domingo, 30 de março de 2008

Guerras da propaganda

Deve-se a Dario Hystapis, um dos grandes reis aqueménidas (538-330 a.C.), um fenómeno que perdura até ao século XXI. O monarca atribuiu-se a defesa do Bem e da Verdade, projectando sobre os seus adversários a pecha de serem os defensores da mentira e do mal.

A origem dessa dicotomia ética aplicada à política encontra-se no dualismo original da religião persa, codificada por Zarathushtra ou Zoroastro, em que Ormudz ou Ahura Mazda é o detentor da bondade e veracidade, em oposição a Arihman, o «grande satã», deus do mal e da mentira. Essa dicotomia ética/política atingiu o seu expoente com Mani ou Manes (séc. III), que criou uma religião que pretendia ser «ecuménica», o maniqueísmo, em que foram integrados elementos do hinduismo, zoroastrismo e cristianismo.

Um mural do século XIII, pintado por volta de 1265 e descoberto há oito anos nos banhos públicos da cidade Massa Marittima, na Toscânia, é, na opinião de George Ferzoco, o primeiro «cartaz» de propaganda política na História. É curioso confirmar que embora o teor e forma das mensagens políticas propagandistas tenha evoluído ao longo dos séculos, o seu propósito não variou muito e continua próximo da inovação introduzida por Dario Hystapis.

No livro que publicou há quatro anos, o perito em história toscana explica que este mural pretendia ser um aviso aos locais da facção política apoiante do papado romano, os guelphs, para que não permitissem a subida ao poder dos seus rivais políticos, os ghibellines. Os Guelphs e os Ghibellines constituíam as duas facções que, durante a Idade Média, lutaram por décadas pelo poder em Itália e na Alemanha. Niccolo Machiavelli é certamente mais conhecido pelo seu livro «O Príncipe», mas a sua obra prima «História de Florença», especialmente a partir do capítulo V, ilustra magistralmente este episódio de uma Itália dividida por guerras fraticidas.

No dito mural propagandístico domina uma árvore deveras peculiar, já que os seus ramos estão recobertos de exemplares sortidos de uma parte específica da anatomia masculina. Debaixo da árvore são representadas mulheres, que Ferzoco diz simbolizarem bruxas. Estas «bruxas» entregam-se a uma tarefa muito popular, de acordo com a mitologia dominante à época*: o cultivo em ninhos de aves desses apêndices masculinos, previamente roubados a incautos, que depois de assim tratados adquiririam vida própria. Duas das mulheres representadas parecem lutar pela posse de um destes magicamente cultivados e animizados orgãos. Outra é sodomizada por um dos vinte e cinco «objectos» voadores.

A relevância desta última representação é explicada por Ferzoco: «Na Idade Média, os heréticos dedicavam-se a uma coisa em especial e essa coisa era a sodomia. Para a mente italiana medieval, tal constituía um acto que exemplificava o agir contra natura, desarmonia, e falta de sentimento de comunidade».

Assim, neste cartaz político pioneiro, os detentores do poder político advertem quer os habitantes quer os visitantes de Massa Marittima para os horrores da oposição - os ghibellines, cujo símbolo era a águia representada igualmente no mural -, que procurava o domínio da cidade toscana. Neste cartaz maniqueísta, a oposição é retratada como apologista do que era considerado o comportamento mais anti-social da época e os cidadãos eram advertidos das consequências - heresia, perversão sexual, feitiçaria e caos -, da sua eventual ascensão ao poder.

Os efeitos das tácticas propagandísticas desta época conturbada da História podem talvez ser bem apreciados numa pequena vila medieval da Toscânia que dá pelo nome San Giminiano, situada no topo de uma colina de 334 metros. A pequena cidade foi arrastada no turbilhão político que varria a Itália e ficou sob domínio de duas famílias rivais, os Ardinghelli (guelphs) e os Salvucci (ghibellines). Como demonstração de força, as duas facções começaram a medir-se em «altura» propagandeando o seu poder construindo torres mais altas que os adversários políticos.

