THE PORTUGUESE RECTORS ON THE EUROPEAN SCIENCE FOUNDATION EVALUATION

segunda-feira, 31 de Agosto de 2009

SOBRE A ACTUALIDADE DE CAGLIOSTRO


Sobre Cagliostro (em cima o seu selo), que se dizia eterno ("io non sono di nessuna epoca e di nessun luogo; al di fuori del tempo e dello spazio, il mio essere spirituale voiive la sua eterna esistenza"), e de quem aqui falei, encontrei o livro de Ian McCalman, historiador australiano, "Conde Cagliostro. O último alquimista" (Pergaminho, 2007), onde ele, citando Umberto Eco, fala da actualidade do conde charlatão da época das luzes. Transcrevo da p. 226:
"O retrato pintado por Carlyle - Cagliostro como arquétipo do charlatão - era tão convincente que, como todos os mitos, depressa se evadiu do seu contexto histórico e viajou até aos nossos dias, onde outro brilhante crítico social, Umberto Eco, o encontrou e lhe deu novo enquadramento. Para Eco, Cagliostro é um profeta, não tanto do Iluminismo ou da era industrial, como deste nosso tempo pós-moderno. Eco vê Cagliostro como um signo vazio, uma pessoa de uma vulgaridade tão transparente que se tornou um íman para as múltiplas fantasias daqueles que perderam o sentido da realidade. Hoje, escreve ele, aventureiros como Cagliostro trocaram a Itália e a França pela Califórnia, onde assumem o papel de profetas da Nova Era, mágicos e curandeiros, alimentando-se da insegurança e da confusão moral das pessoas. os Cagliostros de hoje proclamam uma "crítica da razão", substituindo o mundo real por "uma indústria da falsificação" - os hiper-realistas "castelos encantados", "mosteiros de salvação", catedrais kitsch e cemitérios com garantias de salvação eternas. Os modernos xamãs da televisão imitam o copta, erguendo os olhos ao céu para evocar aparições divinas, rugindo ao lutar com os demónios, curando pessoas com palavras de mel e imposição de mãos. É em Los Angeles, mais do que em Roma e em Paris, que encontramos os descendentes directos da maçonaria egípcia, numa manta de retalhos em que cabem gurus da Nova Era, videntes da Internet, exorcistas, necromantes, pseudo-rosacrucianistas e autoproclamados Cavaleiros do Templo".

SUGESTÃO DE BLOGUE 2


Em "Livre e Humano", aqui, o professor de História da Universidade de Coimbra Amadeu Carvalho Homem tem afixado o seu "Memorial Republicano", para além de outras saborosas crónicas.

SUGESTÃO DE BLOGUE 1


Blogue de Rui Costa Pinto sobre o Almirante Gago Coutinho (na imagem em caricatura), o famoso geógrafo e explorador português de quem se comemoram este ano os 140 anos do nascimento e os 50 da morte: aqui.

domingo, 30 de Agosto de 2009

"Um filósofo espanhol é como um toureiro alemão"

Numa determinada ocasião, o Centro de Estudos Ibéricos ofereceu-me o primeiro volume da sua revista Iberografias, onde se dá conta duma iniciativa desse Centro, intitulada A Ibéria no Contexto Europeu. Nela releio a intervenção bem humorada mas profunda de Fernando Savater intitulada Identidade e Cidadania, da qual deixo aos leitores do De Rerum Natura alguns extractos que captam a linha de pensamento daquele filósofo e ensaista espanhol.

“Eu estava com um amigo francês, professor de Filosofia, uma pessoa muito culta, e eu argumentava, fazia-lhe notar o escasso interesse que mostrava pelas produções dos professores e escritores que escreviam sobre Filosofia em Espanha. E dizia-lhe que não creio que o que fazemos seja nada de especial, nada fora do normal, mas creio que, em geral, há coisas interessantes, ao mesmo nível que as coisas interessantes que se fazem em Inglaterra ou na Alemanha ou em outros países. Então, não estou muito de acordo com essa sua precaução contra tudo o que é Filosofia se vier da parte de um espanhol. Parece-me um pouco exagerada. E ele dizia-me: «Eu compreendo que seja uma desvantagem. Mas há desvantagens, digamos, impossíveis de vencer. Por exemplo, tu. Se te disserem que vai tourear numa praça de touros um toureiro alemão, irias ver um toureiro alemão?» Apesar de me custar imaginar a ideia de um toureiro alemão, digo-lhe: «Bom, então, para mim, um filósofo espanhol é como um toureiro alemão».

Assim, neste caso, falo-vos como toureiro alemão. E, essas marcas, esses rótulos que se põem, essas especialidades que se criam, essas, especialidades culturais faz com que se veja com muitos maus olhos quando as pessoas tentem escrever ou interpretar fora do marco que se criou, digamos, para uso cultural. Durante muitos anos sobretudo nos últimos anos do Franquismo e dos primeiros do Pós-Franquismo, alguns escritores, intelectuais, éramos convidados, de vez em quando para falar num fórum europeu. Mas sempre se dava por adquirido que teríamos de falar de uma série de coisas que já estavam determinadas. Podia-se falar de Dom Quixote.

Evidentemente, quer dizer, todos os espanhóis podem falar de Dom Quixote! Ainda que, como a maioria dos espanhóis não tenham lido Dom Quixote! Mas podem falar de Dom Quixote. Admitia-se que pudéssemos falar da Guerra Civil. Somos especialistas em guerras civis! Podemos falar de guerra civil. Podemos falar de Garcia Lorca. Evidentemente Garcia Lorca entra dentro das especialidades. Mas pouco mais. Então, eu, numa ocasião, fui convidado para um fórum em França e pus-me a falar de Diderot. Criei um clima em que as pessoas me olhavam e diziam: «Este senhor porque fala de Diderot? Porque não fala de Garcia Lorca, de Santa Teresa?» E eu disse: «Bom, não sei, ocorreu-me falar de Diderot! Penso que posso dizer qualquer coisa a este respeito». Esse pressuposto de que certas culturas estão constrangidas ao peculiar e que outras estão destinadas ao universal não faz estranhar que um professor inglês fale de Quixote, de Esadekeils, de Diderot ou do que lhe entenda. Em contrapartida, estamos vinculados a uns determinados temas. Escutam-nos desde que não falemos mais do que das coisas que obrigatoriamente temos de falar. E quando queremos falar um pouco do universal ou aspirar a temas, digamos, não estritamente da nossa área, despertamos imediatamente, um… bom, convertemo-nos em toureiros alemães, como dizia o meu amigo francês!

(…) Eu penso que, em certa medida, todas as pessoas cultas da Europa vivem uma unidade de interesses por tudo o que se faz culturalmente na Europa. Quer dizer, eu não conheço europeus cultos que não leiam Dostoievski, que não leiam Dante, que não leiam Shakespeare, que não leiam Voltaire.

Creio que, como europeus, praticamos uma certa cultura. Dentro de cada um de nós, de alguma maneira, se concretizou essa unidade cultural europeia e todos consideramos que, por muito diferentes que sejam os autores, constituem parte de um património que manejamos. Se queremos dar à Europa um peso maior que não seja meramente económico nem assente na reiteração individual dessa unidade (…) haveria que criar um cidadão europeu, quer dizer, alguém que viva com uma mentalidade (…) inspirada não na etnia, não em rótulos de grupo, não nos regionalismos culturais, mas na partilha de algumas leis e direitos comuns (…).

Quer dizer, criar essa imagem de cidadão, de cidadão que não se limite a prolongar a tribo na cidadania (…) que se identifique com a cidadania e não com os seus traços tribais (…). Criar essa imagem seria, no meu entender, a grande contribuição europeia, fundamental num século que eu temo que se torne dominado pelos rótulos, pelas etnias, e pelas limitações, digamos, regionais.

(…) Não há qualquer argumentação para enfrentar os rótulos e as etnias. Ou se pertence a um certo grupo ou se está definitivamente excluído (…) as etnias são forçosamente fanáticas porque não permitem a adesão, a integração de outras pessoas no grupo. Quer dizer, as etnias só servem para criar estrangeiros. Uma etnia não serve para mais nada a não ser para criar estrangeiros. Os seus argumentos são: tu não podes entrar aqui, tu não és digno de crédito para entrar aqui.”

Referência bibliográfica:
- Savater, F. (2005). Identidade e Cidadania. Iberografias. Ano 1, n.º 1, páginas 27-31.

O PALAZZO VECCHIO DE FLORENÇA




Continuando a minha reportagem de Florença: do Palazzo Vecchio tem-se uma vista única sobre a Piazza della Signoria e também sobre a Duomo, sendo possível admirar melhor o trabalho do arquitecto Brunelleschi (em Florença, como o escritor inglês E. M. Forster sabia porque esteve lá, há não só um, mas vários belos "quartos com vista"). No Palazzo, uma das maiores atracções é a Sala dos Mapas Geográficos, com paredes todas pintadas a mapas pelo monge dominicano Fra Ignazio Danti (1563-1575), usando já o sistema de Mercator. No centro, o grande globo ("Mappa mundi") significa de certo modo o domínio do mundo.

Porque caiu a Monarquia?


