sábado, 31 de Outubro de 2009

Estamos completamente isolados

Em Agosto de 2008 dei a notícia do trabalho que a professora Alexandra Azevedo levou a cabo com uma turma do ensino secundário que tinha a opção de Grego, conseguindo que ela concluisse o 12.º ano e que um dos alunos (Afonso Reis Cabral) ficasse classificado em 8.º lugar no European Student Competition in Ancient Greek Language and Literature. Em Abril de 2009 pedi um depoimento a ambos, o qual se pode ler aqui.

Voltámos a falar sobre trabalho do mesmo teor relativo ao passado ano lectivo: preparou os oito alunos da sua turma, e novamente um deles, Ana Almeida, foi premiado, ficando em 15.º lugar.

Pedi-lhe novo depoimento sobre esta experiência, que o leitor pode ler de seguida e, com base nele, perceber o estado limite a que, no nosso país, o ensino do Grego e do Latim chegou (são meus os sublinhados que se encontram ao longo do texto).

P: Como correu o concurso deste ano?

R: O concurso deste ano teve um novo encanto. Uma consolidação de trabalho. Um caminho que se abriu. Certezas que se fundamentam… No ano anterior, preparara unicamente o Afonso para o estudo das obras propostas, visto que os restantes seis alunos da turma consideravam – compreensivelmente! – difícil o trabalho a desenvolver.Na verdade, é preciso lembrar que a Annual Competition é prova para alunos de toda a Europa, que no mínimo têm dois anos de Grego, quando não três ou quatro… Os nossos alunos têm um único ano «envergonhado» no final do secundário… e, talvez fosse bom relembrar ainda que , em 2007-2008, eram oito os alunos do ensino secundário português que estudavam Grego – seis deles eram meus. O país não valoriza a cultura clássica. A minha escola tem reagido muito bem a estas participações e reconhece o trabalho que os alunos têm realizado.

No ano que passoudecidi que toda a turma concorreria… Os alunos ficaram algo receosos. O Grego fora a sua escolha na continuidade do Latim e do Português, disciplina de que eu também era professora. Parecia-lhes uma complementaridade cultural desejável. E julgo que foi. Assim, tinhamos dois capítulos da obra de Xenofonte, Memorabilia, para traduzir e comentar literariamente. Fizemo-lo. Converti todo o trabalho linguístico para aquele texto e dediquei-lhe inteiramente o 2.º período.

A Ana foi premiada. Mas o maior prémio que tive foi ver que todos os alunos haviam sido capazes de responder para um nível positivo ao exame, e principalmente que as questões morais que a obra albergava os tinham interessado e motivado a traduzir mais e melhor. Foi, por isso, muito gratificante.

P: Em Abril perguntei-lhe como via o futuro das Clássicas no nosso país. A sua resposta denotou muita apreensão. Depois de mais um contacto internacional, essa apreensão mantem-se?

R: Neste momento… sinto que pessoalmente, é triste dizê-lo, cheguei onde podia. Fiz o que pude com os alunos que fui tendo. Abri portas. Vi novas realidades educativas, ganhei amigos, troquei materiais, viajei e vi o brilho nos olhos de todos os meus alunos que, nestes quatro últimos anos, me acompanharam a Itália ou à Grécia. Reconheço ser parte das suas vidas, sei que o Grego e o Latim marcarão a diferença nos seus percursos académicos. Já na faculdade, reconhecem-no, agradecem-no. Verifico que a seriedade do trabalho desenvolvido teve frutos individuais.

Mas a terra portuguesa… não se deixa salgar, como diria o Padre António Vieira… e, assim, sem um Curriculum que integre, por opção de quem legisla, a disciplina de Latim no Ensino Básico, que acompanhe o ensino do português, e como opção para qualquer área do saber, não é possível ir mais longe. Não há alunos. Mas não os há porque essa opção não lhes é permitida em quadros de disciplinas de carácter mais pragmático. Isto não acontece nos outros países onde os alunos que estudam Ciências, Física ou Matemática têm sempre Latim. O Grego vem por gosto pessoal, numa fase posterior.

Assim, este ano não tive turma de Grego, porque os alunos não tiveram Latim, onde poderia ter «cativado» alguns… Por isso, olho com descrédito o futuro.

P: Ao comparar Portugal com outros países que estiveram presentes no concurso, o que se lhe oferece dizer?

R: Senti-me sempre algo envergonhada, quando questionada por pessoas de fora sobre os motivos por que em Portugal se impossibilita os alunos de aprenderem Grego e Latim. Ninguém compreende. A história é a mesma por essa Europa fora, seja na qualificada Alemanha, onde se chega a estudar oito anos de Latim, na Áustria, na Roménia, na Sérvia, na Croácia onde se estuda a língua por quatro anos ou mais…

É muito desanimador sabermos que os alunos não têm acesso a essas aprendizagens, sobretudo quando se tem consciência, como eu tenho, dos ganhos culturais e cognitivos que os clássicos lhe trazem, da identidade que garantem, do melhoramento linguístico que proporcionam, do questionamento moral que permitem.

Gostaria muito de poder explicar isto a alguém de direito… gostaria muito de poder trabalhar mais por esta causa que defendo convictamente, pois os exemplos de sucesso europeu, que conheci, garantem possibilidades ricas para o nosso país. Mas ninguém parece estar interessado em ver, salvo os alunos que conheceram essa experiência, os seus pais e familiares.

O Latim e o Grego são um passo fundamental no crescimento cognitivo, linguístico e cultural dos alunos e o nosso sistema de ensino ganharia muito, em olhar além fronteiras, e perceber o que aconteceria se seguissemos o que de melhor lá existe.

A verdade, é que no que respeita ao ensino das Clássicas no Ensino Básico e Secundário, estamos completamente isolados, como numa ilha deserta e, paradoxalmente, tudo fazemos para que não nos chegue comunicação…

Fotografia (original): Grupo de premiados do European Student Competition in Ancient Greek Language and Literature do ano lectivo de 2008/2009.

Um comunicado da Fenprof

Novo post de Rui Baptista:

“A vida é um pouco mais complexa do que se diz, e também as circunstâncias. Há uma necessidade premente de demonstrar essa complexidade” (Marcel Proust)

Embora sem comungar totalmente do pessimismo de Antero de que “a nossa fatalidade é a nossa história”, nesta hora de comprovado desastre de uma política educativa que muito se preocupa com meras finalidades estatísticas (como disse Leite Pinto, ministro da Educação do Estado Novo: “Há duas maneiras de mentir: uma é não dizer a verdade, outra fazer estatística”) para consumo tanto interno como externo, como que a modos de pacóvio orgulho nacional que foge, porém, às comparações mais exigentes, deparei-me estes dias com um comunicado/ anúncio da Fenprof no semanário Campeão das Províncias.

Paradoxalmente, a doutrina defendida no comentário da Fenprof está de acordo com as medidas legislativas publicadas anteriormente pela anterior tutela do ministério da Educação (Decreto-Lei n.º 15/2007, de 19 de Janeiro) . Para um cotejar de intenções, transcrevo parte do comunicado da Fenprof: “Os professores são exigentes porque querem o melhor para a Escola e para a Educação”. E, como corolário desse exórdio surge depois o requisito impositivo: “A revisão profunda do Decreto Lei n.º 15/2007, Estatuto da Carreira Docente, factor determinante do descontentamento e indignação sentidos pelos docentes portugueses”.

Uma leitura atenta do que está plasmado no preâmbulo do referido Decreto-Lei contradiz, porém, a falta de exigência para a Escola e para a Educação. Assim, transcrevo desse preâmbulo: “Contudo, a formação contínua, em que o País investiu avultados recursos, esteve em regra divorciada do aperfeiçoamento das competências científicas e pedagógicas relevantes para o exercício da actividade docente”. De facto, como é consabido, grande parte da formação contínua dos professores esteve longe (bem longe, até) de obedecer às louváveis intenções de “aperfeiçoamento” das competências docentes, uma vez que os professores, por falta de formação contínua específica, se viam obrigados a frequentar acções de formação que nada tinham a ver com as matérias que leccionavam. A título de mero exemplo, cursos de música para professores de português (ou vice-versa) nada acrescentavam à formação académica inicial dos formandos, num mundo em mudança constante, em mudança quase meteórica. No dealbar do século XXI, a Educação não pode nem deve fornecer paliativos burocráticos à crise nas escolas sob a capa de uma formação contínua docente que eu chamaria descontinuada, em eufemismo bondoso.

Aliás, no próprio comunicado da Fenprof se dá conta da necessidade de maior exigência quando defende “a abertura de um amplo debate com vista à melhoria da formação inicial dos docentes e uma profunda remodelação da formação contínua” . E aqui reside o caricato da situação. Vir agora a Fenprof a exigir “uma profunda remodelação da formação contínua” com suporte legal em legislação publicada anteriormente pelo Ministério da Educação. Ou seja, em certos aspectos, parece ser mais aquilo que une a Fenprof à tutela ministerial da Educação do que aquilo que as separa...

Mas, por outro lado, em face da polémica extremada que desencadeou, já não existe concordância entre sindicatos e governo na crítica que este faz ao antigo sistema de avaliação dos professores: “A progressão na carreira passou a depender fundamentalmente do decurso do tempo, o que permitiu que docentes que permaneceram afastados da actividade lectiva durante a maior parte do seu percurso profissional tenham chegado ao topo da carreira “. Como disse Virgílio na Eneida, “hoc opus hic labor est”, ou seja, aqui é que reside a dificuldade em conciliar os interesses dos sindicalistas que se perpetuam nos lugares, em alguns casos, sem quase ou nenhuma experiência docente no seu currículo profissional, para evitar a situação escandalosa de titulares de cargos sindicais terem chegado ao topo da carreira docente sem o conveniente exercício docente e respectiva avaliação.

A razão é mais do que óbvia. Mesmo não pondo em dúvida o sentido de “missão” (de que alguns se julgam ou dizem ungidos), um óptimo sindicalista pode ser um péssimo professor e vice-versa. Como advertiu o cientista George Lichtenberg, “se queres provar-nos que és competente em agricultura, não o faças semeando urtigas”.

