sábado, 29 de dezembro de 2007

SOBRE A MORTE NAS ESTRADAS PORTUGUESAS


O “Expresso” de hoje noticia que há manipulação nas estatísticas do número de mortos nas estradas portuguesas. Nós que pensávamos que havia muitos, ficamos a saber que afinal ainda há mais. Indignado, recupero um texto meu publicado no “Primeiro de Janeiro” em 24/1/2001 porque infelizmente me parece ainda actual.

Os estrangeiros que nos visitam não deixam de reparar numa das maiores senão mesmo a maior das idiosincrasias nacionais: a velocidade e o descuido com que se circula nas nossas estradas. Somos um dos países da Europa com maior taxa de sinistralidade rodoviária. Pode dizer-se que a morte espreita não só em cada curva mas também em cada recta.

O escritor norte-americano Richard Hewitt que, no seu livro “Uma Casa em Portugal” (Gradiva), já tinha apontado a tendência suicidária dos automobilistas portugueses (dizia ele, com humor negro, que os portugueses ao volante tentam denodadamente subir para cima das árvores e alguns conseguem), voltou em “Regresso à Casa em Portugal” ao mesmo tema. Com ironia, escreve ele que reparou como os portugueses conduziam os “carrinhos de choques” nas feiras populares. Verificou, ao fim de prolongada observação, que a regra era os condutores das feiras tentarem evitar os choques. “Precisamente ao contrário da vida real”, remata Hewitt.

É simplesmente inacreditável que nós próprios não consigamos ver-nos com o mesmo distanciamento crítico que os estrangeiros e extrair as inevitáveis conclusões. Que não haja uma mobilização geral sobre o assunto, a começar nos médicos, engenheiros e outros profissionais qualificados e a acabar nos cidadãos mais anónimos. Que não haja a actuação necessária dos políticos e das polícias. Que não se criem medidas de excepção para acabar com a excepção que somos na Europa.

Apesar de não ter estudado o assunto com a profundidade que ele merece, tenho uma teoria, admito que não científica, sobre o assunto. Estou em crer que os portugueses nutrem um desdém profundo pelas leis da física (nomeadamente as duas leis que presidem aos choques: a lei de conservação da energia e a lei de conservação da quantidade de movimento) e não acreditam que elas se apliquem aos seus próprios veículos. Acreditam, quando muito e vagamente, a acreditar nas notícias dos jornais, que essas leis sejam eventualmente aplicáveis aos veículos dos outros. Dizendo a mesma coisa de uma outra maneira: os portugueses acreditam em milagres.

Essa tendência para ignorar as leis naturais substituindo-as pela fé em milagres é tão ancestral como o país. Pois não começou Portugal por altura do famoso milagre de Ourique, gralas ao qual os mouros, em número muito superior a nós, acabaram juncando o chão rés-vés-campo-de-Ourique? Foi preciso o historiador Alexandre Herculano, vários séculos depois de Ourique, para ficarmos a saber que essa batalha nunca podia ter ocorrido em Ourique no Alentejo pois nessa altura o país terminava pouco abaixo de Coimbra (há um Chã de Ourique perto de Coimbra, mas também aí não ocorreu nenhum milagre).

Mais tarde, ficou famoso o milagre de D. Fuas Roupinho no Sítio da Nazaré, um milagre parecido com um moderno acidente de viação. Recorde-se a história, para quem já não se lembre dela. A alimária de D. Fuas circulava a grande velocidade por um caminho que desembocava num precipício sobre o mar. Pois o veículo não esteve com contemplações: meteu os travões a fundo nas patas de trás e ergueu as da frente num número digno de figurar no melhor circo. O condutor agarrou-se ao veículo como pôde, mesmo na ausência den cinto de segurança. Pouco importou que a energia e a quantidade de movimento se tivessem de conservar, pois a física ainda não tinha nascido e essas palavras do seu jargão técnico ainda nem sequer tinham sido criadas. Importou sim que D. Fuas sobreviveu, como prova a capela edificada no Sítio.