A mais alta torre que sobrevive, a Torre Grossa na Piazza del Duomo, tem 54 metros, o equivalente a um prédio de 18 andares (a sua construção foi iniciada em 21 de Agosto de 1300, quatro meses depois de a cidade ter hospedado Dante Alighieri).

As largas dezenas torres construídas eram fantásticos e mui admirados (hoje em dia) monumentos à irracionalidade política medieval: não tinham qualquer utilidade prática para além de servirem de propaganda política, aliás eram tão altas que os primeiros andares, para conseguirem suportar a estrutura, não tinham nenhum espaço utilizável.

Quando já não havia mais lugar onde construir torres, as famílias envolvidas nesta guerra de poder descobriram que uma alternativa para ter a torre mais alta era deitar abaixo a torre da oposição. Uma conjunção de factores, a que não são alheios a irracionalidade política e a peste negra, levaram à degradação de San Giminiano, que de um dos mais florescentes centros italianos medievais, rota de comércio no coração da Via Francigena e o principal produtor de açafrão, se transformou numa cidade em ruínas.

Não sei bem porquê, mas os debates sobre educação que se tornaram conversa incontornável nos banhos públicos da actualidade desde que o YouTube descobriu os problemas de disciplina nas nossas escolas, recordaram-me esta história. A tragédia educativa nacional, revelada nos resultados do último PISA, não se resolve com debates propagandísticos, muitas vezes maledicentes e invariavelmente sem qualquer utilidade prática a não ser meças de alturas sortidas.

Mas esta tragédia educativa não é uma novidade em português: o Carlos no livro «A coisa mais preciosa que temos» (Gradiva, 2002), faz o retrato (negro) do ensino em Portugal nos últimos 200 anos no capítulo «Atraso Português». Vale a pena (re)ler o livro e olhar para os dados que o Carlos nos fornece. O combate ao atraso educativo português foi a prioridade da 1ª República - sobretudo no que respeita à alfabetização da população portuguesa, com mais de 80% de analfabetos em 1910 - mas este atraso foi consolidado pela ditadura salazarista. Só em meados do século XX Portugal viu o que o norte da Europa conseguira antes de 1700: metade da sua população alfabetizada.

Assim, a massificação do ensino no pós 25 de Abril foi uma necessidade que, talvez evitavelmente, sacrificou qualidade por quantidade. Trinta e quatro anos depois, importa agora tornar o ensino público eficiente e de qualidade, diria mesmo que esta é a tarefa mais importante da nossa sociedade. Claro que haverá sempre discussão acalorada acerca da melhor forma de o implementar. Mas a discussão de ideias é a essência da educação.

Urge no entanto que essa discussão não seja permeada pela praga dos tempos modernos, o anti-intelectualismo que deixa «o papel educador e orientador» «tomado e monopolizado pelo burocrata acadêmico, pela estrela da mídia, pelo agente editorial, pelo administrador político».

Importa sobretudo reformar linguagens, recuperando palavras como elite. Quando, por exemplo, se liquidou o ensino profissional em nome da luta contra o elitismo, na realidade elitismo foi pensar que o único ensino «digno» era o clássico. Este anti-elitismo destruiu o ensino profissional baseado no conceito perverso de que se estava a travar uma luta contra o elitismo liquidando o ensino técnico (e mediocratizando posteriormente o clássico). Embora alguns velhos do Restelo se percam em reminiscências sobre as supostas glórias educativas de outros tempos, suponho serem poucos os que advogam um retorno ao passado. Como escreveu há dias o Rui Tavares no Público «A opção que resta é dar às massas uma escola de elite». Mas para isso importa sobretudo reformar consciências e recuperá-las de um maniqueísmo político medieval que o país não pode continuar a ostentar!


*Como o autor relembra, numa passagem do Malleus Maleficarum, o manual de caça às bruxas da Inquisição, monges indicam ser prática das bruxas «a recolha de orgãos sexuais masculinos em grandes números, tantos como vinte ou trinta, e colocam-nos num ninho de pássaros ou fecham-nos numa caixa, onde eles se locomovem como membros vivos e comem aveia e milho, como tem sido visto por muitos e é alvo de descrição comum».

