sexta-feira, 24 de abril de 2009

A UNIVERSIDADE SEM-ABRIGO


Minha crónica no "Público" de hoje (na foto, pátio da Universidade de Évora):

Confesso que não gosto de Derrida, que é demasiado pós-moderno para o meu gosto, mas li A Universidade Sem Condição (Angelus Novus, 2003), um livro do filósofo e professor universitário francês. O título contém uma ambiguidade propositada. “Sem condição” significa, por um lado, que a universidade é o sítio onde se discute tudo sem condições e, por outro lado, que essa instituição é carente (o autor fala da “fragilidade de suas defesas perante os poderes que a comandam, assediam e tentam apropriar-se”, acrescentando “porque é estranha ao poder, porque é heterogénea ao princípio do poder, a universidade é igualmente desprovida de poder próprio"). A questão do livro é: como pode a universidade ser independente, exercendo a função de livre pensamento que só ela sabe exercer, ao mesmo tempo que depende tanto dos poderes alheios?

A universidade pública portuguesa está, actualmente, “sem condições” num sentido bem mais comezinho. Os reitores chamaram a atenção do ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior para a ruptura financeira que está à vista, solicitando intervenção urgente. Já não se trata apenas de investimentos (muito parcos para as gritantes necessidades) ou de despesas de funcionamento (os fornecedores esperam e desesperam), mas sim e a curto ou médio prazo do próprio pagamento dos salários. A universidade corre o sério risco de ficar sem-abrigo.

Os reitores queixam-se de estrangulamento continuado. Em quatro anos, a percentagem do PIB afecta ao funcionamento do ensino superior desceu sensivelmente. A isto acrescentaram-se a nova obrigação dos descontos para a Caixa Geral de Aposentações e os aumentos da função pública. Quatro universidades ficaram em 2007 em falência técnica e outras tantas tiveram sérias dificuldades em 2008. Este ano, com a crise económica geral, a situação está a piorar. Como o número de alunos no ensino superior tem aumentado, as conclusões quanto ao financiamento por aluno são óbvias. Parece ter-se atingido uma situação grave de degradação, que não convirá a ninguém. Como pode uma universidade na penúria cumprir a sua missão?

O que diz a tutela, palavra que vem do latim "tuere", com o significado de proteger ou defender alguém? O ministro, que tem a seu favor o facto de ter mudado o governo das universidades e também o facto de ter extinguido duas universidades privadas (uma delas, por azar, a da licenciatura do primeiro-ministro), acusa as universidades de má gestão, sem especificar quem são os maus gestores e porquê, nem os incriminar, acabando com a má gestão. E diz que as verbas para a ciência têm aumentado – tiro-lhe o chapéu por isso – ao que os reitores contrapõem que isso se tem feito à custa do ensino superior - e eu volto a pôr o meu chapéu na cabeça. Tive esperança, quando, noutro governo, se juntou o ensino superior à ciência no mesmo ministério, que esse casamento fosse em comunhão de bens adquiridos. Pelos vistos não é, o que não augura um casamento estável e feliz.

Seria talvez mais rentável que o país, em vez de obras públicas faraónicas, fizesse um grande investimento na nossa massa cinzenta, de modo a que surgissem entre nós uma ou mais universidades no “top 100” do “ranking” europeu. É necessária uma avaliação rigorosa das escolas superiores, incluindo nessa avaliação não só os cursos como a investigação (o ministro mandou avaliar esta em separado) e o apoio à comunidade, de modo a apostar, como contributo para a superação da actual crise, no que elas têm de melhor. O facto de a incubadora do Instituto Pedro Nunes, em Coimbra, onde surgiram empresas de grande sucesso como a Critical Software e a Crioestaminal, ter ganho há pouco tempo o segundo lugar no prémio internacional Best Science Based Incubator mostra o potencial de ajuda ao desenvolvimento que existe nas nossas universidades. Porque não, aliando intimamente o ensino superior com a ciência e a tecnologia, procurar que os sectores universitários mais competitivos entrem ainda mais nos quadros de excelência europeus e mundiais?

5 comentários:

  1. «Porque não, aliando intimamente o ensino superior com a ciência e a tecnologia, procurar que os sectores universitários mais competitivos entrem ainda mais nos quadros de excelência europeus e mundiais?»

    Que afirmação monstruosa! Que corporativismo decadente!! É-se bom porque se tem um pedaço da universidade tal-e-tal?!?!!

    Vejo que há quem pregue o mérito mas depois de haver papel, joga-se o provincianismo da pertença e da iniciação...

    Viva a elite!! Viva!!! Êrre-effe-Ahhhh!!!

    Coimbra é uma lição!!
    De horror e corrupção..
    Há beira do liiiiixo...

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  2. Concordamos que Coimbra continua a olhar-se ao espelho deliciada com a própria imagem; a tal Coimbra dos dinossauros sob redomas de vidro.
    Evidente que há excepções que são alimentadas por alguns professores/investigadores que trabalham muitíssimo para que a Universidade não apodreça em definitivo.
    Coimbra padece da vaidade crónica que tem raízes na história da Universidade.
    Quero, contudo, deixar uma nota de respeito pelo trabalho enquanto divulgador da ciência.
    Embora este comentário pouco ou nada tenha a ver com o “post” não podia deixar de o escrever como seguimento do comentário anterior.
    arte

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  3. Digo, Quero, contudo, deixar uma nota de respeito pelo trabalho do professor Carlos Fiolhais enquanto divulgador da ciência

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  4. Enquanto a maioria das pessoas se prontificar a criticar as universidades com base em preconceitos e ideias pouco consistentes, como alguns comentadores aqui fizeram, os políticos vão continuar desinvestir no ensino superior. Porque, infelizmente, em Portugal a política é feita de aparências, com vista a criar uma imagem bonita provisória com vista à obtenção rápida de votos.