Pois hoje circulamos em veículos que têm bastantes mais cavalos do que o único que tinha D. Fuas. Mas continuamos a acreditar que o milagre vai acontecer quando, velozes, deparamos com uma curpa muito apertada, ou quando fazemos uma ultrapassagem nos limites.

Se, nas circunstâncias, me é permitido como a Hewitt algum humor negro, sempre direi que há males que vêm por bem: felizmente que esta crença nacional no milagre se tem vindo a desvanecer com o número assustador de mortos. Os mortos já não acreditam em milagres. Muitos vivos a quem o caso toca mais de perto por lhe terem morrido familiares e amigos (haverá alguma família portuguesa sem vítimas de trânsito?) também já não acreditam. As leis da física, que se aprendem ou se deviam aprender na escola, estão a ser cada vez mais interiorizadas, embora de uma maneira trágica.

14 comentários:

  1. O que me que parecer (oxalá esteja enganado) é que o problema da sisnistralidade rodoviária é apenas uma questão de educação e de civismo.
    Concordo plenamente com o prof. Carlos e da sua preocupação pela não aprendizagem de Física básica, mas, mais grave do que isso, é triste constatar que a Escola não anda a servir para nada.
    Por que será que, em tudo que é sinónimo de atraso, aparecemos (quase) sempre nos primeiros lugares? Tenho que, na base de tudo isto, está a falta de alguns princípios básicos que deveriam ser aprendidos e transmitidos (sim, porque a Escola também deveria ser um local de aprendizagem...) desde muito cedo. Provavelemente, não será fácil mostrar esta relação, mas deve haver...
    E não vale a pena, não adianta aumentar a repressão e as multas. Quanto maior a multa (então se for por excesso de velocidade...), maior o "status" do condutor... Há coisas que devem ser interiorizadas desde muito cedo, e alguma educação básica faz (deveria fazer...) disto parte.
    Por muito mal que a coisa esteja, pode sempre piorar; se não piorar, já não é mau...

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  2. A meu ver, o problema dos acidentes rodoviários não pode dissociar-se de outros dois pesadelos: os acidentes de trabalho e os acidentes domésticos.
    Todos eles têm origem na falta de sentido de segurança dos portugueses. Isso aprende-se. Alguém ensina?
    Fiz 2 cursos de engenharia, bacharelato (1966) e licenciatura (1983), e ninguém me falou em segurança no trabalho. Falou-se, sim, em organização do trabalho, mas nunca em segurança.
    Se os futuros dirigentes não são sensibilizados para a segurança, como hão de a aplicar e incutir nos trabalhadores?
    Também interessa que se tenha determinada actuação porque é segura e não para evitar a multa.
    Se começarmos agora a incutir o sentimento de segurança nos jardins de infância, como já se faz com a separação dos lixos, talvez daqui a 20 anos tenhamos um país diferente.

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  3. Caro Professor: A condução perigosa deixou de ser apanágio das estradas. Em plena cidade, muitos carros circulam de noite com os máximos, e a não utilização dos piscas serve para jogar ao gato e ao rato com os outros automobilistas nos cruzamentos impedindo a fluidez do trânsito: será que seguirá em frente, vai virar à esquerda ou vai virar à direita? E isto muito nos confunde por haver 33,333333333...% de probabilidades para cada uma das hipóteses!E assim, obrigo-me a estar de acordo com o anónimo de um dos comentários anteriores: muitos dos acidentes da estrada ou da cidade se ficam a dever a questões de educação e civismo. Eu diria mais.Devido ao aumento exponencial de automóveis de umas escassas décadas para cá não houve tempo para interiorizar a passagem das carroças para os automóveis. E isso, atesta-se, até, pela linguagem de carroceiro de certos automobilistas ao volante de poderosas "bombas" quando insultam as pessoas pondo-se
    em fuga pernas para que te quero. Melhor dito: muitos cavalos e elevadas cilindradas para que vos quero? Amanhã, hoje como ontem, quando foi escrito o artigo aqui reproduzido em boa hora, continuar-se-á a discutir esta problemática de desfecho trágico pelo aumento preocupante de sinistralidade. Outros motivos e outras explicações se juntam a estes que mais não são que a ponta visísivel de um estranho icebergue em que as multas por falta da utilização do cinto de segurança do condutor é penalizada em pé de igualdade (ou mesmo de superioridade!) com uma manobra perigosa que põe em risco a vida de quem a comete,de quem com ele viaja e dos passageiros das outras viaturas envolvidas.

