quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Obviamente, já lá estão!

A ideia de que, para ensinar em contexto escolar, é preciso conhecer a vida pessoal e familiar dos alunos até ao mais ínfimo pormenor, surgiu no nosso país com grande fulgor e, como todas as ideias peregrinas, disseminou-se e ganhou raízes. Está consolidada, resistindo a qualquer argumento pedagógico com carácter ético e científico. Nada a fazer, reconheço. Mas, não desisto... Até porque os contornos que tem ganho nos últimos anos são irracionalmente assustadores.

A operacionalização desta ideia começou com "fichas de caderneta de disciplina", disponibilizadas pelo Ministério da Educação, já lá vão umas quatro décadas. Perguntava-se os nomes dos pais e do encarregado de educação, habilitações literárias e profissões, disciplinas de que o aluno mais e menos gostava. De seguida, foram as escolas a empenhar-se na tarefa e o que já era bastante mau piorou substancialmente: surgiram centenas, milhares de questionários e fichas biográficas/de caracterização do aluno/de caracterização sócio-económica... cada um a escavar mais e mais a privacidade, a intimidade das crianças e dos jovens.

Dou exemplos do aprimoramento a que se chegou, retirados dum só questionário para alunos dos 2.º e 3º ciclos do Ensino Básico:
Quantos irmãos tens? Tens irmãos que não vivem contigo? A tua casa é moradia ou apartamento, casa própria ou arrendada. Em que divisão da casa estudas? Tens computador? Dormes sozinho num quarto? Se não dormes num quarto onde dormes? Se não dormes sozinho com quem dormes? A que horas te deitas? Alguém na tua família é doente? Se sim, que doença tem? Tens problemas visuais, auditivos, motores, de linguagem? Tens alguma doença: crónica, alérgica, contagiosa, outra. Diz qual? Costumas tomar o pequeno almoço? Em casa ou na escola? O que comes ao pequeno almoço? Costumas almoçar em casa ou na escola? O que costumas almoçar? Costumas lanchar em casa ou na escola? O quê? Frequentaste a Educação Pré-Escolar? Tiveste repetências? Em que disciplinas tens mais dificuldades e mais facilidade? Que disciplinas preferes? Tiveste apoio pedagógico? Porque frequentas esta escola? Tens irmãos a frequentar esta escola? Como te deslocas para a escola? A que horas costumas sair de casa para as aulas?  A que horas costumas chegar a casa depois das aulas? Onde estudas? Como gostas mais de estudar? Tens alguém que te ajude no estudo? Se sim, quem? Costumas conversar em casa sobre a tua vida escolar? Sim Costumas utilizar livros de bibliotecas? Queres estudar até que nível? Gostas de andar na escola? Porquê? Que profissão gostarias de ter? Como ocupas os teus tempos livres fora da escola? Ajudas os teus pais? Se sim, em quê? Quais são as tuas músicas preferidas? Que desportos praticas? Que programas de televisão preferes? O que costumas ler? Que filmes gostas mais de ver?... Do que costumas falar à mesa com a tua família?...
"Do que costumas falar à mesa com a tua família!?" O que pode fazer a escola pior do que isto? O que pode fazer pior do que pôr uma criança ou um jovem nesta situação delicadíssima de reproduzir o que a família lhe diz e o que ela diz à família? E fazendo-o em papel, para que fique registado e ao dispor não se sabe de quem...

Duas coisas podem ser piores.

Uma, é usar as respostas dos alunos (não vou aqui entrar na questão da sua fiabilidade) para elaborar o Projecto Curricular de Turma, que agora parece chamar-se Projecto de Trabalho de Turma. Diz alguém na internet: "Estes dados podem demonstrar aspectos da personalidade e gostos pessoais dos alunos, que por sua vez se tornam fundamentais para a estruturação do planeamento das aulas e do ano lectivo de uma forma geral".  É o tipo de depoimento que leio e ouço a cada momento, já o sei de cor. É um argumento falacioso que poderei explicar melhor em texto próximo, de momento apenas direi que os dados recolhidos, a serem verdadeiros, não são relevantes para essa tarefa.

