segunda-feira, 24 de maio de 2010

ACABAR COM OS "RICOS" EM VEZ DE ACABAR COM OS "POBRES"


Novo texto de Guilherme Valente, na sequência do anterior e sobre o mesmo assunto - o estado a que chegou a educação nacional (na imagem o castelo de Leiria, num quadro de Rute Guerreiro):

O meu Pai, advogado em Leiria, encarnou o melhor do espírito da República, de que foi militante intrépido. Um liberal social - expressão que encontro para o designar, pelo que dele ainda pude conhecer e, sobretudo, pelo que dele me contaram --, combateu pela democracia e a igualdade social, sofreu, foi preso e deportado. Nunca confundiu as ideias com as pessoas que as defendiam e, por isso, teve o respeito dos seus adversários, alguns deles grandes amigos seus. Com a minha Mãe, pessoa humilde, quase sem instrução, mas de fina inteligência e fé, estiveram sempre ao lado dos mais desfavorecidos. Isso mesmo foi gratamente lembrado por Amigos meus recentemente num almoço na nossa Leiria.

Por ser quem era, o meu Pai colocou-me na escola de Santo Estêvão, a escola primária frequentada pela gente mais pobre da minha Terra. Nessa escola confirmei o que aprendi com o meu Pai, com as suas palavras e o exemplo da sua vida: a inteligência, a generosidade, a lealdade, o sentido de justiça, o espírito de aventura, o sonho, não são qualidades sociais, são qualidades humanas.

Muitos dos meus colegas, se não a maioria, iam descalços para a escola.

Um dia, ao fim da tarde, quando brincava com alguns deles na pequena quinta onde nasci, o meu Pai chegou e viu, descoberta e prazer de miúdo, que eu me tinha descalçado também. À noite, tranquilamente, disse-me: «O que tens de fazer não é tirar os sapatos, mas fazeres sempre tudo na tua vida para que toda gente possa andar calçada».

Se o leitor substituir «sapatos» por «conhecimento» compreenderá o que pode ser uma metáfora expressiva do crime que continua a ser cometido no nosso sistema educativo. Em vez de calçar todos os alunos, o eduquês, o Ministério, empenham-se em tirar os sapatos a todos.

E a verdade é que não conseguem acabar com os «ricos», que têm os meios que têm, porque há o ensino privado e o estrangeiro. O que conseguem é apenas tornar todos mais «pobres», muito particularmente, os que entram na escola sem nada. Não é óbvio?

(Para quem, tendo acompanhado o que escrevi, ainda não tenha percebido, estranhamente, o que designamos com a expressão, digo, rapidamente, que o eduquês é uma mistura de ideologia igualitarista -- reaccionária, geradora, afinal, como se sabe, da maior desigualdade - e teorias pedagógicas ditas «novas», mas velhíssimas, que frequentemente ocultam ou disfarçam uma grande ignorância e ausência de domínio do conhecimento e dos saberes que contam, que era suposto e é imperativo a escola transmitir e promover.)

Supostamente em nome da não discriminação de quem não tem acesso à cultura em casa, desvalorizam, reduzem até ao ridículo (ao trágico, na realidade; ver as aberrações lúcida e corajosamente divulgadas por Nuno Crato), suprimem a cultura, os saberes, o conhecimento que conta. Estupidificam para anular as diferenças, em vez de elevar todos, apoiando (como deviam, mas não sabem ou não querem fazer) os que apresentam mais dificuldades. Odeiam e impedem a escola e o ensino que revelaria as diferentes capacidades e vocações, procurando levá-las tão longe quanto se possa e queira.

Claro que o eduquês convém a muita gente, porque há sempre muita gente que prefere não fazer nada, não assumir responsabilidade nenhuma. Foi também por isto que o eduquês lavrou como um incêndio.

Cúmulo de delírio fanático, de estupidez que «mata». Que «mata» as pessoas e está a matar o País.

Guilherme Valente

10 comentários:

  1. Excelente artigo que de forma muito clara e concisa consegue explicar o que é o eduquês, como incendiou as escolas públicas e as consequências do mesmo.