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  4. Tambem concordo que se trata sobretudo de falta de civismo. A par da educação civica que não há mas devia logo nos jardins de infancia e não nos 2º e 3º ciclos o estado tem a responsabilidade de punir pesadamente as infracções, uma fiscalização apertadissima nas escolas de condução, uma carta com pontos como em espanha que por cada tipo de contra ordenação desconta 1 x de pontos e quando chegar a 0 vai tirar-la novamente, fim da exepção da carta à mais de 3 anos, passam a ser iguais tenham carta há 1 ano tenham há 20, caixa negra nos automoveis, limitador a 120 Km hora em todos os veiculos independentemente dos anos de carta e dos proprietários, velocidade a baixar em veiculos não ligeiros se se justificar e por ultimo se possivel um detector de alcolismo no condutor embutido na viatura se o teste não for positivo o veiculo não arranca, ah e impostos elevadissimos nos automoveis de grande cilindrada para dissuadir a sua compra e condução.
    As vezes é preciso ser tudo à força para as pessoas aprenderem, talvez com estas medidas baixasse um pouco a percentagem de mortes nas estradas..

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  5. Se Deus existe e é bom, porque é que há tantos mortos nas estradas portuguesas?

    O melhor mesmo é ir apurar responsabilidades junto dos portugueses.

    O problema das estradas portugueses é uma vergonha nacional.

    O mesmo tem como causa primeira a falta de respeito pela vida humana, sancionada por consequências demasiado brandas ou praticamente inexistentes para quem intencional ou negligentemente causa acidentes.

    A vida humana tem a máxima dignidade, porque criada à imagem e semelhança de Deus. Cada ser humano não é um mero acidente cósmico, mas tem um valor intrínseco enquanto Criatura de Deus.

    Atentar contra o ser humano é atentar contra o Seu Criador.

    No entanto, tudo isso parece ser irrelevante neste país que se diz maioritariamente católico.

    Temos, portanto, uma escolha.

    Ou continuamos a violar sistematicamente os limites de velocidade e demais proibições que visam proteger a vida, ou mudamos a nossa conduta, e teremos menos mortos nas estradas.

    O que se passa nas estradas portuguesas é um democídio.

    Em última análise, não é uma questão de milagres. Nós fomos criados livres e responsáveis. É uma questão de atitude e de comportamento moral.

    Temos a escolha de guiar com cuidado ou sem cuidado. A nossa escolha terá consequências boas ou más.

    Se escolhermos guiar sem cuidado, não devemos vir depois perguntar porque é que um Deus bom permite tantas mortes nas estradas portuguesas.

    Há que censurar socialmente quem ultrapassa os limites de velocidade ou quem bebe alcóol antes de ir para a estrada (ou mesmo enquanto conduz).

    Há que censurar socialmente quem constroi veículos com possíbilidade de andar a 200 Kms por hora ou (muito)mais.

    Há que adequar as sanções à realidade das estradas, como tem sido feito noutros países.

    A falta de respeito pela vida humana vê-se igualmente no modo como as indemnizações por danos físicos e morais são irrisórias e mesmo caricatas. As seguradoras estão claramente mais preocupadas com os seus lucros.

    Os acidentes de viação mostram o que acontece quando se ignoram as normas e se desrespeita a vida humana.