Mais um post a propósito do próximo Centenário da República da autoria do historiador António Mota de Aguiar (na foto, José Relvas proclama a República à varanda dos Paços do Concelho em Lisboa, onde recentemente um grupo monárquico hastou a bandeira das suas cores)

Se revirmos a história dos últimos anos da Monarquia compreenderemos melhor porque foi a vida da Primeira República tão atribulada e de tão infeliz sucesso. A recordação de alguns factos históricos ajudar-nos-á a compreender melhor porque caiu a Monarquia (ver aquiReflexões para o Centenário da 1ª República”). E também porque, mais tarde, caiu a Primeira República.

Quando, em 1889, D. Carlos inicia o seu reinado, o país está em vésperas de bancarrota, ou, dito por outras palavras, não há dinheiro para comprar no estrangeiro aquilo que os Portugueses necessitam para as suas vidas quotidianas, que o país praticamente não produz. A única solução que o Estado encontra é pedir dinheiro emprestado no estrangeiro, agravando a já de si grande dívida pública.

Em 1890 recebemos o aviltamento do “mapa cor de rosa” e, de certo modo, os Portugueses fazem ‘harakiri’ pela vergonha nacional sofrida. É então que se dá a revolta republicana de 31 de Janeiro no Porto em 1891. Os manuais da História de Portugal referentes a estes últimos anos do rotativismo dão-nos conta de sessões parlamentares turbulentas, insultuosas e inúteis, dominadas por interesses partidários. A monarquia parlamentar treme, mas vai-se aguentando.

O “país da tanga” vai pedindo dinheiro emprestado lá fora e, cá dentro, D. Carlos I continua a gastar bem, recebendo, como “adiantamentos”, importantes somas de dinheiro. Apesar do país lhe facilitar uma vida luxuosa e parasitária, não deixava de o considerar uma “piolheira”. Os últimos anos do rotativismo foram marcados por sucessivos escândalos financeiros, enquanto a maioria dos portugueses permanecia na miséria.

De revolta atrás de revolta chegamos ao regime de violência e repressão de João Franco, à greve académica de 1907 (ver aqui "A Greve Académica de 1907 em Coimbra").

A sociedade portuguesa chegara ao caos total, a monarquia podre e desacreditada ruíra, caindo por todos os lados, sem salvação possível. O sentimento de que a sociedade portuguesa caminhava para o abismo era sentido por muitos. O Regicídio, pressentido no tempo, foi um acto tresloucado, uma manifestação de ódio inútil, com consequências desastrosas para os republicanos, como João Chagas previa e temia [1], E como veio, de facto, a acontecer.

A implantação da República a 5 de Outubro de 1910 teve sucesso não só pela boa organização dos revoltosos, mas também pela desmoralização dos monárquicos: os monárquicos estavam divididos por lutas viscerais, poucos se levantaram para salvar a monarquia. A monarquia estava podre, não havia saída possível para o sistema.

Entre os principais mentores da revolta militar republicana: João Chagas, Miguel Bombarda, Machado Santos, António José de Almeida, António Maria da Silva, Cândido dos Reis, etc., não figuram Afonso Costa, que se afastara dos preparativos militares [2], e Bernardino Machado [3], por achar que ainda não tinha chegado a hora de uma revolução pelas armas.

No decurso dos acontecimentos militares, um dos principais protagonistas da revolta, o Almirante Carlos Cândido dos Reis, pensando que o golpe tinha falhado, suicidou-se. Ficámos a dever a Machado Santos, que correu de armas na mão para a Rotunda, em Lisboa, o sucesso do golpe militar. Após a vitória na Rotunda, a República foi implantada no resto do país, por telégrafo. Isto quer dizer que a implantação da República foi por um fio!

Estes pormenores, não tiram em nada valor aos revolucionários republicanos de 1910, mas retiram-no aos monárquicos, que não se bateram pelo seu regime político - na verdade, não o fizeram por que não acreditavam nele.

Que herdou a república do regime monárquico? Uma dívida externa abissal, o caos político, a miséria generalizada, uma economia em farrapos, cerca de 80% de analfabetos. Como consequência desta situação de caos, a partir de 1910 alguns homens têm projectos políticos próprios, prontos a fazê-los vingar pelas armas, caso necessário, mas ninguém sabe o que é uma Democracia, por que ninguém a praticara antes.

Como é que, nestas condições, se poderia construir um outro país? O caos envolvente faz-se cedo sentir na sociedade portuguesa após o 5 de Outubro: António José de Almeida, que electrizara multidões com os seus discursos em prol da República, era agredido, insultado e enxovalhado a 11 de Outubro de 1911, por “arruaceiros” [4] em pleno Rossio, em Lisboa. Que queriam esses arruaceiros? Nada. Simplesmente, em “casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão”

Em Outubro de 1910, a sociedade portuguesa assentava numa contradição: se, como ideal, pairavam ideias generosas (“Liberté, Egalité, fraternité"), na prática continuavam instaladas a desordem, a fome, a miséria, e o analfabetismo, aproveitadas pela ambição de alguns...

António Mota de Aguiar

NOTAS
[1] João Chagas, Cartas Políticas, Oficînas Bayard, 1908
[2] João B. Serra, in História da Primeira República Portuguesa, Coordenação de Fernando Rosas e Maria Fernanda Rollo, pp. 43-52, Tinta da China, Lisboa, 2009
[3] João Chagas, Cartas Políticas, Vol. IV, pp. 105-107, Oficînas Bayard, 1908
[4] “A Lucta” de Outubro de 1911.

sábado, 29 de Agosto de 2009

NOVOS LIVROS SOBRE EVOLUÇÃO


No Ano Darwin, mais quatro livros recentes sobre a evolução, analisados no "Sunday Book Review" do "New York Times": aqui.

POEMA PARA GALILEU


Li o "Poema para Galileu" de António Gedeão, que contém o seguinte excerto:

"Lembras-te? A Ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria…

Eu sei… eu sei…

As margens doces do Arno às horas pardas da melancolia.

Ai que saudade, Galileo Galilei!
".

E fui atrás do poema. Encontrei, pela ordem certa, a Ponte Vecchio, a Loggia e a Piazza della Signoria.

A DUOMO DE FLORENÇA




Em Florença vale a pena ver a enorme catedral (Duomo), a Basilica di Santa Maria del Fiore, no interior da qual se encontra um relógio que foi construído seguindo a "hora itálica", one o dia acaba ao pôr do Sol (reparar que o sentido do relógio litúrgico, com um só ponteiro, é o contrário do usual), com retratos dos quatro evangelistas pintados por Paolo Uccello (em 1443), e, evidentemente, a verdadeira obra-prima da arquitectura mundial que é a cúpula, construída pelo arquitecto Filippo Brunelleschi (ganhando a Lorenzo Ghiberti, o autor das portas do Baptistério, também conhecidas por "portas do Paraíso", em resposta a um concurso público em 1419) e pintada, com cenas do juízo final pelo pintor Giorgio Vasari, em 1572, obra que seria completada por Frederico Zuccaro. Clicar nas fotos para as ver melhor.

UM RELÓGIO PARA OS MEDICI



Na exposição no Palazzo Strozzi, em Florença, um dos objectos mais espectaculares é a réplica do relógio planetário de Lorenzo della Volpaia (1446-1512). Segundo a legenda:

"Reconstrução fiel e funcional de um relógio planetário construído por ordem de Lorenzo de Medici. O mostrador, pela primeira vez, permite ver de uma só vez os movimentos dos planetas, as fases e tempos da Lua, e o movimento médio e verdadeira posição do Sol. Indica também a hora (com um carrilhão), o dia e o mês."

AINDA O DEDO DE GALILEU


Entrada do imponente Palazzo Strozzi, em Florença, terra onde Galileu está sepultado, que tem à direita uma escultura moderna que evoca o dedo de Galileu, de que falei em texto recente. É neste palácio que está em últimos dias a exposição sobre representações do Universo da Antiguidade até ao telescópio de Galileu, integrada no Ano Internacional da Astronomia, que mostra o dedo de Galileu.

sexta-feira, 28 de Agosto de 2009

Esta vida de professor…

Bernard Houot era um engenheiro bem sucedido, com um salário acima da média e várias outras regalias que não estão ao alcance dos professores. Porém, quando se encontrava na casa dos quarenta, resolveu mudar de profissão e ir… para o ensino.

A descoberta do modo como o sistema educativo e a escola funcionam e do modo como professores, alunos e pais convivem é relatado num livro intitulado Coeur de Prof, publicado em França, em 1991, e que a editora ASA traduziu para português dois anos mais tarde, designando-o por Esta vida de professor…

A escrita bem disposta e aparentemente leve de Houot remete-nos para questões sérias e profundas que permanecem actuais entre nós. Uma delas é a do sucesso/insucesso dos alunos, em relação à qual mais uma vez, por vias de notícias recentes, nos interrogamos neste tempo que ainda é de férias escolares.

De entre as várias passagens que remetem para o assunto escolhi a que se segue (páginas 90-92):

Sentimo-nos por vezes excedidos, como um médico de hospital, pela diversidade dos casos que se apresentam à consulta. Para recuperar a confiança, consolamo-nos com os sucessos da medicina. Porque não os terá também a pedagogia?