    Veja-se o exemplo do Programa Oportunidades, mais não é do que o desperdício de uma oportunidade para instituir um ensino básico ém regime pós-laboral e reformar o ensino já existente, mas o povo dá vivas, porque se facilitou a aquisição de habilitações, esquecendo quem às "oportunidades" recorre passando que o mercado não se deixará enganar, parecendo claro que haverá desvalorização das habilitações.

    Enquanto isto o mundo pula e avança e Portugal fica atrás na corrida pelo desenvolvimento económico sustentável. Ao mesmo tempo em que a dívida pública cresce. A crise a todos assusta, mas só uns poucos vislumbram um pouco do negro futuro que virá quando o mundo começar a recuperar e o país estiver gravemente endividado e sem melhorias na produtividade e inovação tecnológica.

    Relembro, enquanto o Governo empatava tempo com a Quimonda, e empresários portugueses queixavam-se da crise, a Universidade Nova de Lisboa e sua Faculdade de Ciências e Tecnologia aplicavam alguns dos seus parcos recursos económicos no financiamento das patentes da divulgada invenção de Elvira Fortunato (Prémio Seeds of Science, na categoria «Engenharia e Tecnologia»), de modo a manter-se a propriedade intelectual em mãos nacionais. É por isto e muito mais que é importante que as pessoas actualizem a sua imagem do ensino superior.

    Parece-me que as Universidades portuguesas precisam de melhorar a qualidade do seu ensino e investigação, mas não é reduzindo os seus recursos económicos até não chegarem sequer para as despesas correntes que se vai conseguir melhorar esses aspectos pelo cotnrário. Quem frequenta Universidades públicas tenta fazer de conta que está tudo bem, evita-se comentar os estado de mesas e cadeiras, a falta de tecnologia (inclusivé computadores), a diminuição constante de professores que obriga a maiores turmas, o aumento de alunos para além do razoável com vista ao financiamento e até a falta de paus de giz...

    Equanto isso a dotação do orçamento para tecnologia tem sido generosa. Pergunto... para onde vai esse dinheiro? Para o e-escolas e o e-escolinhas? Para a Quimonda?

    Se é um país sem capacidade de criar nova tecnologia e novos empregos que querem... então devem aplaudir a redução do orçamento para o ensino superior. Se, pelo contrário, querem ver Portugal como um país desenvolvido no âmbito social e económico, de forma sustentável, com capacidade para ciar empregos qualificados e novas tecnologias... então talvez devam pensar na hipótese de apoiar as universidades.

    As melhores universidades portuguesas podem estar longe das melhores da Europa e de outros cantos do mundo Mundo, mas têm um papel importante na difusão e desenvolvimento de saber. E também têm capacidade para melhorar.

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  5. As universidades devem estar na vanguarda da sociedade, pois é lá que se formam ou deveriam formar os pensamentos, pensadores e inovações.
    Ou não estão na vanguarda ou não parecem estar.
    Há vários problemas, adiados e não respondidos.
    Para quando o separar de águas entre universidades e politécnicos? Uma lei que defina quais os cursos de quais? para quando os politécnicos deixem de ser o acesso privilegiado dos "burros" que não tem notas mínimas para as universidades? a equivalência a licenciatura com Bolonha, para universidades e politécnicos ao fim de 3 anos é justa? Porque continuam os politécnicos públicos a fazerem concorrência ás universidades públicas? Para quê este duplicar de recursos e competências?
    Para quando as médias e vagas dos cursos adaptadas às necessidades do país?
    Para quando um reforço necessário da exigência dos últimos anos do secundário e um elevar de médias na universidade para não permitir a entrada de todos, como se disse, deixar de confundir democratização com mediocrização?
    Para quando uma definição clara do estatuto do docente do ensino superior com colocações mediantes concursos públicos e não convites/cunhas? e a sua avaliação?
    Pois é necessário deixar de usar o ensino profissional como alternativa para os que não querem estudar e torna-lo opção de base, é necessário tornar o ensino politécnico verdadeiramente técnico e não pseudo-técnico, é necessário clarificar que as propinas são apenas 1 parte, pequena do orçamento das universidades, e não é por ai que as mesmas devem ser aumentadas com justificação do financiamento.
    É necessário reformular o financiamento das universidades, não em termos de números de alunos o que leva a abrir cursos que não servem para nada, mas em termos de objectivos.
    O financiamento deve ser feito mediante determinados itens, como, publicação de artigos científicos, projectos inovadores concretizados, colocação dos antigos estudantes, etc..
    É que neste momento está-se numa situação insustentável, as universidades estão a ser asfixiadas, os jovens entram em massa na mesma com exigências cada vez menor, Bolonha à portuguesa só vem baixar a qualidade dos cursos, na qualidade os bons docentes e os maus são metidos no mesmo saco.
    As ciências sociais e humanas estão de rastos.
    Se não resolve-los rapidamente os problemas das universidades arriscamos a elitiza-las novamente, que ironicamente foi o que se quis destruir com o 25 de Abril..

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