmente recusar como herética a ideia de que os seus deuses possam ter manifestações corpóreas, encarando tal exigência como um sinal de falta de fé da parte do crente. Na religião vale tudo porque estamos no domínio da arbitrariedade: é como escrever um romance; cada qual inventa o que lhe apetecer.

Por isso, insisto: não vejo mal em acreditar no deus cristão tal e qual como uma pessoa usa um microondas: desconhece os seus fundamentos e não sabe se não haverá uma maneira melhor de aquecer o leite. Apenas vai na onda, se me for permitido o trocadilho. Afinal, não podemos ser todos físicos, para saber mesmo como funcionam os microondas, nem podemos ser todos filósofos da religião, para saber como funcionam os argumentos a favor da existência de deuses e respectivas objecções. E do mesmo modo que eu não vou declarar que sei tudo sobre microondas, é avisado da parte dos crentes fazer o mesmo em relação à sua religião, e aceitar que acreditam nela unicamente porque lhes dá jeito, emocionalmente falando, porque foram educados dessa maneira, e porque escolheram arbitrariamente aceitar a autoridade uma dada seita cristã em vez de outra, cristã ou não. É razoável? Não. Mas os seres humanos nem sempre são tão razoáveis quanto é desejável que fossem.

Claro que há pessoas como o Bernardo que, com mais diligência intelectual do que a esmagadora maioria dos crentes, procura informar-se, estudando os filósofos especialistas na matéria. Isso é saudável.

Mas há algo de estranho na ideia de que o Bernardo estaria disposto a abandonar a crença em Deus caso verificasse que a balança da argumentação não pende a seu favor; isto porque é estranho pensar que uma pessoa é crente por ter boas razões para tal coisa. O próprio Bernardo, como a generalidade dos crentes, recusa desde logo esta ideia; e de facto a epistemologia da crença religiosa é bizarra precisamente por causa disso. O facto é que os crentes não são crentes por terem razões, mas antes porque tiveram experiências emocionais que os levam a ser crentes, ou porque nunca pensaram muito nisso e foram educados assim, ou por pura superstição. É por isso que tantos crentes declaram, e com alguma razão, que é inútil “esgrimir” argumentos sobre a existência de Deus. Esta perspectiva parece-me mais honesta e mais próxima do fenómeno religioso real; não acredito que o Bernardo seja crente por causa dos argumentos de Tomás de Aquino ou por causa de quaisquer outros argumentos históricos relativos à revelação divina ou a divindade de Jesus. Acho que ele primeiro é crente e só depois, por ser crente, aceita a divindade de Jesus, e a revelação e os argumentos de Tomás de Aquino.

Outra coisa diferente é a discussão filosófica sobre a existência de Deus. Mas isso é uma discussão académica como qualquer outra. Não me parece é que tenha o poder para fazer muitos crentes mudar de ideias, porque as pessoas acreditam geralmente em deuses por outros motivos que não as razões a favor ou contra. Se isso não fosse assim, o Bernardo não iria estudar apenas os filósofos que já sabe à partida que aceitam a existência de Deus. Quando uma pessoa quer saber se realmente é melhor mudar o óleo do carro quando o motor está quente, não vai procurar apenas quem afirma que realmente é melhor fazer isso — terá até tendência para procurar mais intensamente quem defende que não é bom fazer tal coisa. Procurar falsificar ideias faz parte da metodologia natural da procura da verdade. Quando procuramos apenas os filósofos que já concordam connosco quanto à existência de deuses, isso significa que não estamos realmente à procura da verdade, mas apenas a tentar racionalizar uma crença que nada tem originalmente de razoável.

Daí que o Bernardo baseie o seu comentário na ideia falsa de que os ateus são ateus porque são empiristas ou positivistas lógicos, mais ou menos como os cientistas têm tendência para ser. Se tivesse estudado algo da filosofia da religião contemporânea, ou da metafísica, saberia que isto é falso. Dificilmente se encontra hoje filósofos positivistas, e eu não sou um deles, mas no entanto muitos são ateus e apresentam os seus argumentos e ideias nas revistas académicas da especialidade. Nem eu nem a maior parte dos filósofos actuais recusa a metafísica — na verdade, eu dou aulas de metafísica, e a metafísica da modalidade é a minha área de especialização. Mas aceitar que nem tudo o que há tem localização espácio-temporal, como eu ou Russell ou tantos outros filósofos aceitam, não implica de modo algum aceitar que há deuses.