O nosso problema, infelizmente, não é tão simples como o de um médico. Antes de mais os pacientes não se apresentam à razão de trinta e cinco de cada vez. Embora cada um tenha as suas particularidades, temos de tratar todos os casos ao mesmo tempo. Além dos nove ou dez alunos muito lentos pelos quais simplificaríamos de boa vontade a matemática, há vinte alunos médios que parecem acompanhar muito bem e dois ou três cracks capazes de terminar uma demonstração antes de nós. Todos esperam com impaciência que nos ocupemos dos seus casos pessoais.

Um médico vulgar não hesita em mandar os seus pacientes para um especialista quando não tem a certeza do seu diagnóstico ou do tratamento a prescrever. Na educação não ocorreria a ninguém pensar que as nossas competências não são universais. Aí está outra diferença relativamente à profissão de médico: nós só podemos contar connosco para tratar seja o que for.

Esta última exigência parece-nos bastante normal no momento em que abordamos pela primeira vez a profissão de professor. Estamos convictos que sabemos obter bom aproveitamento de todos os alunos, sem excepção, graças apenas ao nosso trabalho (…).

E toca a meter mãos à obra, de fronte erguida. Quando os alunos começam a patinar tomamos a coisa como uma ofensa pessoal. Redobramos os esforços. Estamos persuadidos que os nossos fracassos se devem apenas à falta de tempo, de experiência ou de quantidade de trabalho. Somos obnubilados por um orgulhos insensato que nos remete a um trabalho solitário. Tentamos sempre fazer mais e melhor a ponto de arriscar uma depressão nervosa.

É preciso algum tempo e muita modéstia para finalmente reconhecer a evidência: há alunos que não conseguiremos salvar. A nossa incapacidade relativamente a eles nada tem a ver com falta de trabalho, de formação ou de experiência. Está antes ligada à nossa personalidade, ao nosso ritmo, aos nossos métodos, aos nosso defeitos e às nossas qualidades. Ou então relaciona-se com o meio e as condições em que temos de ensinar. Esses alunos não funcionam como nós. Eles não aderem à nossa pedagogia. Eles não têm a nossa maneira de abordar a questão. Ou então não entram nos moldes que lhes propõe o estabelecimento onde ensinamos (…).

Quando os alunos não têm sucesso, declara-se de bom grado que têm dificuldades. Poucas pessoas se iludem com sobre este eufemismo. São, antes de mais, os professores e os estabelecimentos que estão em dificuldades.

Porque se atribui tão facilmente a responsabilidade pelo fracasso aos alunos e não ao sistema escolar? Será que os professores tiram daí alguma vantagem? Não creio. Embora a linguagem pareça desculpá-los, eles sabem que têm uma parte de responsabilidade (…). Muitos até se consideram mais culpados do que realmente são. Persuadidos de que só devem contar com eles próprios, vivem o sucesso ou fracasso dos seus alunos como uma coisa privada pessoal. Daí a sua vergonha em reconhecerem-se inaptos para tratar os casos de certos alunos, a sua hesitação em recorrer a outras pessoas, a sua recusa de alertar o estabelecimento quando se acham em dificuldades. Toda a declaração de impotência se lhe afigura uma espécie de demissão relativamente à elevada ideia que têm da sua responsabilidade.

Ninguém, no seio da Educação Nacional, irá dizer-lhe que devem preocupar-se unicamente, da forma mais séria e aberta possível, com o sucesso dos seus alunos e não pretenderem fazer tudo sozinhos. Ninguém os convida a advertir a direcção do seu estabelecimento, caso experimentem dificuldades".

PORTUGAL DESIGUAL


Minha crónica no "Público" de hoje:

Agora que se aproximam eleições legislativas, vale a pena interrogar-nos sobre quais são os nossos principais problemas. Se o fizermos, será inevitável a conclusão de que uma das questões que mais nos devem preocupar é a enorme disparidade de rendimentos que persiste entre os mais ricos e os mais pobres. Somos um país de enormes contrastes sociais e há fortes indícios de que a recente crise económica internacional (que se soma à crónica crise nacional) veio aumentar ainda mais o desnível entre os grupos sociais com mais e menos rendimentos.

Um livro recente publicado na Grã-Bretanha – The Spirit Level: Why More Equal Societies Almost Always Do Better (Allen Lane, 2009), de Richard Wilkinson e Kate Pickett, epidemiologistas das Universidades de Nottingham e York – veio chamar a atenção para a relevância desse indicador. Dentro de um grupo de vinte países desenvolvidos, Portugal aparece no topo da escala da desigualdade, entre o Reino Unido e os Estados Unidos (neste último, a desigualdade social ainda é maior do que entre nós, mostrando que se pode ser um país rico e, ao mesmo tempo, ter a riqueza distribuída de uma forma muito assimétrica). Do outro lado, no fundo da escala da desigualdade, encontram-se o Japão e os países nórdicos, como a Suécia e a Noruega. Não há, porém, razões para estarmos satisfeitos com a companhia em que estamos. Aqueles autores, baseados num cuidadoso estudo estatístico de uma série de índices, chamam a atenção para o facto de ser nos países onde há maior desigualdade de rendimentos que há também mais problemas sociais e de saúde, designadamente maiores taxas de criminalidade, de obesidade, de doenças mentais, de gravidez na adolescência, de insucesso escolar, etc.: os vários indicadores relativos à incidência desse tipo de maleitas estão bem correlacionados com a desigualdade social. Claro que correlação não implica uma relação de causa-efeito, mas Wilkinson e Pickett dizem-nos que essa desigualdade coloca um país sob uma grande tensão, gerando dificuldades acrescidas para todos: não são só os pobres, que sofrem sempre com o seu estado de marginalidade social, mas é também o resto da população de um país – classe média e ricos - que fica pior. Como resume o subtítuto: Sociedades mais igualitárias funcionam quase sempre melhor.

O jornal The Guardian de 13 de Março, num artigo sobre desigualdade social suscitado pela publicação do referido livro, chama a Portugal e Espanha um “par estranho”, por serem “países com muitas semelhanças culturais e paralelos nas suas histórias recentes – ambos se tornaram democracias nos anos 70 após a queda de regimes autoritários”. Mas, nota o jornal,“a Espanha está a meio da tabela da desigualdade, enquanto Portugal está quase no cimo”, registando-se aqui “muitos mais problemas sociais”.

Haverá esperança de que esta situação mude, a oeste da Península, com as próximas eleições? O depósito do voto na urna deveria ser sempre um acto de esperança. Mas, faltando um mês para o sufrágio, não parece que esse venha a ser o sentimento dominante. Por um lado, pode-se pensar que, dos dois maiores partidos, o Partido Socialista, em princípio mais à esquerda, seja mais sensível às questões tão prementes das desigualdades sociais. Mas, por outro lado, a sua política no sector da educação, aquele onde a sociedade, com maior eficácia, pode concentrar esforços no sentido do seu nivelamento, tem-se revelado desastrosa. A escola portuguesa actual não constitui para os pobres um meio seguro e expedito de promoção social. De facto, na ausência de uma escola pública qualificada e exigente os ricos conseguem encontrar alternativas, ao passo que os pobres estão condenados à exclusão. Seja qual for o partido que ganhe as eleições (aliás ganhar pode, a curto ou médio prazo, significar perder), muitos eleitores receiam que se venha a aplicar mais uma vez a famosa frase de Giuseppe di Lampedusa, o escritor italiano autor de O Leopardo: "Se queremos que tudo fique como está é preciso que tudo mude".

HOMENAGEM A FERNANDO LANHAS NO PORTO


Informação recebida do Clube Literário do Porto:

Como forma de agradecimento pela obra e pensamento de Fernando Lanhas, decidiu o Clube Literário do Porto homenagear mais um grande artista desta Cidade, um dos maiores nomes da arte portuguesa do século XX.

Nascido no Porto, em 1923, é um homem de múltiplos interesses, Arquitecto de formação, pintor, desenhador, poeta, arqueólogo, astrónomo, etnólogo, paleontólogo, coleccionador, etc.

A sua pintura introduziu o abstraccionismo em Portugal a partir de finais dos anos 40, tendo desenvolvido ao longo da sua carreira, uma concepção original da pintura. Muito mais se poderia dizer sobre Fernando Lanhas, mas prefere o Clube Literário do Porto, convidar o público em geral a visitar este espaço e participar no mês de actividades que pretende organizar em sua homenagem, em simultâneo com a mostra que fará, alusiva à sua obra literária e ao seu pensamento.

A exposição inaugura a 5 de Setembro de 2009 pelas 16h00 e poderá ser visitada de Segunda a Domingo, das 09h00 à 01h00 da manhã (entrada livre).

C l u b e L i t e r á r i o d o P o r t o
Rua Nova da Alfândega, 22 | 4050-430 PORTO Telefone 222 089 228
clubeliterario@fla.pt

O DEDO DE GALILEU


Minha crónica publicada no "Sol" de hoje (na imagem, o dedo de Galileu):

A 25 de Agosto de 1609, Galileo Galilei fazia uma demonstração do seu primeiro telescópio perante senadores venezianos, apontando com um dedo o sítio para onde deviam olhar. Quem quiser hoje, passados 400 anos, ver um dos dedos de Galileu terá de se deslocar a Florença à extraordinária exposição, com o título “Galileu: Imagens do Universo desde a Antiguidade ao Telescópio”, que está em exibição, em últimos dias, no Palazzo Strozzi. O sítio não tem que enganar pois uma moderna escultura abstracta à porta do Palácio evoca o dedo a apontar para o céu. Depois de percorrer várias salas dedicadas à história das observações celestes é na penúltima, sobre Galileu e o telescópio, que o visitante encontra o dedo, dentro de uma redoma.