    Quem se diz cristão deveria procurar respeitar sempre os limites de velocidade, sob pena de estar a ser inconsistente com as suas crenças.

    Só espero que as estradas portuguesas não se convertam, em termos socio-darwinistas, num espaço dominado pela lógica da "sobrevivência do mais apto", isto é, pelo lógica do "triunfo dos condutores mais favorecidos na luta pela vida".

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  6. "O que se passa nas estradas portuguesas é um democídio."

    Que quer isto dizer?
    Que o inferno está cheio de maus condutores até à porta?

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  7. Li atentamente este "post" e os comentários, e senti-me tentado a deixar a minha opinião, até porque me sensibiliza cada vez mais este assunto pelo facto de a minha profissão me obrigar a fazer muitos quilómetros semanais por estas estradas nacionais, uma vez que sou comercial, ou vulgo caixeiro-viajante, espressão esta que expressa melhor esta necessidade de conduzir.
    Sinceramente, conduz-se mal em Portugal, mas não me acredito que este seja um defeito apenas dos portugueses. Como já é comum criticar-se por criticar, infelizmente este é o nosso fado, tudo é mau, somos sempre os piores em tudo.
    Já o li noutros comentários, e esta é a verdade. Falta civismo e educação aos condutores portugueses.
    Tudo começa por aqueles que deveriam ser o exemplo, aqueles que fazem da condução a sua profissão, e infelizmente a praticam tão mal.
    De que servem as escolas de condução se os instruendos se mentalizam que tudo o que lá aprendem é para se desrespeitar, e pior, esquecer?
    Infelizes dos engenheiros que perderam dias a desenvolver os piscas, e agora toda a gente abusa em achar que não servem para nada. Ou as luzes que os nossos condutores teimam em não ligar com medo que gaste muita bateria, ou então a andar com elas fundidas até ao dia em que o carro vá à inspecção.
    Mas o pior meus senhores, e esta é para mim a maior causa de acidentes e distrações nas nossas estradas... os telemóveis.
    Porque será que os portugueses se acham uns ases do volante com apenas uma mão disponível, e atentos a uma conversa qualquer?
    A culpa, a culpa é da crise e do governo, porque os portugueses compram 3 telemóveis por pessoa e depois ficam sem recursos para comprar um auricular.
    Agora venham dizer que a culpa dos acidentes é só o excesso de velocidade e o alcool.
    Eu prefiro cruzar-me nas estradas por certos condutores a velocidades superiores a 120kmh, concentrados na sua condução, do que nos distraídos ao telefone, em conversas de cá-rá-cá-cá, fazendo manobras realizaveis aparentemente apenas em sonhos.
    Por favor eduquem as nossas crianças para que elas chamem de burros aos pais quando os virem a desrespeitar as regras de trânsito.
    Qualquer pai decente se sentirá envergonhado e talvez aí mude a sua atitude ao volante.
    A todos boa sorte na estrada, e votos de um melhor ano de 2008.

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  8. "A todos boa sorte na estrada, e votos de um melhor ano de 2008."

    Também é o meu.

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  9. "somos o que nos ensinam"

    Alguém o disse, se não está dito por mim.

    A culpa é dos "portugueses", essa massa aparentemente inerte e homogénea de matéria orgânica. Pois bem, que seja. Mas os portugueses biologicamente não são diferentes dos outros condutores europeus, pelo que devo concluir que a culpa deve ser da socialização que se lhes é proporcionada. E aqui o que temos?
    Temos ignorância. Da pura e da dura. Não racionaliza, não relaciona, não interpreta...

    O que vai na cabeça de alguém (e, aparentemente são muitos), que vai a mais de 100 Km/h numa estrada em que notoriamente não deveria circular a mais de 60 ou 70 Km/h?

    Vai a vidinha. Já José Gil falava na "pequenez do português". Vai a pensar em SI e não nos OUTROS, que partilham com ele uma parte da realidade - a de se cruzarem eventualmente na estrada.