P.S.: Um outro ponto do comunicado da Fenprof merece uma análise aprofundada que ficará para outra altura. Refiro-me a uma outra exigência sindical: “A extinção da espúria prova de ingresso na profissão docente e respeito pelas qualificações dos docentes e pela autonomia das escolas na verificação das condições para o exercício da profissão”.

Rui Baptista

Ainda a vacina da gripe A

Leio no "Expresso" de hoje que muita gente dos grupos prioritários tem faltado, por uma razão ou por outra, à vacinação. Porque não facultar desde já a vacina a quem não esteja nesses grupos? Eu, logo que possível, quero ser vacinado. E, como eu, haverá muita gente...

Um novo olhar sobre o património ateniense

Novo texto da classicista Alexandra Azevedo

Inaugurado a 20 de Junho passado, construído, em vidro e cimento a cerca de 300 metros da base da colina da Acrópole, e conservando in situ vários e significativos vestígios encontrados durante a construção, o Novo Museu da Acrópole faz jus à ancestralidade e glória ateniense.


"Não estava interessado em imitar o Partenon. O que queria era atingir um nível de perfeição semelhante, mas dentro dos parâmetros da arquitectura do meu tempo", declarou o arquitecto suíço Bernard Tschumi, responsável pelo projecto que contou com inúmeros desafios a ultrapassar, sabido o clima, o terreno sísmico e o traçado da moderna e populosa Atenas.

Esta construção permitiu que fossem devolvidos à cidade todos os símbolos da sua história que se encontravam espalhados por Itália, Alemanha e Estados Unidos, com a excepção do acervo conhecido por mármores de Elgin, que desde há 200 anos é pertença do British Museum.

Como se sabe, este acervo é responsável por um longo e cerrado contencioso entre Londres e Atenas, tendo Atenas hoje mais esperança na sua recuperação, já que o novo Museu reúne excelentes condições logísticas e de conservação, fazendo cair por terra o argumento da superioridade de Londres a estes níveis. Se essa recuperação acontecer, o legado Ateniense volta para próximo do Parténon, o mais antigo e importante monumento europeu.

Para visitar o museu, o leitor pode clicar aqui. E para ver o belíssimo filme da sua inauguração clique aqui.

HUMOR CIÊNCIA: Luís Filipe Menezes diz que num universo paralelo é Primeiro-Ministro

...e está a formar governo


Menezes não é adepto da interpretação probabilística da mecânica quântica (os opositores à interpretação probabilística defendem que Sá Carneiro não joga aos dados), mas sim da interpretação dos multiversos (many worlds), segundo a qual ele próprio é e não é Primeiro-Ministro ao mesmo tempo, mas em dois universos paralelos que não têm qualquer hipótese de comunicar entre si.

David Marçal, no Inimigo Público

Prémios Nobel

Como de outras vezes, destacamos a coluna de J. Pio de Abreu no"Destak":

A atribuição dos Prémios Nobel pela Real Academia Sueca das Ciências tornou-se um acontecimento central da aldeia global. Há muito tempo que a Academia Sueca sabe que os seus prémios não se dirigem ao passado, mas têm um impacto notável na visibilidade dos galardoados e na aceitação das suas mensagens. Foi assim que a atribuição do prémio a Ramos Horta e Ximenes Belo, não só reconheceu a sua luta, mas influenciou decisivamente o nascimento da primeira nação do século XXI e terminou com um possível genocídio do povo de Timor.

Este ano, houve quem criticasse a "precoce" atribuição do prémio da paz a Barack Obama. Curiosamente, os críticos vieram das fileiras dos saudosos da beligerância de direita de Bush, ou dos beligerantes teóricos da esquerda radical. Talvez ignorem que a eleição de Obama restituiu a dignidade à humanidade não branca e sem olhos azuis. E também não repararam que todo o percurso de Obama se baseou no estabelecimento de pontes e contactos não beligerantes.

Pouco se falou do Prémio Nobel da Economia, que pode ser mais significativo. A Elionor Ostrom, foi-lhe reconhecido o seu trabalho sobre a administração de empresas cooperativas. Oliver Williamson notabilizou-se pelo estudo das transacções contratuais e negociais nas margens de empresas de carácter diverso. Ambos trabalharam sobre economias alternativas fora dos mercados convencionais. Se algum prenúncio existir, ele tem a ver com o fim do absolutismo do mercado e das teorias económicas predadoras.

J.L. Pio Abreu

OS PERIGOS IMAGINÁRIOS DOS TELEMÓVEIS

Habitual destaque de fim de semana tirado da coluna "What's New" do físico Robert Park:

"CELL PHONES: CANCER IS THE ONLY THING THEY DON’T CAUSE.

A call to 911 on a cell phone saved my life when a tree fell on me, but I still refuse to carry one of the damned things. They are rude and obtrusive and they go off in my class when I'm lecturing - but they don't cause cancer. Yes, I know¸ there’s another study that says they do. Cancer can result from mutant strands of DNA caused by radiation, but not by radiation in the microwave spectrum. It's not nearly energetic enough, and that's that. These are not studies done in a laboratory; they are statistical studies cooked from phone-company records and seasoned with a handful of celebrity anecdotes. Almost everybody uses a cell phone today. Is brain cancer a new problem?"

Robert Park

Muito Barulho por Nada

Citando Shakespeare, o escritor Cristóvão Aguiar comenta, no seu blogue, as recentes declarações de José Saramago. Ler aqui.

Excerto, em que Cristóvão de Aguiar mostra exemplos da prosa de "Caim":

"Exemplifique-se: “O lógico, o natural, o simplesmente humano, seria que abraão tivesse mandado o senhor à merda, mas não foi assim…”; ou, na mesma página: “Quer dizer, além de tão filho da puta como o senhor, abraão era um refinado mentiroso…”; mais adiante, na página 106, escreve o Nobel: “Lúcifer sabia o que fazia quando se rebelou contra deus, há quem diga que o fez por inveja e não é certo, o que ele conhecia era a maligna natureza do sujeito”… Linguinha de prata, como se diz na Ilha! Saramago já veio pedir desculpa por ter chamado filho da puta ao senhor. Mas, como bom teólogo que está provando ser, logo acrescentou: “Ele não é filho da puta, porque não tem pai nem mãe!”

Nada disto me choca no sentido religioso, mas convenhamos que o vazio de ideias e a escrita paupérrima, esses sim, escandalizam quem quer que seja, crente, ateu ou agnóstico, sobretudo quem ama a boa escrita e detesta mentes distorcidas!"

sexta-feira, 30 de Outubro de 2009

Amadora “invadida” pelos quadradinhos

Informação recebida da editora Gradiva

O Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora acolhe, no próximo fim-de-semana, Korky Paul, o autor da Bruxa Mimi, uma das personagens mais conhecidas do público infanto-juvenil e que, em Portugal, é editada pela Gradiva Publicações

Este autor estará no sábado e no domingo à tarde no Forum Luís de Camões, na Brandoa para sessões de autógrafos e conversa com os visitantes. Fará também uma conferência no dia 1 de Novembro, pelas 15 horas, no auditório do Festival.

A pensar nos visitantes mais novos, o Amadora BD organiza actividades que decorrem no Fórum Luís de Camões. No próximo domingo, pelas 11.30 horas, realiza-se mais uma Hora do Conto sendo, desta vez, será contada a história A Bruxa Mimi no Inverno.

Em ano de comemorar 20 edições, o Amadora BD, que se prolonga até ao dia 8 de Novembro, é cenário para dezenas de exposições de autores estrangeiros e nacionais. Entre os primeiros estão Mauricio de Sousa (Turma da Mônica); Achdé (Lucky Luke); François Boucq (Bouncer) e Korky Paul (A Bruxa Mimi). Entre os segundos estão Rui Lacas, Hugo Teixeira, Ricardo Cabral e Osvaldo Medina, entre outros.

Quanto às exposições, destaca-se a retrospectiva da obra de Rui Lacas, 50 anos de Astérix, 50 anos de carreira de Maurício de Sousa. Além destas, podem ver-se exposições de homenagem a Vasco Granja (na Galeria Municipal Artur Bual), retrospectiva/biográfica de Héctor Germán Oesterheld (no Centro Nacional de BD e Imagem), Cartoon (Recreios da Amadora), Em Traços Miúdos – Pedro Leitão, José Abrantes e Ricardo Ferrand (Kidzania), Riscos do Natural – José Ruy (Escola Superior de Teatro e Cinema) e uma mostra dedicada ao centenário do nascimento de Adolfo Simões Mueller (na Casa Roque Gameiro).

Mais informação pode ser obtida em http://www.amadorabd.com/

Saper Vedere…











O bioquímico António Piedade tem mantido uma actividade de divulgação científica e desenvolve actualmente projectos de comunicação visual em ciências da vida. No último número da Revista da Ordem dos Biólogos publicou um interessante artigo dedicado à rápida evolução das tecnologias de virtualização aplicada à ciência, quer para comunicação com o público quer para ensino. É esse artigo que aqui se reproduz.

“Saper Vedere…”
Leonardo da Vinci

A evolução sensorial da espécie humana “privilegiou” a percepção visual do mundo envolvente. À visão estereoscópica, decisiva para o cálculo instintivo das distâncias, adicionou-se uma visão a cores, sensível desde o vermelho ao violeta do espectro solar. Se a primeira garantiu uma interacção geométrica com o espaço, potenciando o manuseamento de objectos, a construção de ferramentas, os gestos primevos de tecnologias futuras, a segunda garantiu a capacidade de detectar e identificar frutos coloridos nutritivos, vegetais tenros, no meio da vegetação densa. Isto parece também ter contribuído para libertar, progressivamente, os maxilares de “tarefas duras”, originando espaço para uma crescente volumetria craniana.

A acuidade visual associada à estereoscopia e à visão a cores deu-nos vantagens competitivas. A capacidade de encontrar à distância alimentos mais nutritivos melhorou em muito, e em nosso favor, a relação entre quantidade e qualidade de nutrientes assimilados e o dispêndio em energia para os obter. Por outro lado, a panóplia de sabores e aromas associados à explosão de cores e nutrientes deve ter dado aos nossos ancestrais prazeres gastronómicos de recompensa nunca antes sentidos.