Tal como uma relíquia de um santo, o dedo foi retirado do cadáver do sábio italiano, acabando por entrar nas colecções do Instituto e Museu de História da Ciência de Florença, hoje em profunda remodelação para abrir em grande ainda este ano.

Quem estiver em Florença – e o visitante tem toda a vantagem, tal como no filme de James Ivory, em reservar um “quarto com vista sobre a cidade” – não pode deixar de visitar o túmulo de Galileu, na Basilica di Santa Croce, que aliás aparece no filme. Perto dos túmulos de Dante, Maquiavel e Rossini, encontra-se o de Galileu. Uma equipa de cientistas ingleses e italianos já pediu autorização à Igreja para abrir o túmulo e estudar os restos mortais de Galileu.

Pode parecer estranho que um cientista condenado em 1630 pela Igreja Católica, e que morreu a cumprir pena de prisão domiciliária, esteja sepultado num templo. Mas essa estranheza diminuirá decerto se se pensar que o Papa João Paulo II, em 1992, depois de uma demorada revisão do processo, admitiu que a condenação foi um erro. A Igreja organizou até em Florença, em Maio passado, um congresso sobre o caso Galileu e inaugurará em Roma, em Outubro próximo, uma exposição sobre Galileu e a ciência astronómica. Quem julga que a justiça portuguesa é demasiado lenta devia olhar para a justiça do Vaticano...

quinta-feira, 27 de Agosto de 2009

HOMEOPATETICES



(com os agradecimentos ao leitor Luís Alves pela indicação)

CAGLIOSTRO, O CONDENADO DE SAN LEO


Ontem à noite não estava lua cheia, mas sim quarto crescente, no fantástico céu italiano por cima da altaneira povoação de San Leo, muito perto da República de San Marino e da estância balnear de Rimini, a terra desse grande mágico do cinema que foi Frederico Fellini. Mas se estivesse lua cheia, teria sido possível, segundo a lenda, encontrar à beira da estrada o fantasma do Conde Cagliostro, aliás Giuseppe Balsamo (1743-1795), o renomado mágico, medium, curandeiro, maçon, aventureiro e viajante. Que se saiba, não apareceu a ninguém, apesar de terem sido muitas as pessoas que passaram por aquela estrada a caminho ou vindas do festival “Alchimia” (há quem chame a Cagliostro o último dos alquimistas), um dos maiores eventos de esoterismo em Itália e por isso mesmo uma boa atracção para os muitos turistas de Verão. Todos ficaram deslumbrados com o espectáculo pirotécnico de luz e som!

Com efeito, foi a 26 de Agosto de 1795 que Cagliostro (continuemos a usar o nome mais popular, embora o título de conde seja falso como aliás quase toda a história de vida que o próprio inventou, incluindo uma longevidade que lhe teria permitido conviver com Jesus Cristo) morreu, de apoplexia, numa diminuta cela do inexpugnável castelo renascentista de San Leo, com entrada só por uma abertura no tecto e com uma acanhada vista entrecortada de grades que nem dava para ver a Lua. Estava ali porque fora condenado em 1790 pela Inquisição romana à morte, por defender a maçonaria, e, não se sabe bem porquê, viu a sua pena comutada em prisão perpétua (Camilo Castelo Branco traduziu e publicou o processo sob o título de "Compêndio da Vida e Feitos de José Bálsamo Chamado Conde de Cagliostro ou O Judeu Errante", e há uma edição recente da Hugin com um título mais curto) . A prisão durou quatro anos, quatro meses e cinco dias, até que o presidiário acabou por sucumbir, na sinistra cela. A sepultura não foi cristã, não estando hoje assinalada. Apesar de o suposto conde não ter vivido uma longa vida, nalgumas lojas de San Leo os turistas podem comprar um licor de Cagliostro, muito alcoólico como convém, que é anunciado como o elixir da longa vida. Mas essa bebida, já tradicional na terra, teve agora de competir numa feira esotérica com beberagens sortidas mais baratas, vindas de todo lado, que prometem o mesmo ou ainda mais.

Vale a pena ir a San Leo, mesmo fora do dia do “herói” da terra. Até porque há outros heróis, mais valorosos e justamente mais conhecidos, que por lá passaram, como S. Francisco de Assis, que aí fez um sermão e que fundou perto o Convento de Sant’ Igne (onde há um fresco representando Santo António), Dante Alighieri, que refere San Leo no Purgatório da “Divina Comédia” (“A Noli e a San-Leo por árdua via / Com pés se vai, Bismântua assim se alcança/ Ter asas de ave aqui mister seria”), e Lorenzo de Medici, que ali construiu um palácio depois de ter cercado e conquistado o castelo. Para além da visita ao castelo, o turista pode e deve desfrutar da visita à catedral românica do século XII com um elegante campanário ao lado e uma igreja vizinha, também românica, que remonta ao século IX, no preciso sítio onde San Leo construiu o primeiro templo na localidade. Conta-se que a povoação de San Leo foi fundada pelo santo com esse nome, que veio no século V da costa dálmata, do outro lado do Adriático, evangelizar a península itálica, então ainda largamente pagã. Mas o que turista não pode, de modo nenhum, perder é a impressionante vista do cimo da falésia onde o burgo está alcandorado, que proporciona uma paisagem que chega, por um lado, ao castelo de San Marino e, por outro, ao mar. Para comer, e obviamente beber, recomendo o restaurante “Belvedere”, junto ao miradouro principal, onde se pode “al fresco” degustar uma Pasticciata alla Cagliostro (o nome é inescapável) acompanhado de um “vino rosso regionale”...

A história de Cagliostro é a muitos títulos curiosa e de tão grande e fantástica não cabe aqui. Mas posso fazer um resumo. Nascido em Palermo, na Sicília, tornou-se rapidamente um bandido, fugitivo e aldrabão... de grande sucesso. Chegou a altas posições em Roma, onde foi secretário de um cardeal, em Londres, onde terá participado em cerimónias com ritos maçónicos egípcios, e em Paris, onde esteve preso na Bastilha por suposto envolvimento no caso do colar da rainha Maria Antonieta, que antecedeu a Revolução Francesa. Em Paris os seus serviços de médico foram recomendados a Benjamin Franklin, tendo o cientista e diplomata americana feito referência ao estranho personagem. Cagliostro e a sua jovem mulher, Seraphina, encontraram-se numa ocasião com um outro aventureiro e fugitivo, o veneziano Giacomo Casanova (Casanova não a terá seduzido, mas há uma história picante sobre a oferta que Cagliostro fez de favores da sua mulher a um marquês em troca de lições de falsificação). Travou conhecimento com outros nomes famosos como os escritores alemães Goethe e Schiller, que logo o honraram com a entrada directa na literatura mundial. Se a sua carreira em vida terminou com a morte na solitária do castelo de San Leo, bem pode dizer-se que continuou depois e prossegue ainda hoje, a avaliar não apenas pela “romaria” de ontem a San Leo, mas também pelo número de referências ao seu nome a às suas histórias que encontramos na literatura, no teatro e no cinema.

O espectacular sítio de San Leo tem uma magia natural, mesmo sem o festival mágico de Verão, e está à espera de ser descoberto por quem ainda o não conhece. Escusado será dizer que, garantidamente, não há o perigo de encontrar, no caminho, o fantasma desse "aristocrata do embuste" que foi Cagliostro...

GRANDES ERROS: GRANDE MARTE


Informação recebida do Observatório Astronómico de Lisboa (a imagem mostra o planeta Marte):

Todos os anos, nesta altura do ano, surge na internet a notícia de que
Marte estará muito próximo da Terra. Segundo a notícia, a grande
aproximação aconteceria no dia 27 de Agosto, e nessa ocasião, Marte
ficaria com o mesmo tamanho angular da Lua, podendo-se ver "duas luas"
no céu. Esta noticia não tem qualquer fundamento!

Este boato, recorrente, têm surgido nos últimos seis anos porque Marte
esteve realmente muito próximo da Terra em 27 de Agosto de 2003. Nesse
dia o planeta vermelho esteve a "apenas" 55,76 milhões de quilómetros da
Terra, a menor distância entre os dois planetas dos últimos 60 mil anos.
Mas mesmo nessa ocasião, Marte esteve muito longe de se comparar em
tamanho aparente ao nosso satélite natural, que mantinha um diâmetro
aparente 72 vezes maior do que o de Marte.

