segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

A mediana da atracção

«It is certainly not true that there is in the mind of man any universal standard of beauty with respect to the human body. It is however, possible that certain tastes in the course of time become inherited, though I have no evidence in favor of this belief.» Charles Darwin, «The descent of man».

Há uns anos tive como prenda deste dia, ou antes, desta noite, o livro «Uma investigação filosófica sobre a origem das nossas ideias do sublime e do belo» de Edmund Burke. Para Burke, a beleza é «uma qualidade dos corpos que age necessariamente sobre o espírito humano, através dos sentidos», de certa forma conciliando o que propunha Platão - para quem o belo é o bem, a verdade, a perfeição, isto é, a beleza existe em si mesma, a concepção do belo é independente da avaliação humana - e Aristóteles, que considerava que o belo era inerente ao homem e não podia ser dissociado do mundo sensível.

Mas para além da contemplação estética dos filósofos e da presença da questão do belo nas inquietações humanas, o tema beleza não é alheio à ciência, nomeadamente, apesar de a ciência não nos explicar (nem o pretender) porquê o João casa com a Maria tem tentado investigar porque razão o João acha a Maria atractiva e vice-versa. Embora o conceito não seja uniforme, há faces que eu considero atraentes e a minha irmã nem por isso, e existam mais factores que não apenas a beleza física que determinam se uma determinada pessoa é ou não atraente para outra, existe certamente uma relação entre beleza e atracção (nem que seja aquela à primeira vista).

Há muito que se considera existirem alguns factores biológicos associados à atracção, nomeadamente por elementos do sexo oposto, como se verifica no restante mundo animal.

Por exemplo, nos macacos Uacari de cara vermelha (ou macaco-inglês, por associação com o rubor alcoólico) que vivem em florestas da Amazónia inundadas - nas margens dos rios de água barrenta chamados «rios de água branca» de origem andina onde vivem igualmente mosquitos transmissores de malária -, a cara vermelha é um atractivo sexual muito importante. A cara vermelha indica que o macho é imune à malária e um uacari não imune, facilmente identificado pela facies pálida, é um celibatário ignorado pelas fêmeas.

Na realidade, muitas características sexuais secundárias, como as majestosas plumas dos pavões macho, são uma espécie de «garantia» para a fêmea dos bons genes de quem as exibe e uma indicação de que é boa ideia escolher esse exemplar para progenitor da prole respectiva. Embora exista uma componente socio-cultural muito forte que determina os nossos padrões de beleza, algumas características que consideramos belas são provas da «excelência» dos genes, como seja o facto de em regra não considerarmos atractiva uma pessoa muito assimétrica - pensa-se que a simetria humana está associada a um bom sistema imunologógico.

Factores biológicos à parte, contrariamente ao que muitos pensariam, há beleza na mediania e muitas faces que consideramos belas são protótipos da nossa espécie, uma média das características faciais mais comuns. Fiquei surpreendida com o que obtive num site onde os nossos leitores podem repetir a minha experiência de fazer a média de caras que considerei pouco atraentes e descobrir que a média dessas caras resulta muito melhor que as componentes, ou seja, que a mediania pode ser muito atraente.

O «Mundo da Ciência» apresentou recentemente um artigosobre beleza muito interessante especialmente porque devolve à beleza parte do mistério que estudos anteriores tinham «roubado» e porque indica que há algo mais do que a mediania no que consideramos belo. Uma equipa de psicólogos publicou na edição de Dezembro da revista «Journal of Experimental Psychology: Human perception and performance» um artigo que, tal como no site indicado, refere que achamos a média bela, mas:

«Existem características fora da média que são particularmente atractivas. Os nossos resultados sugerem que enquanto a média é uma das componentes do que torna alguém atractivo existe pelo menos outra componente ... não explicável pela medianidade».

O estudo não mergulhou nas questões mais profundas que o conceito de beleza implica, nomeadamente não se debruçou muito sobre o que esta componente fora da média pode ser, mas sugere que um desvio muito grande da mediania, por exemplo, um nariz demasiado pequeno, resulta em caras bizarras que os voluntários que participaram no estudo consideraram pouco atraentes. O mistério da beleza permanece mas estou certa que se alguma vez for desvendado, o fascínio e atracção que o belo exerce sobre nós permanecerá inalterado...

6 comentários:

  1. Adorei o exercício das "médias de caras"...
    Não faço ideia de como se faz aquilo mas efectivamente reparei que as misturas de caras resultam sempre (?) melhor que as suas componentes isoladamente.
    São quase sempre "consistentemente" mais belas mas por outro lado é uma beleza "sem sal"...(peço desculpa por estar a usar estes termos sem definição prévia).
    Acho as mulheres virtuais que obtive muito bonitas mas não sei se me apaixonaria por um rosto daqueles...um certo grau de imperfeição pode alegrar muito as coisas. A selecção que existe no site não me agrada...gostaria de ver mistura de caras que por si são já muito belas, misturadas...provavelmente o efeito ia ser o mesmo.

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  2. Caro rcc,

    Não faço a mínima ideia do(s) algoritmos envolvidos nas imagens "médias" referidas mas deduzo que serão semelhantes às utilizadas na
    morfometria geométrica.

