sexta-feira, 21 de maio de 2010

A sangria


Com a devida vénia publicamos, como de outras vezes, a crónica do médico José Luís Pio de Abreu que saiu no "Destak" de hoje:

Antes do século XVII, os médicos europeus prescreviam a sangria por tudo e por nada. Na verdade, eram tão incompetentes como grandiloquentes. Agarrados aos dogmas, pouco mais sabiam do que profetizar a desgraça com nomes sonantes ou prescrever sangrias.

E mesmo estas eram executadas por barbeiros de casta inferior, pois os sacrossantos médicos não podiam sujar as mãos com o sangue dos desgraçados.

No século XVIII, as coisas começaram a mudar por várias razões. Primeiro, os barbeiros tornaram-se cirurgiões e médicos, confiando mais na observação directa do que nos dogmas.

Segundo, descobriu-se que a cólera vinha da água contaminada. Pasteur e a imunização viriam a seguir e, só no século passado, passaríamos a dispor dos antibióticos. Identificados os agressores – vibriões, bacilos, cocos, riquétsias, vírus – existem hoje várias formas de nos defendermos. A sangria desactualizou-se.

Parece que também existem comunidades – instituições e países – que estão doentes. Os seus médicos – os economistas – só sabem profetizar desgraças ou receitar sangrias. Do cimo da sua arrogância e dos seus dogmas, também eles entregam a sangria nas mãos da casta inferior dos políticos. Entretanto, vão-se conhecendo os nomes de alguns agressores: short-selling, naked CDSs, agências de rating, edge funds e outros. O remédio, porém, parece ser sempre o mesmo: sangria.

Não se percebe porque é que os tratamentos dos economistas são tão básicos. Mas há quem lembre que os médicos privados podem ganhar mais com a doença do que com a saúde dos outros.

J.L. Pio Abreu

4 comentários:

José Batista da Ascenção disse...

Porque é que os pensadores não se debruçam sobre a possibilidade de sangrar as contas bancárias dos "médicos-economistas", da "casta inferior dos políticos", das agências de rating e outros agressores, fazendo-as reverter para fundos de gestão do bem comum?
Isto será uma utopia ou há-de haver um caminho nesse sentido? E quem nos iluminará o percurso?
Ou a humanidade não tem remédio?
Um meu professor (universitário) afirmou um dia: "O Homem é a única aberração da natureza". Mas foi um grito de raiva.

Francisco Tavares disse...

"Mas há quem lembre que os médicos privados podem ganhar mais com a doença do que com a saúde dos outros". Permito-me citar o último parágrafo. A questão é que os médicos vêm todas as "inconformidades" dos outros profissionais e seguem o exemplo. Por exemplo, receitar corticosteróides, isto é, imuno-supressores, em doenças inflamatórias crónicas. É o modo certeiro de agravar a inflamação. Se por exemplo, for em ambiente oftalmológico, antecipa o aparecimento de cataratas, o que é bom dada a apetência dos oftalmologistas pelas cirurgias desta patologia. Com a benção da Ordem dos Médicos! Pudera! O bastonário é um oftalmologista!

Anónimo disse...

Agora percebo a razão de expressões como "Isto não é caso para sangria desatada". Não há como ouvir quem sabe destas práticas. O caso é que eu, para não ser sangrado com a corda na garganta, me "sangro em são". JCN

Anónimo disse...

Pois é; já tinha visto idêntica proposição pelo sr. Vasco Pulido Valente há uns anos atrás, em que este plumitivio proclamava os economistas como os charlatães de agora, comparando-os aos médicos dos séculos XVII e XVIII. Esta similitude decorre, parece-me, da ignorância de ambos sobre o comportamento da economia.
É pois, um comentário que nada resolve... receitas dos economistas

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