terça-feira, 11 de agosto de 2009

ECO E CARRIÈRE SOBRE A IGNORÂNCIA

Diálogo nas páginas 282-283 entre o escritor italiano Umberto Eco (UE) e o argumentista francês Jean-Claude Carrière (JCC), moderado por Jean-Philippe de Tonnac (JPT), no seu livro sobre os livros e as bibliotecas que acaba de sair em português na Difel ("A Obsessão do Fogo", original "N' esperez pas vous débarasser des livres", Grasset et Fasquelle, 2009):

"JPT- O contexto destas religiões do Livro cria evidentemente uma forte inclinação à leitura. No entanto, não é menos verdade que a grande maioria dos habitantes do planeta vive à margem das livrarias e das bibliotecas. Para esses, o livro é letra morta.

UE- Um inquérito realizado em Londres revelou que um quarto das pessoas interrogadas julgava que Winston Churchill e Charles Dickens eram personagens imaginárias, enquanto Robin Hood e Sherlock Holmes teriam de facto existido.

JCC- A ignorância está a toda a nossa volta, frequentemente arrogante e reivindicada. E dá mesmo mostras de proselitismo. É segura de si, proclama o seu domínio pela boca desdenhosa dos políticos. E o saber, frágil e mutável, sempre ameaçado, duvidando de si mesmo, é inquestionavelmente um dos últimos refúgios da utopia. Acredita ser verdadeiramente importante saber?

UE - Acredito que é fundamental.

JCC- Que o maior número de pessoas saiba o maior número possível de coisas?

UE- Que o maior número possível de pessoas conheça o passado. Si,. É o fundamento de toda a civilização. O velho que ao cair da noite, debaixo do carvalho. conta as histórias da tribo, é ele que estabelece a ligação da tribo com o passado e que transmite a experiência dos anos. "

Sinopse do editor:

De um encontro em Paris de Umberto Eco, um dos mais respeitados pensadores e romancistas da actualidade, com o cineasta e ensaísta Jean-Claude Carriére, nasce um extraordinário e contemporâneo diálogo em torno do papel dos livros no decurso da História.

Em «A Obsessão do Fogo», somos levados a percorrer mais de dois mil anos de histórias sobre livros, seguindo uma discussão erudita e divertida, culta e pessoal, filosófica e anedótica, curiosa e apetecível, plena de ironia, astúcia e referências culturais. Atravessamos tempos e lugares diversos; encontramos personalidades reais e personagens fictícias; deparamo-nos com elogio à estupidez, bem como com a análise da paixão pelo coleccionismo; e compreendemos a razão pela qual cada época gera as suas obras-primas. Para além disso, ficamos ainda a saber por que motivo "as galinhas levaram mais de um século para aprender a não atravessar a estrada" e porque é que "o nosso conhecimento do passado deve-se a cretinos, imbecis ou contraditores".
Com a inteligência e o humor que lhes são reconhecidos, Eco e Carrière encetam uma viagem pela história dos livros e da literatura no geral, desde os papiros até à era digital da Internet e dos e-books. Um notável exercício de erudição de dois leitores apaixonados e coleccionadores de livros, uma espécie cada vez mais escassa numa era de obstinação pelo progresso tecnológico.

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