Outra, é disponibilizar os dados, depois de tratados, em relatórios com gráficos e quadros a ilustrar, à própria escola. Mundo restrito que cada uma é, quem quiser saber da vida de alguém, por dedução ou exclusão de partes, chega lá. As famílias e os alunos ali em comparação: uns assim, outros assado... E, como vivemos numa acolhedora aldeia global, porque não disponibilizar também tais dados na internet? Obviamente, já lá estão!

Nota: Querendo o leitor verificar a veracidade do que afirmo neste texto, procure, por favor, na internet e verá que, infelizmente, não demorá a encontrar abundantes provas.

21 comentários:

  1. Para além do lado de grave interferência com a intimidade das famílias, há a imensa perda de tempo que este modo de estar leva e pior. as conclusões que nos podem afectar, ditadas por meia duzia de cabeças supostamente iluminadas.

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    1. Cara Cláudia:
      Esse seu discurso hermético, soa-me a palavras construidas sobre palavras e a coisa distante da realidade, a pensamento redondo. Será que quis dar exemplo de qualquer cabeça iluminada?

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    2. Eis vossa capacidade no simples, comentário.

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    3. Cara Cláudia:
      ??????????.
      Será que escreveu isto a sério?

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    4. Parece-me que a Cláudia Tomazi escreve numa língua estrangeira e depois usa um tradutor automático da Internet; Os seus comentários ficam ininteligíveis!

      Cruz Gaspar

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    5. Sim, com relação ao comentário às 10:30. Aliás, sereníssimo.

      Com relação ao comentário às 11:27, atribuído de vossa argumentação.

      E por seguinte, creio na seriedade, na boa intenção e principalmente, no quanto contribuimos para esclarecer dúvidas e, deveria ser assim! Embora, complexo o respeito, por vezes é compreensão sob forma da reciprocidade. Sugerido e promovido a condicção humana, por comportamento honesto e objectivo.

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    6. Então, caro capitão, esclareça-me por favor, porque eu cada vez percebo menos!

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    7. A Cláudia é esquizofrénica ou está a mangar connosco.

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  3. Professora Helena Damião;

    Peço-lhe em primeiro lugar desculpa por sair do tema que a Senhora Professora coloca no seu post.
    E isto porque muito gostaria que a Senhora Professora se pronuncia-se, eventualmente num outro post, sobre o que diz actualmente o FMI e as consequências disso; pois certamente terá alguns dados quatificativos de outros países para nos ajudar numa leitura da seguinte declaração:

    "Outro exemplo que continua a aparecer é a educação pública. Aqui, o dinheiro gasto e o número de professores por aluno tendem a ser muito elevados, mas nos resultados obtidos vocês estão na média ou até abaixo relativamente aos países de referência"[FMI]


    Esta minha preocupação – que caminho vamos seguir? Para onde nos levam? - resulta de uma reflexão minha, sustentada pelas seguintes palavras que li do Professor Bento de Jesus Caraça e que lhe transcrevo:

    (…)
    - Perdão! Se uma coisa é reconhecida como insuficiente e má em determinado momento e se não se melhora durante dezanove anos, o que representa isso senão um atraso? Em matéria de civilização, o que acontece a quem pára, enquanto os outros avançam?

    Cordialmente,

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  4. Estimado leitor Ildefonso Dias
    Muito gostaria de estar a par do assunto, para poder pronunciar-me sobre ele, mas não estou. Afirmações feitas por pessoas que ocupam lugares de grande responsabilidade podem ter diversos enquadramentos e leituras. Seria preciso olhar com atenção para dados actuais de diversa proveniência, cruzá-los, pensar neles.
    De qualquer maneira agradeço a sugestão e a sábia frase do Professor Bento de Jesus Caraça.