Estes aspectos caldearam processos cognitivos num córtex cerebral em desenvolvimento e potenciaram a visão estereoscópica colorida à custa de outros sentidos. De facto, possuímos hoje mais células sensitivas à luz na retina do fundo ocular do que todas as restantes células associadas à percepção dos outros sentidos.

Mas de nada serviria recebermos este forte caudal de informação visual do exterior se não tivéssemos um órgão especializado no reconhecimento de padrões visuais, na integração dessa informação com a de outros sentidos, na interpretação e regulação da nossa posição no espaço físico.













Rede Neuronal. Imagem gerada por computador. Take the wind.

Na realidade, e como já foi dito noutro lugar, precisamos do cérebro para ver. O número galáctico de sinapses entre milhões de neurónios permitiu a contemplação de imemoráveis noites estreladas, acolheu o sonho pela aventura da descoberta e do espanto, afastou o medo frio no luar prateado que aquecia a esperança de o dia nascer depressa, de um filho nascer sorrindo, de ter perto e poder olhar para um rosto afável e familiar, para o grupo, desenvolvendo uma sociabilidade nova num piscar de olho, no intervalo de uma sístole ventricular.

Charles Darwin, no seu livro “A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais”, publicado em 1879, sublinha genialmente a importância da visão na fisiologia cerebral, que permite o reconhecimento das emoções nas expressões faciais e corporais. Segundo Darwin, este reconhecimento visual evoluiu entre os animais e está gravado na longa noite da ainda hoje polémica memória biológica das espécies.

Sem a nossa visão não teria sido possível uma representação gráfica e pictórica do nosso mundo. Aliás, parece ser intrínseco, talvez não exclusivo, à nossa espécie contar histórias, percebê-las e recordá-las através de um pensamento visual. Registá-las para a eternidade na parede de uma gruta secreta e umbilical, escavada na madrugada erosiva de rios amnióticos.

Sem a nossa visão, e a sua contínua interpretação cerebral, não teríamos desenvolvido esta capacidade de observar, tão preciosa para a ciência. Sem dúvida alguma, podemos afirmar que o método e os processos científicos são indissociáveis do uso, da percepção e do pensamento visual. Galileu Galilei começou, em 1609, a observar o universo longínquo ampliando a nossa acuidade visual através do seu telescópio. Leonardo da Vinci (1452 – 1519) considerava a observação directa da experiência como essencial para a descoberta. Deu tanta importância à observação que sintetizou o seu processo de visualização e interrogação da natureza através da frase “Saper vedere, Sapio audacter…”, ou seja, conhecer pelo ver, ousar conhecer... De facto, durante o desenvolvimento conceptual e na planificação experimental é requerido muitas vezes aos cientistas um pensamento visual muito activo. Isto quando não é a própria natureza do objecto em estudo algo puramente visual, algo tão precioso na observação da própria vida. Num exemplo, entre tantos outros possíveis, recordemos a janela aberta para mundo celular pelo microscópio, primeiramente utilizado por Antoine van Leeuwenhoek e por Robert Hooke! Desde Schleiden e Schwann (1838) que não conseguimos pensar (ver) a Biologia sem a “sua" unidade básica, a célula, e sem as ilustrações dela, utilizadas tanto para desenvolver (ou criar), como para ensinar e divulgar conhecimento científico.

É de René Descartes a seguinte afirmação: “A imaginação ou a visualização, e em particular o uso de diagramas, desempenham um papel crucial na investigação científica” (1637). Vivemos actualmente numa sociedade tecnológica muito estruturada na imagem e na visualização desta. A utilização de radiação, de apropriado comprimento de onda, permite “ver” os ossos ou os vasos sanguíneos sem que o clínico tenha de destruir tecidos para os desvendar e poder fazer um diagnóstico.

Muitos exemplos marcantes advêm das tecnologias de imagiologia médica. Estas vieram dar um grande impulso para o estudo e conhecimento dos processos cerebrais, assim como no diagnóstico não invasivo de inúmeras desordens neurológicas.
















Rosto feminino com músculos e ossos em transparência. Take the wind.

Talvez um dia, num futuro não muito distante, possamos visualizar o nosso próprio pensamento visual emocionado, como aquele que já nos é permitido através das já rotineiras ecografias que permitem antever os órgãos, o perfil, os primeiros gestos do nosso futuro bebé, sem o incomodarmos na sua calma noite gestacional amniótica.

Com o actual e rápido desenvolvimento da computação gráfica, associado a uma crescente acessibilidade a utilizadores não especialistas, será cada vez mais comum a visualização do “sub-microscópico”, através de representações tridimensionais animadas e interactivas, ou seja, hiper-realísticas.

Será deslumbrante poder “ver” uma célula a dividir-se, em tempo real, na palma da nossa mão, e poder observar as várias etapas sob várias perspectivas, e assim melhor compreender fenómenos aparentemente complexos, mas que se relacionam directamente com o nosso dia-a-dia, com a nossa saúde!













Ver além da pele. Imagem real com hiper-realismo gráfico gerado por computador. Take the wind.

Como ficou dito, a nossa visão a cores estereoscópica moldou a nossa percepção cognitiva do mundo que nos rodeia. Assim, os processos cognitivos estão modelados para reconhecer padrões tridimensionais multicoloridos. Por isto, não será de estranhar que a utilização de recursos educativos baseados em modelos 3D animados facilite uma melhor e mais intuitiva transmissão do conhecimento científico, entre outros. Não será de estranhar que os estudantes apreendam melhor o conteúdo residente em matérias abstractas, se o suporte de transmissão permitir a sua visualização num formato tridimensional. Sem diminuir a importância do suporte livro e os esquemas/diagramas, isto poderá ser particularmente útil na transmissão de conhecimento daquilo que não é visível à vista desarmada, daquilo que precisa de mil palavras para equivaler a uma imagem (2D). Não será de estranhar se, num futuro muito próximo, a literacia visual de professores e alunos vier a receber um enfoque cuidado e transversal a todo o ensino e a toda a prática científica, tal como defende Jean Trumbo, emérita professora de “comunicação visual e media interactivos” na Universidade de Wisconsin-Madison (USA).

Nesta altura em que comemoramos quarenta anos sobre o primeiro pequeno passo do Homem na Lua, poderemos estar muito próximos de saltarmos para um novo patamar de proximidade entre o conhecimento tecnológico e científico e o público, mediado por estas novas ferramentas de visualização multimédia 3D estereoscópicas.

Que ruptura paradigmática ocorrerá quando for comum o nosso médico de família receber o nosso exame cardiológico, por exemplo, anexado a uma mensagem de correio electrónico. Com um leve toque de um dedo indicador, abrir o ficheiro correspondente num programa de visualização adequado e apresentar o nosso próprio coração projectado holograficamente entre nós e ele. Explicar porquê devemos mudar de dieta e de estilo de vida (sentimos visualmente o esforço cansado do nosso miocárdio mesclado com tecido adiposo excessivo!), ampliar a visualização e destacar uma artéria coronária em perigo de obstrução por acumulação local de colesterol em excesso! Olharmos determinados para o nosso coração e percebemos que não temos tido cuidado com ele.

Surgirão também novas ferramentas e perspectivas para o ensino e disseminação do conhecimento científico, aproximando cada vez mais a ciência às pessoas. O futuro da visualização, que já começou, com as suas potenciais aplicações biotecnológicas, trará uma renovada e actualizada visão sobre as interacções entre o genoma, o proteoma e o metaboloma dos seres vivos, o que permitirá, com certeza, novos momentos de deslumbramento e espanto genuíno, aliados à descoberta de novos horizontes de curiosidade que, com certeza, aumentarão o nosso conhecimento sobre o que é a vida.

António Piedade
antonio@takethewind.com
Núcleo I&D Take The Wind
www.takethewind.com - Connecting Science to People
Imagens de Miguel Castro @ Take The Wind

O VÍRUS ENTRE NÓS



O cérebro humano é fonte de racionalidade. E é também fonte de irracionalidade. Frente a um perigo em larga medida desconhecido, quando o cérebro precisa de ser mais racional, é precisamente quando ele não se esquece de exibir a sua irracionalidade.

O recente caso da pandemia de gripe A é um bom exemplo. As autoridades sanitárias à escala de todo o planeta alertaram para os riscos do novo vírus, cujas consequências não eram à partida nem são hoje inteiramente conhecidas. Sabemos um pouco mais do que no início da epidemia, mas não sabemos ainda tudo o que gostaríamos de saber. Apesar disso, com base no conhecimento existente, foi possível tomar um conjunto de medidas profilácticas, incluindo a preparação num tempo “record” de vacinação adequada. A nova vacina, tal como a da gripe sazonal, confere imunidade com uma altíssima probabilidade. Claro que não havendo vacinas em número suficiente, há que estabelecer prioridades para a vacinação, o que foi feito por todo o lado. Esta é a aproximação racional a um perigo com o qual estamos confrontados e que, embora não pareça ser tão grave como à partida se receava, constitui, de facto, uma ameaça à saúde pública.

Agora a parte irracional. Mergulhados como estamos numa sociedade não só de informação como de desinformação, logo apareceram vozes a desprezar o perigo do vírus. E, pior, a inventar perigos inexistentes da vacina. Nada nos deveria espantar neste mundo, onde a asneira se espalha ainda mais rapidamente do que o vírus. Espanta, porém, ver atitudes irracionais de alguns profissionais de saúde, que tinham a obrigação de expandir a racionalidade. Entre nós, os responsáveis maiores por ordens profissionais não foram suficientemente claros nas suas mensagens. É óbvio que a vacinação é voluntária. Não era preciso virem lembrá-lo. O que era preciso era que apontassem, explicando-as, as efectivas vantagens da vacinação e desmitificassem a contra-informação. O vírus está entre nós. Uma das melhores maneiras de o combater consiste em difundir a cultura científica.

quinta-feira, 29 de Outubro de 2009

Há empolamento da gripe A?

Há empolamento da gripe A? Será um mal exagerado pelos media?

