Facts about the FCT/ESF science evaluation: the story so far

domingo, 31 de Agosto de 2008

A Semente do Diabo


Em 2006 foi estreado um filme que arrepiou muitos nos Estados Unidos da América. A sinopse do filme Jesus Camp, indica que «Um número crescente de cristãos evangélicos acredita que está a decorrer um renascimento da América em que a juventude cristã tem de assumir a liferança do movimento conservador cristão. O filme Jesus Camp segue Levi, Rachael, Tory e mais algumas crianças no campo de verão Kids on Fire em Devil’s Lake, North Dakota, dirigido por Becky Fischer, em que crianças tão novas quanto 6 anos são ensinados a tornarem-se dedicados soldados cristãos do exército de deus.

O filme segue as crianças no campo à medida que estas aperfeiçoam os seus dotes proféticos e são ensinadas em como retomar a América para Cristo. O filme dá uma visão inédita sobre o intensivo campo de treino que recruta crianças cristãs renascidas para tomarem um papel activo no futuro político dos Estados Unidos».

O filme foi visualizado por David Byrne, que partilha no seu blog as impressões sobre o mesmo. Como refere, no campo Fischer diz às crianças que devem estar dispostas a morrer por Cristo e estas concordam obedientemente. Byrne, que indica ter Fischer usado o termo mártir, consegue imaginar as crianças assim doutrinadas a transformarem-se em bombistas suicidas em tudo análogos aos correspondentes fundamentalistas islâmicos.

Como referiu na altura PZ Myers, apenas o trailer do filme é arrepiante mas mais arrepiante é o que soube ontem no post «Be afraid». Neste, PZ Myers recomenda a todos a leitura do artigo «Theocratic Sect Prays for Real Armageddon» do jornalista Casey Sanchez, que deixou o ano passado o Chicago Reporter para se juntar ao Southern Poverty Law Center.

No artigo, Sanchez aborda o Exército de Joel, um ramo dominionista que pretende estabelecer o «reino do céu» na Terra. A maioria dos grupos dominionistas norte-americanos tem tentado isso através da infiltração no Supremo Tribunal, formado por juízes de nomeação vitalícia, de gente como Janice Rogers Brown. Esta, numa reunião de advogados católicos, afirmou que «as pessoas de fé estão envolvidas numa guerra contra os humanistas seculares que querem separar a América das suas raízes religiosas», guerra que deveria ser travada com as armas da lei, por exemplo, por aprovação de leis mais «divinas» que aplicassem castigos «bíblicos» a crimes também «bíblicos» como «sodomia», adultério, apostasia, heresia ou aborto. E o castigo «bíblico» nestes casos é uma sentença de morte. Ou então com a aprovação do «Acto da Restauração» de que já falei.

Mas o Exército de Joel parece mais apostado a recorrer a outras armas, que recordam o jogo cristão que fez e faz furor nos Estados Unidos, «Left Behind: Eternal Forces». Neste, o jogador é «um soldado de um grupo paramilitar cujo objectivo é transformar a América numa teocracia cristã e estabelecer a visão mundana do domínio de Cristo sobre todos os aspectos da vida» que tem como missão «converter ou matar católicos, judeus, muçulmanos, budistas, homossexuais, todos os que advoguem a separação do estado e da Igreja, especialmente cristãos moderados 'de café'».

O Exército de Joel, para além de subscrever a missão do «Left Behind», postula algumas crenças espantosas reveladas por Ernie Gruen, um ex-membro do movimento:

«According to Gruen's report, students at the school were taught that they were a 'super-race' of the 'elected seed' of all the best bloodlines of all generations -- foreknown, predestined, and hand-selected from billions of others to be part of the 'end-time Omega generation.'

Though he'd once promoted these doctrines himself, Gruen became convinced that the movement was turning into an end-times cult, marked by what he summarized as 'spiritual threats, fears, and warnings of death,' 'warning followers to beware of other Christians' and exhibiting a 'super-race' mentality toward the training of their children.»
Esta crença na «super-raça» parece beber as suas raízes no anti-intelectualismo e postura anti-ciência do movimento, que pensa que todos os intelectuais e todas as pessoas inteligentes e instruídas são fruto da «semente do Diabo»:
«Michael Barkun, a leading scholar of radical religion, notes that in 1958, Branham began teaching 'Serpent Seed' doctrine, the belief that Satan had sex with Eve, resulting in Cain and his descendants. 'Through Cain came all the smart, educated people down to the antediluvian flood -- the intellectuals, bible colleges,' Branham wrote in the kind of anti-mainstream religion, anti-intellectual spirit that pervades the Joel's Army movement to this day. 'They know all their creeds but know nothing about God.'»
A parte mais preocupante nesta história não é facto deste exército apocalíptico estar a recrutar seguidores aos milhares mas sim a revelação de que Sarah Palin, a governadora do Alasca escolhida recentemente por McCain para vice-presidente da candidatura republicana à eleição de Novembro, pertence a uma igreja dominionista com ligações ao Exército de Joel.

Sobre a posição assumidamente anti-ciência da criacionista Palin não há quaisquer dúvidas mas podemos apenas esperar que este membro vitalício da National Rifle Association (NRA) e grande amante da caça ao lobo não subscreva as ideias mais «radicais» da igreja a que pertence ou que no caso de as subscrever pelo menos não as transponha para a política se a candidatura republicana vencer as eleições de Novembro.

sábado, 30 de Agosto de 2008

Paleografia, polémicas e o redespertar do epicurismo

Desde a sua descoberta há pouco mais de sessenta anos, por um pastor que procurava uma ovelha perdida, que os manuscritos do Mar Morto perturbam pastores por todo o mundo e acendem controvérsias sortidas.

De facto, a história contemporânea dos pergaminhos, uma das fontes mais importantes sobre os primórdios do cristianismo, tem sido abalada por escândalos teológicos e académicos, estes últimos motivados pelas restrições ao seu acesso - embora tenham sido publicados na totalidade em 2001.

Na edição de 26 de Agosto do New York Times, ficámos a saber que os cerca de 15 mil frágeis fragmentos que compõem os 900 documentos do acervo serão disponibilizados online para que quem o deseje os possa estudar.

