terça-feira, 27 de outubro de 2009

UNIVERSIDADE DE VISEU?


Numa altura em que se volta a falar da Universidade de Viseu, recupero o artigo que sobre o assunto escrevi há alguns anos no jornal "Público", quando o PSD governava. Não me parece muito desactualizado (até falo, no final, de "crise"...):

O tema da criação de uma nova universidade pública em Viseu é recorrente. Parece que há uma “promessa” do então candidato a primeiro-ministro que tem sido reclamada por sectores locais do partido maioritário no governo, que é também maioritário no concelho e na região. E volta e meia, como agora, volta o alvoroço.

Não seria difícil cumprir a tal “promessa”. Há uma maioria clara no Parlamento. Há uma maioria claríssima na Câmara de Viseu. Bastaria fazer aprovar um papel pelo primeiro, com grande apoio e regozijo da segunda. Seria uma maneira fácil de contentar alguns viseenses mais exaltados. Mas seria um grande, um enorme disparate.

As razões são simples de aduzir:

1) Em primeiro lugar, Viseu já tem três estabelecimentos de ensino superior: o Instituto Politécnico de Viseu, a Universidade Católica – Pólo das Beiras (de propina subvencionada pelo Estado) e o Instituto Piaget. Viseu é grande e quer crescer, mas não chega? Chegaram todas essas escolas aos limites do seu crescimento?

2) Falando claro, alguns querem apenas transformar o Instituto Politécnico local em Universidade. Ora tal não tem pés nem cabeça, porque um instituto politécnico por alguma razão tem um nome diferente de uma universidade (serve outros objectivos!) e não se transforma de repente, mudando-lhe o nome, uma coisa na outra. Mal comparado, era como se um ilusionista transformasse por mágica um gato num coelho, sem desprimor para nenhum dos animais. Mais a mais, seria como abrir uma caixa de Pandora, permitindo que todos os institutos politécnicos nacionais ficassem de repente, sem ninguém perceber como nem porquê, universidades.

3) Além disso, uma universidade tem de ter professores e tem de ter alunos. É conhecida a nossa escassez geral de doutorados: mesmo em universidades estabelecidas, ainda não há doutores que cheguem, sendo substituídos por “docentes não doutorados”; nos politécnicos os doutores são bastante raros. Alguém quererá mais turbo-professores a sujeitarem-se aos extraordinários perigos do IP3 ou do IP5? Ou querem recrutar professores no estrangeiro? Por outro lado, o decréscimo demográfico dos candidatos a estudantes do ensino superior está à vista de todos. Quererão também importar alunos?

4) Há um perigo óbvio em ceder às pretensões locais, algumas delas bem demagógicas. A ideia que uma universidade é, através da investigação que pratica, geradora de grande desenvolvimento local está ainda por provar. De resto, a vocação de uma universidade, como o próprio nome indica, deve ser universal. Deve espalhar cultura e desenvolvimento para todo o lado. Teme-se justamente que uma universidade “local” se destine a satisfazer os interesses e as ambições de poder de alguns, que nunca teriam hipóteses ser dirigentes ou administradores académicos, muito menos professores, fora da sua paróquia.

5) Finalmente, há um último argumento, que, nesta altura de crise, pode até sobrelevar a todos os outros. Uma boa universidade (Viseu não deve querer uma universidade medíocre!) custa dinheiro, muito dinheiro. Dinheiro esse que não há em Portugal, numa altura em que todos os estabelecimentos de ensino superior estão à míngua.

9 comentários:

  1. ressalve-se que falar de crise neste país é o mesmo que falar de fome em África

    continuo na minha:

    estudantes universitários e doutorandos e doutores (dose dupla) devia-lhes ser receitada cannabis nas férias e no ano sabático.

    questão de 1,5 gramos de cabeços cada 2 meses (3 para os Doutores)

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  2. Peço desculpa mas está um bocado desactualizado. A IP5 foi entretanto substituída pela A25. E a Universidade não é uma fonte de despesa, mas de riqueza e desenvolvimento. Quantos quadros de empresas, como o meu caso ,não gostariam de viver na terra Natal se houvesse oportunidades reais de emprego? A Universidade pode muito bem ser um caminho para isso, basta ver o caso próximo da Covilhã. Cidade do interior do país que ainda seria de pastores sem a universidade. Bem se vê que o senhor é de Lx ou Porto porque desconhece completamente a realidade do interior do país. Ideias retrógradas como a sua só contribuem para o fosso que existe entre o litoral e o interior.

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  3. Em relação ao comentário anterior já vi que o autor não é de Lx nem do Porto, mas sim o famoso Carlos Fiolhais de Coimbra. Não esperava essas ideias de si. Cumprimentos, João Pereira

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  4. A promiscuidade entre ensino universitário e ensino politécnico dá azo a uma verdadeira zurrapa em que se mistura vinho com água por melhor que seja a casta deste e a pureza daquela.

    A própria legislação que a ambos diz respeito deve ser responsabilizada por este "statu quo" pela confusão gerada que não pode deixar de me trazer à lembrança uma passagem de um livro de Pio Barojo quando, voltando-se para o seu secretário, um ministro espanhol o adverte: - "Senhor Rodriguez faça o favor de verificar se o decreto está escrito com a devida confusão".

    A cada um a sua dignidade:"Não se exijam ao povo metmorfoses de hábito e gostos que a tradição lhes inveterou secularmente", como escreveu Fialho de Almeida. Ou, mais recentemente, como nos adverte Vital Moreira: "A ideia de democratizar o ensino superior pela via da banalização do acesso e pela crescente degradação da sua qualidade não é somente um crime contra a própria ideia de ensino superior, é também politicamente pouco honesta".

    Será que as palavras deste festejado constitucionalista entraram por um ouvido e sairam pelo outro dos próprios responsáveis socialistas pela Educação de um país em que, segundo Medina Carreira, "o nosso ensino é, hoje e em geral, uma desavergonhada mentira".E, buscando reforço em palavras de Vital Moreira,não menos duras,a degradação do ensino superior é "um crime" e "politicamente pouco honesta".

    Este post tem o inegável mérito de voltar a chamar a atenção para que a vocação da universidade, como escreve o Prof. Carlos Fiolhais, "espalhe cultura e desenvolvimento por toda a parte".

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  5. Não temos doutorados que cheguem , mas muitos estão a sair do país, ou permanecem "agarrados" precariamente ao sistema de bolsas post-docs e afins. Pois é, as universidades maiores nem os contratam quanto mais os politécnicos. Gostaria muito de acreditar em si Carlos Fiolhais,que realmente as universidades precisam de doutorados, mas foi por me fartar de ficar `*a espera de uma oportunidade para leccionar no superior após o doutoramento, que me fui embora para outras bandas (USA) e já não volto tão cedo.

    António Silva

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  6. Também quero uma Universidade na minha varanda, só assim se podem desenvolver as minhas ostracizadas hortênsias!

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  7. Eu apoio o Fartinho da Silva. Se a Universidade cria emprego, quero uma na minha aldeia.

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  8. E em Canas de Senhorim? Eu quero cá uma Universidade que muito contriburá para nos libertarmos do colonialismo de Nelas.

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