Para saber mais:

The Miracle of Theism: Arguments for and Against the Existence of God, de J. L. Mackie (introdução à filosofia da religião, muito claro mas sofisticado, por um filósofo ateu que discutiu muito, academicamente, com cristão Swinburne)

Será Que Deus Existe?, de Richard Swinburne (obra mais introdutória de um dos maiores filósofos da religião contemporâneos)

Philosophy of Religion: An Anthology, org. de Louis P. Pojman (excelente antologia que abrange praticamente todas as áreas de estudo da filosofia da religião clássica e contemporânea)

Diálogos sobre a Religião Natural, de David Hume (Edições 70, é um texto clássico mas que não perdeu actualidade e as notas e introdução de Álvaro Nunes são muito informativas)

TECNOLOGIA E MAGIA

"E visto que o homem não pode viver sem milagres ele fará os seus próprios milagres"
Fiodor Dostoiewski, "Os Irmãos Karamazov"

Foi o físico e escritor inglês de ficção científica Sir Arthur Clarke quem afirmou que, nas suas formas mais evoluídas, a tecnologia é indistinguível da magia. Para o comum das pessoas o que distingue afinal a música proveniente de um CD ou a descolagem de um Airbus ou a comunicação por telemóvel de fenómenos mágicos? Que diria um homem primitivo se, transportado subitamente numa máquina do tempo (esta sim, magia autêntica, que a tecnologia actual não proporciona), deparasse com um CD, um Airbus ou um telemóvel?

A associação entre tecnologia e magia tem algo de paradoxal. Pois não é a tecnologia filha da ciência? E não é a magia o reverso da ciência? Não está a tecnologia baseada na razão e não é, por isso, que funciona de uma forma objectiva? E não está a magia baseada na superstição sendo, por isso, subjectiva?

Pois a tecnologia é uma filha da ciência - ninguém recusará o parentesco - mas é uma filha fugida de casa. Não se sabe em muitos casos quem é o pai. A situação é tão estranha que, por vezes, a filha até precede a mãe... O inglês Francis Bacon (Sir tal como Clarke), logo no século XVII, quando nasceu a ciência moderna, previu a operacionalidade do conhecimento na vida social. A ciência permite mudar a vida, permite mudar de vida, precisamente através deosdesenvolvimentos tecnológicos.

Curiosamente, é a possibilidade de esconder a ciência, de a meter numa "caixa negra", que assegura o êxito de muitos artefactos tecnológicos que dela provêm. Com efeito, não é necessário saber sobre ondas electromagnéticas ou sobre transístores para, nos nossos dias, usufruir de uma televisão ou de um computador. Basta apenas usar o comando televisivo (e nem sequer são precisos todos os botões, mas apenas o mudador de canais e o regulador de som) ou o teclado e o rato (para muitas aplicações basta só o rato!). A invenção tecnológica que colocou vários objectos ao alcance das multidões foi a do botão que liga ou desliga, e que regula ou desregula, esteja ele no comando televisivo ou no rato do computador. As imagens e os sons ficaram ao alcance de um clique. Pura magia!

Segundo afirma Richard Stivers no seu livro "A Tecnologia como Magia. O Triunfo do Irracional" (Instituto Piaget, 2001), livro que abre com a citação de Dostoiewski que está acima, a "televisão aparece ao espectador como uma descrição da realidade; além disso, a realidade é entendida porque está na televisão". A televisão é, portanto, um espelho mágico. Para o mesmo autor, "o computador é a forma de magia final e mais poderosa; ele recapitula todas as formas anteriores". De facto, o computador inclui não só a televisão como o leitor de CD e o telefone (falta só ser o avião, embora possa servir para reservar voos).