O interesse nos manuscritos traduz-se em inumeros pedidos de acesso ou mesmo de exposição dos mesmos que são complicados de satisfazer dada a sua provecta idade. Assim, sempre que os manuscritos (e as fotografias feitas na década de 50) saem da câmara especial em que são guardados e são expostos à luz, humidade e calor, deterioram-se mais um pouco. Aliás, a deterioração ocorre mesmo sem essa exposição, também devido à fita-cola usada pelos primeiros peritos nos seus esforços de reunir fragmentos num documento.

O projecto iniciou-se no âmbito da conservação dos manuscritos, ou pelo menos da informação que contêm, como explicou ao NYT Pnina Shor, que dirige o departamento de conservação da Israel Antiquities Authority.
The project began as a conservation necessity. We wanted to monitor the deterioration of the scrolls and realized we needed to take precise photographs to watch the process. That’s when we decided to do a comprehensive set of photos, both in color and infrared, to monitor selectively what is happening. We realized then that we could make the entire set of pictures available online to everyone, meaning that anyone will be able to see the scrolls in the kind of detail that no one has until now.
Mas se este escândalo académico está prestes a terminar já que, como diz Jonathan Ben-Dov, um académico israelita que participa no processo de digitalização, mesmo os estudantes graduados poderão olhar detalhadamente e sob todos os ângulos para os manuscritos, o escândalo teológico promete reacender em breve com a publicação do artigo do controverso Israel Knohl «The Messiah Son of Joseph: ‘Gabriel’s Revelation and the Birth of a New Messianic Model» na revista Biblical Archaelogy Review (BAR).

O artigo é uma interpretação do «Novo Manuscrito do Mar Morto em Pedra?», uma placa de pedra que parece datar do século I a. C. descodificada pela paleógrafa Ada Yardeni que publicou o texto traduzido na revista de história e arqueologia israelita «Cathedra» e na edição de Janeiro/Fevereiro da BAR.

O texto em hebraico, de natureza apocalíptica, apresenta a «revelação de que o arcanjo Gabriel vai despertar o Príncipe dos Príncipes três dias depois de sua morte». O texto está escrito, com tinta sobre a pedra, em 87 linhas e duas colunas (como na Torah), e algumas letras ou palavras inteiras foram apagadas pelo tempo. A análise de Knohl consiste essencialmente em decifrar a linha 80, onde figuram os termos «três dias mais tarde» seguidos por uma palavra pouco legível que, segundo o professor, significa «vive».

Esta novo manuscrito em pedra, que promete mais controvérsia que a que já provocou, corrobora a tese anterior de Knohl proposta com base em textos dos Manuscritos do Mar Morto e expressa no livro «The Messiah before Jesus. The Suffering Servant of the Dead Sea Scrolls» (discutido aqui em português).

Knohl considera que quer esta visão de Gabriel quer os manuscritos do Mar Morto que analisa no seu livro vão alterar a nossa visão do cristianismo e«pedem uma revisão total do que se pensa sobre messianismo, quer judaico quer cristão».

Estou absolutamente certa que o tema ainda vai aquecer mais, se a ciência ajudar a confirmar a autenticidade do «Hazon Gabriel», mas devo confessar que em questões de paleografia estou mais interessada nas surpresas que nos estão reservadas pela Villa dei Papyri em Ercolano (Herculaneum), enterrada na lava expelida pelo mesma erupção do Vesúvio que destruiu Pompeia.

A Villa dei Papyri, que se pensa ter pertencido a Lucius Calpurnius Piso, sogro de Júlio César, deve o seu nome aos muitos papiros que nela já foram descobertos, a maioria textos epicuristas, em especial do filósofo Filodemo de Gadara. As escavações na vila recomeçaram em finais do ano passado depois de um interregno de 8 anos, muito «escândalo académico» e de uma campanha por parte das maiores autoridades mundiais em literatura clássica, que consideravam que se as escavações não fossem retomadas perder-si-a «um dos maiores tesouros culturais de sempre» Pouco depois, a vila revelou um tesouro inesperado, um trono de madeira e marfim profusamente esculpido com o deus Attis.

Richard Janko, que dirige o departamento de estudos clássicos na Universidade de Michigan, acredita que a Villa dei Papyri revelará o maior número de novos textos desde aqueles que foram redescobertos no século XVI, nomeadamente o poema que dá nome ao blog, e que foram a base do Renascimento e moldaram o humanismo secular ocidental.

Como termina Luke Slattery no The Australian, num artigo sobre a escavação de que recomendo a leitura, os tesouros da Villa dei Papyri estão a permitir que o mundo actual aprofunde o conhecimento desta corrente filosófica, tão perseguida e vilipendiada, propiciando um redespertar do epicurismo. Para além disso:
"Empty is that philosopher's argument by which no human suffering is therapeutically treated," said the philosopher of the Garden. "For just as there is no use for a medical art that does not cast out the sickness of the body, so there is no use in philosophy, unless it casts out the sickness of the soul."

That sickness, in Epicurean terms, is rampant desire. If the Villa of the Papyri were to contribute nothing more to the 21st century than the taming of consumption, it might help save the planet as well as the soul.

Ciência imparcial?

Poderá a investigação científica ser realmente imparcial? A resposta óbvia é que não pode ser inequivocamente imparcial porque a ciência é feita por seres humanos e instituições humanas, que estão sujeitos à habitual cegueira facciosa.

Mas há uma grande, uma imensa diferença entre ver que a ciência, como tudo o resto, não pode ser inequivocamente imparcial, e celebrar esse facto alegremente. Isto é o primeiro passo para o totalitarismo; se tudo é inequivocamente faccioso, até a ciência, então eu tenho o direito de defender com unhas e dentes os meus interesses, que têm uma vantagem final que nenhuns outros interesses têm: são meus. Por outro lado, qualquer análise superficial das instituições científicas mostra que estas estão em parte feitas de maneira a contrariar a parcialidade e a procurar a máxima objectividade (leia-se em português, a este respeito, o prólogo de Jorge Buescu do seu livro O Mistério do Bilhete de Identidade). Fingir que não há diferença entre as instituições científicas e as religiosas, por exemplo, só pode ser fruto de confusão mental ou do tipo de facciosismo cego que está na moda imputar à ciência.