    Não penso que o façam sempre, aliás ninguém o deve conseguir fazer, mas convenhamos que o farão vezes demais.

    Na cabeça dos tais portugueses ou vai muita preocupação ou vai muita ignorância. Sei lá!

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  10. A grande diferenca entre Portugal e o resto da Europa no que concerne em seguranca rodoviaria nao sao os condutores e sim a propria infra-estrutura: as estradas.
    O problema de sinistralidade sao as estradas mal construidas: repito mal construidas. Em Portugal conduz-se mal porque e dificil conduzir em estradas que se transformam em lagos artificiais sempre que chove mais de 15 minutos, porque se fazem entradas para estradas reservadas a circulacao automovel com duas faixas de rodagem tal qual cruzamentos, porque se fazem saidas de auto-estradas com curvas apertadissimas com camber adverso poucos metros depois de se sair de uma estrada com velocidades medias de 120 km/h.
    Porque se fazem rotundas confusas e mal desenhadas, nem sequer vagamente circulares algumas sao... passadeiras colocadas aparentemente aleatoriamente e, cereja no topo do bolo: o PEAO tem prioridade nas passadeiras... esta e uma das principais causas de morte nas estradas em Portugal: atropelamentos, ora vejamos, numa estrada, temos dois veiculos a cruzarem-se, um automovel com tonelada de aco e para choques e meia a circular a va la 40 km/h e um senhor de meia idade a 4 km/h com 70 ou 80 kg, entre este senhor e o mundo envolvente, existe uma fina t-shirt... ora neste cenario quem e que a lei rodoviaria portuguesa tenta fazer parar? O peao que circula a 4 km/h e que consegue parar em menos de 1 segundo na beira da estrada? NAO, o automovel com tonelada e meia e 40 km/h de energia cinetica concentrada... os fisicos ca da casa que facam as contas...
    O meu ponto e: no Reino Unido nenhum peao tem prioridade sobre automaveis excepto se a passadeira tiver um semaforo. Em Portugal, muita gente se "atira" para a estrada porque legalmente tem prioridade... pois... isto e tao esperto como comecar a discutir com um tipo que brande uma 9mm a nossa frente porque legalmente e proibido ele disparar a arma na nossa direccao...

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  11. concordo com o Armando Quintas. O problema é de educação. A ingestão de bebidas alcoólicas pelo condutor do veículo é a causa principal dos acidentes de trânsito.
    Mas tem mais: a falta de manutenção do veículo(freios, pneus, limpador de parabrisa, e faróis).
    Além disso a falta de habilidade para dirigir: o sujeito, por exemplo, faz 18 anos, tira a carteira nacional de habilitação e sai a viajar, inclusive a noite.
    Finalmente, para concluir, as estradas esburacadas e sem manutenção.
    Claro que existem outros fatores nos acidentes de trânsito: idade do condutor, ingestão de lautas refeições e depois viajar, excesso de velocidade, etc...
    anton dytz de porto alegre, rs, brasil.

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  12. esta conversa dos portugueses, dos portugueses, dos portugueses, é absolutamente maçadora. sinceramente o autor do post nunca conduziu fora de Portugal? e se o fez notou alguma diferença significativa em todo o lado? e alguma vez se deu ao trabalho de ler a imprensa dos restantes países sobre os acidentes rodoviários que neles ocorrem diariamente e os problemas da segurança rodoviária que sentem? uma sugestão seria tentar tratar este tema de uma forma objectiva e desapaixonada fugindo os sempiternos clichés moralistas de meia tigela sobre os portugueses ao volante. seria mais divertido e possivelmente até mais útil.