A tecnologia consiste basicamente em alterar a Natureza, em controlar o ambiente à nossa volta, para nosso benefício. Por seu lado, a magia também é uma tentativa de interferir sobre a Natureza. Um cientista ou uma pessoa com cultura científica saberá distinguir as duas (a tecnologia só falha por vezes, só por acaso falha, ao passo que a magia falha quase sempre, só por acaso acerta). Mas muitas pessoas talvez não consigam discernir as diferenças...

Stivers fornece o exemplo de um anúncio televisivo a "airbags" que proclama: "A 90 km/h uma oração é demasiado lenta". A diferença entre tecnologia e magia seria a acreditar neste anúncio, destinado ao grande público, uma diferença de velocidade. De qualquer modo, os regulamentos oficiais de automóveis consagraram a obrigatoriedade dos "airbags", ao passo que as orações continuam a ser facultativas.

Para Stivers o segredo da identificação da tecnologia com magia não reside tanto no hardware, mas mais no software: certas imagens e palavras funcionam como passes de mágicas. Por exemplo, os anúncios de certos programas televisivos (telenovelas, "reality shows", etc.) são feitos para encantar, para hipnotizar os telespectadores. O discurso apresenta-se parcial ou completamente desintegrado; os "sound bytes" substituem frases completas e coerentes, em nome de uma lógica de rapidez e eficácia (não há tempo a perder: o discurso tem de ser rápido para o lucro também ser rápido!). Foi assim que proliferou todo um conjunto de tecnologias não materiais, que incluem técnicas de persuação psicológica, de terapia, de "marketing" e de gestão. Estas modernas formas de magia amplificaram bastante o poder dos objectos tecnológicos. A ameaça do irracional estará mais no software do que no hardware...

Como havemos de nos proteger da magia que impera por todo o lado e que, subrepticiamente, nos tolhe a liberdade? Pois a ciência ainda é o melhor refúgio. E a escola ainda é o melhor meio para nos ensinar esse refúgio. Como escreveu Stivers:

"A minha resposta pessoal à ameaça da propagação da irracionalidade é a de dar ênfase à educação; na verdade, é a nossa última esperança na batalha pela razão".

segunda-feira, 27 de Agosto de 2007

Ciência na Cidade

Informação recebida do Ciência Viva:

Uma viagem de bicicleta através de um sistema solar à escala marca a chegada do programa Ciência na Cidade a Estremoz, no próximo sábado, dia 1 de Setembro.

A apresentação deste novo instrumento de divulgação científica do Centro Ciência Viva de Estremoz contará com a presença do ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, José Mariano Gago.

Os alunos do Ensino Básico do Externato de S. Filipe, de Estremoz, vão fazer, a partir das 18h00, a orientação científica de uma fantástica viagem do Sol até Marte, na qual bicicletas, trotinetas e skates serão os veículos privilegiados.

Esta iniciativa é o resultado da adesão de Estremoz ao projecto Ciência na Cidade, que visa integrar a ciência na programação cultural das cidades e ao qual também já aderiram Évora, Guimarães e Tavira.

Em Tavira o programa terá início no dia 29 de Agosto, às 22h00, com uma performance interactiva de Rudolfo Quintas que permite transformar os gestos em imagens e sons. Este artista integra o programa Rede de Residências, desenvolvido pela Ciência Viva e pela Direcção Geral das Artes. No dia 30, às 22h30, na Praça da República, o público poderá saborear um café enquanto uma caneta digital escreve sobre as fachadas dos edifícios, em tempo real e pela mão de António Jorge Gonçalves.

Ciência na Cidade é um programa apoiado pela Ciência Viva, em articulação com outras cidades europeias através do projecto ESCITY (Europe, Science & the City).