Precisamos de estar vigilantes, de procurar a verdade das coisas, de denunciar a mentira, a prostituição da ciência para fins políticos e ideológicos. E nesta tarefa nada nos ajuda a declaração sofística, baseada em imaginadas autoridades filosóficas, de que tudo é inequivocamente faccioso e que a objectividade é um mito. Argumentar que X não existe porque não existe um X puro é o tipo de falácia contra a qual temos de estar precavidos, pois é dela que nasce a ideia pós-moderna de que devemos celebrar a ideologização da ciência, da filosofia, da história e talvez até das quecas. Do facto de ninguém ser puramente bom, não se segue 1) que não há pessoas boas, e umas mais que outras, nem 2) que devemos celebrar a maldade, a inveja, a perversidade e a pura manipulação desavergonhada, nem 3) que não devemos procurar ser boas pessoas, dentro das nossas muito humanas limitações.

Algo de novo debaixo do Sol


«I don't understand it Dr. von Tappeiner. The paramecia were all wiggling just fine a minute ago, but now these over by the window seem to be dead.» Oscar Raab, 1898.

Num jornal de São Paulo da semana passada descobri um artigo muito interessante que dá conta de um novo tratamento luminoso para o cancro de pele. António Cláudio Tedesco, do departamento de Química da Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto trabalha no que se designa por terapia fotodinâmica (Photodynamic Therapy ou PDT). O cientista brasileiro conseguiu obviar ao principal problema desta técnica aumentando a sua especificidade por nanoencapsulamento do fotossensibilizador. Os testes clínicos - já no final da Fase II - da pomada que desenvolveu estão a ser conduzidos, com muito sucesso, nos hospitais universitários da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

Esta técnica basicamente envolve a activação com luz de um fotossensibilizador químico administrado topica ou sistemicamente, para tratamento do cancro e outras doenças ou para a destruição de vírus, bactérias ou fungos. Esse sensibilizador fotoquímico é uma espécie química que no estado excitado transfere facilmente energia para o oxigénio dando origem a oxigénio singuleto que destrói os tecidos onde se encontra. E esse é o problema que Tedesco resolveu já que se o fotossensibilizador não for muito específico são destruídos tecidos saudáveis.

A PDT é especialmente utilizada em dermatologia, nomeadamente no caso de lesões tumorais ou pré-tumorais extensas e superficiais em que os tratamentos cirúrgicos convencionais envolvem a remoção da pele doente dando origem a cicatrizes igualmente extensas, o que não acontece com a PDT.

As propriedades terapêuticas da luz são conhecidas desde o início da História mas o interesse na utilização terapêutica da luz permaneceu suspenso até finais do século XIX, início do século XX, especialmente depois de Niels Finsen ter recebido o Nobel da Medicina em 1903 pelo seu tratamento «solar» do lupus vulgaris.

De facto, os registos históricos mais antigos que temos indicam a importância do Sol, um deus em inúmeras mitologias. Muito antes do culto de Rá em Heliopolis, as civilizações pré-históricas adoraram o Sol e endereçaram-lhe preces. O uso da luz como agente terapêutico pode ser assim traçado ao culto do Sol. A influência do deus do Sol grego, Helios, permaneceu mesmo depois do advento da racionalidade grega, por exemplo na metáfora do Sol de Platão e no facto de o pai da História, Heródoto, ser também o pai da helioterapia, importada pelos romanos que transformaram os helioses gregos em solaria.

Os antigos egípcios usaram igualmente a fototerapia para tratamento de algumas afecções dermatológicas, como referido no papiro de Ebers, o mais extenso dos papiros médicos do Antigo Egipto. Nomeadamente, utilizaram o precursor da PDT quando prescreviam cicuta negra no tratamento da lepra branca ou vitiligo. A cicuta negra contém 8-metoxipsoraleno, um fotossensibilizador que ainda hoje se utiliza. De igual forma, os psoralenos da Psoralea corylifolia são o princípio activo dos tratamentos milenares prescritos para esta afecção na Índia e na China. O Atharva Veda prescreve o uso das sementes negras da beivechi ou babachi (Veisuchaika no original, alguns dos muitos nomes com que a planta é conhecida), seguido da exposição directa ao sol para tratamento do vitiligo.

Os solaria acompanharam a queda de Roma e a helioterapia só foi recuperada parcialmente por Avicena no século XI. Mas na Europa medieval e renascentista a exposição ao Sol era evitada já que escurecia a pele e uma pele nívea era uma marca de nobreza. Aliás, foi muito comum as classes mais altas utilizarem pós para tornar mais pálida a tez, prática que não era muito saudável quando os pigmentos branqueadores de eleição eram compostos de arsénio ou de chumbo. Na Inglaterra isabelina, o ceruse veneziano era utilizado não só para conferir uma pele branca, realçada por «beauty marks» artisticamente aplicados, como nos «tratamentos» capilares que conjugados com a mistura de óleo de vitriol (ácido sulfúrico) e extracto de ruibarbo usada para aclarar os cabelos explicam as testas proeminentes dos retratos desta época.

A Revolução Industrial começou a alterar a relação entre status social e cor da pele já que a palidez começou a ser associada aos trabalhadores que passavam o dia encerrados em fábricas e longe da luz do Sol. Assim, o bronzeado perdeu a sua conotação «trabalhadora» e nos loucos anos 20 o efeito terapêutico do Sol que fazia furor na comunidade médica pelo menos desde o Nobel de Finsen foi promovido socialmente por socialites como Coco Chanel.

Em 1904, pouco depois do Nobel de Finsen, Hermann von Tappeiner, director do Instituto Farmacológico da Universidade Ludwig-Maximilians em Munique e um dos pioneiros da fotobiologia, cunhou o termo acção fotodinâmica (photodynamische Wirkung) para descrever o que o seu estudante de doutoramento Oscar Raab descobrira uns anos antes. Raab verificara que a letalidade da acridina para os protozoários Paramecia era mais dependente da exposição à luz do que de variações controladas da concentração do corante.