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  5. Caríssima Professora Helena Damião

    Vejo e sinto o problema tal como o apresenta e o caracteriza.
    Este pequeno comentário é só para dizer que, realmente, é preciso não desistir de o denunciar e combater.
    E dou-lhe até uma boa notícia: nos últimos conselhos de turma (conselhos de turma intercalares) em que participei já houve alguém a fazer essa denúncia, o que causou grande estranheza em quase toda a gente.
    E nos próximos conselhos de turma, daqui por um mês, sei que vai haver alguém a voltar a insistir na crítica, por ser seguro que vai haver matéria para tal...

    Termino com um agradecimento e um pedido. O agradecimento é por dar visibilidade e questionar tão aberrante procedimento. O pedido é que não desista de o fazer, por maiores que sejam a (aparente) indiferença e a eventual contestação de que venha a ser alvo.
    Em pedagogia é preciso semear. E, seja qual for o solo, há sempre algumas sementes que vingam. Isto sabe-o a Professora Helena Damião tão bem ou melhor do que eu.
    Mas quero que fique dito.

    A isto (que denuncia) chamo pedagogia. Séria.

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    1. Corrigenda: na última linha do comentário que fiz leia-se: A esta denúncia que faz chamo pedagogia. Séria.

      Apresento desculpas.

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  6. A título de curiosidade, informo que no hospital onde trabalho, já houve um protocolo de enfermagem que a pretexto de conhecer a situação social do doente, se questionava religião, hábitos sexuais e outras coisas de igual teor.
    Felizmente foi suprimido.
    Alegavam as melhores intenções, mas de boas intenções está o Inferno cheio!

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  7. Pergunto: a resposta aos questionários é obrigatória? poderá um encarregado de educação recusar explicitamente que seja pedido ao seu educando que os preencha?

    Ana Anselmo

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    1. Cara Ana Anselmo

      Sou professor do ensino secundário. As fichas chamadas "sócio-biográficas" não estando estipulado em sítio algum que sejam obrigatórias colocam qualquer aluno em situação incómoda, logo no início do ano, no caso de recusa de as preencher, particularmente se são crianças mais pequenas.
      Contudo, na qualidade de encarregado de educação sempre dei instruções aos meus filhos para não preencherem os espaços que respeitassam à nossa vida pessoal e familiar, sobre a nossa casa, sobre os hábitos deles ou da família, sobre doenças, sobre sexualidade, etc.
      Claro que os informei serenamente de que, em caso de serem chamados à atenção, deveriam simplesmente dizer que eram ordens de casa. E o mais velho chegou mesmo a escrever em algumas delas, em certos espaços, que não respondia por entender não dever revelar dados da sua privacidade.
      Nunca tiveram, por esse motivo, nem eu nem a mãe deles, enquanto encarregados de educação, o mais leve problema.

      O que sempre me deixou muito satisfeito.
      De resto, sei que a alguns diretores de turma custa muito aplicar certos inquéritos. E outros dizem aos alunos que só preencham o que eles quiserem. E outros ainda recolhem a papelada preenchida e nunca olham para ela.

      Como vê, não é propriamente por mal que muitos professores, enquanto diretores de turma, aplicam aquelas fichas. Creio que é assim um pouco "faz-se porque se faz", do género "Maria vai com as outras"...
      Até porque o tratamento daqueles dados só dá trabalho.
      Como calcula também há um ou outro que leva aquilo muito a sério, na convicção de que é um acto pedagógico muito importante. E que talvez até conte para a avaliação do professor.
      A ADD, sabe?...
      Desculpe se fui prolixo.

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  8. Caro Anónimo das 16:21
    Sou amigo da Cláudia e sei o que se passa. Ela escreve em guarani (língua de índios) e não usa tradutor automático. Daí a dificuldade, ela põe os comentários mesmo em guarani.

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  9. Obrigado pelo esclarecimento caro Anónimo.

    Cruz Gaspar

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