11 comentários:

  1. Obrigada pelo artigo.
    Agora não tenho tempo, mas vou querer explorá-lo mais tarde.

    Mas, se agradeço o artigo, não é por mera boa-educação. É porque ele ( e outros que t~em aqui surgido) é um sinal de que as coisas começam finalmente a mexer aí em cima.. :).

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  2. Relembro ainda uma passagem cómica do Malleus Maleficarum em que um dos ofendidos lá do povo que ficou privado do "dito cujo" foi ter com a bruxa de serviço que tinha lá na sua arvore muitos a "pastar" nos ninhos, então ela disse algo do género: Sobe a essa arvore e tira o que te mais te agradar, mas não tires o maior porque pertenceao padre da paróquia.
    O livro é questão é a maior abominação que pode existir da literatura propagandistica da época.
    E sim ainda continuamos a ter mentalidade medieval, eu diria escolastico-medieval, relembro em relação ao atraso português o reinado de D.João III em quese começou por dar um grande vigor ao ensino e à cultura, se abraçou a modernidade, mas que de repente sem que ainda se consiga perceber porquê fechou-se às novidades, importou-se de novo a escolástica e mandou-se vir a inquisição.
    Ora a comparação com norte da europa é impossivel pois enquanto nos paises baixos, actual holanda havia liberdade e se incentivava a ciencia como o caso de espinhosa e outros o demostra, por cá seguia-se o malleus maleficarum e absurdos do género, em que se perseguia as pessoas pelo simples facto de se usar um vestido novo no domingo e porque o fulano disse que beltrano era bruxo ou bruxa, depois querem que isto ande para a frente.
    Em relação à actualidade, e tirarem os velhos do restelo dos lugares de decisão deste país, esses velhos do tempo da guerra do ultramar e da guerra fria que ainda pensam que mundo é bipolar e que nos devemos reger por sistemas obsoletos quehá muito deixaram de fazer sentido no mundo, e na educação eles não faltam com essas treas das pseudo pedagogias.

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  3. A Palmira Silva é que é especialista em propaganda, metendo os pés pelas mãos quando confunde a estrutura de um cristal com a informação codificada contida no DNA.

    A informação não é uma qualquer sequência de nucleótidos, por mais improvável que seja.

    Assim como uma qualquer sequência de letras não contém informação.

    A informação consiste no significado adscrito a algumas sequências de nucleótidos (código), informação essa com base na qual se pode construir estruturas e funções com características, propriedades e funções não inerentes aos compostos químicos do DNA.

    Contrariamente ao que a Palmira Silva sugere (sem nunca o provar) a informação só pode ser o produto de uma inteligência, porque só com base em inteligência se pode conceber uma ideia e construir um código para armazenar a respectiva informação.

    E no entanto, nós temos a vida, a complexidade especificada e integrada do DNA, com quantidades de informação que mesmo os mais inteligentes consideram esmagadora.

    Para existir, a vida necessita de DNA, que necessita de enzimas, que necessitam de RNA que necessita de DNA.

    O circuito informacional da vida está fechado. Ele foi fechado na criação.

    A probabilidade de a vida surgir por acaso é simplesmente zero.

    A vida teve que ser inteligente e instantaneamente criada para poder funcionar.

    Defender o contrário é pura propaganda.

    O mais incrível é que o Francis Crick pode escrever livremente nas revistas científicas sobre a sua teoria da “panspermia”, Carl Sagan pode escrever livremente sobre os “contactos com inteligências extra-terrestras”, Richard Dawkins pode especular livremente sobre a “selecção natural de universos”, mas os criacionistas não podem dizer o que é óbvio:

    a quantidade de informação codificada no DNA (genes e códigos epigenéticos) é produto de um Criador omnipotente e omnisciente.

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  4. Belíssimo post! Parabéns. E Obrigado!

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  5. Este blog devia ter um historiador para evitar erros.
    Segundo a wikipedia o Malleus Maleficarum não só não foi "o manual de caça às bruxas da Inquisição" como terá sido colocado no index e proibido pela igreja catolica.
    http://pt.wikipedia.org/wiki/Malleus_Maleficarum
    http://es.wikipedia.org/wiki/Malleus_maleficarum
    http://en.wikipedia.org/wiki/Malleus_Maleficarum

    Um blog que pretende divulgar a ciencia não devia cometer erros deste calibre.