Entre 1903 e 1905, o grupo de von Trappeiner aplicou topicamente vários corantes, como eosina, eritrosina, fluoresceína, ou vermelho do Congo, seguida de exposição à luz para o tratamento de aflições dermatológicas sortidas, ptiriase versicolor, psoríase, carcinoma basocelular, sífilis, lupus, etc. Embora tenham obtido alguns resultados favoráveis no tratamento desses problemas, as dermatites secundárias e o advento de outras técnicas fizeram a terapia fotodinâmica cair novamente no esquecimento até ser recuperada na clínica Mayo por Lipson e Schwartz em meados do século XX e no início do século XXI assumir a importância de que o trabalho de Tedesco é um exemplo.

sexta-feira, 29 de Agosto de 2008

Outros exorcismos

Matthew Cobb é um biólogo na Faculdade de Ciências da Vida na Universidade de Manchester que estuda a genética do comportamento e química da comunicação em insectos. Ou, como se descreve, é um «neurobiólogo evolucionário - estou interessado em saber como a evolução moldou os sistemas sensoriais e comportamento animal através de genes e redes neuronais».

Cobb é igualmente um historiador de ciência cujo interesse na biologia e biólogos do século XVII se deve ao facto de considerar que «estudar a história da biologia enriquece a minha investigação e permite uma perspectiva muito valiosa para a compreensão dos problemas de hoje».

Este livro fascinante, com uma capa igualmente fascinante, conta-nos a história dos feitos filosóficos e científicos do século XVII que estiveram na base da nossa compreensão sobre a reprodução. Ao mesmo tempo, Cobb dá-nos uma visão realista e colorida, mas sem qualquer estetização, da sociedade da época descrevendo o contexto cultural, social e político em que estas descobertas pioneiras foram efectuadas.

A história desenvolve-se em torno de cientistas e pensadores principalmente na Holanda (que atravessava a sua «golden age», com um ambiente fértil para o renascimento das artes e da ciência), mas também em França, Itália e Inglaterra e sobre as descobertas que alteraram a forma como se olhava a reprodução, ou antes, a «geração» como se pensava na época. De facto, nesses tempos em que as deduções filosóficas de Hipócrates e Aristóteles eram muitas vezes impostas,* pensava-se que os insectos se «geravam» espontaneamente do pó e matéria orgânica em decomposição e que os embriões humanos tinham origem no sangue menstrual. Os ovários, por exemplo, eram considerados orgãos vestigiais como os mamilos dos homens, os «testículos femininos» como eram designados.

Entre esses pensadores incluem-se alguns já abordados no De Rerum Natura como William Harvey ou Anton van Leeuwenhoek. Mas também são actores principais nesta corrida Francesco Redi, o médico e poeta italiano que contestou o princípio activo de Aristóteles com as suas experiências em que mostrou que as larvas não nascem por geração espontânea, Reinier de Graaf (o mesmo que deu nome ao folículo do ovário maduro, designado por «folículo de Graaf»), Nicolas Steno, que embora mais conhecido por ser um dos pais fundadores da geologia moderna, teve contribuições importantes para o estudo da anatomia e lançou as bases para a teoria da evolução de Darwin com a sua hipótese de que o registo fóssil era também um registo cronológico de criaturas diferentes que viveram em épocas diferentes.

Claro que Jan Swammerdam, o autor da Historia Insectorum Generalis de que se reproduz uma ilustração e do «The Book of Nature», o livro revolucionário que determinou o interesse de Cobb neste período da História da ciência, não pode faltar nestoutro que descreve de forma magistral como são indissociáveis o trabalho científico destes pensadores e a vida cultural e social do século XVII.

Swammerdam, cujas observações sobre insectos o levaram à catalogação destes em quatro grandes divisões segundo o grau e o tipo das suas metamorfoses, das quais três foram mantidas na classificação actual, foi igualmente quem lançou as bases da neurobiologia ao propôr que o comportamento animal se baseia em estímulos nervosos.

Exorcizing the animal spirits: John Swammerdam on nerve function (formato pdf) é o título de um artigo de Cobb na Nature Reviews que realça esta faceta do visionário pensador do século XVII. Este artigo, que vale a pena ler, embora restrito a Swammerdam, de certa forma sumaria as ideias expressas no livro «The Egg and Sperm Race»:
«For more than 1,500 years, nerves were thought to function through the action of ‘animal spirits’. In the seventeenth century, René Descartes conceived of these ‘spirits’ as liquids or gases, and used the idea to explain reflex action. But he was rapidly proven wrong by a young Dutchman, Jan Swammerdam. Swammerdam’s elegant experiments pioneered the frog nerve–muscle preparation and laid the foundation of our modern understanding of nerve function.

The seventeenth-century scientific revolution, which established the foundations of much of modern science, is generally associated with physics and astronomy, and the work of giants such as Galileo and Newton. However, remarkable and decisive discoveries were also made in biology (or ‘natural history’), although most modern scientists know little of this work and even less of the researchers who pioneered important aspects of today’s knowledge.
(...)
The particular episode in the scientific revolution described here — the abandonment of the hypothesis of ‘animal spirits’ to explain nerve function — not only reveals how some familiar concepts and experiments were first developed, but also casts a fascinating light on how we interpret our own experimental findings. In particular, it shows us that the hypotheses we put forward to explain the natural world are often heavily influenced by the social world.»
Ontem, Cobb e outro biólogo já referido no De Rerum Natura, Jerry Coyne, publicaram uma carta na Nature, que pode ser lida na íntegra no Pharyngula para quem não tenha acesso à Nature, que ajuda a explicar como o mundo social, em especial a religião, influencia para tantos a forma como veêm o mundo natural. A carta foca-se no tema que mais inflama o nosso espaço de debate e vale a pena ser lida por ajudar a esclarecer algumas questões recorrentes nesse espaço e que podem ser apreciadas neste excerto:
«Surely science is about finding material explanations of the world -- explanations that can inspire those spooky feelings of awe, wonder and reverence in the hyper-evolved human brain.

Religion, on the other hand, is about humans thinking that awe, wonder and reverence are the clue to understanding a God-built Universe. (The same is true of religion's poor cousin, 'spirituality', which you slip into your Editorial rather as a creationist uses 'intelligent design'.) There is a fundamental conflict here, one that can never be reconciled until all religions cease making claims about the nature of reality».

*Em 1746, o reitor do Colégio das Artes de Coimbra proibia por decreto «...quaisquer conclusões opostas ao sistema de Aristóteles» e, em particular, «opiniões novas, pouco recebidas e inúteis para o estudo das Ciências Maiores, como são as de Renato Descartes, Gassendi(Pierre Gassendi recuperou o proscrito atomismo de Leucipo e Epicuro), Newton e outros».