O fenómeno de maior proximidade entre a Terra e Marte não se repete
anualmente, as melhores fases de observação de Marte têm um período
próprio que depende dos períodos de translação de Marte e da Terra em
redor do Sol. Esse período é conhecido como período sinódico, e, para o
caso de Marte, vale 780 dias, aproximadamente. O próxima vez em que o
planeta vermelho e a Terra se encontram próximos ocorrerá só no dia 27
de Janeiro de 2010. Nessa dia a distância entre os dois planetas será de
99 milhões e 330 mil quilómetros: mais distante que o fenómeno ocorrido
em 2003. Nessa ocasião, o tamanho aparente de Marte será, como sempre,
muito menor que o da Lua. Nunca se poderá ver Marte do tamanho da Lua!

Este ano, durante a madrugada de 27 de Agosto de 2009, Marte estará no céu e poderá ser observado. O nascimento do planeta ocorrerá às 1h54m. A Lua estará na fase de quarto crescente.

Para obter mais informação sobre a "visibilidade do Planeta Marte em
2009" consulte a nossa página.

quarta-feira, 26 de Agosto de 2009

HISTÓRIA DA TELEGRAFIA EM PORTUGAL


Quem se interessar pela história da telegrafia em Portugal pode ler este artigo, que escrevi em colaboração com António José Leonardo e Décio Ruivo Martins, e que acaba de sair na "Revista Brasileira do Ensino da Física": aqui. Excerto:

"O grande impulsionador do telégrafo em Portugal foi o engenheiro José Vitorino Damásio (1807-1875), bacharel em Matemática pela Universidade de Coimbra em 1837 e, a partir de 1855, sócio correspondente do Instituto de Coimbra. Foi professor da Academia Politécnica do Porto, desde 1838, e director do Instituto Industrial de Lisboa, desde 1853. Em 1845 a Companhia de Obras Públicas incumbiu-o de tomar contacto com os sistemas telegráficos em funcionamento na Inglaterra e em França e de adquirir instrumentos para a projectada rede telegráfica nacional. Foi Damásio quem, um ano depois de experiências no Porto, foi mandatado pelo Conselho Superior de Obras Públicas (CSOP), onde trabalhava, para estudar as propostas das companhias de telegrafia francesas e inglesas. O CSOP deu parecer favorável ao fabricante francês Bréguet, embora esta fosse a mais cara, uma vez que, como defendido por Damásio, era a mais idónea e a que mais garantias dava em virtude do seu reconhecimento internacional.

(...) A introdução da telegrafia eléctrica em Portugal não teve, na época, grande repercussão nos jornais nacionais, merecendo apenas três linhas no Jornal do Comércio de 28 de Julho de 1855. Este facto não terá sido alheio à coincidência com a coroação de D. Pedro V, mas também se explica porque o Exército ficou, de início, com a exclusividade da sua utilização."

terça-feira, 25 de Agosto de 2009

PORTUGAL, DISFUNCIONALIDADE SOCIAL E RELIGIÃO

Na revista Newsweek de 24-31 de Agosto, Sharon Bagley, no artigo intitulado "(Un)wired for God. Religioun beliefs may not be innate", refere Portugal como um país próximo dos Estados Unidos, por ser ao mesmo tempo socialmente muito disfuncional (medido por taxas de homicídios, abortos, gravidez de adolescentes, doenças sexualmente transmissíveis, desemprego e pobreza) e muito religioso (medida pela auto-afirmação da fé, frequência da igreja, hábitos de oração, etc.). A autora baseia-se em Paul Gregory, um paleontólogo interessado por assuntos de sociologia e de religião. Transcrevo:
"In brief, the number of American non-believers has doubled since 1990, a 2008 Pew survey found, and increased even more in some other advanced democracies. What's curious is not so much the overall decline of belief (which has caused the Vatican to lament the de-Christianization of Europe) as the pattern. In a paper last month in the online journal Evolutionary Psychology, Gregory Paul finds that countries with the lowest rates of social dysfunction—based on 25 measures, including rates of homicide, abortion, teen pregnancy, sexually transmitted disease, unemployment, and poverty—have become the most secular. Those with the most dysfunction, such as Portugal and the U.S., are the most religious, as measured by self-professed belief, church attendance, habits of prayer, and the like.

I'll leave to braver souls the question of whether rel
igiosity leads to social dysfunction, as the new breed of public atheists contends. More interesting is the fact that if social progress can snuff out religious belief in millions of people, as Paul notes, then one must question "the idea that religiosity and belief in the supernatural is the default mode of the brain," he told me. "
Fui consultar o artigo recente de Gregory e que está aqui (há um sítio do autor sobre o assunto: aqui). Não encontrei nenhuma referência directa a Portugal. Contudo, num artigo anterior (aqui) do mesmo autor sobre o mesmo tema, Portugal é, de facto, mencionado como um país ao mesmo tempo socialmente disfuncional e religioso. Claro que correlação não significa causalidade... Aliás, o artigo anterior de Gregory foi criticado por vários autores, usando argumentos técnicos relativos ao tratamento dos dados.



Deixando de lado a questão da religião, vale a pena acrescentar que a proximidade de Portugal aos Estados Unidos do ponto de vista social também aparece num livro recente dos ingleses Richard Wilkinson e Kate Pickett, The Spirit Level: Why More Equal Societies Almost Always Do Better, Allen Lane, 2009) (ver recensão do Guardian aqui, que refere Portugal). Em ambos os países existe maior número de problemas de saúde e sociais e também maior desigualdade de rendimentos, considerando apenas os países mais desenvolvidos (ver o gráfico de cima, extraído do livro, que relaciona problemas de saúde e sociais com desigualdade social: Portugal está no canto superior direito, entre o Reino Unido e os Estados Unidos). Para usar uma expressão que Gregory usou, Portugal parece ser um país do "segundo mundo". Somos, de facto, um "case study", por estarmos no extremo de algumas escalas com que se medem os países mais desenvolvidos...

PORTUGAL E O MUNDO 3


A terceira peça é a "Tábua da Aguada do Xeque" (uso a imagem que está no sítio e no DVD da Biblioteca Joanina), que pertence às Tábuas dos Roteiros da Índia de D. João de Castro (Tavoas dos lugares da costa da Índia, do século XVI), com aguarelas em papel, que pertence à Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra (BGUC). D. João de Castro foi de certo modo percursor do "pai" dos estudos do magnetismo, o inglês William Gilbert.

Escreve no Catálogo o Prof. Rui Loureiro, da Universidade Nova de Lisboa:
"As Tábuas dos Roteiros da Índia - códice de proveniência incerta que se conserva na BGUC - estão desde há muito associadas ao nome de D. João de Castro, já que reúnem um conjunto de desenhos destinados a ilustrar dois dos seus mais célebres escritos (...) Quando, em finais de 1538 e inícios do ano seguinte, navegou até Cambaia, preparou um detalhado relatório da viagem, o Roteiro de Goa a Diu, obra repleta de informações essenciais para a navegação, que continha muitas informações e críticas inovadoras. (...) O enorme valor dos roteiros de D. João de Castro, que permaneceram inéditos em Portugal na época, circulando apenas em cópias manuscritas, reside não só no carácter inovador de muitas das observações neles registadas - sobre o magnetismo terrestre, sobre fenómenos atmosféricos, sobre técnicas de determinação de latitude -, mas também na atitude francamente experimental do seu autor, que deliberadamente tentava encontrar resposta para problemas práticos e teóricos da ciência náutica do seu tempo."

PORTUGAL E O MUNDO 2

A segunda peça é o "Mapa-múndi", segundo a Geografia de Cláudio Ptolomeu, por Henricus Martellus Germanus, feito em Florença no início da década de 1490 (pode ter sido visto por Galileu...) e que provém da Biblioteca Nazionale Centrale de Florença, essa grande biblioteca na margem do rio Arno e não longe da Ponte Vecchia, que tão atingida foi pelas cheias de 1966. Portugal, como parte da Hispania, está no canto superior esquerdo, mesmo a apontar para o Oceanus Occidentalis. O Sul do continente africano não aparece.

Escreve no Catálogo o Prof. Angelo Cattaneo da Universidade Nova de Lisboa:
"Este grande e magnífico códice representa a realização consumada de um longo processo de recuperação do conhecimento geográfico dos antigos que remonta à cultura humanista da segunda metade do século XIV, especialmente em Florença, e aos seus mais importantes protagonistas, Francesco Petrarca e Giovanni Bocaccio (...). Em particular, é o resultado de mais de um século de investigação com o intuito de reconstruir o mais fielmente possível o Geographiké Uphégesis (Guia de Cartografia) do cientista alexandrino Cláudio Ptolomeu (século II d.C.), traduzido para lati, no início do século XV sob o título Cosmographia e posteriormente Geographia. "

PORTUGAL E O MUNDO 1


A exposição "Portugal e o Mundo nos Séculos XVI e XVII", que está patente no Museu Nacional da Arte Antiga, em Lisboa, é simplesmente imperdível. Teve origem na exposição "Encompassing the World", que esteve em Washington D.C., Estados Unidos, mas incorpora objectos e documentos que aí não foram mostrados.

Para abrir o apetite para a exposição em Lisboa, destaco, entre muitas outras que poderiam ser destacadas, três peças relacionadas com a ciência. A primeira (a ordem nada significa) é um retrato do padre jesuíta italiano Matteo Ricci, pintado em Pequim em 1610 (quando Galileu publicou o seu "Mensageiro do Céu"), e que pertence à Rettoria del SS. Nome di Gesú all'Argentina, em Roma. Ricci, partindo de Macau, foi um dos introdutores do cristianismo na China.