Mais informação:
http://www.cienciaviva.pt/divulgacao/ciencianacidade/

ARGENTO VIVO


A editora Tinta da China vai publicar muito em breve o livro "Argento-Vivo", do escritor de ficção científica Neal Stephenson, autor de "Cryptonomicon". Da blogosfera (deste sítio), publicamos este extracto de uma crítica, que dá um "cheirinho" do livro:

"... Quicksilver (...) faz parte de um grande arco, uma obra magna que Stephenson se propôs escrever, sob o nome de Ciclo Barroco. O conjunto de livros que este ciclo encerra já ultrapassou largamente a trilogia, o que não surpreende - Stephenson propôs-se escrever nada menos do que uma história do sistema do mundo, centrado na era Barroca, quando o iluminismo e o mercantilismo começaram a demolir a velha sociedade pós-renascentista, alicerçada no mundo medieval, trazendo o mundo para a era moderna. Stephenson mergulha entre as elocubrações dos filósofos naturais que perscrutam o mundo, sedentos de curiosidade, entre as manigâncias dos jogos de poder das nobrezas políticas e entre os sonhos de uma classe emergente que apoia o seu poder e afluência não na tradição mas sim na troca de mercadorias e gestão de dinheiros. O Ciclo Barroco pretende ser uma história das ideias que formam a base da nossa sociedade contemporânea, e na sua minuciosa busca de interrelações num mundo que já era global antes da era da globalização Stephenson largou o ser conciso no meio das urtigas e foi escrevendo até chegar à conclusão, o que explica a amplitude deste ciclo de livros dos quais Quicksilver é o primeiro.

Quicksilver recupera as personagens-chave de Cryptonomicon como avós das personagens modernas. O elusivo Enoch Root faz uma aparição como propiciador da educação de uma criança desfavorecida, que se irá tornar Isaac Newton, e Daniel Waterhouse transmuta-se no filho de um puritano ferrenho. Quicksilver passa-se nos primeiros anos da Royal Society, quando ela era pouco mais do que um gabinete de curiosidades onde Hooke, Newton e as restantes luminárias que são, efectivamente, os pais da ciência moderna iluminavam a natureza, tentando decifrar os seus segredos. Waterhouse é neste livro um quase grande cientista, que só não o é porque era contemporâneo de Hooke, Newton e Leibniz - e entre gigantes, o mais alto de entre os homens será sempre anão. Daniel é o filho de um ferrenho puritano numa época em que o professar de diferentes correntes do cristianismo podia implicar o patíbulo, mas as suas crenças num juízo final marcado com toda a precisão para 1666 e a sua religiosidade moralista são abafadas pela sua curiosidade em desvendar os segredos do mundo natural. Daniel torna-se colega e amigo de Newton, e trabalha de muito perto com ele, participando no mundo fervilhante de descobertas científicas dos membros da academia real, participando na incipiência do mundo moderno."

Livro infantil "A História do Zeca Garro"


Informação recebida da editora "O Contador de Histórias":

"A História do Zeca Garro" , a lançar em Setembro, é o primeiro volume da colecção "Histórias em Erupção", uma parceria d'Os Montanheiros e da Editora O Contador de Histórias. Escrito em conjunto por Filipe Lopes (promotor de leitura e
contador de histórias) e por Carla Goulart Silva (bióloga e directora da Ecoteca do Pico), o livro pretende ser um material lúdico que simultaneamente sensibilize para a preservação de uma espécie cuja maioria da população mundial nidifica no arquipélago dos Açores. Bernardo Carvalho foi o ilustrador convidado, tendo em conta a sua enorme experiência em produção de material didáctico.

De facto, os cagarros (também conhecidos como cagarras ou pardelas) são aves marinhas, bem conhecidas dos açorianos pelo seu canto característico de difícil definição: um gato a miar, um bebé a chorar, um sapo a coaxar são algumas das comparações que se procuram para um tipo de vocalização única e incomparável.

Na história infantil idealizada por Carla Goulart Silva e Filipe Lopes, o personagem principal é uma cria de cagarro, o Zeca. Este vai ser confrontado com algumas das dificuldades que surgem aos juvenis da espécie: os progenitores voam para os mares do sul deixando os jovens cagarros até que estes tenham capacidades físicas de iniciar a viagem. Em terra, procurando orientar-se pelas estrelas, os cagarros são atraídos pela luz artificial, fazendo com que alguns sejam atropelados nas estradas, enquanto procuram o mar e o início da migração. O conto procura alertar para estes problemas e para como é possível, até para os mais pequenos, fazer algo para a sua preservação.