Sobre este assunto vale a pela ler o Cap. 15 do muito estimulante livro de Ben Goldrace, "Ciência da Treta", saído há pouco na Bizâncio:

"Estamos muito mal preparados para dar a volta a questões que envolvam risco, e a epidemiologia das doenças infecciosas é um assunto traiçoeiro: as margens de erro com base nos modelos são vastas, e é extremamente difícil efectuar previsões claras.

Eis um exemplo. Em Glasgow na década de 80, menos de 5% dos toxicómanos que se injectavam eram seropositivos. Na mesma altura a percentagem era de 50%, muito embora as duas localidades estejam à distância de 1 h de comboio. Muitas pessoas têm teorias sobre a razão de se haver verificado uma diferença tão grande no número de indivíduos infectados, e não se duvidará que é engraçado encontrar uma razão plausível post hoc. No entanto, seria certamente difícil de prever.

Talvez algum sujeito com VIH se apeasse do comboio na estação de Edimburgo, em vez de Glasgow, porque lhe deu na veneta, nalgum dia fatídico do início da década de 80. talvez predominasse uma outra cultura entre os heroinómanos, ou os serviços. Ao certo ninguém sabe.

Enfrentamos o mesmo problema com a gripe A. (...) Não dispomos de informações rigorosas. Disseram que cerca de 40% do mundo podia ser infectado. Não será um exagero? Bem, é um número elevado, e estou certo de que não passará de um palpite, mas talvez seja mesmo possível cerca de 40%. É uma maçada, não é , a incógnita?

Disseram também que poderiam morrer 120 milhões. Bem, suponho que até podiam: o cálculo foi, de certeza, efectuado nas costas de um envelope, estimando quantos seriam infectados e que proporção morreria, mas não me parece que alguém tivesse segundas intenções.

A possibilidade de alguém conseguir prever o que acontecerá neste caso será a mesma de alguém ter previsto a enorme disparidade na predominância de VIH entre Glasgow e Edimburgo."

Sobre as notícias dos médias e a desconfiança que as pessoas têm deles, o autor afirma:

"Um risco é isso mesmo. Nunca tive um acidente de viação, porém, não é absurdo pensar no assunto. Simon Jenkins [jornalista do Guardian, segundo o qual as notícias sobre as gripe A eram um empolamento] não terá razão se ninguém morrer, será um sortudo, tal como o resto de nós. As pessoas pensam desta forma confusa nos casinos? A terrível verdade é que sim".

E conclui :

"Foram os média que perderam toda a confiança na sua própria capacidade de nos apresentar os factos".

Pastas e pacotes - 2

Continuação do texto Pastas e pacotes - 1

Um dos pacotes de documentos que constituem um certo manual escolar para o 2.º Ciclo do Ensino Básico traz uma folha A5 onde se pode ler o seguinte:

“Recomendação pedagógica
Recomendamos a utilização conjunta destes produtos como forma de facilitar a aprendizagem dos alunos e contribuir para o sucesso escolar. Trata-se apenas de uma recomendação, pelo que os produtos podem ser vendidos separadamente por simples opção, sem que acresça qualquer encargo ao adquirente.”

Parece uma recomendação inócua, acertada até… Porém, se a analisarmos com algum detalhe, poderemos ser levados a concluir algo diverso.

1. Atentemos, antes de mais, na palavra “facilitar”. Neste texto, o que significa, efectivamente, uma vez que no quadro da Pedagogia tem adquirido vários sentidos? Significa minimizar a aprendizagem, em termos de conteúdos e de estratégias de estimulação cognitiva, de modo que os alunos não se confrontem com qualquer obstáculo por mais pequeno que ele seja? Ou significa, estruturar os conteúdos e as estratégias de estimulação cognitiva numa ordem de complexidade crescente, de modo que os alunos se vão confrontando com desafios intelectualmente significativos, adaptados à progressão na aprendizagem, susceptíveis de serem superados com investimento?

2. Detenhamo-nos, de seguida, na expressão “contribuir para o sucesso escolar”. Como referi no texto Pastas e pacotes - 1, não conheço estudos científicos que demonstrem vantagens de os alunos terem quatro documentos constituintes de um manual escolar para cada área curricular, em vez de terem apenas um. Assim, esta é uma afirmação que nem uma editora de livros escolares nem ninguém pode fazer.

3. Por fim, atentemos na expressão “recomendação pedagógica” que aqui se emprega mal, como é, aliás, costume: usa-se e abusa-se dela, com intuitos que mais parecem ser de sedução. Se o leitor reparar, sempre que se pretende vender em larga escala um brinquedo, um livro, um jogo, uma actividade… um manual agrega-se-lhe a dita recomendação. Ora, a haver recomendações pedagógicas, elas devem derivar do conhecimento informado e não de outro aspecto qualquer.

A respeito deste terceiro aspecto, escrevi no De Rerum Natura o que se pode ler aqui.

A robótica a alta velocidade

Novo post convidado de J. Norberto Pires:

A Universidade de Stanford juntou-se ao fabricante alemão de automóveis AUDI e estão a mudar a forma como vemos os automóveis. O robô que construíram, baseado num AUDI TTS, vai competir na famosa Pikes Peak em 2010, cujo objectivo é subir uma encosta de montanha no menor tempo possível. A AUDI já tinha ganho há uns anos com o famoso AUDI QUATRO, com um piloto ao volante. Aliás o record da subida é dessa altura e pertence à AUDI.

Agora vai ser um carro autónomo. Controlado à distância, mas sem condutor e com a maioria das coisas feitas pelo computador de bordo. Ou seja, o carro subirá sozinho. E diz a AUDI que será para bater o seu próprio recorde. Impressionante.



Em Portugal está a nascer um desafio para condução autónoma feita por robôs. É o Critical Challenge, promovido pela recém-criada CRITICAL MOVE, uma empresa de Coimbra - claro, digo eu :-) - que é uma spin-off da Critical Software. Vale a pena acompanhar. A malta da Critical costuma surpreender. ;-)

J. Norberto Pires

SEMANA ASTRONÓMICA

Informação recebida de Carlos Oliveira, que dinamiza o blogue Astro.pt:

Esta semana foi bastante pródiga em notícias de astronomia. Tivemos uma semana verdadeiramente astronómica!

Recomendo estas notícias:

Foram descobertos 30 novos exoplanetas (não foram 32). O Luis Lopes explica tudo direitinho.
http://astropt.org/blog/2009/10/19/30-novos-exoplanetas/
E o descobridor português, Nuno Santos, até nos concedeu uma entrevista!
http://astropt.org/blog/2009/10/27/nuno-santos-fala-ao-astropt-org/

No fim-de-semana saiu o Relatório Final com as recomendações para a NASA - estas são as opções para a exploração espacial nos próximos 10 anos.
http://astropt.org/blog/2009/10/24/planos-da-nasa/

Os U2 deram um concerto fenomenal. E o melhor é que teve carradas de astronomia. No nosso post pode ver todo o concerto dos U2!
http://astropt.org/blog/2009/10/27/u2/

Mas o blog teve esta semana muitas mais notícias. Pode ler mais em: http://astropt.org/

quarta-feira, 28 de Outubro de 2009

UMA INTUIÇÃO POR PORTUGAL

Meu texto de apresentação do livro "Uma Intuição de Portugal" de Sebastião Formosinho (Edições Artez):

Foi neste mesmo Anfiteatro do Laboratório Chimico que conheci o Doutor Sebastião Formosinho (SF), no ano lectivo de 1973-1974 – o ano lectivo da Revolução – quando fui seu aluno na disciplina de Química Geral. Devo-lhe por isso a minha formação em química no ensino superior. Se bem me lembro, consegui então uma nota razoável (o que não foi fácil, lembro-me de me embrenhar no manual do Pimentel). Estou-lhe por isso muito grato. E é, portanto, com a obrigação de pagamento de dívida que um discípulo tem sempre para com o mestre que me encontro hoje aqui a apresentar o seu último livro, “Uma Intuição por Portugal”. A minha tarefa não é fácil: o livro proporciona múltiplas leituras. Se a história do declínio e queda do projecto que SF impulsionou no Pólo das Beiras da Universidade Católica, quando o dirigiu, parece constituir a motivação principal do livro, o autor soube apresentar esse caso, decerto sintomático, como instrumento para um exame mais profundo – aproveita-o para ensaiar um diagnóstico cultural do país, um diagnóstico que é ao mesmo tempo político e social, académico e científico, cultural e filosófico. O livro fala sobretudo de um problema que nos interessa a todos – que nos devia interessar mais a todos – que é o do défice do desenvolvimento português e das razões desse défice. Porque é que alguns países se desenvolveram e desenvolvem mais do que nós?

Cito o poeta Alexandre O’ Neill que escreveu em “Feira Cabisbaixa”:
“Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo, /golpe até ao osso, fome sem entretém, / perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,/ rocim engraxado,/ feira cabisbaixa,/ meu remorso,/ meu remorso de todos nós...”
O nosso remorso em relação a Portugal será não o termos desenvolvido o suficiente. SF tenta compreender porquê...

Antes de entrar na análise do livro falarei do autor. O discípulo não pode ser isento a falar do mestre. Depois de ter estado sentado nos algo desconfortáveis bancos desse anfiteatro, tive a sorte de ter podido beneficiar ao longo dos anos do confortável convívio do autor. Não pude seguir a sua curta experiência no governo por na altura estar a fazer o doutorarento na Alemanha. Mas segui com interesse, bem mais tarde, a sua presidência da Comissão de Incineração de Resíduos Perigosos – devo dizer que apoiei e apoio, no essencial, as teses tão mal compreendidas dessa Comissão. Beneficiei a sua companhia em Comissões de Avaliação e, actualmente, estou com ele na Comissão Científica do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra (UC), que está a fazer o programa museológico do Museu que tem a pré-figuração neste mesmo espaço. Fiquei contente quando fui tendo notícia das várias distinções que foi obtendo, das quais destaco o Prémio da Fundação Gulbenkian para as Ciências Básicas, de 1994, e o Prémio Estímulo à Excelência da Fundação para a Ciência e Tecnologia, de 2004. E que distinção maior do que a sua nomeação recente, por escolha dos pares, para Presidente do Departamento de Química da UC?