Escreve o Prof. Gauvin Bailey, da Universidade de Aberdeen, Escócia, no excelente Catálogo da exposição:
"Esta famosa tela da autoria do artista cristão chinês Emanuel Pereira (Wu Wenhui, 1575-1633) é o único retrato existente de Matteo Ricci (1552-1610), conhecido em chinês como Li Madou, um dos fundadores da primeira missão chinesa no continente asiático, em Zhaoqing, e um dos maiores linguistas do seu tempo. Poucos missionários jesuítas serão mais famosos do que este poliglota nascido em Macerata na região italiana de Le Marche, o qual, talvez mais do que qualquer outro, tentou integrar a cultura renascentista europeia na civilização chinesa. (...) O seu sacerdócio não era declaradamente religioso, uma vezes que tinha noção que o cristianismo teria de ser apresentado como uma filosofia completa em todo o seu contexto antes que os chineses o levassem a sério. Para Ricci esse contexto encontrava-se essencialmente nas ciências, na Geografia e nas suas obras literárias sobre a moralidade."

GALILEU HÁ 400 ANOS...


Faz hoje 400 anos que Galileu Galilei demonstrou o seu telescópio perante o Senado de Veneza. Na foto, um dos dois telescópios originais de Galileu (com 91 cm) que se encontra na exposição sobre o astrónomo italiano no Franklin Institut, em Philadelphia, Estados Unidos (irá depois para o Museu Nobel de Estocolmo).

SUGESTÕES DE TRADUÇÃO DE LIVROS - 4

E um livro que celebra os 400 anos do telescópio:

Autores: Stephen P. Maran e Laurence A. Marschall
Título: "Galileo's New Universe. The Revolution in Our Understanding of the Cosmos"
Editor: Benbella Books
Data: 2009

Informação editorial:

"The historical and social implications of the telescope and that instrument's modern-day significance are brought into startling focus in this fascinating account. When Galileo looked to the sky with his perspicillum, or spyglass, roughly 400 years ago, he could not have fathomed the amount of change his astonishing findings--a seemingly flat moon magically transformed into a dynamic, crater-filled orb and a large, black sky suddenly held millions of galaxies--would have on civilizations. Reflecting on how Galileo's world compares with contemporary society, this insightful analysis deftly moves from the cutting-edge technology available in 17th-century Europe to the unbelievable phenomena discovered during the last 50 years, documenting important astronomical advances and the effects they have had over the years."

SUGESTÕES DE TRADUÇÃO DE LIVROS 3

Um livro que tem provocado muita polémica:

Autor: Lawrence Salomon
Título: "The Deniers"
Editor: Richard Vigilante Books
Data: 2008

Informação do Editor:

"Al Gore says any scientist who disagrees with him on Global Warming is a kook, or a crook.

Guess he never met these guys:

Dr. Edward Wegman--former chairman of the Committee on Applied and Theoretical Statistics of the National Academy of Sciences--demolishes the famous "hockey stick" graph that launched the global warming panic.

Dr. David Bromwich--president of the International Commission on Polar Meteorology--says "it's hard to see a global warming signal from the mainland of Antarctica right now."

Prof. Paul Reiter--Chief of Insects and Infectious Diseases at the famed Pasteur Institute--says "no major scientist with any long record in this field" accepts Al Gore's claim that global warming spreads mosquito-borne diseases.

Prof. Hendrik Tennekes--director of research, Royal Netherlands Meteorological Institute--states "there exists no sound theoretical framework for climate predictability studies" used for global warming forecasts.

Dr. Christopher Landsea--past chairman of the American Meteorological Society's Committee on Tropical Meteorology and Tropical Cyclones--says "there are no known scientific studies that show a conclusive physical link between global warming and observed hurricane frequency and intensity."

Dr. Antonino Zichichi--one of the world's foremost physicists, former president of the European Physical Society, who discovered nuclear antimatter--calls global warming models "incoherent and invalid."

Dr. Zbigniew Jaworowski--world-renowned expert on the ancient ice cores used in climate research--says the U.N. "based its global-warming hypothesis on arbitrary assumptions and these assumptions, it is now clear, are false."

Prof. Tom V. Segalstad--head of the Geological Museum, University of Oslo--says "most leading geologists" know the U.N.'s views "of Earth processes are implausible."

Dr. Syun-Ichi Akasofu--founding director of the International Arctic Research Center, twice named one of the "1,000 Most Cited Scientists," says much "Arctic warming during the last half of the last century is due to natural change."

Dr. Claude Allegre--member, U.S. National Academy of Sciences and French Academy of Science, he was among the first to sound the alarm on the dangers of global warming. His view now: "The cause of this climate change is unknown."

Dr. Richard Lindzen--Professor of Meteorology at M.I.T., member, the National Research Council Board on Atmospheric Sciences and Climate, says global warming alarmists "are trumpeting catastrophes that couldn't happen even if the models were right."

Dr. Habibullo Abdussamatov--head of the space research laboratory of the Russian Academy of Science's Pulkovo Observatory and of the International Space Station's Astrometria project says "the common view that man's industrial activity is a deciding factor in global warming has emerged from a misinterpretation of cause and effect relations."

Dr. Richard Tol--Principal researcher at the Institute for Environmental Studies at Vrije Universiteit, and Adjunct Professor at the Center for Integrated Study of the Human Dimensions of Global Change, at Carnegie Mellon University, calls the most influential global warming report of all time "preposterous . . . alarmist and incompetent."

Dr. Sami Solanki--director and scientific member at the Max Planck Institute for Solar System Research in Germany, who argues that changes in the Sun's state, not human activity, may be the principal cause of global warming: "The sun has been at its strongest over the past 60 years and may now be affecting global temperatures."

Prof. Freeman Dyson--one of the world's most eminent physicists says the models used to justify global warming alarmism are "full of fudge factors" and "do not begin to describe the real world."

Dr. Eigils Friis-Christensen--director of the Danish National Space Centre, vice-president of the International Association of Geomagnetism and Aeronomy, who argues that changes in the Sun's behavior could account for most of the warming attributed by the UN to man-made CO2.

And many more, all in Lawrence Solomon's devastating new book, The Deniers."

SUGESTÕES DE TRADUÇÃO DE LIVROS - 2

Um livro sobre um bioquímico que se tornou um dos maiores historiadores de ciência:

Autor: Simon Winchester
Título: "The Man who Loved China"
Editora: Harper
Data: 2008

Informação editorial:

"Joseph Needham (1900–1995) is the man who made China China, forming the West's understanding of a sophisticated culture with his masterpiece, Science and Civilization in China, says bestselling author Winchester. In a life devoted to recording the Middle Kingdom's intellectual wealth, Needham, an eccentric, brilliant Cambridge don, made a remarkable journey from son of a London doctor through scientist-adventurer to red scare target. In Winchester's (The Professor and the Madman) estimable hands, Needham's story comes to life straightaway. From the biochemist's arrival in World War II Chongqing (the smells, of incense smoke, car exhaust, hot cooking oil, a particularly acrid kind of pepper, human waste, oleander, and jasmine) to his steely discipline when crafting his research into prose (to an old friend: I am frightfully busy. You come without an appointment, so I am afraid I cannot see you), Winchester plunges the reader into the action with hardly a break. As the author notes in an outstanding epilogue—a swirling 12-page trip through the kaleidoscope of contemporary China—he is at pains to place Needham front and center in our understanding of the nation that now plays such a huge role in American life." ("from "Publisher's Review")

segunda-feira, 24 de Agosto de 2009

CARPE DIEM

Transcrevemos um texto do classicista Delfim Leão, da Universidade de Coimbra, no qual se explica o sentido duma expressão comum e de outras que lhe são próximas.

É bem conhecida a expressão escolhida para servir de título a esta breve nota. Para entender o seu significado básico não se torna, sequer, necessário saber Latim; bastará ter visto o Clube dos poetas mortos, filme que, quando passou nas salas de cinema, colheu apreciadores entre todas as camadas etárias. Seize the day, aproveita o dia — repetia o professor ao seu inquieto grupo de alunos, que, conduzidos pelo fogo do empenho eufórico e da novidade, acabariam por levar demasiado longe algumas das implicações da lição. Talvez porque não tivessem compreendido, desde logo, que o convite para gozar a vida se revelava mais complexo do que pareceria à primeira vista.

Porquê desfrutar da juventude, da beleza, da comida e da bebida, dos divertimentos e distracções? Porque, em si, representam bens que todos temos o direito legítimo de poder saborear. Mas porquê a urgência de experimentar todas estas sensações? Porque são passageiras.

O convite ao carpe diem não ecoa somente o apelo ingénuo da irresponsabilidade inconsequente; obedece a um princípio mais profundo e, de resto, bem menos agradável: a consciência da caducidade da existência humana. Daí que a euforia inicial possa ser facilmente substituída pelo sentimento pessimista de quem está consciente de um fim próximo.

Os Gregos afirmavam: o homem é efémero, o que, à letra, significa que vive um só dia; um cristão recordará: sic transit gloria mundi; o povo diz: a vida são dois dias. Porém, a contingência básica é a mesma. Podemos procurar responder-lhe com a busca desenfreada do prazer ou então com a abstinência intransigente. No entanto, talvez valha a pena recordar, também aqui, a lição clássica da moderação, do meio termo, da aurea mediocritas: o plácido desfrute que não atrai a saciedade nem obriga à abnegação.