Nas entrelinhas da história ficam também alguns valores que devem estar presentes na vida das famílias (humanas ou não): o amor, a compreensão, a tolerância, a solidariedade. A abordagem escolhida permite também fazer um paralelismo com um fenómeno bem conhecido dos açorianos: a emigração e o retorno à terra natal.

Destinado a crianças entre os 3 e os 12 anos, "A História do Zeca Garro" será lançado no mês de Setembro, acompanhando o início das campanhas de informação que se estendem até ao final de Novembro, período em que se desenrolam as migrações a partir dos Açores. A obra inclui algumas sugestões de trabalho para os pais e educadores que queiram potenciar o conteúdo do livro. Realizar-se-ão também algumas oficinas formativas em diversas ilhas.

Os Montanheiros é uma Organização Não Governamental de Ambiente, presente nas ilhas Terceira, Pico e S. Jorge. Inicia uma colaboração a nível editorial com O Contador de Histórias a partir da colecção "Histórias em Erupção", que pretende abordar temas relacionados com a protecção ambiental, de forma descontraída, para os mais novos. Para a editora tomarense é mais uma incursão num campo a que tem dado primazia.

Para os autores é a primeira experiência em livro. Filipe Lopes é editor e está habituado a contar histórias dos outros. Carla G. Silva também trabalha regularmente com crianças tendo surgido da sua experiência a necessidade de criar uma forma alternativa de tratar o tema com os mais pequenos, que são, afinal, aqueles que muitas vezes podem ajudar a mudar as atitudes.

Mais informações: Editora O Contador de Histórias
Morada: Apartado 139 2304-909 Tomar
Telefones: 91 2568944 e 91 4961072
Correio electrónico: geral@ocontadordehistorias.com
Internet: www.ocontadordehistorias.com
Blog: historiasdocontador.blogspot.com

domingo, 26 de Agosto de 2007

Russell e o éter

Numa carta datada de 20 de Setembro de 1966, dirigida ao seu editor da Oxford University Press, Russell respondeu do seguinte modo a uma pergunta sobre qual seria a capa mais apropriada para uma nova edição do livro Os Problemas da Filosofia, originalmente publicado em 1912:

«A capa mais apropriada para este volume, na minha opinião, seria uma imagem de um símio a cair de um precipício exclamando “Oh, meu Deus! Quem me dera não ter lido Einstein!”»

A esta humorística sugestão, infelizmente nunca seguida por qualquer editor, acrescentou Russell um PS: «De modo algum deverá o símio parecer-se comigo.»

Além de exibir o seu saudável humor, esta carta mostra a importância que Russell dava à sua actualização científica, pois não concebia a filosofia como uma actividade independente das outras actividades cognitivas humanas, nomeadamente a ciência, nem superior a elas. A passagem do seu livro que entretanto se provou estar cientificamente errada, dado que não há qualquer éter, é a seguinte:

"A ciência física, mais ou menos inconscientemente, foi dar à perspectiva de que todos os fenómenos naturais devem ser reduzidos a movimentos. Luz, calor e som devem-se todos a movimentos ondulatórios, que viajam do corpo que os emitem até à pessoa que vê a luz ou sente o calor ou ouve o som. O que tem o movimento ondulatório é ou o éter ou a «matéria bruta», mas em qualquer caso é o que o filósofo chamaria matéria. As únicas propriedades que a ciência lhes atribui são a posição no espaço, e o poder de movimento de acordo com as leis do movimento. A ciência não nega que pode ter outras propriedades; mas se as tem, essas propriedades não são úteis para o homem de ciência, e não o ajudam de modo algum a explicar os fenómenos."