    Hoje, a escola pública é o maior factor de exclusão social neste país, graças à ideologia "travestida" de ciência, imposta pelo lobby das "ciências" da educação.

    ResponderEliminar
  2. José Batista da Ascenção24 de maio de 2010 às 19:47

    Com base no que apreendo da realidade, e sobretudo apoiado na experiência de mais de 25 anos de serviço lectivo, ininterruptos, sempre com várias turmas atribuídas, sei e sinto muito aguda e dolorosmamente o que é o "eduquês"; e também sei quais são algumas das suas consequências. Por isso, lhe digo, Guilherme Valente: Muito Obrigado.

    ResponderEliminar
  3. O artigo está excepcional e saliento, pela sua actualidade, o antepenúltimo parágrafo. A Escola limitando por baixo, deixou de fomentar e desenvolver vocações.

    João Moreira

    ResponderEliminar
  4. O nivelamento por baixo... permite a afirmação por cima! JCN

    ResponderEliminar
  5. Será esse o "Quinto Império" antevisto por Pessoa sob as asas de Portugal: o O Quinto Império dos Carenciados?!... Vamos no bom caminho! JCN

    ResponderEliminar
  6. Quero agradecer ao Guilherme Valente tudo aquilo que tenho aprendido com os livros publicados pela editora que ele dirige: a Gradiva. Sem isso seria de certo pior professora.

    Penso, aliás, que ele tem feito mais pela educação em Portugal do que todos os ministérios da educação. Estes têm contribuído para tornar as escolas locais estranhos, de onde o esforço intelectual, o reconhecimento do mérito e as aprendizagens efectivas foram sendo, progressivamente, banidos em nome de ideias pedagógicas erradas: o dito eduquês.

    Esta ideologia está a condenar - em nome do facilitismo e da igualdade - aqueles que antes tinham na escola a única oportunidade de ascensão social: o conhecimento.

    Existem pessoas, como o Guilherme Valente, que se colocam ao serviço do bem comum e não utilizam o "bem comum" para servir os seus interesses pessoais, políticos...
    Bem haja!

    ResponderEliminar
  7. Uma das coisas que se aprende com Habermas é a de indagar, quando se aborda uma etiqueta ou signo, como é o caso de "eduquês", de que é que se está a falar quando se fala de "eduquês". De entre algumas consultas efectuadas deparei com dois sítios que talvez possam ajudar a decifrar o âmbito em que se desenvolve tal etiqueta ou signo.

    Afigura-se de alguma importância alargar o conceito, ou desmistificá-lo, ou lançar alguma luz mais precisa.

    Participei no "Sítio do Não", de José Pacheco Pereira, contra a construção da suposta Constituição da União Europeia, que acolheu muitos comentários, cada um com os seus argumentos justificativos, mas genéricos. Chegados a um ponto sem saída, Pacheco Pereira decidiu fechar o blog, e justifiquei a minha discordância neste pressuposto:

    "Penso - e porventura, mal - que o 'não' deveria prosseguir, pela simples razão de que não ficaram esgotados os fundamentos do 'não'. Ficamos na situação do operário brasileiro que, não concordando com as medidas do Estado, respondeu, quando Erico Veríssimo lhe perguntou os motivos do não: "Porque é sempre agradável ser do contra" (Gato preto em campo de neve, ed. Livros do Brasil).

    Como o Estado não se encoraja a lançar um programa na TV , para esclarecer os prós e os contras da Constituição, ou pô-la à discussão entre um representante do 'não' e outro do 'sim' (porque estará apostado no 'sim', sem explicar porquê), julgo que o blog do 'não' ainda restaria a única janela aberta para que o maior número de pessoas pudessem transmitir os fundamentos do 'não'. Tanto mais que o blog permite a entrada na Constituição para consulta e consequente troca de impressões, entre os visitantes.

