terça-feira, 22 de junho de 2010

POR UM NOVO MUSEU DE CIÊNCIA DA UNIVERSIDADE DE LISBOA


Está hoje em discussão o futuro dos Museus da Politécnica da Universidade de Lisboa. Sem querer "meter a foice em seara alheia", dou, tal como me foi pedido, a minha contribuição, como cidadão interessado pela cultura científica:

1. Os actuais “Museus da Politécnica” da Universidade de Lisboa, juntamente com o Jardim Botânico a eles anexo, ocupam um espaço nobre e histórico da cidade de Lisboa e albergam um notável património científico que importa sobremaneira cuidar, valorizar e promover. Um grande projecto científico-cultural que envolvesse a universidade e a cidade deveria proporcionar um novo centro de atracção na capital. Por outro lado, é uma oportunidade para a Universidade e para o país de tratar de modo profissional todo os eu património científico (incluindo espólio de medicina e astronomia que está noutros sítios, e que corresponde a um legado de importantes actividades científicas nos séculos XIX e XX). Acima de tudo, representa uma oportunidade de a Universidade se abrir ainda mais à cidade, ao país e ao mundo, promovendo a cultura científica para o maior número possível de cidadãos

2. A actual situação, com dois museus em larga medida divorciados um do outro, é insustentável. Ao défice de uma estratégia conjunta e à não optimização dos custos de gestão e “marketing”, acresce o facto de se revelar confuso para o visitante o actual trajecto dentro do espaço. Fez bem, portanto, a Comissão Internacional que apresentou um relatório sobre os museus em propor a constituição de um único Museu de Ciência. Caminhar nessa direcção representaria não só uma sinergia de esforços mas também uma economia de investimento. E significaria desistir de uma tradição de isolamento das várias áreas disciplinares, que é feita tendo em atenção interesses particulares e não o interesse geral do público. A moderna ciência é, de resto, altamente interdisciplinar.

3. O novo museu exige uma refundação que pressupõe um novo nome (procurando, por exemplo, um patrono num dos nomes históricos da ciência em Portugal: Pedro Nunes, Garcia da Horta, Domingos Vandelli, Egas Moniz?) e um novo programa, que deve ser procurado de um modo o mais colectivo possível. Não é curial que o novo Museu seja desde já baptizado com o nome de um dos dois museus actualmente coligados sob a designação de “Museus da Politécnica”. Não andou bem, por isso, a referida Comissão ao propor o nome de “Museu Nacional de História Natural” para o novo Museu. Se se tivesse de escolher uma das actuais, “Museu de Ciência” seria uma designação mais abrangente do que História Natural pois esta faz parte da Ciência e não vice-versa. A concretização desta proposta da Comissão levaria provavelmente à exacerbação de tensões internas em vez de ajudar na indispensável colaboração dos vários sectores disciplinares no projecto, para além da perda, sem honra nem glória, do actual Museu de Ciência. Além disso, as colecções de História Natural existentes em Lisboa, apesar do seu indubitável valor, não justificam essa designação (o último incêndio foi uma catástrofe!). Por último, a escolha do nome sugerido conduziria à desvalorização ou eventualmente exclusão do magnífico Laboratório Químico e do notável Observatório Astronómico, cuja ligação à História Natural só dificilmente é justificável.

4. Existindo outras Universidades portuguesas (Coimbra e Porto) com espólios científicos do mesmo tipo, impõe-se, num país pequeno, de escassos recursos e ainda por cima numa situação de crise, que haja uma colaboração eficaz entre elas, numa estrutura em rede, quer no trabalho técnico de organização e mostra, tanto real como virtual, das colecções, quer ainda na permuta de exposições temporárias ou, pelo menos, de instrumentos, objectos e documentos a incluir nestas. É bom que as escolas superiores com maiores tradições convirjam na defesa de cultura científica. A ligação entre Lisboa e Coimbra, em particular, devia ser reforçada, atendendo até à história comum (Museu da Ajuda devido a Vandelli, Gabinete de Física em Coimbra com origem no Colégio dos Nobres, etc.) A reivindicação junto do governo da nação – que, infelizmente, tem olvidado quase por completo o património científico – de condições de trabalho adequadas poderia e deveria ser conjunta, aumentando com isso a sua probabilidade de êxito. Programas específicos de apoio deveriam contemplar de modo diferenciado o que é específico nas instituições de ensino superior, complementando algoritmos de distribuição orçamental baseados quase só no número de alunos. Essa reivindicação não deve fazer esquecer a angariação de apoios que tem de ser feita junto da sociedade em geral. A sociedade, para ter memória e identidade, necessita da preservação e exibição em condições adequadas do património científico. E este necessita, decerto, de toda a ajuda que a sociedade lhe puder dar.

2 comentários:

  1. É-me muito raro concordar com o Carlos Fiolhais. Contudo, desta feita é-me impossível discordar. Alargo apenas o que diz dizendo que o mal é geral aos museus em Portugal. Veja-se a quantidade enorme de museus (e núcleos museológicos) que existem na área de Lisboa e observe-se imensa especificidade de alguns deles. Ter um museu do palito pode ser engraçado e até respeitável, mas acima de tudo é ridículo num pais sem dinheiro e quase sem museus de referência. Seria de todo racional reunir património. Contudo, creio que isso será impossível, pois há lugares que estão bem sentados e de lá não quereram sair. Tal é o caso, julgo eu, dos museus da Universidade de Lisboa.

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