Antes de terminar, gostaria ainda de recordar que a expressão, simples e profunda, que motivou estas breves linhas ocorre numa das odes (1.11) de um dos maiores poetas latinos: Horácio (século I a.C.). Carpe diem é uma metáfora agrícola, que nos aconselha, de certa forma, a colher o dia (como se de um fruto da terra se tratasse) quando e como nos parecer melhor, sem deixar que a sombra de um futuro incerto lhe altere o sabor. Contudo, a prudência aconselha a que se goze a primavera da vida sem excessos que convoquem um inverno demasiado prematuro. Carpe diem, diz o poeta, e não carpe diem noctemque!
Delfim Leão

GRANDES ERROS: ENERGIA GRÁTIS?

Desde meados do século XIX que se sabe da impossibilidade do movimento perpétuo de primeira espécie, isto é, de ter energia a partir do nada, não tendo de pagar nenhum preço. Mas há quem ainda não se tenha habituado à ideia. As repartições não aceitam pedidos de patentes de máquinas desse tipo, mas a Internet aceita tudo. Pela coluna de Bob Park, já aqui referida várias vezes, eis aqui um sítio de uma nova máquina, que obviamente não funciona como os autores divulgam. As leis da Termodinâmica são, provavelmente, das leis mais inamovíveis da Física. Não porque haja leis físicas inamovíveis. Mas porque já muita gente as tentou mover sem conseguir... Acresce o facto de terem uma boa sustentação teórica: a primeira lei da termodinâmica ou lei de conservação da energia deriva, em última análise, da homogeneidade do tempo, isto é, da equivalência de todos os instantes do tempo do ponto de vista de física fundamental.

NOVO LIVRO DE DIVULGAÇÃO DA CIÊNCIA: "SEI QUEM SABE"


Convite recebido da Fundação Odemira (na imagem, vista do interior da Biblioteca de Odemira, construída de raiz no sítio do antigo castelo de Odemira):

A Fundação Odemira, no dia 8 de Setembro de 2009, prossegue a sua actividade editorial, com o lançamento do livro “Sei quem sabe”, associando-se também à celebração do “Dia Mundial da Alfabetização” e do Dia do Município de Odemira. Esta iniciativa marca mais uma etapa na história da Fundação Odemira e da nossa aposta na promoção e divulgação da Cultura no nosso Concelho.

Com a apresentação pública do livro “Sei quem sabe”, pretendemos também fazer agradecimento penhorado a todos quantos colaboraram para ele escrevendo. Por essa razão vimos convidá-lo a estar presente connosco, no dia 8 de Setembro, em Odemira, no lançamento do livro, seguida de uma sessão de autógrafos.

Este evento terá lugar no Auditório da Biblioteca Municipal de Odemira, 8 de Setembro, terça-feira, pelas 18h30m.

PORTUGAL A QUENTE E FRIO

Há pouco tempo apontei neste blogue a falta entre nós de livros de divulgação da ciência escritos por jornalistas de ciência. Acaba de sair um livro desse tipo, que até por não haver muitos, saúdo vivamente: "Portugal a Quente e Frio", da autoria de duas das melhores jornalistas de ciência portuguesa Filomena Naves e Teresa Firmino. O tema é o das alterações climáticas, que tanta tinta tem feito correr nos jornais. A editora é a Livros d'Hoje, uma chancela das Publicações Dom Quixote. Na capa surge, à laia de subtítulo: "O primeiro livro que aborda o tema das alterações climáticas no nosso país".

Como ainda não li, ou melhor como só li o prefácio do físico da Universidade de Lisboa Filipe Duarte Santos, o nosso grande especialista em alterações climáticas, limito-me por enquanto a transcrever um parágrafo desse prefácio:

"A temática das alterações climáticas dos séculos XX e XI tem tido uma enorme visibilidade mediática que, por vezes, deixa o leitor, ouvinte ou espectador mais perplexo e confuso. Do ponto de vista da narrativa da ciência, é natural que se dê uma ampla cobertura nos media, porque o tema encerra um risco muito considerável, sobretudo para as futuras gerações - os nossos filhos, netos, bisnetos... - e temos todos uma parcela de responsabilidade na gestão desse risco. Por estas razões, é desejável que a divulgação da problemática das alterações climáticas junto do grande público seja feita de forma crítica e rigorosa, apresentando fielmente a narrativa da ciência e as incertezas e lacunas no conhecimento científico que persistem.

Estes objectivos estão inteiramente atingidos no "Portugal a Quente e Frio: As Alterações Climáticas no Século XXI." O livro faz uma breve história do estudo das alterações climáticas em Portugal, incluindo os modelos e cenários futuros e os impactos nos mais importantes sectores sociais e económicos e, ainda, nos sistemas biofísicos".

NOVO LIVRO DE UMA NOVA EDITORA: "EXISTE DEUS?"

Da badana do livro de Joseph Ratzinger e Paolo Flores d'Arcais, "Existe Deus? Um confronto sobre verdade, fé e ateísmo", da nova editora Pedra Angular, um "projecto editorial que privilegiará o território da religião e da espiritualidade, não numa perspectiva confessional, mas na relação mais ampla e complexa com a cultura", da responsabilidade de José Tolentino Mendonça:

"A revista italiana MicroMega lançava um volume sobre um confronto entre Fé e Razão, com textos, entre outros, do seu Director, Paolo Flores d'Arrcais, e do então Prefeito para a Congregação da Doutrina da Fé, Cardeal Joseph Ratzinger [hoje Papa Bento XVI]. Para o efeito, organizou um debate com ambos os autores, num lugar público de Roma, e sob a moderação do jornalista Gad Lerner. O histórico diálogo foi seguido por mais de 2000 pessoas, dentro e fora do Teatro Quirino (muitas em plena rua, recorrendo-se a um amplificador improvisado).

"Existe Deus? - Um confronto sobre verdade, fé e ateísmo" apresenta a transcrição desse debate, bem como os textos de Ratzinger e Flores d'Arcais que estavam, nesse dia, a ser lançados"

Einstein, António Gião e o Ano Internacional da Astronomia


Do mensário de Reguengos de Monsaraz (na figura a Câmara Municipal), A Palavra de 13 de Março último transcrevemos, com a devida vénia, o artigo de Ana Paula Amendoeira (especialista em património cultural), sobre António Gião, o físico natural daquela terra alentejana que de lá se correspondeu com Einstein:

“Sabia que, dos Estados Unidos, Einstein trocou correspondência científica com um físico português que vivia em Reguengos de Monsaraz, chamado António Gião?”

Esta era uma das perguntas feitas para atrair o interesse do público na visita a uma exposição organizada em Coimbra, em 2005, por ocasião do Ano Internacional da Física, intitulada Einstein entre nós. A exposição mostrava a forma como o Nobel da Física tinha sido divulgado e recebido em Portugal, nas duas vezes que por cá passou. Vários e curiosos episódios figuravam nessa exposição, dando conta da forma como as ideias de Albert Einstein tinham sido difundidas em Portugal. Desde as primeiras discussões sobre a teoria da Relatividade pelo filósofo Leonardo Coimbra da Faculdade de Letras de Lisboa (anos 20 do século XX), até ao Almirante Gago Coutinho que assistiu às palestras de Einstein no Brasil, em 1925. Antes de ir para o Brasil, Einstein passou por Portugal, esteve em Lisboa, visitou os Jerónimos e o Castelo de São Jorge e escreveu as suas impressões no seu diário (guardou excelente lembrança das varinas
de Lisboa!).

Ao que parece, o único português que manteve correspondência científica com Albert Einstein, foi António Gião. Sim, o nosso António Gião.

Einstein recebeu, na Universidade de Princeton, a primeira carta de Reguengos de Monsaraz em 16 de Janeiro de 1946, assinada por António Gião, um físico nascido nesta então vila alentejana, na rua Dr. Francisco de Salles Gião, em 1906. A carta propunha uma teoria das forças fundamentais, assunto que na época, preocupava o cientista reguenguense (informação dos Profs. Carlos Fiolhais e Tiago de Oliveira). Essa correspondência está hoje no Arquivo da Universidade Hebraica de Jerusalém, embora também existissem alguns exemplares de cartas na sua casa de Reguengos, hoje propriedade da Sociedade Portuguesa de Autores.

António Gião foi, desde os anos 40 e até à sua morte em finais de 60 a figura central da Relatividade e da Cosmologia em Portugal. Era Professor da Faculdade de Ciências de Lisboa e alto responsável do Instituto Gulbenkian de Ciência e tinha feito já uma grande parte da sua carreira científica e universitária em Estrasburgo e Paris. Para além desta correspondência mantida com Einstein, António Gião publicou vários artigos sobre Relatividade e Cosmologia em revistas de grande prestígio internacional como a norte americana Physical Review. Foi o primeiro português a publicar na prestigiada revista Nature, quando tinha apenas 20 anos! Em 1963 organizou uma reunião da NATO sobre Cosmologia em Lisboa onde participaram figuras cimeiras da ciência mundial. A notoriedade internacional que atingiu valeu-lhe um convite para professor do MIT (Massachusetts Institute of Technology), nos Estados Unidos. Entre o agravamento da sua doença que o levou à morte, e o 25 de Abril de 1974 houve quase um vazio nestas áreas da ciência em Portugal.