    Camilo

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  6. Haja pachorra para a beatada!

    O franciscano galego Álvaro Pelayo ou Pais, que chegou a ser bispo de Silves, escreveu por volta de 1330, a pedido de João XXII de quem foi confessor, o «De Statu et Planctu Ecclesiae» onde catalogava 102 «vícios e más acções» da mulher entre eles a cópula dom o demo.

    Esta mania da mulher copular com o Demo, que já atormentara Tomás de Aquino, continuou a "preocupar" a igreja.

    Inocêncio VIII estava tão preocupado com a cópula com o demónio que podemos dizer que "encomendou" o manual de caça às bruxas.

    Coube aos veneráveis e muito reverendos Padres e professores de teologia sagrada, Henry Kramer, da ordem dos pregadores, inquisidor da depravação herética, e James Sprenger, abade do convento dominicano de Colónia, a escrita do Malleus Malleficarum, ou o manual de caça à bruxas

    Innocent VIII, in his papal bull "Summis desiderantes" (5 December 1484) instigated very severe measures against magicians and witches in Germany; the principles enunciated by him were afterwards embodied in the Malleus Maleficarum (1487). He it was also who in 1487 appointed Tomas de Torquemada to be grand inquisitor of Spain

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  7. Não sei se o que a srª S. Rita diz é verdade ou não (parece-me mais uma recolecção de dubia proveniencia) mas isso em nada afecta aquilo que eu disse, as afirmações que a Palmira fez sobre o Malleus estão erradas.
    A reacção da Rita mostra pouca lucidez e bastante intolerancia.
    Acaso eu disse alguma mentira?

    Camilo

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  8. Caro Camilo:

    A igreja pode ter repudiado o Malleus a posteriori, como repudiou, por exemplo, a condenação de Galileu ou o apoio católico a Hitler.

    Ou repudiou a posteriori algumas das práticas de tortura preconizadas pelo Santo Ofício da Inquisição. Entre outras, para além da morte na fogueira ou por enforcamento, técnicas como exposição das vísceras, quebra e fractura de ossos, açoitamento, decapitação e amputação das mãos.

    Isso não invalida que o Malleus seja obra do Inquisição, foi encomendado por um papa e escrito por dois inquisidores:

    os veneráveis e mui reverendos Padres e professores de teologia sagrada, Henry Kramer, da ordem dos pregadores, inquisidor da depravação herética, e James Sprenger, abade do convento dominicano de Colónia.

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  9. Não sou culpado das suas dificuldades de leitura. Faça o favor de ler os artigos que indiquei e verá que o Malleus nunca foi aprovado nem sequer bem visto pela Igreja.
    Haja pachorra para os fanaticos de todas as cores, incluindo para os ateus fanatico anticlericais como a Rita.

    Camilo

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  10. Acho um piadão ao pessoal que vem para aqui queixar-se da falta de um historiador rebatendo... com a Wikipedia :)))))

    ó Homem, vá ler a bula Summis desiderantes do Inocêncio em que o papa dá a sua bênção e encoraja a caça às bruxas.

    Esta bula está impressa na primeira página do manual.

    Se depois da morte do Papa em 1492 que encomendou o Martelo das Bruxas a ICAR resolveu renegar a sua obra problema do espírito santo que se enganou na escolha de papa:))

    A ICAR pode ter renegado o Martelo, que é muito pobrezinho e pouco convincente (afinal não havia assim tantos homens a queixarem-se que as bruxas lhe tinhma roubado o pénis) mas logo apareceram alternativas como o Compendium Maleficarum do padre Francesco Maria Guazzo, o expert em demónios e satanismo da ICAR no princípio do século XVII, que descrevia abundantemente as depravações sexuais de sucubos e incubos :)

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  11. Ah! O Compendium Maleficarum dava o mesmo remédio para tratar os problemas satânicos: torturar e matar bruxos e bruxas...

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