Levaria tempo a falar da sua carreira científica, que muito ficou a dever ao Prémio Nobel da Química de 1967, George Porter, com quem se doutorou em Londres. É uma carreira assinalada em mais de 160 artigos científicos, alguns deles com abundantes citações. Mas, como agora tenho à guarda a Biblioteca Geral, seja-me permitida uma menção especial à sua bibliografia. “Uma intuição por Portugal” é apenas o mais recente de uma série de duas dezenas e meia de títulos, que todos esperamos que prossiga. Como bibliotecário arrumo esses livros em quatro estantes diferentes:

1- Os manuais escolares, tanto para o ensino básico e secundário como para o ensino superior. Entre outros, no primeiro grupo, refiro: Problemas e Testes em Química Geral, Coimbra Editora, 1981, com A. C. Cardoso e F. Pinto-Coelho; Química do Quotidiano, Almedina, 1994, com A. C. Cardoso, Química para Ti, Livraria Minerva, 1984, com V. M. S. Gil, J. J. Teixeira Dias e A. C. Cardoso. E, no segundo grupo: Fundamentos de Cinética Química, Fundação Gulbenkian, 1983, e Estrutura Molecular e Reactividade Química, na mesma editora, 1986, com A. J. C. Varandas e Cinética Química. Estrutura Molecular e Reactividade Química. Imprensa da UC, 2003, com L. G. Arnaut, que deu lugar a uma edição internacional: Chemical Kinetics. From Molecular Structure to Chemical Reactivity, Elsevier, 2007, com o mesmo coautor e H. Burrows.

2- Dois livros sobre o processo da coincineração, um contributo de um cientista que na minha opinião não foi suficientemente agradecido para a resolução de um problema nacional – acho que a autarquia de Coimbra se portou mal nesse processo, tendo desperdição uma boa oportunidade para apostar na ciência e tecnologia: Parecer Relativo ao Tratamento de Resíduos Industriais Perigosos. Principia, 2000, com C. Pio, H. Barros, J. Cavalheiro; e Co-incineração. Uma Guerra para o Noticiário das Oito, com os mesmos autores e R. Dias e M. Rodrigues, Campo de Letras, 2003.

3- Uma trilogia de livros sobre o modo como se faz ciência, em particular o processo de avaliação pelos pares (o autor propôs uma teoria rival da do Nobel da Química de 1992, Rudolph Marcus, que, na sua opinião, era merecedora de um outro acolhimento – aqui, apesar de achar a polémica interessante, não me posso pronunciar por ignorância da matéria): Nos Bastidores da Ciência. Resistência dos Cientistas à Inovação Científica. Gradiva, 1988; O Imprimatur da Ciência. Das Razões dos Homens e da Natureza na Controvérsia Científica. Coimbra Editora, 1994; e Nos Bastidores da Ciência. Vinte Anos Depois, Imprensa da UC, 2007.

4- Uma outra trilogia, esta de índole filosófico-teológica, que analisa as relações entre ciência e religião, de colaboração com o P. Oliveira Branco: O Brotar da Criação. Um Olhar Dinâmico pela Ciência, a Filosofia e a Teologia. Universidade Católica, 1997; A Pergunta de Job. O mistério do mal, na mesma editora, 2003; e O Deus que não temos. Uma história de grandes intuições e mal-entendidos, Bizâncio, 2008. Nesta área acresce o título: Ciência e Religião. A modernidade do pensamento epistemológico do Cardeal Cerejeira. Principia, 2002.

É imediata a conclusão que só dificilmente se poderia ter maior amplidão de títulos e de assuntos. Todos eles diversos mas todos eles com uma escrita competente. SF é pedagogo, cientista, tecnólogo, sociólogo da ciência e filósofo. Costumo queixar-me de não ter mais espaço para livros na Biblioteca Geral, mas prometo que não me vou queixar – antes pelo contrário – da chegada de mais livros deste professor, que tem colocado o nome da sua universidade mais alto na cotação nacional e internacional.

Mas é tempo de entrar no livro que nos traz aqui, uma bela edição da Artez. Já disse que o falhanço da experiência de instalação da Medicina Dentária e da Arquitectura na Universidade Católica em Viseu não passará de um meio para o autor colocar uma questão mais profunda: o que nos falta, como país, para sermos não só mais ricos como mais felizes? Sabendo pouco dessas disciplinas, só posso dizer que fiquei surpreendido com a ambição do projecto – sobre este aspecto é deveras eloquente o prefácio de Werner Schneider, professor da Universidade de Uppsala.

O pano de fundo filosófico da reflexão de SF, na sequência aliás de outros seus livros, é o pensamento de Michael Polanyi (1891-1976), químico húngaro de origem judaica, que aos 28 anos se converteu ao catolicismo, que aos 42 anos, a viver em Berlim, fugiu ao regime nazi, encontrando refúgio na cidade inglesa de Manchester, e que aos 67 anos publicou a sua obra mais famosa “Personal Knowledge: Towards a Post-Critical Philosophy”, uma referência para vários pensadores cristãos. Confesso que tenho alguma dificuldade em acompanhar o pensamento de Polanyi (estou a falar do pai, pois há um filho também famoso, laureado com o Nobel da Química em 1986), por não me conseguir identificar com a sua tese fundamental: a de que todo o conhecimento, mesmo o científico, é de natureza pessoal, exigindo um envolvimento e compromisso do sujeito. A mim parece-me uma afirmação excessivamente pós-moderna, próxima do relativismo. Revejo-me mais na tradição iluminista da objectividade do conhecimento científico, um conhecimento que resulta mais de uma aquisição colectiva do que pessoal. Concordo que o compromisso intelectual e a busca apaixonada são elementos da descoberta científica, mas a ciência vai, na minha opinião, para além do compromisso e da paixão individual: É um compromisso e uma paixão colectiva. O mundo em que vivemos e que é objecto da nossa ciência tem uma existência objectiva que ultrapassa as nossas visões subjectivas. Mas percebo que o autor do livro que hoje aqui apresento se interesse por Polanyi: ao fim e ao cabo os dois dedicaram-se à cinética química e os dois propuseram uma teoria mal compreendida, sendo também fácil depreender alguma identificação do ponto de vista filosófico-religioso. O Cap. 8 é dedicado ao “conhecimento tácito” de Polanyi, que passou em Manchester de professor de Química a professor de Ciências Sociais (o contrário seria talvez mais difícil...). É recompensador ler esse capítulo, tal como os dois seguintes, para perceber melhor as pontes que o pensamento de Polanyi permite fazer entre ciências e humanidades. A causa é boa e aliás muito actual - este ano celebramos os 50 anos da famosa conferência sobre as duas culturas do cientista e escritor inglês C. P. Snow, com quem Polanyi teve divergências (também as teve com Popper).

O título “Intuição por Portugal”, ao usar a palavra intuição no título, revela-se devedor das teses de Polanyi. Mas que intuição tem o nosso autor por Portugal? A intuição de que somos um país bloqueado e que o desbloqueamento pede uma mudança de atitudes. SF, depois de, no Cap. 1, fazer uma esclarecedora exposição sobre “os invariantes da sociedade portuguesa” refere no Cap. 2 a falta de coesão social do país, apontando o dedo à centralização desmesurada na capital (um factor que não terá sido estranho ao encerramento do projecto de Viseu, tratado nos Caps. 3 a 5 e que se pode comprovar pelo desclocamento do centro demográfico em direcção a Sul e ao Oeste). Mas fala sobretudo de um problema de cultura, um conceito sempre difícil de definir mas sobre a qual todos temos um conhecimento que se poderá chamar “tácito”. É evidente para o autor – e nisto estou obviamente de acordo com ele - que a ciência é parte e condição da cultura. Afirma – estou de novo de acordo com ele - que há um afastamento continuado do nosso país dos grande centros europeus de cultura e ciência.

O autor não faz essa afirmação à laia de conversa de café, mas, vestindo a bata branca de cientista, com base em estudos cuidados de bibliometria que tem efectuado e publicado nos últimos tempos. A análise de indicadores de ciência e tecnologia usando a técnica dos dendrogramas permite encontrar “clusters” de países com afinidades (Caps. 6 e 7). E – esta é uma das conclusões mais interessantes do livro – Portugal aparece associado, nem sempre à Espanha, como seria normal pela geografia e história comuns, mas à Hungria e à República Checa, ambas situadas do outro lado da Europa. SF encontrou no historiador Oliveira Martins – cuja biblioteca se conserva na Biblioteca Geral, tendo sido há pouco editado o respectivo catálogo – fundamento para uma ligação entre Portugal e a Hungria, um fundamento que terá a ver com a proximidade entre cristãos e árabes: “Por duas vezes a Espanha representou para a Europa o mesmo que no oriente mais tarde coube à Hungria: foi a atalaia avançada e como que baluarte da sociedade europeia contra as invasões sarracenas” ("História da Civilização Ibérica").

Estaremos condenados à periferia da Europa, entre as civilizações ocidental e árabe? Aceitando a tese do autor sobre a nossa proximidade científico-cultural com a Hungria, queria deixar uma nota de optimismo. É que se, de facto, somos semelhantes à Hungria, não estaremos tão mal assim. Para isso basta pensar que este país tem uma forte tradição na ciência: entre as duas guerras mundiais foi um autêntico viveiro de cientistas. Um grupo de húngaros que nasceu e estudou em Budapeste foi até chamado de “marcianos”, pois não pareciam deste mundo: Eugene Wigner, um físico (originalmente engenheiro químico) que desenvolveu a teoria quântica e lançou as bases da engenharia de reactores nucleares, tendo alcançado o Nobel da Física; John von Neumann, um dos grandes responsáveis pela computação moderna e talvez o maior matemático do século XX; Edward Teller, um físico que explicou a origem da energia das estrelas e desenvolveu armas termonucleares, etc. Todos eles emigraram para os Estados Unidos, à semelhança de outros cientistas europeus confrontados com a ameaça nazi. Budapeste é ainda a terra de Dennis Gabor (inventor da holografia, o que lhe valeu o Nobel da Física), Andrew Grove (fundador da empresa de microprocessadores Intel), Leo Szilard (cientista que pediu a Einstein para escrever a Roosevelt alertando-a para a possibilidade da arma atómica), Albert Szent-Györgyi (o médico que identificou a vitamina C, conseguindo assim o Nobel da Medicina), etc.