Em 1916, quatro anos depois deste mesmo livro ter sido publicado, Einstein publicou a sua teoria da relatividade geral, que integra os resultados da experiência de Michelson-Morley, que demonstrou repetidamente que a luz viaja sempre à mesma velocidade, independentemente da velocidade do observador relativamente à luz. Caso existisse éter, no sentido de ser o meio no qual as ondas electromagnéticas se propagariam (um pouco como a água é o meio no qual as ondas se propagam, quando atiramos uma pedra para um lago), a velocidade da luz teria de ser diferente consoante o emissor e o observador estivessem em repouso ou em movimento relativamente ao hipotético éter. Consequentemente, abandonou-se a ideia de que havia realmente qualquer éter, no sentido de um meio com propriedades mecânicas através do qual as ondas electromagnéticas se propagassem.

Russell pensava então que o éter seria o candidato científico natural à verdadeira matéria, no sentido em que tudo o mais seriam modificações desta substância. Russell descobriu depois que isto era falso, tendo inclusivamente publicado em 1925 o seu famoso ABC da Relatividade, que ainda hoje é considerado uma lúcida introdução informal fidedigna à teoria da relatividade de Einstein. Mas foi talvez um pouco duro consigo mesmo na carta que escreveu ao seu editor, pois o próprio Einstein declarava a existência do éter numa comunicação feita na Universidade de Leida (Holanda) no dia 5 de Maio de 1920:

«Segundo a teoria geral da relatividade, o espaço sem éter é impensável; pois em tal espaço não só não haveria propagação da luz, mas também não poderia haver padrões de espaço e tempo [...] Mas não se pode pensar que este éter é dotado da qualidade característica de um meio ponderável [...]» (The Collected Papers of Albert Einstein, Vol. 7, Princeton University Press, 2002).

Em qualquer caso, a substância do ponto de vista filosófico de Russell permanece: a matéria é seja o que for que a ciência empírica descubra que subjaz a todos os fenómenos que captamos pelos sentidos. Não se trata, pois, de declarar a priori, da cadeira reflexiva do filósofo, qual é a natureza última do mundo, mas antes de dialogar com as nossas melhores investigações sobre a natureza das coisas para tentar articular uma teoria que satisfaça a nossa melhor investigação, seja filosófica ou não, sobre a natureza última das coisas; o filósofo não tem qualquer prerrogativa especial.

O átomo e a liberdade de expressão

A verdadeira liberdade ocorre quando os homens, nascidos livres,
Precisando dirigir-se ao público, podem falar livremente;
Aquele que puder e quiser falar, merecerá honrarias;
Aquele que não puder ou não quiser, poderá ficar em paz:
O que poderá ser mais justo do que isso?

Eurípedes, As Suplicantes

John Milton, o poeta que nos legou o «Paraíso Perdido», inicia a Areopagítica com esta citação do «mais trágico de todos os poetas», que há mais de 2400 anos dizia que «É escravo aquele que não pode dizer o que pensa». A Areopagítica é um apelo ao Parlamento inglês para revogar a Licensing Order de 16 de Junho de 1643 que estabelecia uma censura equivalente ao Imprimatur ou Nihil Obstat católicos. A defesa da liberdade de expressão seria retomada quasi nos mesmos moldes dois séculos depois por John Stuart Mill, no livro já citado pelo Desidério, «Sobre a Liberdade», publicado pela primeira vez em 1859.

Ambos os autores afirmam que o caminho para a verdade passa inevitavelmente pela liberdade de pensamento, de expressão e de crítica e que, contrariamente ao que afirmavam os apologistas da prática secular de calar as vozes dissidentes, por vezes de forma definitiva, «silenciar a expressão de uma opinião é que constitui um roubo à humanidade».

Não é coincidência que John Milton tenha iniciado a sua defesa eloquente da liberdade de imprensa citando um pensador grego. Como referiu o Desidério, «os filósofos da Grécia antiga expunham as suas ideias e desafiavam os interlocutores a discuti-las livremente. Isto gerou uma novidade absoluta na história da humanidade: a cultura da liberdade intelectual».