UM COMANDANTE À DERIVA


Minha crónica no "Público" de hoje:

De um comandante dum navio espera-se que saiba manter o rumo, segurando o leme com firmeza, e que não saia do seu posto a meio da viagem, mesmo que haja uma rajada de vento desfavorável. Pois foi precisamente isso que o Presidente do Comité Olímpico Português, Comandante José Vicente Moura, não fez, pouco depois de a atleta Naide Gomes ter falhado no salto em comprimento, nos Jogos Olímpicos de Pequim, também ele falhou ao anunciar que se ia embora. A mão, fora do leme, batia no peito, quando afirmava aos microfones da Antena 1: "Pensei que, em conjunto com as Federações, podíamos colmatar as lacunas do sistema desportivo português, enganei-me, enganei-me, sem dúvida que me enganei". O Comandante assim tão redondamente enganado tinha assinado uma carta ao governo, na qual se comprometia a obter quatro a cinco medalhas e 60 pontos a troco de um cheque de catorze milhões de euros e não via outra maneira de se redimir. Foi muito claro: "É preciso assumir as responsabilidades que estão escritas numa carta que enviei ao governo. O governo cumpriu, e ao cumprir, não tenho críticas a fazer. Se não tenho críticas a fazer, tenho que assumir as responsabilidades".

Mas, passados poucos dias, depois de o atleta Nelson Évora ter ganho uma medalha de ouro na prova de triplo salto, o Comandante dá o dito por não dito e declara-se pronto a seguir viagem com a condição de lhe darem “poder e força”. Quer dizer, há tempestade e o comandante sai, mas vem a bonança e o comandante fica. Pode-se prever que, se vier nova rabanada de vento, voltará a sair, reentrando logo que regresse a calmaria. As metáforas marítimas são, neste caso, bastante adequadas pois Vicente Moura, embora reformado, é Capitão de Mar e Guerra da Marinha. À sua valiosa experiência naval soma-se a sua longa experiência de dirigente desportivo, uma vez que está no Comité Olímpico Português há décadas, indo no seu quarto mandato, terceiro sucessivo, de Presidente.

Porque é que terá mudado tão depressa de opinião? Não foi só o êxito no triplo salto, que, somado ao meio êxito de Vanessa Fernandes no triatlo, fez com que a missão olímpica lusitana atingisse quase metade do objectivo em medalhas (o objectivo em pontos ficou bem mais distante). Vicente Moura, num estilo bem português, invocou as numerosas manifestações de apoio que tem recebido: "Dezenas e dezenas de chamadas e mensagens de telefone, que desliguei há quase 48 horas, uns 200 e-mails, dezenas de chamadas não atendidas, apoios generalizados de toda a gente, pessoas de clubes, que não conheço, etc... sinal que o meu trabalho não foi em vão." É o nacional-porreirrismo no seu melhor! Se tanta gente o acha “porreiro-pá”, se os passageiros estão a gostar do passeio, porque é que há-de ele sair? Fica a dúvida sobre o modo como o Comandante sabe o conteúdo das chamadas não atendidas, mas, enfim, não se quer mesmo ir embora e a desistência durante os Jogos tinha sido só um desabafo a quente.

Mas a pérola maior do Comandante olímpico veio entre o salto e o triplo salto, entre a tempestade e a bonança, quando ele, ainda em Pequim, comentou assim os desabafos a quente de alguns atletas: "Nós preparamos os atletas desportivamente; culturalmente não. A educação não é connosco." Pois, para o Comité Olímpico Português, desconhecedor da "paideia" grega, desporto é uma coisa e cultura e educação são outras duas completamente diferentes. Da educação nem quer saber. Alguém vai ter de lhe explicar que o desporto pressupõe regras, isto é, educação. Marco Fortes, sem nenhuma experiência olímpica, que assumiu a fraqueza de preferir dormir de manhã e lançar o peso à tarde, ainda terá desculpa. Mas foi mandado embora no primeiro avião. O Comandante, que está no Comité Olímpico há trinta anos e que alimenta o sonho delirante de organizar os Jogos Olímpicos de 2020 em Portugal (promete para essa altura dez a doze medalhas se lhe derem, além de dois mil milhões de euros, uma aldeia olímpica no Aeroporto da Portela), não tem nenhuma desculpa. Devia ser mandado embora na primeira eleição.

quinta-feira, 28 de Agosto de 2008

Olhar o Longe. Olhar o Antes


Informação recebida da companhia de teatro Marionet de Coimbra:

A MARIONET irá estrear no dia 29 de Agosto de 2008 em Coimbra,
simultaneamente na Ponte Pedonal Pedro e Inês no Parque Verde da cidade
e no terraço da Biblioteca Geral da Universidade, o espectáculo
transdisciplinar "Olhar o longe . olhar o antes", integrado nas
comemorações do Ano Internacional da Astronomia 2009.
As apresentações do evento serão nos dias 29 e 30 de Agosto, 5, 6, 12,
13, 19, 20 de Setembro (6ªs e Sábados) e 22 de Setembro (2ª feira,
equinócio de Outono), sempre às 21h45.

A assistência ao espectáculo no Parque Verde será de acesso livre. A
assistência ao espectáculo no terraço da Biblioteca Geral estará
limitada a uma pessoa por apresentação. O preço desta viagem individual às estrelas será de 5000€. Será necessário reservar com a antecedência mínima de 15 dias relativamente ao dia escolhido em que se pretende fazer a viagem.
As pessoas que comprarem o bilhete para assistirem ao espectáculo no
topo da Biblioteca Geral passarão a ter o estatuto de patrocinadores
da próxima produção da MARIONET.

Uma viagem às estrelas

Habituada a traçar os caminhos que cruzam a ciência com as artes performativas, a MARIONET dá com Oolooa mais um passo nesse percurso. Aproveitando a efeméride do Ano Internacional da Astronomia que se assinalará em 2009, ano em que se cumprem 400 anos sobre a primeira vez que Galileu apontou uma luneta para o céu, decidimos criar um objecto artístico que, partindo da Astronomia, reflicta sobre o conhecimento que temos do mundo e de nós próprios.