Como explicar esta autêntica proliferação de cientistas? Porque a Hungria, e em particular a sua capital, teve, no século XX, uma boa escola, uma escola que permitiu desenvolver as potencialidades dos alunos que a frequentaram. E a boa escola é, claro, feita pelos bons professores. Wigner escreveu a este propósito:

“Raramente deixo passar uma oportunidade de expressar a minha gratidão aos meus professores e ao Liceu Luterano de Budapeste. Nunca esquecerei os meus professores, entre os quais o meu professor de matemática László Rácz, um pedagogo autêntico e um homem muito cordial, que despertou em mim o amor pela matemática”(...) “Tenho orgulho em dizer que depois de dois anos de estudo da Física no liceu, os cursos de Física na Universidade Técnica de Budapeste e na Escola Técnica Superior de Berlim pareciam quase ser uma mera repetição.”

O segredo dos “marcianos” de Budapeste reside, portanto, nos professores que tiveram. Nós, tal como eles, não somos nada sem os nossos professores. Termino agradecendo ao meu ex-professor a estimulante reflexão, bem documentada e concatenada, contida neste seu novo livro. Ao lê-lo impressionou-me sobretudo uma outra citação de Oliveira Martins, retirada do “Portugal Contemporâneo”:
“A nós, sucede-nos que além de nos faltar o carvão, matéria-prima industrial, nos faltam matérias primas incomparavelmente mais graves ainda: juízo, saber, educação adquirida, tradição ganha, firmeza de governo e inteligência no capital”.
Este “Portugal Contemporâneo” de há mais de cem anos é, infelizmente, ainda o nosso Portugal contemporâneo. Que fazer? Pois, se a Hungria é nosso vizinho cultural, porque não inspirarmo-nos na escola desse país para fazer uma escola melhor aqui? SF sempre procurou assegurar uma boa escola. Bem haja!

A voz de quem tem sido silenciado...

O nosso leitor Pedro Neto chama-nos à atenção para um artigo de Richard Zimler, escritor de ascendência judaica, na edição de ontem do jornal Público. Desse artigo que pode ser lido aqui, o De Rerum Natura destaca a seguinte passagem:

"Confesso que as palavras de Saramago me deixaram perplexo de um modo muito pessoal ao implicarem que não deveríamos escrever sobre os horrendos crimes cometidos por seres humanos, pois uma boa parte do que faço nos meus romances é explorar as vidas de pessoas cujas vozes têm sido sistematicamente silenciadas por ditadores, generais e inquisidores religiosos.

Penso que escrever sobre a repressão violenta e sobre os tratamentos cruéis é essencial, sobretudo quando se busca a criação de um mundo de mais justiça e humanidade. E uma das coisas que mais respeito e valorizo no Antigo Testamento - apesar de não crer num Deus pessoal e de não praticar nenhuma forma de fé, nem sequer a religião dos meus pais, o judaísmo - é o facto de aí nada ser escamoteado ou escondido.

Quem quer que deseje conhecer até onde pode chegar a abominação e a crueldade humanas e até que ponto Deus - ou o Destino - pode ser impiedoso bastar-lhe-á abrir o Antigo Testamento. Para quem nunca o fez, sugeriria que lessem o tratamento dado pelo Rei David a Urias, narrado no Segundo Livro de Samuel.

Será difícil encontrar descrição mais poderosa da traição e da brutalidade humanas."

O MARXISMO SEGUNDO ONÉSIMO


Excerto do último livro do filósofo e escritor Onésimo Teotónio Almeida, "De Marx a Darwin. A Desconfiança das Ideologias", publicado há pouco na Gradiva:

"O marxismo aparece deste modo - Karl Popper apontou-o muito bem - como sistema metafísico não-falsificável, com todos os atributos de uma religião que opera enraizada numa fé não assente em princípios empíricos nem jamais sujeita à obrigação de demonstrações racionais dos seus axiomas de base. Esse sistema metafísico aliás - e não me parece de modo nenhum absurdo aventá-lo - seria assim uma espécie de versão secular da história bíblica judaico-cristã. O paraíso terreal existiu de facto e o ser humano era bom, mas o capitalismo foi, infelizmente, o pecado original que lançou a humanidade na senda de uma história de lutas de classes. No entanto, Marx vai ser o profeta da recuperação do estado original de graça. Fundando a sua Igreja e rodeando-se dos seus apóstolos, vai fazê-los militar na luta pela segunda vinda dessa ordem natural onde de novo reinará o bom selvagem. A felicidade, porém, não acontecerá no outro mundo, mas sim neste, e inevitavelmente virá.

Acredito que haja nesta síntese algo de exageradamente redutor, todavia insisto na paridade lógica das duas metafísicas - a marxista e a cristã. O carácter dogmático da sua doutrina é apenas uma faceta adicional a intensificar a legitimidade desse paralelo."

Onésimo Teotónio de Almeida

"EU (AUTOBIOGRAFIA)" DE FIALHO DE ALMEIDA


Excerto de um texto do escritor Fialho de Almeida, escrito em 1892 e publicado no 2.º vol. do "Jornal dum Vagabundo" em 1903 (a reedição recente é um livrinho intitulado "Os Jornalistas e outras Pasquinadas", da Palimpsesto):

"Tornando às letras, os meus próprios amigos reparararm no carácter fragmentário dos meus escritos, e os mais ferozes me acusam de intrometer fezes humanas nas tintas duma paleta onde só deveriam esmair suavemente as cores do espectro. O primeiro ponto é bem notado, eu mesmo me entristeço de até à hora presente não ter senão uma efémera bagagem de historietas de espuma e artigos 'mais ou menso verrineiros'. Pouco importa que essa obra faça o melhor de cinco ou ou seis mil páginas, e represente a fadiga de mais de quinze anos de nervos excitados. O público entre nós não diviniza senão os fabricantes de grandes calhamaços (critério natural num país onde a leitura é toda de lombadas) e mesmo que eu fizesse, naqueles pobres bocados, maravilhas, passaria sempre por um cronista aguado das futilidades mansas do meu tempo. Resignar-me-ei calado ao 'veredictum', tanto mais sendo ele, quase por completo, verdadeiro, mas explicando sempre que quem não aufere, como eu, dinheiro do Estado, e tem de ganhar o pão dia por dia, não pode senão produzir minusclarias literárias, obrinhas de fácil curso, pagas aos quinze tostões, Deus sabe quando, e escritas sabe Deus em que disposições de cabeça e de barriga! A cada instante aboprdam-me os ingénuos - mas por que não escreve você um livro inteiro, um grande romance, um grande quadro crítico?...

Imaginam que esses trabalhos se abordam com a inconsequência e a rapidez de vinte ou trinta páginas; mal compreendem que sejam precisos longos meses de estudo, anos de concentração, paciências beneditinas de factura; e durante todo esse tempo quem é que garante ao desprovido escritor o passadio, e depois da obra feita quando dá por ela o editor, ou mesmo quem é que a edita, não havendo em Portugal senão trezentas pessoas capazes de pagar até seis tostões por exemplar.

A linguagem plebeia agora, e os termos 'sujos'. Quem percorre a maior parte dos livros portugueses escritos nos últimods quinze anos, abismado fica da falta de interesse inerente a quase todos, e da estulta preocupação que leva os autores a ecsreverem emn 'estilo nobre', into é, numa algaravia convencional, bocelada de retórica, eivada de incidentes, imagens cediças, frases feitas, através de cujo urdimento a atenção dos leitores se esfalfa, resultando a convicção de que uma tal literatura é apenas intrujice de dúzia e meia de espíritos palavrosos, ermos de gosto, sem ideias nem experiências de ofício, e que quando muito aprenderiam nas aulas de português a sintaxe dos escritos fradescos que lá é costume apontar como mananciais de inspiração literária genuína. Imagina-se em geral que todo o fiel patife, poeta ou prosador, capaz de arreglar sobre o papel daquelas estopadas, fica 'ipso facto' sagrado artista e homem de letras, e ninguém perscruta a razão por que devendi ser a frase literária a expressão fotográfica, instantânea, das ideias, escritor que tenha obscuro e supérfluo o estilo., é que certamente cerece de limpidez nas figurações ou doutrinas que esse estilo é chamado a visionar. As obscuridades de vocabulário pois, os torcicolos da frase, as arborências excessivamente complexas do período, longe de creditarem o talento pictural do escritor devem ao contrário sobreavisar-nos quanto ao pequeno peso e nenhum feitio sa sua bagagem psicológica. Dessa vacuidade cerebral hipocrisiada de retórica, que há vinte anos tem sido a literatura artística do país, resultou em primeiro lugar a deepradação do gosto público, e em segundo a indiferença gradual, hoje completa, desse mesmo público por todos os que fazem em Portugal a profissão de homens de letras. A decadência é tal, que o estilo em que é uso escrever-se só é bom quando não exprime coisa alguma, e constar de uma série de lugares-comuns piegas, amantéticos, que leitura finda, valem ao plumitivo a reputação de literatejar 'de luva branca'. Ninguém compreende a necessidade que há de escrever como se pensa e como se fala, límpido, claro, brutal, simples e certo, veemente ou plácido segundo o veio de água do assunto, precipitado ou espraiado, consoante o temperamento emotivo de quem serve, e sincero sempre, arrancado da alma, e empregando, como Shakespeare diz, para a pior ideia, a pior palavra, venho a dizer, a mais cruel, que é quase sempre a mais pictural e a mais persuasiva."