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  13. Discordo frontalmente da opinião do lowlander, e infelizmente constato que é anti-pedagógica. Se é verdade que já enjoa estar sempre a falar dos "portugueses" para a esquerda e dos "portugueses" para a direita (deveria porventura dizer-se antes "as pessoas", uma vez que já se sabe que estamos - quase todos - em Portugal), também é estúpido culpar as estradas ou condenar o "moralismo". O moralismo, desde que bem aplicado, é precisamente do que necessitamos. Que algumas pessoas não acreditem na existência de uma moral objectiva (evidentemente não-religiosa), o problema é delas. E quanto às estradas, a posição do lowlander parece ser a mesma da de um peão que se atira para a frente de um carro em movimento: como as estradas são más, vamos ignorar esse facto e andar nelas como se fossem boas. Evidentemente, se as estradas são más (e apesar de tudo não são tão más como já foram), a atitude inteligente é adequar a nossa condução a elas, e não fingir que essa dificuldade não existe, como que "amuando" com o Estado (o bombo da festa de sempre), que as deveria ter construído melhores...
    Quanto à questão particular das passadeiras, se os automobilistas sabem que o peão tem prioridade, têm que reduzir a sua velocidade convenientemente na proximidade de uma passadeira de forma a que os atropelamentos sejam quase impossíveis, mesmo que o peão se "atire" para a sua frente. É para isso que existe o limite de velocidade de 50 km/h nas cidades, que provavelmente terá mesmo que ser reduzido à discrição do condutor, em função das circunstâncias particulares. Quantas vezes não me aconteceu ter que reduzir para 30 km/h ou mesmo 20 km/h quando circulava numa rua de várias faixas onde um automóvel estava parado na faixa ao lado da minha junto de uma passadeira, para evitar o atropelamento de alguns peões (ocultos) que pudessem ter começado a atravessar. E isso não me doeu particularmente! O que faz falta, antes de mais, é humildade face às regras de trânsito, e muita paciência, virtudes em que infelizmente, somos mais pobres do que propriamente em dinheiro (desculpem mais este comentário etnográfico, mas verdadeiro).

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  14. Caro Miguel,

    Sugiro que volte a aler o que escrevi. Nada do que la esta sugere que "como as estradas são más, vamos ignorar esse facto e andar nelas como se fossem boas".
    O que eu escrevi e que nao e que com moralismos faceis e bacocos, na melhor das hipoteses, a eficiencia no combate a sinistralidade sera gravemente reduzida e dou-lhe ja dois exemplos exemplos muito simples:
    IP5, ate ha um ano atras ((?)nao me lembro, alguem que me corrija) a estrada mais perigosa do pais, desde a sua construcao reclamou a vida de milhares de pessoas ao longo mais de uma decada. O que e que teve maior efeito? Todos os milhares de operacoes Pascoa, Natal, tolerancia zero, sub-zero et al ou o upgrade dessa arteria fundamental a auto-estrada?
    EN125 outro cancro, desta vez no Algarve, o que e que e resolveu o problema ai? Moralismos bacocos, "regras de adaptacao as condicoes existentes" ou a construcao de uma auto-estrada com tracado paralelo?

    O que eu argumento e muito simples: e mais eficiente (e mais barato ja agora, fazer uma estrada facil de conduzir que tentar condicionar o comportamento de milhares de condutores numa ma estrada.
    Ate que essa dita estrada se materialize, e obviamente necessario introduzir regras e tentar condiciona o comportamento das pessoas. Agora que ninguem se iluda, tal metodo nunca fara de nos (Portugal) o pais seguro nas estradas que queremos.

    Posto o acima, e virando-me para os peoes, pergunto ao Miguel que analise objectivamente a questao, repare no caso de uma auto-estrada, um veiculo que tenta se integrar no transito dessa via tem prioridade sobre os que ja la circulam? Porque? Faria sentido ser ao contrario? Repare que seria um simples artificio legal muito semelhante a passadeira: a partir de agora e quem circula na auto-estrada que tem de abrandar, puff! Magia! Entao agora analise objectivamente a passadeira: porque, porque e que e o automovel de tonelada e meia a multiplicar por 40 km/h que tem de parar e nao o senhor de meia-idade com 70 kg a multiplicar por 4km/h?

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