Os telescópios apontados para as galáxias distantes, sejam aqueles que podemos ter na nossa varanda, sejam aqueles, como o Hubble, que colocámos no espaço, recolhem informação do passado do universo. A ténue luz azul que nos chega de galáxias a milhões de anos-luz do nosso planeta mostra-nos essas galáxias tal como eram há milhões de anos atrás. Quanto mais longe conseguimos alcançar usando os nossos olhos tecnológicos, mais recuamos no tempo e nos aproximamos do momento em que a Ciência estima que o universo começou a sua expansão, há 13700 milhões de anos atrás.

Olhar para o céu através de um telescópio é, por isso, utilizar uma máquina do tempo que nos permite ver o passado do mundo. Muitas das questões que se colocam à Ciência, nomeadamente aquelas que se prendem com a origem de tudo - do Homem, da vida, da matéria, da luz - estão relacionadas com acontecimentos passados há milhares de milhões de anos onde algumas teorias científicas consideram ter existido uma inimaginável explosão a partir da qual o universo terá começado a sua expansão, o “big bang”. As máquinas do tempo que são os telescópios constituem o nosso ponto de ligação a esse passado longínquo e as ferramentas que nos permitirão, eventualmente, obter as respostas que ansiamos.

Queremos, neste projecto, transpor essas perguntas para o domínio artístico com um espectáculo que reflicta e leve a reflectir sobre elas. Uma forma que encontrámos para colocar de forma mais incisiva o cerne do espectáculo ao público que a ele assistir é a de criar condições de assistência invulgares.

A acção decorre simultaneamente em dois locais distintos como forma de sublinhar as condições de distância entre observador e observado habitualmente existentes nas observações astronómicas. No local de cota mais baixa, o Parque Verde do Mondego, acontece uma apresentação sobre Astronomia durante a qual é realizada uma experiência para encontrar resposta a uma pergunta sobre as estrelas. No local de cota mais elevada, o terraço da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, será criada uma constelação artística a partir de histórias míticas associadas a algumas constelações celestes.

A assistência ao espectáculo no local de cota mais baixa é gratuita. Quem assistir ao espectáculo no local de cota mais baixa pode assistir igualmente à acção a decorrer no local de cota superior a olho nu, à distância, pois os dois locais ficam em linha de vista e, adicionalmente, através das imagens captadas por um telescópio e parcialmente projectadas num écran.

Ficha Artística

Texto e direcção: Mário Montenegro Discussão e ideias: Mário Montenegro, Alexandre, Anabela Fernandes, Pedro Andrade, Rui Simão, Rui Capitão, Francisco Queimadela e Mariana Caló Intérpretes: Alexandre, Anabela Fernandes, Mário Montenegro Espaço cenográfico, figurinos, adereços e imagem: Pedro Andrade Sonoplastia: Rui Capitão Direcção Técnica e Iluminação: Rui Simão Vídeo: Francisco Queimadela e Mariana Caló Fotografia: Francisca Moreira Produção executiva: Cristiana Morais Produção Marionet 2008.

Espectáculo financiado pela Direcção-Geral das Artes / Ministério da Cultura.

Apoios: Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, Câmara Municipal de Coimbra, Comissão Nacional para o Ano Internacional da Astronomia 2009, Complexo Verde Mondego ACE, MAFIA – Federação Cultural de Coimbra, O Teatrão, Orquestra Clássica do Centro, Secção de Astronomia e Astrofísica da A.A.C., Turismo de Coimbra - E.M, RUC, Museu da Ciência da Universidade de Coimbra.

Camuflagem Urbana: Lost in translation






A galeria Bertin Toublanc em Paris e mais recentemente a Eli Klein Fine Art apresentaram uma nova geração de artistas chineses. Obras como as fotografias de Liu Bolin, Urban Camouflage, de certa forma traduzem a transformação em curso na China, em que velhos hábitos são demolidos e uma nova cultura se vai lentamente impondo assim como os sentimentos ambivalentes dos que se sentem perdidos na transição.

As fotos de Bolin mostram o emergir do indivíduo numa cultura em que a individualidade nunca antes foi importante. Usar o corpo como veículo de arte é uma forma de reconhecer essa individualidade numa sociedade que ainda tem problemas em aceitar os direitos da auto-expressão.

Are human beings animals?

Chameleon has the unique property of changing hues to match the color of the surroundings for self-protection. Rattlesnake can bury most of the body in sand soil. This can not only protect itself but also have a better access to food. There are also many animals, such as gecko, beetle etc., which have learnt to deal with the environment and the enemy in the longtime fight of life and death. In order to survive, good concealment has become the most critical factor.

Human beings are not animals! Because human beings do not know how to protect themselves.

In the recent three thousand years history of human civilization, basically the two items are written clearly: one, human beings develop in the destruction of their environment; two, the development of human is full of bad exploitation for themselves. The cost of the brilliant human civilization is that human beings almostly forget they are still animals, and forget their own instinct.


Liu Bolin: Exibição na Galeria Bertin-Toublanc e na Eli Klein Fine Art.

Train your brain


Os jornais chegam a mais, muito mais pessoas do que os artigos e livros de teor académico. Chegam também a todo o tipo de público, mais e menos informado. Daí que as suas decisões tenham impacto directo em muita gente.

Considerando que essas decisões podem contribuir para o enriquecimento ou empobrecimento cognitivo, há uns meses atrás detivemo-nos na decisão que nos pareceu particularmente infeliz do Semanário Sol distribuir adaptações, destinadas a crianças, de textos dos nossos autores clássicos. Detemo-nos, agora, na decisão que nos parece particularmente feliz do Semanário Expresso distribuir pequenos livros de exercícios destinados a “exercitar a mente”.

Tais livros não são uma ideia original deste jornal, como foi a dos livros adaptados, que o Sol partilhou com as Edições Quasi. Mas nem sempre a originalidade é uma mais-valia; se outros tiveram um boa ideia, resguardando os devidos direitos de autor, é razoável que se siga. Neste caso, o Expresso foi buscar a ideia a Espanha, mais precisamente a Ángels Navarro, que também concebeu os mais de trezentos exercícios que se oferecem aos leitores de todas as idades.