Fialho de Almeida

terça-feira, 27 de Outubro de 2009

"PORTUGAL ESTÁ PREOCUPANTEMENTE AFASTADO DA MODERNIDADE EUROPEIA"


Informação recebida do Museu de Ciência de Coimbra (na imagem, cartoon de João Abel Manta):

Sebastião Formosinho vai lançar, a 28 de Outubro, no Museu da Ciência da Universidade de Coimbra (UC), o livro "Uma Intuição por Portugal"

Portugal está "preocupantemente" afastado da modernidade europeia. O alerta é do director do Departamento de Química da Universidade de Coimbra, Sebastião Formosinho, que explora as "fraquezas" da ciência portuguesa no novo livro "Uma intuição por Portugal". A obra vai ser lançada no dia 28 de Outubro às 18 horas no Museu da Ciência da Universidade de Coimbra (UC), com apresentação do físico e director da Biblioteca Geral da UC, Carlos Fiolhais.

"A partir de um estudo do conhecimento tácito — o conhecimento que adquirimos por aprendizagem com os mestres vivos ou já falecidos — a obra debruça-se sobre a coesão do nosso país, sobre as dificuldades que temos de enfrentar para que possamos atingir a modernidade europeia", avança Sebastião Formosinho.

Em "Uma Intuição por Portugal", o cientista analisa as semelhanças e as diferenças entre países em diversos domínios, como o da ciência ou o da educação. E é dos agrupamentos que forma a partir daí, que surgem as suas conclusões relativamente a Portugal, e nomeadamente à ciência portuguesa.

"Da teoria do conhecimento tácito decorre (e a obra confirma-o recorrendo à estatística) que o conhecimento científico há-de apresentar marcas culturais, dado que é realizado com uma base fiduciária da língua, das tradições, das culturas, reflectidas na geografia dos povos europeus. Estas marcas culturais estão patentes nas semelhanças ou diferenças entre países, para as configurações das diferentes áreas científicas", explica o cientista. Nesse aspecto, sublinha, Portugal está mais próximo da República Checa e da Hungria do que dos seus vizinhos geográficos, enquanto que, por exemplo, a Espanha, que tem uma raiz cultural "bastante comum" com o nosso país, "já evoluiu", encontrando-se no grupo da França, da Suíça e da Alemanha. "A Espanha aproximou-se da sua geografia de maior modernidade europeia", nota.

Para Sebastião Formosinho, há em Portugal questões culturais que estão a "determinar" o nosso modo de vida e a "distanciar-nos" da geografia a que pertencemos. "Pedindo emprestadas palavras do filósofo José Gil, é o 'medo de existir' que atormenta de há muito Portugal. Um medo que arrasta consigo a inveja, a fuga ao risco, a não-inscrição, a instabilidade de estratégias políticas, institucionais, administrativas e outras constituindo já, infelizmente, uma marca cultural", explica.

"Dada a importância da ciência nos países desenvolvidos, o facto de Portugal se ver distanciado da Espanha e ficar numa geografia que não é a mais natural, enfraquece-nos e é motivo de preocupação futura", adverte Sebastião Formosinho. Daí que o cientista tenha decidido chamar à sua obra "Uma Intuição por Portugal", porque nela apresenta sugestões, alguma das quais "intuídas" do estudo realizado, com o objectivo de "reaportuguesar Portugal, tornando-o Europeu", isto é, de aproximar o nosso país da sua geografia natural.

De resto, adianta o director do Departamento de Química da UC, já houve em Portugal a tentativa de implementar uma escola que privilegiasse o conhecimento tácito, o tal conhecimento que advém da experiência, da relação mestre/aprendiz. "Possuímos conhecimento que não conseguimos verbalizar inteiramente, pelo que sabemos mais do que conseguimos dizer. Assim, a experiência de Viseu poderia ter sido uma escola com uma vocação para o ensino do conhecimento tácito e do conhecimento explícito, graças a uma patente aí desenvolvida, intitulada HEINET (Human Education Interface Network), e que interessou operadores no campo da medicina dentária e da arquitectura".

Licenciado em Física e Química pela Universidade de Coimbra e doutorado em Londres pelo Royal Institution of Great Britain, Sebastião Formosinho (nascido em 1943) é membro efectivo da Academia de Ciências de Lisboa e dirige desde 2004 o Departamento de Química da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra. Ao longo de uma carreira académica que iniciou em 1964, foi distinguido com diversos prémios científicos, entre os quais o Prémio Gulbenkian para Ciências Básicas de 1994. Entre os cargos de relevo que desempenhou, foi Secretário de Estado para o Ensino Superior (1980-81) e presidente da Sociedade Portuguesa de Química (1992-98).

UNIVERSIDADE DE VISEU?


Numa altura em que se volta a falar da Universidade de Viseu, recupero o artigo que sobre o assunto escrevi há alguns anos no jornal "Público", quando o PSD governava. Não me parece muito desactualizado (até falo, no final, de "crise"...):

O tema da criação de uma nova universidade pública em Viseu é recorrente. Parece que há uma “promessa” do então candidato a primeiro-ministro que tem sido reclamada por sectores locais do partido maioritário no governo, que é também maioritário no concelho e na região. E volta e meia, como agora, volta o alvoroço.

Não seria difícil cumprir a tal “promessa”. Há uma maioria clara no Parlamento. Há uma maioria claríssima na Câmara de Viseu. Bastaria fazer aprovar um papel pelo primeiro, com grande apoio e regozijo da segunda. Seria uma maneira fácil de contentar alguns viseenses mais exaltados. Mas seria um grande, um enorme disparate.

As razões são simples de aduzir:

1) Em primeiro lugar, Viseu já tem três estabelecimentos de ensino superior: o Instituto Politécnico de Viseu, a Universidade Católica – Pólo das Beiras (de propina subvencionada pelo Estado) e o Instituto Piaget. Viseu é grande e quer crescer, mas não chega? Chegaram todas essas escolas aos limites do seu crescimento?

2) Falando claro, alguns querem apenas transformar o Instituto Politécnico local em Universidade. Ora tal não tem pés nem cabeça, porque um instituto politécnico por alguma razão tem um nome diferente de uma universidade (serve outros objectivos!) e não se transforma de repente, mudando-lhe o nome, uma coisa na outra. Mal comparado, era como se um ilusionista transformasse por mágica um gato num coelho, sem desprimor para nenhum dos animais. Mais a mais, seria como abrir uma caixa de Pandora, permitindo que todos os institutos politécnicos nacionais ficassem de repente, sem ninguém perceber como nem porquê, universidades.

3) Além disso, uma universidade tem de ter professores e tem de ter alunos. É conhecida a nossa escassez geral de doutorados: mesmo em universidades estabelecidas, ainda não há doutores que cheguem, sendo substituídos por “docentes não doutorados”; nos politécnicos os doutores são bastante raros. Alguém quererá mais turbo-professores a sujeitarem-se aos extraordinários perigos do IP3 ou do IP5? Ou querem recrutar professores no estrangeiro? Por outro lado, o decréscimo demográfico dos candidatos a estudantes do ensino superior está à vista de todos. Quererão também importar alunos?

4) Há um perigo óbvio em ceder às pretensões locais, algumas delas bem demagógicas. A ideia que uma universidade é, através da investigação que pratica, geradora de grande desenvolvimento local está ainda por provar. De resto, a vocação de uma universidade, como o próprio nome indica, deve ser universal. Deve espalhar cultura e desenvolvimento para todo o lado. Teme-se justamente que uma universidade “local” se destine a satisfazer os interesses e as ambições de poder de alguns, que nunca teriam hipóteses ser dirigentes ou administradores académicos, muito menos professores, fora da sua paróquia.

5) Finalmente, há um último argumento, que, nesta altura de crise, pode até sobrelevar a todos os outros. Uma boa universidade (Viseu não deve querer uma universidade medíocre!) custa dinheiro, muito dinheiro. Dinheiro esse que não há em Portugal, numa altura em que todos os estabelecimentos de ensino superior estão à míngua.

segunda-feira, 26 de Outubro de 2009

Lobo Antunes e Saramago, duas personalidades nos antípodas


Rui Baptista escreve sobre José Saramago e António Lobo Antunes:

“Casos, opiniões, natura e uso / Fazem que nos pareça desta vida / Que não há nela mais que o que parece”.
(Luís de Camões)

O post de Augusto Küttner de Magalhães “António Lobo Antunes versus José Saramago” teve, entre outras, a legitimidade e a virtude de trazer para a discussão pública os traços de personalidade bem diferentes de “dois bons escritores portugueses” e de enfatizar o que de bom para as Belas-Letras os dois representam.

Uma coisa comum os irmana: o terem ambos estado recentemente em situação de doença grave, que fez perigar as suas vidas. Para António Lobo Antunes essa proximidade com a morte, julgo eu, tornou-o mais humano, e aproximou-o mais de Deus. No caso de José Saramago, julgo eu, ainda, exaltou-lhe a doxomania bem patente nas entrevistas que dá sobre os livros que publica numa espécie de mercantilismo literário.

Mas reconheço falecerem-me conhecimentos para penetrar na insondável mente humana e seus desígnios. A outros caberá essa missão que poderá explicar o sadismo de José Saramago em chocar a opinião pública com o seu deambular incansável em temas de carácter religioso arreigados no povo por tradição, como diria Fialho de Almeida, para se alcandorar ainda mais alto ao Olimpo da fama. Seja com a preciosa ajuda dos seus apoiantes incondicionais ou seja, ainda, no papel de vítima perante os que dele discordam, num país que, segundo ele próprio diz, incorre no risco de desrespeitar o direito à liberdade de opinião numa espécie de retorno a fogueiras inquisitoriais. E aqui a sua razão pode encontrar caboucos sólidos na opinião de um juiz norte-americano: “O direito à liberdade de expressão não protege o direito de ter razão, mas o direito a não a ter”. Ou seja, os que discordam da sua razão devem respeitar o direito de Saramago em não ter razão.

Aliás, as críticas que lhe são feitas devem alinhar pelo mesmo diapasão. Os que discordam dos seus obcecantes e desvairados ataques à fé cristã têm o direito a não terem razão ou de darem razão ao Papa Bento XVI: “Quem quiser fugir das incertezas da fé terá de suportar as incertezas da ausência de fé, e nunca poderá dizer que a fé não é a verdade”.