Também não é coincidência que a asfixia da liberdade intelectual conduzam a regressões civilizacionais, a períodos longos de sono da razão de que a humanidade apenas desperta por exercício do pensamento crítico e discussão livre de ideias. Para o confirmar, basta pensarmos não apenas na Idade Média mas no que aconteceu à ciência e à própria civilização árabes após a publicação do Tuhafat al-Falasifa (A Incoerência dos Filósofos) por aquele que é considerado o maior teólogo do Islão, Abu Hamid al-Ghazali (1058-1111), que afirmava que empregar os métodos dos filósofos gregos era corromper a fé islâmica

Se exercitarmos esta inovação grega em relação à História da ciência percebemos porque razão dois dos nomes mais conhecidos daquela que foi uma revolução na ciência, a mecânica quântica, consideravam que a ciência moderna só pode ser entendida à luz do que consideram a verdadeira revolução no pensamento humano, a filosofia grega.

Erwin Schrödinger decidiu debruçar-se sobre a história do pensamento científico como reacção ao exemplo de Ernst Mach - um positivista a que Einstein chamou um bom físico mas um filósofo deplorável e que foi um grande opositor do atomismo. O livro «A Natureza e os Gregos» reúne duas conferências proferidas no University College de Londres em 1948 pelo laureado com o Nobel da Física em 1933, distinção que mereceu conjuntamente com Paul Dirac pela descoberta «de novas formas produtivas da teoria atómica». No livro, Schrödinger considera ser necessário voltar às escolas pré-socráticas para uma exacta compreensão dos fundamentos da ciência moderna, nomeadamente considera os jónicos (a escola de Tales de Mileto) e os atomistas como os verdadeiros precursores da ciência moderna. Por sua vez, Werner Heisenberg, Nobel da Física em 1932 «pela criação da mecânica quântica», assevera na «Imagem da Natureza na Física Moderna» que dificilmente podemos ocupar-nos da física atómica sem conhecermos a filosofia grega da natureza.

De facto, o período pré-socrático é um período caracterizado pela investigação da Natureza. O primeiro filósofo da physis (natureza), Tales de Mileto (~640-546 a.C), marcou a mudança de atitude do homem perante o cosmos procurando o princípio natural das coisas ou arqué, o elemento primordial da natureza, a matéria básica para a formação dos demais materiais, e na qual todos se reduziriam. Uma procura revolucionária que teve o seu apogeu no atomismo.

A palavra átomo foi usada pela primeira vez por um filósofo deste período, Leucipo de Mileto, de quem não sobrevive obra escrita. De acordo com Aristóteles (muito crítico do atomismo) e Diógenes Laércio, Leucipo defendia que o universo é constituido por partículas muito pequenas e indivísiveis e pelo vazio (o não-ser). A teoria atomista foi desenvolvida pelo seu discípulo Demócrito (460 – 404 a.C) e foi reformulada por Epicuro (341-270 a.C.). A mensagem de Epicuro foi, cerca de dois séculos após a morte do filósofo, transmitida por um seu seguidor, o poeta latino Lucrécio, na única obra escrita que nos chegou dele e que dá título a este blog (e disponível no Projecto Gutenberg).

O desenvolvimento da ciência moderna está associado à recuperação do pensamento crítico mas é indissociável da redescoberta e disseminação do poema de Lucrécio. Acompanhar a História do atomismo, que só foi firmemente estabelecido já no século XX, é assim acompanhar a evolução da ciência, do pensamento científico e da liberdade de expressão.

Desde a proposta por Demócrito de que «O espírito actua através dos movimentos mecânicos e de colisões de átomos, e as suas impressões estão naturalmente sujeitas às distorções das sensações», com que nega a existência de uma alma incorpórea, nega causas finais - com o movimento aleatório dos átomos - e nega a existência de um primeiro motor - e a «inteligência» subjacente às esferas do mundo supralunar de Aristóteles - que o atomismo, especialmente o desenvolvido por Epicuro, foi considerado uma filosofia ateísta.

