terça-feira, 25 de agosto de 2009

PORTUGAL, DISFUNCIONALIDADE SOCIAL E RELIGIÃO

Na revista Newsweek de 24-31 de Agosto, Sharon Bagley, no artigo intitulado "(Un)wired for God. Religioun beliefs may not be innate", refere Portugal como um país próximo dos Estados Unidos, por ser ao mesmo tempo socialmente muito disfuncional (medido por taxas de homicídios, abortos, gravidez de adolescentes, doenças sexualmente transmissíveis, desemprego e pobreza) e muito religioso (medida pela auto-afirmação da fé, frequência da igreja, hábitos de oração, etc.). A autora baseia-se em Paul Gregory, um paleontólogo interessado por assuntos de sociologia e de religião. Transcrevo:
"In brief, the number of American non-believers has doubled since 1990, a 2008 Pew survey found, and increased even more in some other advanced democracies. What's curious is not so much the overall decline of belief (which has caused the Vatican to lament the de-Christianization of Europe) as the pattern. In a paper last month in the online journal Evolutionary Psychology, Gregory Paul finds that countries with the lowest rates of social dysfunction—based on 25 measures, including rates of homicide, abortion, teen pregnancy, sexually transmitted disease, unemployment, and poverty—have become the most secular. Those with the most dysfunction, such as Portugal and the U.S., are the most religious, as measured by self-professed belief, church attendance, habits of prayer, and the like.

I'll leave to braver souls the question of whether rel
igiosity leads to social dysfunction, as the new breed of public atheists contends. More interesting is the fact that if social progress can snuff out religious belief in millions of people, as Paul notes, then one must question "the idea that religiosity and belief in the supernatural is the default mode of the brain," he told me. "
Fui consultar o artigo recente de Gregory e que está aqui (há um sítio do autor sobre o assunto: aqui). Não encontrei nenhuma referência directa a Portugal. Contudo, num artigo anterior (aqui) do mesmo autor sobre o mesmo tema, Portugal é, de facto, mencionado como um país ao mesmo tempo socialmente disfuncional e religioso. Claro que correlação não significa causalidade... Aliás, o artigo anterior de Gregory foi criticado por vários autores, usando argumentos técnicos relativos ao tratamento dos dados.



Deixando de lado a questão da religião, vale a pena acrescentar que a proximidade de Portugal aos Estados Unidos do ponto de vista social também aparece num livro recente dos ingleses Richard Wilkinson e Kate Pickett, The Spirit Level: Why More Equal Societies Almost Always Do Better, Allen Lane, 2009) (ver recensão do Guardian aqui, que refere Portugal). Em ambos os países existe maior número de problemas de saúde e sociais e também maior desigualdade de rendimentos, considerando apenas os países mais desenvolvidos (ver o gráfico de cima, extraído do livro, que relaciona problemas de saúde e sociais com desigualdade social: Portugal está no canto superior direito, entre o Reino Unido e os Estados Unidos). Para usar uma expressão que Gregory usou, Portugal parece ser um país do "segundo mundo". Somos, de facto, um "case study", por estarmos no extremo de algumas escalas com que se medem os países mais desenvolvidos...

1 comentário:

  1. Muito interessante; já há muito tempo que não navegava por aqui mas ainda bem que me lembrei de aqui passar.

    Uma nota: eu costumo associar o desenvolvimento de um povo ao grau de desenvolvimento da sua consciência colectiva. Portugal é um pais de «sobreviventes», de pessoas que vêem os outros portugueses como competidores; há pessoas com alto grau de consciência colectiva mas há imensas sem nenhuma. Isto contrasta fortemente com o que acontece nos países nórdicos, por exemplo.

    Eu não penso que isto seja genético profundo mas adaptativo - ou seja, uma adaptação a condições de vida que obrigam as pessoas a lutarem pela sobrevivência individualmente; o que significa que serão precisas não menos de 3 gerações para se conseguir uma mudança significativa, após ter sido possível alterar essas condições de vida e a cultura subjacente.

    A religiosidade é apenas a reacção das pessoas em condições adversas, é um sintoma, não uma causa. Penso eu.

    ResponderEliminar

1) Identifique-se com o seu verdadeiro nome.
2) Seja respeitoso e cordial, ainda que crítico. Argumente e pense com profundidade e seriedade e não como quem "manda bocas".
3) São bem-vindas objecções, correcções factuais, contra-exemplos e discordâncias.