E concebeu muito bem. Numa linguagem simples e sinteticamente, explica a importância de se treinarem as capacidades ou competências que dão corpo à nossa inteligência, explicando as que são postas em evidência nos exercícios propostos: percepção/espaço, linguagem, cálculo, raciocínio e memória. Sossega a pessoa que pega no livro, afirmando que, para se ter sucesso “não são necessários grandes conhecimentos, nem qualquer preparação especial. É apenas necessário abrir a mente, libertar-se de ideias preconcebidas e aceitar o desafio”. Dá, ainda, alguns conselhos gerais para melhor actuar, que também servem de suporte para que a pessoa não desista à primeira dificuldade. De seguida, vêm os exercícios, muito bem apresentados sob o ponto de vista gráfico e, no final, as soluções e meia-dúzia de páginas em branco para notas.

Sem desvalorizar todo este trabalho, arriscamos afirmar que de importância semelhante é a sua divulgação neste país de baixos resultados académicos, invariavelmente revelados em provas nacionais e internacionais. Resultados que indicam não uma incapacidade intelectual inata dos nossos alunos para compreender e resolver problemas mas, sobretudo, uma falta de estimulação cognitiva na escola, nas família e noutros ambientes em que vivem.

Por outro lado, a tiragem de 150 mil exemplares que o Expresso fez dos livros de exercícios, poderá fazer chegar a seguinte mensagem a pelo menos esse número de pessoas: “a investigação psicológica e neurológica mostrou que os exercícios mentais ajudam a combater o envelhecimento cerebral. A memória treina-se, o vocabulário adestra-se e o raciocínio exercita-se”. Invocam-se dados científicos correctamente, além de que se trata de dados que nos dão esperança: afinal há saída para melhorarmos.

Só mais uma nota: os quatro livros da colecção saem todos em Agosto. Excelente decisão, pois sendo o mês de férias para grande parte da nossa população, é a altura do ano mais amável para este tipo de desafios.

Maria Helena Damião e Maria Regina Rocha

quarta-feira, 27 de Agosto de 2008

A estrela da ciência

Tom Willis, da associação «oximorónica»* Creation Science Association of Mid-America, detém uma considerável influência política como confirmado pelo facto de em 1999 ter sido um dos responsáveis pela alteração dos curricula escolares - banindo o ensino da evolução - no estado do Kansas.

Ou seja, o referido senhor não é simplesmente mais um alucinado irrelevante que ulula contra os «arrogantes» evolucionistas: há quem siga o que diz nos bastidores do poder político norte-americano, pelo menos no Kansas. O devoto cristão já tinha afirmado que os que consideram que a coisa que dá pelo nome de criacionismo (anti-)científico é uma imbecilidade sem nada a ver com ciência deveriam ser expulsos violentamente ou pelo menos ser-lhes retirado o direito de voto, entre outras coisas :
The arrogance displayed by the evolutionist class is totally unwarrented. The facts warrent the violent expulsion of all evolutionists from civilized society. I am quite serious that their danger to society is so great that, in a sane society, they would be, at a minimum, denied a vote in the administration of the society, as well as any job where they might influence immature humans, e.g., scout, or youth, leader, teacher and, obviously, professor. (...) Therefore, in a sane society, evolutionists should not be allowed to vote, or influence laws or people in any way! They should, perhaps, make bricks to earn enough to eat.
Há uns dias, o dito senhor fez notícia na blogosfera científica norte-americana com um up-grade das suas exigências mais conforme com a História. Willis, depois de debitar umas atoardas sobre os «crimes (?)» dos evolucionistas, afirma que:
Clearly then, "evolutionists should not be allowed to roam free in the land." All that remains for us to discuss is "What should be done with evolutionists?" For the purposes of this essay, I will ignore the minor issue of Western-style jurisprudence and merely mention possible solutions to the "evolutionism problem," leaving the legal details to others:
Se olharmos para as alternativas propostas por Willis percebemos porque refere o problema menor da jurisprudência ocidental - que não existiria se estivesse em vigor o «Acto de Restauração» proposto em 2005 por Sam Brownback, o candidato republicano que os teocratas queriam ver na presidência dos Estados Unidos em 2008, que rezava, ente outras coisas, não serem passíveis de recurso decisões feitas por um agente judicial que reconheça Deus como a fonte da lei, liberdade ou governo.

Essas alternativas passam por confinar os «evolucionistas» em guetos campos de concentração ou colónias na Antártida, por torturá-los até abjurarem as «crenças» heréticas ou obrigá-los pelo menos a usar não os triângulos invertidos dos nazis ou os «distintivo amarelo da vergonha» do 4º Concílio de Laterão mas placas ou medalhões ao pescoço que denunciassem a sua condição de sub-humanos. Um dos leitores do Pharyngula desenhou este emblema mais apropriado e que pode ser impresso em t-shirts.

Infelizmente, diria que a ignorância é o menor dos problemas de Willis. E se por um lado as suas alucinações nos divertem, por outro lado é preocupante pensar no que poderá acontecer se este ou outros da mesma laia forem auxiliados por um cão alfa tão competente como o que criou a aura de glamour que rodeia o Dalai Lama e o Tibete...

*de oxy-moron, um trocadilho com oxímoro (oxymoron).

terça-feira, 26 de Agosto de 2008

Uma escola, uma professora, um aluno


No European Student Competition in Ancient Greek Language and Literature, promovido pelo Ministério da Educação da Grécia, participaram neste ano 551 escolas europeias e mexicanas do ensino secundário, num total de 3.532 estudantes.

Portugal foi representado por uma escola, a Escola Rodrigues de Freitas, do Porto, e por um estudante, Afonso Reis Cabral.

Esta representação deve-se em, grande medida, à iniciativa da professora Alexandra Azevedo, que teve conhecimento do dito concurso através de contactos que mantém nos meios académicos e apresentou-o à sua turma de Grego do 12.º ano. Afonso foi o único aluno a aceitar o desafio. O esforço e a concentração que a preparação exigiu foram compensados com um oitavo lugar.

No próximo dia 1 de Setembro, em cerimónia oficial, que terá lugar em Atenas, receberão o respectivo prémio.

Pessoalmente, vejo neste prémio mais do que um prémio; vejo a tenacidade e o empenho em manter viva a cultura clássica e a esperança de a fazer renascer no nosso sistema de ensino.