Embora muito criticados, o atomismo e o epicurismo floresceram na Grécia, Ásia Menor e mesmo em Itália até ao advento do poder da Igreja, que combateu o epicurismo em todas as frentes, nomeadamente declarando heréticos os que aceitavam a constituição atómica da matéria. As relações da Igreja com o atomismo são bem ilustradas na tese polémica do historiador Pietro Redondi apresentada no livro «Galileu Herético». Para este historiador, o principal motivo da condenação de Galileu - muito suave para os padrões da Inquisição, que queimara umas décadas antes outro atomista, Giordano Bruno - foi esconder a muito mais grave adesão ao atomismo. Não existem dúvidas de que Galileu foi um grande impulsionador do atomismo, bem expresso no Il saggiatore (O Experimentador) e sugerido nos Diálogos. Mas há muitas dúvidas e controvérsias em relação à tese de Redondi de que a condenação de Galileu foi na realidade uma «farsa» que teve como objectivo desviar as atenções da acusação de heresia contra a eucaristia efectuada pelo padre jesuíta Orazio Grassi.

As relações complicadas entre ciência e religião são bem ilustradas na história do atomismo e ajudam a explicar que tenham decorrido cerca de 2500 anos entre as primeiras hipóteses atomistas e o livro «Os átomos» de Jean Baptise Perrin, publicado em 1912, que concluía: «A teoria atómica triunfou. Os seus oponentes, numerosos até recentemente, têm sido convencidos e têm abandonado, um após o outro, a posição céptica que foi, por um longo tempo, legítima e sem dúvida útil».

Bibliografia:
Erwin Schrödinger, A Natureza e os Gregos e Ciência e Humanismo, Capítulo 1 – Os motivos para regressar ao pensamento da Antiguidade, Edições 70, 1999, Lisboa.

Werner Heisenberg, A Imagem da Natureza na Física Moderna, Capítulo 3 – Átomos e cultura humanística, Edição Livros do Brasil, Lisboa.

D. R. Gordon e D. B. Suits (editores), Epicurus: His Continuing Influence and Contemporary Relevance, Rochester Institute of Technology Press, 2003, Rochester.

O FLUVIÁRIO DE MORA



Minha crónica do último "Sol":

De Lisboa a Mora não demora. São cerca de 100 km por boas estradas até essa simpática vila no Alentejo profundo, a norte de Évora. Desde há cinco meses há mais uma boa razão para lá ir: o Fluviário de Mora, que dizem ser o primeiro da Europa e o terceiro do mundo.

Eu fui e antes de mim já tinham ido mais de cem mil pessoas. Tanto eu como a grande maioria dos outros visitantes demos por bem empregada a ida. Num lugar aprazível, perto de um lago retido por uma ponte-açude, ergue-se uma moderna mas simples estrutura branca que, por fora, faz lembrar as casas dos montes alentejanos. Mas, por dentro, é um surpreendente fluviário, isto é, um oceanário de água doce. Moram lá muitos peixinhos em sucessivos aquários que recriam os habitats de um rio português desde a nascente até à foz. Mas não há apenas barbos, tainhas, achigãs, pimpões e esturjões (estes actualmente extintos nos rios nacionais, pelo que só se podem ver ali). Há também belos peixes exóticos como piranhas vermelhas da selva amazónica e ciclídeos azuis dos lagos do Malawi. Do Brasil há ainda batráquios como uma rã-seta venenosa e répteis como uma poderosa anaconda. Mamíferos só há um casal de lontras brincalhão, semelhante ao “Amália e Eusébio” do Oceanário de Lisboa.

O presidente da Câmara de Mora, José Manuel Sinogas, está de parabéns por este projecto verdadeiramente inovador, que custou seis milhões de euros (metade pagos pela própria autarquia e a outra metade pela Europa) e conseguiu reunir algumas das melhores competências nacionais, como a Promontório Arquitectos (o projecto candidatou-se a prémios internacionais), o designer Henrique Cayate, o informático António Câmara e o desenhador científico Pedro Salgado. O cuidado que a Câmara coloca na cultura está patente, além do mais, em dois magníficos livros de fotografias de pessoas e paisagens locais à venda na loja do fluviário. Não está de parabéns o governo porque não só atrasou o projecto com burocracias injustificáveis como não esteve presente na inauguração.

Agora, que ainda é Verão, não demore: vá a Mora!