Falemos agora de António Lobo Antunes e dos seus traços de personalidade que o colocam nos antípodas de José Saramago. Ou melhor, deixemos ser Laurinda Alves a falar dele numa bela crónica, intitulada “É bom beijar um homem e eu não sabia” (“I”, 24/25 Outubro 2009), sobre uma entrevista dada na RTP a Judite de Sousa. Escreve ela, a certa altura:
“António Lobo Antunes, o escritor que não gosta de falar de si nem gosta particularmente de ser entrevistado, aceitou ir ao programa de Judite de Sousa na quinta-feira passada e deu uma entrevista colossal. Falou de livros e escritas, hábitos e gostos, amigos e programas, e também de homens e mulheres marcantes na sua vida. Disse coisas maravilhosas naquele seu tom grave, meio surdo. De quem por princípio desconfia mas acaba sempre por demonstrar uma ternura fundamental. (…) Falaram sobre tempos antigos e coisas de agora, divagaram sobre o sentido da vida, nomearam Deus e elevaram a conversa a níveis de transcendência. Tocaram fatalmente nas questões que envolveram a doença e a convalescença do escritor. ‘O que passei a fazer diferente? Olhe, passei a beijar os meus amigos. É bom beijar um homem e eu não sabia’”.
Aceitemos, pois, a dádiva divina (ainda mesmo que a Saramago não agrade, porventura, a expressão) de termos em nossa contemporaneidade dois vultos grandes da cultura, e aceitemos, também, os traços idiossincráticos de duas personalidades tão diferentes mas afinal tão próximas do génio que os caracteriza como património literário de uma aldeia global sem fronteiras. Perante a intransigência de José Saramago em aceitar os princípios da fé cristã não se deixará de cumprir o propósito do filósofo Martin Buber: “Deus não me pedirá contas de eu não ter sido Francisco de Assis ou mesmo Jesus Cristo. Deus vai-me pedir contas de não ter sido eu completa e intensamente”. Ora, inegavelmente, Saramago é uma personalidade que vive o seu eu “completa e intensamente”. Pelo menos por este lado, o Nobel da Literatura pode dormir descansado!

Ciência em Família com robôs

Post convidado de J. Norberto Pires:

No dia 25 de Outubro estive no Museu da Ciência em Coimbra para mais um "Ciência em Família". Esta ideia do museu é excelente. Ao domingo, com diversos temas, colocar as crianças e os pais a descobrir coisas sobre ciência... Muito bem, isso é muito importante.

Pois a mim pediram-me para falar sobre robôs, numa sessão que se denominou "Descobre os Robôs". É complicado falar para crianças, confesso. Elas estão totalmente disponíveis, mas é difícil cativar a sua atenção para que, com um discurso próprio para esse público mas sem simplificações excessivas, se consiga mostrar a necessidade de trabalho e esforço como forma de atingir objectivos. A ciência é divertida e apaixonante, mas não é uma brincadeira e não é, de certeza, uma actividade fácil. Exige esforço, dedicação e muito trabalho.

Na sessão de domingo queria mostrar mais uma área de ciência aplicada e de engenharia: a robótica. Usei como mote a exploração espacial e a matemática. Os mais novos associam aos robôs muito do que vêm na ficção científica. São máquinas fabulosas que falam, são inteligentes, resolvem muitos problemas e de alguma forma têm muitas das capacidades humanas (até aumentadas). Ora, quando vêm os robôs de hoje, os reais, ficam decepcionadas. Como evitar isso?

A exploração espacial, nomeadamente os vários rovers (robôs móveis com autonomia) enviados para Marte, mostram uma realidade bem interessante e apelativa. Os princípios envolvidos, apesar da grande sofisticação desses robôs, são bem acessíveis e podem ser facilmente explicados usando máquinas mais simples mas com funcionalidades equivalentes. Se a essas máquinas lhe adicionarmos coisas como síntese e processamento de voz, software de manipulação simples e gráfico, os robôs ficam mais atractivos e permitem que os mais novos percebam que existe uma enorme diferença entre a realidade e a ficção científica, mas que estamos a encurtá-la e que se calhar eles até podem trabalhar nisso no futuro próximo.

Se para além disso formos capazes de mostrar onde está a matemática, a física, e outras disciplinas que eles acham "aborrecidas", na realização desses robôs avançados, talvez eles percebam que vale a pena o esforço e o trabalho dispendido com essas disciplinas porque elas permitem construir "coisas fixes". Não é ciência a brincar, mas sim motivar para fazer da ciência uma aposta decisiva no nosso futuro colectivo.



Na reportagem que a TVI fez do evento, uma menina dizia: "Pensava que a matemática era só relacionada com números e algarismos, nunca com a ciência", mas agora até pensa que "é divertida".

Também por essa razão é importante manter estas conversas de "ciência em família". Nos museus de ciência, nos centros Ciência Viva, nas escolas e nas universidades. É um serviço prestado ao país e um contributo ao nosso futuro colectivo.

J. Norberto Pires

Uma Intuição por Portugal

Informação recebida do Museu da Ciência da Universidade de
Coimbra:






LANÇAMENTO DO LIVRO
"Uma Intuição por Portugal", de
SEBASTIÃO J. FORMOSINHO
Apresentação pelo Prof. Doutor Carlos Fiolhais
28 de Outubro 2009 18h00


Todas as linguagens sejam elas matemáticas, verbais, artísticas ou religiosas têm as suas limitações. Daqui decorre que o conhecimento humano, quando se exprime em alguma delas, padece dessas mesmas limitações. Michael Polanyi veio realçar precisamente este facto para as linguagens verbais, enfatizando que sabemos mais do que conseguimos exprimir por palavras. Um tal conhecimento é designado por /conhecimento tácito/ e carece de ser ensinado e aperfeiçoado através da acção numa relação de mestre e aprendiz.

Uma inovação nesta área do conhecimento numa universidade em Viseu, que poderia ter sido uma escola vocacionada para este tipo de ensino, vai-nos fazer reflectir sobre a natureza do conhecimento tácito, sobre problemas académicos e, acima de tudo, a respeito de questões culturais presentes no país e que estão a determinar o «nosso modo de vida» e a distanciar-nos da geografia a que pertencemos. O tema próximo foi um ponto de viragem na busca de novos caminhos de inovação e as acções que levaram ao seu desmantelamento. Pedindo emprestadas palavras do filósofo José Gil, é o «medo de existir» que atormenta de há muito Portugal. Um medo que arrasta consigo a inveja, a fuga ao risco, a não-inscrição, a instabilidade de estratégias políticas, institucionais, administrativas e outras constituindo já, infelizmente, uma marca cultural.

Paralelamente, a teoria do conhecimento tácito vai permitir discernir marcas culturais na ciência europeia e, através delas, e em contraste com outros países, situa-nos longe da nossa geografia, junto à Hungria e à República Checa. Debilidades que se somam às existentes, mas que carecemos de estar conscientes para reaportuguesar Portugal, tornando-o europeu.

São eternidade

Sobre José Saramago ter declarado ser a Bíblia um “manual de maus costumes” e “catálogo de crueldades”, o De Rerum Natura perguntou à Classicista Alexandra Azevedo se os mesmos juízos poderão ser feitos em relação às obras antigas, como a Ilíada ou a Odisseia e, caso isso seja possível, que sentido poderão ter. A resposta é a que se segue:

A Bíblia, «o livro dos livros», contém, para além da vertente sagrada em que se estruturam e edificaram tantas civilizações, a história do povo judaico e, também, a história da humanidade.

Independentemente do credo religioso que sigamos, ou de não seguirmos credo nenhum, não lhe podemos negar o estatuto de referência da cultura mundial. A sua antiguidade, o seu modo de transmissão geracional justifica leis e actos duros ou mesmo, cruéis que, na actualidade, podemos ter dificuldade em entender. A própria figura de Deus é construída e materializada com base no modo como o Homem vivia a justiça, a culpa, o castigo.

Para além de toda a exegese bíblica, fica o conhecimento da ancestralidade que delineou o nosso modo de pensar e de ser.

À semelhança desta obra, outras obras antigas dão-nos conta de culturas fundacionais, como é o caso das conhecidas epopeias homéricas que foram edificadas por acrescentos que a tradição aédica oral permitira. Será legítimo, portanto, questionarmo-nos também sobre os códigos que encerram, as leis e as práticas que descrevem, os sentimentos que enaltecem, as guerras sangrentas de que dão conta.

Ninguém parece contestar – mesmo quem não viu mais do que a grande metragem Tróia, onde Brad Pitt actualizou a figura do "divino" Aquiles – o seu valor estético, histórico e moral.

Poderemos, então, refolhear as suas páginas e lembrar que, na Ilíada, o vate invoca logo na abertura a Musa para que o ajude a cantar «a cólera de Aquiles». Este, irado, por lhe ter sido roubada a escrava querida, depois de se distinguir heroicamente em combate, recusa-se a combater em Tróia. Porém, ao saber que o seu amigo Pátroclo morrera às mãos de Heitor no seu lugar, entrega-se, num ódio quase insano, à perseguição dos inimigos.

Quem leu esta obra ou viu o filme lembrar-se-á da cena em que Aquiles amarra o cadáver de Heitor ao seu carro, arrastando-o numa corrida alucinada, recusando-lhe o descanso, que as leis consagravam. Horroriza ver o herói, feito de força e agilidade, ser capaz de tal impiedade. Mas reconhecemos humanidade ao seu carácter, reconhecemos-lhe também verdade e intensidade.

Em geral, sentimos que, nas epopeias, os homens e as mulheres movem-se por paixões: o pai que pede ao inimigo, sem altivez, o cadáver do filho; o marido, que ao regressar a casa vinte anos depois – «o divino Ulisses» – mata os pretendentes que lhe roubavam os bens…

Longe, porém, de as considerarmos um «catálogo de crueldades».

É que estávamos no século VIII antes de Cristo. Esquecê-lo e transpor para o presente, sem qualquer interpretação, os quadros que tais obras descrevem, torná-las-ia ininteligíveis, restando-nos a sua denúncia e condenação por revelarem “maus costumes”.

Em suma, a Bíblia e as grandes epopeias, como Ilíada e a Odisseia, sendo a origem da literatura ocidental, ajudam-nos a compreender onde e como se edificaram os costumes, maus e bons, que têm feito de nós o que somos. São eternidade.

Imagem: Aquiles e Pátroclo