    Napoleão considerava que uma boa Constituição devia ser curta e obscura [como obscuras são as palavras], mas a legislação de suporte deveria ser clara e completa [na certeza de que, como afirmava Voltaire, "leurs nuances sont trop imperceptibles et trop nombreuses"]. Dito isto, eu proporia que os visitantes do blog se debruçassem sobre a Constituição, e exprimissem as suas discordâncias na generalidade (e porquê), e depois na especialidade (e porquê). "(11.07.2005)

    Mas Pacheco Pereira manteve a sua posição de fechar definitivamente o blog e ficou por fazer o que pareceria fulcral: tecer uma teoria crítica da Constituição da UE.

    Da mesma forma se nos afigura fundamental configurar os argumentos que desnudem os pontos nevrálgicos da etiqueta "eduquês".

    Daqui as razões de pôr à consideração, como pontos de partidas, estes sítios: O «anti-eduquês» como ideologia pedagógica, e O "eduquês": mistificação da realidade educativa.

    ResponderEliminar
  8. Acho piada aos cronistas portugueses. Outro dia era o Lisboa contar que tinha vivido em Inglaterra, uma coisa que não tinha interesse nenhum para o post. Hoje é o Guilherme que gasta mais de metade da crónica com histórias da sua vida pessoal para chegar à brilhante conclusão:

    Em vez de calçar todos os alunos, o eduquês, o Ministério, empenham-se em tirar os sapatos a todos.

    Muito gostam de falar da vida pessoal.
    Acho que não era preciso tanta treta para chegar a uma conclusão tão simples e que toda a gente percebe!
    Este post parece escrito no tal estilo eduquês, o tal que estupidifica toda a gente, que é o que se faz aqui, gastar mais de meia crónica para nos explicar uma coisa simplíssima. Não é fazer de nós burros?
    Sinceramente, não estou nada interessado na vida pessoal de cada um e acho que seria muito mais proveitoso gastar a crónica a explicar detalhes do que se está a criticar.
    Porque até agora as únicas coisas que realmente fiquei a saber são sobre o o pai do Guilherme: era advogado, foi preso pela pide, deportado, a pide não o tratava por doutor, era republicano, liberal social, tinha uma quinta, era casado com uma mulher humilde mas de fina inteligência, apoiava os desfavorecidos, foi homenageado num jantar em Leiria, que uma vez disse ao filho para não andar descalço, etc.
    Pormenores sobre o eduquês não fiquei a saber grande coisa, apenas percebi que o Guilherme acha que é uma coisa má, que supostamente aumenta as desigualdades ao tentar esbate-las, mas não se percebe muito bem como porque não há detalhes sobre a tal coisa má.
    E se não há detalhes, eu não confio nesta opinião porque não posso julgar por mim, dizer se concordo ou não.
    Prefiro crónicas mais directas ao assunto, coisas concretas.
    Ou então uma crónica completa sobre o pai do Guilherme, que acredito ter sido uma pessoa interessante. Mas sem o disfarce de que se está a falar do eduquês. Peço desculpa antecipada pela piada foleira.
    luis

    ResponderEliminar
  9. Meu caro Luís,
    De todo este post, aquilo que retirou foi isso?
    Espero sinceramente que esteja apenas a brincar.
    Sem pretender ofender quem quer que seja, permita que lhe diga que é o eduquês (ou outra designação qualquer para o estado actual do ensino) que leva a comentários como o que você publicou - todos querem o caminho rápido, a chamada "papinha feita", sem sequer se esforçarem por analisar, processar, raciocinar... enfim, compreender o que os outros comunicam.
    Rui Pedro

    ResponderEliminar
  10. mais uma vez o luis tem razao.

    Este post e uma treta pegada de inutilidades e ruminacoes pessoais transvestidas de historia de vida.

    Pelo comentario do Rui Pedro se ve bem qual o verdadeiro interesse dos inimigos do eduques.

    ResponderEliminar

1) Identifique-se com o seu verdadeiro nome.
2) Seja respeitoso e cordial, ainda que crítico. Argumente e pense com profundidade e seriedade e não como quem "manda bocas".
3) São bem-vindas objecções, correcções factuais, contra-exemplos e discordâncias.