sábado, 22 de agosto de 2009

SOBRE A BIBLIOTECA DE OLIVEIRA MARTINS

Da Introdução do Doutor Martim de Albuquerque ao "Catálogo da Biblioteca de Oliveira Martins" recentemente publicado pela Guimarães:

"A Cultura Portuguesa e com ela a Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra estão verdadeiramente de parabéns com a salvação - é este o termo próprio e adequado - da livraria de Oliveira Martins, representando a edição do referido catálogo o natural e necessário complemento da tarefa meritória em hora afortunada decidida. Pena é que, a exemplo das de Antero, Oliveira Martins ou Fialho, não se tenham conseguido conservar outras bibliotecas dos nossos grandes escritores. Lembremos as de Camilo e de Eça. Quanto ao tremendo misantropo de S. Miguel de Seide, aliás, há ainda uma reconstituição possível a fazer. Os dois catálogos de leilão dos seus livros conjugados com os restos bibliográficos existentes na casa de Seide e outros dados dispersos conhecidos viabilizam um trabalho de reconstituição que se nos afigura indispensável no quadro dos estudos camilianos e para o progresso destes. Oxalá alguém lance mãos à obra.

Nunca será de mais sublinhar o valor das bibliotecas dos nossos grandes escritores como ferramenta incontornável para o conhecimento da respectiva época, dos gostos e preferências destes, das influências sofridas. Em suma, para a compreensão em plenitude das obras que nos legaram. As quais integram, elas próprias, o nosso património intelectual e, por isso, a essência de nós mesmos, o que vale dizer a nossa humanidade".

Martim de Albuquerque

3 comentários:

  1. LIBERDADE

    Ai que prazer
    Não cumprir um dever,
    Ter um livro para ler
    E não o fazer!
    Ler é maçada,
    Estudar é nada.
    O sol doira
    Sem literatura.
    O rio corre, bem ou mal,
    Sem edição original.
    E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal,
    Como tem tempo não tem pressa...

    Livros são papeis pintados com tinta.
    Estudar é uma coisa em que está indistinta
    A distinção entre nada e coisa nenhuma.

    Quanto é melhor, quanto há bruma,
    Esperar por D. Sebastião,
    Quer venha ou não!

    Grande é a poesia, a bondade e as danças...
    Mas o melhor do mundo são as crianças,
    Flores, música, o luar, e o sol, que peca
    Só quando, em vez de criar, seca.

    O mais que isto
    É Jesus Cristo,
    Que não sabia nada de finanças
    Nem consta que tivesse biblioteca

    (Fernando Pessoa)

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  2. Este lindo poema de Fernando Pessoa (Caeiro, se não estou em erro) não invalida que, infelizmente, não tenhamos preservado as bibliotecas de Camilo e Eça.

    É pouco provável que se fique insensível a este poema que remete para uma liberdade espontânea ligada ao ar livre e à infância. Mas as crianças crescem, também, e da "nossa humanidade" faz parte o "nosso património intelectual".

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  3. Ironicamente, temos acesso a uma lista da sua biblioteca, mas boa sorte a quem quiser ler os livros de Oliveira Martins, quase todos há muito esgotados! Eu só tenho tido sorte comprando-os usados. Que país de contradições.

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