Não é novo, sabemos todos há muito da importância da figura de António Gião e do pioneirismo e precocidade da sua obra na área da Ciência. Mas continua ainda hoje a ser uma personalidade misteriosa, devido ao seu carácter introspectivo e distante que lhe vinha de uma dor de alma que nunca conseguiu ultrapassar e que tinha a ver com as suas origens maternas. Nunca fez escola, não deixou seguidores. Por isso, Carlos Fiolhais lhe chamou “um eremita científico”. Não aceitou convites importantes a nível internacional. Chamava-se simplesmente António Gião. Não tinha o apelido da mãe, que de resto nunca conheceu. Esse trauma nunca o abandonou ao longo da sua vida e talvez o tenha sempre impedido de explorar plenamente o seu talento e a sua genialidade científica… Houve sempre uma espécie de bloqueio emocional que o impediu de ir ainda mais além. É importante conhecer o Homem para compreender a Obra.

Neste ano de 2009 declarado pela ONU (Organização das Nações Unidas) Ano Internacional da Astronomia em homenagem aos 400 anos da observação das estrelas através de um telescópio, por Galileu Galilei, passam também 40 anos da morte de António Gião. Dado o seu pioneirismo em matérias científicas relacionadas com a Astronomia, penso ser uma excelente oportunidade para aproveitar o nome e a obra deste reguenguense em prol de uma maior educação e cultura científica que tanta falta faz à nossa sociedade, a começar pelas crianças e jovens. Seria um excelente pretexto para falar de António Gião entre nós, como Coimbra fez com Einstein.

Voltaremos ao Ano Internacional da Astronomia para falar de estrelas em Monsaraz."

Ana Paula Amendoeira
(anaamendoeira@hotmail.com)

domingo, 23 de Agosto de 2009

ENTREVISTA DE DAWKINS AO "THE TIMES"


Uma entrevista do biólogo Richard Dawkins ao "The Times" de 22 de Agosto, que vem a propósito do lançamento a 10 de Setembro do seu próximo livro (The Greatest Show on Earth, Bantam Press, sai a 10 de Setembro) , pode ler-se aqui.

Excerto sobre a ignorância dos criacionistas:
"Is creationism, would he say, a form of stupidity? Does he find it annoying that there are so many stupid people in the world?

“I don’t think I would put it that way,” he says. “Well, I was going to say a lot of ignorant people, but that sounds abrasive too. Ignorant is just a factual statement. I’m ignorant about football and all sorts of things. And I don’t think you’d take it as an insult if I said you don’t seem to know anything about football. It’s actually just a factual statement; it means you don’t know anything about it. I know quite a lot about evolution and there are plenty of people out there who know nothing about evolution and who probably who would enjoy learning something about evolution. Perhaps they can teach me about football.” "

ENTREVISTA SOBRE DIVULGAÇÃO DE CIÊNCIA


Ao organizar os meus arquivos encontrei esta entrevista que, nos anos 90, dei a Rui Trindade para uma revista de telecomunicações. Editei-a só ligeiramente porque me parece manter ainda, no essencial, actualidade:

P- Quais as formas e métodos que julga mais adequadas para obter uma divulgação mais eficaz da ciência?

R- A ciência trata de descrever o mundo à nossa volta. Parece claro que esse é um tema de interesse geral: por exemplo, quem não gosta de saber o que existe para além da Terra e do sistema solar, o nosso canto no imenso Universo? A divulgação científica, sob qualquer forma, deve alimentar esse espírito de curiosidade que é próprio dos seres humanos, deve acentuar o sentido do maravilhoso (“Que estranho! Que bonito!”) e deve acentuar aquilo que é simples (“Isso eu sei!”). As formas podem ser as mais variadas: imprensa, televisão, museus, etc. Entre os métodos conhecidos para obter os resultados pretendidos encontram-se os relatos do quotidiano, as experiências concretas, as analogias e ilustrações, a literatura e a história, o humor, etc. Cabe ao divulgador divulgar como puder e o melhor que puder.

P- Qual é a relação entre os cientistas e os meios de comunicação social? Como enfrentar as políticas editoriais que filtram os temas a divulgar?

R- Os cientistas devem estar abertos aos órgãos de comunicação social. Eles são parte da sociedade e esta tem o direito de saber o que eles fazem. Em particular, os cientistas não podem gastar dinheiros públicos sem ser responsabilizados por essa utilização. Têm de prestar contas e falar com os media é uma forma de prestar contas. Já ouvi um jornalista português queixar-se que era mais fácil contactar com um cientista americano do que com os cientistas portuguesas. Isto significa que a disponibilidade dos praticantes nacionais de ciência para com os média deixa ainda, infelizmente, a desejar. Quanto às políticas editoriais, elas são da responsabilidade dos profissionais da informação. Quer concordemos ou não, são critérios legítimos de um ofício bem estabelecido, que têm de ser aceites como as regras do jogo. Por exemplo, existem temas da actualidade ou da moda em ciência e na respectiva divulgação tal como existem noutras actividades humanas. Não há mal nenhum nisso. O pior pode, porém, acontecer quando o jornalista que escreve sobre ciência se arvora em fazer crítica de ciência com a mesma facilidade com que, por exemplo, alguns críticos fazem crítica de cinema ou de televisão. A ciência não está, evidentemente, ao abrigo da crítica, ela aliás progride através da crítica, mas é necessária alguma competência para a exercitar.

P- Considera o discurso científico esotérico? Acha a vulgarização científica uma banalização da ciência?

R- De facto, o discurso científico não é, à partida, acessível a qualquer pessoa. Exige uma tarefa penosa de aprendizagem da linguagem científica (a linguagem do mundo natural é a matemática e contra isso não há nada a fazer). Agora, o essencial da ciência - o maravilhoso, a simples - podem e devem ser comunicados ao grande público. Para isso é necessária fazer uma adequada descodificação de conteúdos. Pode-se tentar descrever, por exemplo, o modo como as pedras caem sem escrever as equações do movimento. E não é maravilhoso e ao mesmo tempo simples que todas as pedras caiam na vertical para baixo? Porque é que não hão-de cair para o lado? Divulgar ou vulgarizar a lei da gravitação universal pode começar com estas perguntas.

P- Acha os discursos científico e jornalístico incompatíveis?

R- Prefiro dizer que são diferentes. Um artigo para uma revista científica tem uma avaliação bastante diferente da de um artigo num jornal e um seminário científico pouco ou nada tem a ver com um programa de televisão. No entanto. ambos os discursos contêm mensagens dirigidas a destinatários, em número relativamente reduzido num caso e em grande número no outro. Alguns cientistas já aprenderam e outros têm ainda a aprender algumas técnicas do bom jornalismo: isto é, os melhores modos para transmitir uma mensagem com verdade e rigor. Digo bom jornalismo pois do outro, sensacionalista e trapalhão, nem vale a pena falar. Os divulgadores científicos tentam vestir os conteúdos com uma roupagem mais acessível para chegar a mais gente: procuram respeitar a verdade e assegurar o rigor tanto quanto for possível.

P- Qual é a importância dos investigadores para colmatar as lacunas no sistema de ensino nacional?

R- A escola desempenha um papel insubstituível na comunicação da ciência. Apesar de todas as lacunas de que nos podemos queixar – e nós em Portugal bem podemos - a escola tem desempenhado o seu papel. Importa, para que a sua eficácia seja maior, que a escola não esteja isolada: deve ligar-se mais ao mundo e à vida. Por exemplo, porque não usar na escola os textos e imagens de divulgação científica dos jornais e da televisão? Respondendo em concreto à pergunta: As escolas básicas e secundárias deviam ligar-se mais às escolas superiores. Nos EUA algumas universidades organizam “academias” informais para professores do ensino básico e secundário, disponibilizam professores para acompanhar, presencialmente ou à distância, experiências realizadas por grupos estudantis, etc. Ajudam a transmitir o método científico. As lacunas nos sistemas de ensino, aqui ou lá fora, são bem mais graves quando dizem respeito aos métodos do que quando dizem respeito aos conteúdos. A ciência é uma maneira de ver o mundo antes de ser uma visão do mundo.

P- Qual é o papel das novas tecnologias da informação na divulgação científica?

R- Elas oferecem novas possibilidades que há que avaliar. Os computadores, em particular, permitem fazer simulações computacionais: fazem-se cópias mais ou menos parecidas da realidade e vê-se como funcionam. Ou, então, fazem-se cópias pouco parecidas e ver como seria o mundo se não fosse como é. Isto é, vê-se que o mundo não poderia ser assim. As técnicas de multimédia, realidade virtual, etc. vieram estender as possibilidades do ensino e da divulgação da ciência. Na realidade virtual, passa-se esta coisa extraordinária: entra o imaginador dentro da coisa imaginada... Ou, pelo menos, julga que entra. Ora aqui está um domínio onde a divulgação da ciência pode aprender com os jogos de computador e o cinema.