    No Workshop de morfmetria geométrica que organizei e co-ministrei com James Rohlf e Jesus Marugan, em 2004, a título de exercício foi gerada uam imagem consensus (média) dos 25 participantes. Foram utilizados algoritmos de Image Unwarping, relativamente comuns em técnicas de análise de morfometria geométrica.
    Foram utilizados 16 landmarks nos olhos, nariz e boca.
    Imagem consensus no link anterior.

    Cumprimentos

    Luís Azevedo Rodrigues

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  3. Bom, para já há que distinguir entre a "beleza natural" e a "beleza artística". Não são a mesma coisa, e já Aristóteles nos avisava que aquilo que "naturalmente" nos parece repugnante "artisticamente" nos pode parecer belo.

    É preciso lembrar que a "beleza artistica" é uma beleza complexa, com pelo menos três vertentes, uma "poiética" (criação de um objecto novo), uma estritamente "estética" (suscita percepções radicalmente diferentes) e uma outra a que podemos chamar de "catártica". Caso contrário, a Estética é mesmo um assunto de cabeleireiros.

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  4. PFS, é muito interessante o resultado da sua pesquisa. Permita-me que acrescente o que tenho investigado no domínio da beleza fisiológica:

    Aceitando que o cérebro pensa com o corpo, pergunta-se se existirá algo que se possa definir como um sentido objectivo da proporção. A questão que, desde sempre, tem preocupado pintores, escultores e arquitectos, parece ter uma resposta no artigo de Bryan Avery *, onde se sugere que relações como a do número de ouro **, se explicam pela fisiologia do olho:

    “O olho, o espírito e a mão dão forma à arquitectura e dão-lhe sentido. Contudo nós hoje, infelizmente, apelamos de forma crescente apenas ao espírito. Preocupamo-nos com que o nosso trabalho seja considerado mais interessante que belo e dando realce ao nosso espírito, desvalorizamos tanto a mão e o olho, que agora raramente os podemos referir. Eles necessitam de uma linguagem evasiva e poética, à qual nos tornámos hostis. Parece que assumimos tacitamente a aceitação de que a estética é uma disciplina subjectiva e se ela satisfaz o espírito deixamos de precisar de dar atenção ao olho.
    Os arquitectos sempre se questionaram sobre o que faz uma forma parecer mais agradável aos olhos do que outra. O quadrado, o duplo quadrado e o “rectângulo de ouro”, ou “secção de ouro” são formas que têm sido insistentemente afloradas em tratados de estética desde Platão, o que não surpreende se considerarmos que o olho através do qual vemos, é o mesmo que os antigos experimentaram.
    Para a focagem o olho dispõe de uma área surpreendentemente pequena e comporta-se como um geómetra, conseguindo focar duas áreas foveais na trajectória de uma bala caindo, fornecendo ao cérebro ângulos diferenciais ajustados em cada milésimo de segundo da sua passagem e registando então o ângulo e a distância em relação a tudo o que o corpo intersecta.
    Com a necessidade de tão rápidas e exactas triângulações, o olho concentra os seus movimentos dentro de uma diminuta zona.
    (…) O resultado intrigante [das experiências efectuadas, não reproduzidas neste breve comentário] é o de que quando olhamos para o mundo, a nossa visão dele é enquadrada pelos limites globais da nossa visão periférica e a linha central do olho nos seus eixos verticais é colocada quase exactamente na sua “secção de ouro”.
    (…) “Embora pareça coincidência, isto poderá indicar que haja uma relação geométrica dentro da própria estrutura do olho. Isto não significa que nós vejamos necessariamente essas relações, mas sim que o olho se comporta como se as achasse mais fáceis para se acomodar e o espírito as reconhecesse como familiares.
    Se formos agora um pouco mais longe e registarmos as relações angulares de ambos os olhos, como na visão binocular e as projectarmos para o infinito, (…) então o campo de visão global, que é o contexto no qual a nossa visão do mundo se enquadra, é, ele próprio, uma “regra de ouro”.
    Além disso, (…) se introduzirmos a distância entre olhos e registarmos uma distância média de 500mm, a nossa visão global do mundo é ainda enquadrada pela proporção de um “rectângulo de ouro”.

    * Avery, Bryan, Phisiological Beauty - Architectural Review, April 1993
    ** A “secção de ouro” é o ponto no qual um segmento de recta pode ser cortado de forma a que a parte menor está para a maior, assim como a maior está para o todo. A razão é 1: 0,618 e o “rectângulo de ouro” é um rectângulo com a mesma relação entre os dois lados.

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  5. Afinal:
    1. Lisenko era um descent de Darwin.
    2. Há algum nevoeiro teleológico na biology of beauty
    3. O Journal of Experimental Psychology: Human perception and performance» explica porque nos resignamos à democracia representativa e, porque, por vezes, somos atraídos por demagogos: «enquanto a média é uma das componentes do que torna alguém atractivo existe pelo menos outra componente ... não explicável pela medianidade».
    HCM

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  6. Boa tarde. Estou neste momento a estudar o fenómeno de atractividade para integrar na minha tese sobre atracção inicial. Não conhecia a referência do Journal of Experimental Psychology.
    Muito obrigado!

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