Imagem retirada de:
http://farm3.static.flickr.com/2131/2076872590_ada86d2255.jpg

O VERÃO DA MINHA VIDA

Há alguns verões atrás, estava eu na Cantábria, Espanha, o "Diário de Notícias" pediu-me um texto sobre o "Verão da minha vida". Recupero esse texto que na altura saiu no jornal (nas imagens, em cima o Hotel Real, em Santander, e em baixo a Biblioteca Menendez Pelayo, também em Santander, vista pela grande fotógrafa alemã Candida Hoefer):

Que me desculpem os verões passados no País de Gales, na Inglaterra, na Bretanha, no País Basco, na Dinamarca e na Suécia, mas, tal como o amor, o melhor Verão é sempre o último. Quer dizer, este. Escrevo desde Santander, província de Cantábria, no Norte de Espanha (está visto que nos verões prefiro fugir para norte, onde o ar é mais fresco). Aqui, entre montanhas e mar, está um verão que merece a pena vir ver, que merece a pena viver.

Aqui a Espanha é verde. As vacas passeiam-se no verde, transformando-o no branco do leite. Na antiga povoação de Santillana del Mar, pode beber-se um copo de leite fresco, com a certeza de que é da vaca mais próxima. Num monte próximo situam-se as grutas paleolíticas de Altamira: foi o pintor Juan Miro que disse que “a arte está em decadência depois das grutas de Altamira”. E, um pouco mais adiante, a paisagem verde cai abruptamente sobre o mar. Agora olha-se e, ao contrário de Mário de Sá Carneiro, não se pode pedir “um pouco mais de azul”, porque é impossível. Só alguns pequenos barcos de outras cores se passeiam no azul, tão pachorrentos como as vacas no verde.

A cidade de Santander ergue-se, muito elegante, sobre a baía com o seu nome. O Porto Pesquero recolhe todos os dias fauna retirada ao mar para chegar à mesa. O Porto Chiqui, por sua vez, alberga os barcos de recreio. Entre um e outro há um porto de “ferry”, que serve a quem queira ir mais para norte, até Plymouth, Inglaterra, atravessando o Cantábrico. O Paseo de Pereda é muito útil à tardinha para fazer “piscinas” pedestres, com eventual paragem numa esplanada para um “cafe con leche” ou um “helado de moca”. A cultura mora aqui no Verão. No jardim marítimo, à noite, uma jovem cantante esforça-se razoavelmente por imitar a inimitável Ella Fitzgerald (é o programa “Jazz en la Calle”). O Festival Internacional de Santander alberga desta vez uma nova produção da Norma de Bellini. O barco Naimon, vindo da Figueira da Foz, prepara-se para atracar e ser palco do último e fantástico espectáculo do grupo espanhol Fura del Baus.

A área mais elegante é a praia de Sardinero, ou melhor as praias de Sardinero, porque há duas separadas pelos coloridos jardins de Piqui. Nessa área vários hoteis mostram, orgulhosos, as suas numerosas estrelas. É de cinco estrelas, por exemplo, o Hotel Real alpendurado na costa verde e oferecendo uma esplêndida vista sobre a península de Madalena, onde está a Universidade de Verão Menendez Pelayo (pouso estival de alguns Prémios Nobel: a ciência também mora aqui ao lado da cultura), e a praia dos Bikinis, que deve o seu nome às primeiras veraneantes que exibiram em Espanha fatos de banho de duas peças. A propósito de Marcelino Menendez Pelayo, contemporâneo de outro Marcelino, este Sautuola, que descobriu no século XIX|as grutas de Altamira, vale a pena visitar a sua biblioteca, no centro da cidade. É uma das bibliotecas mais preciosas de Espanha, embora obviamente a léguas da Biblioteca Joanina de Coimbra.

A comida e a bebida? Óptimas, há diverso marisco e “pescado”, que podem ser acompanhado por um vinho branco de Rueda. E o tempo? No Verão toda a paisagem tem ar condicionado: quando fica demasiado quente, as nuvens vêm tapar o sol e, quando fica demasiado frio, logo o destapam. Chove durante todo o ano, para manter o verde, mas, em Julho e Agosto, as nuvens, entretidas a tapar e a destapar o sol, esquecem-se por vezes de chover.

A Espanha verde existe: venham cá e verão!

Alterações climáticas, acção humana e biodiversidade - II

É normalmente aceite que as alterações climáticas forçam migrações de espécies ou adaptação das restantes ao clima e que quando os habitats se fragmentam a diversidade biológica pode aumentar como aconteceu nas Galápagos.

Mas nem sempre isso acontece, as alterações climáticas podem conduzir à extinção de muitas espécies que não são substituídas por outras. Um exemplo recente está disponível na edição online da PNAS, onde Catherine Badgley, do Museu de Paleontologia e do Departamento de Ecologia e Biologia Evolucionária da Universidade de Michigan, e colaboradores descrevem a catástrofe em termos de diversidade biológica que aconteceu no Miocénico no norte do Paquistão à medida que o clima se alterou e a zona passou de floresta tropical luxuriante a savana.

O artigo «Ecological changes in Miocene mammalian record show impact of prolonged climatic forcing» descreve como o estudo de fósseis de 27 espécies de mamíferos no sítio arqueológico de Siwalik mostrou que as mudanças no clima da região durante milhões de anos ditou extinção da maioria das espécies. O Siwalik é um dos locais arqueológicos mais completo e mais estudado do mundo que ao longo dos seus mais de 3 km de registo fóssil conta a história dos animais que lá viveram entre há 1 a 18 milhões de anos. O novo estudo altera assim o que era normalmente aceite, que mudanças climáticas globais não teriam um impacto tão grande na diversidade de mamíferos já que estes seriam capazes de se adaptar ao novo ambiente ou de migrar para outra área com melhores condições.

De acordo com este estudo, há cerca de 8 milhões de anos, quando eventos tectónicos elevaram os Himalaias e o clima nas regiões mais baixas se tornou parecido com o encontrado actualmente no Corno de África, praticamente todos os mamíferos que dependiam de alimentos fornecidos pela floresta tropical não se conseguiram adaptar e extinguiram-se. O registo da dieta fornecido pelos dentes fósseis indicou ainda que até mesmo alguns dos animais que se alimentavam de gramíneas deixaram de existir. Poucas espécies novas substituíram as que extinguiram, ou seja, as alterações climáticas ditaram uma diminuição drástica da diversidade biológica nesse local.

Mas se as alterações climáticas estão na origem de extinções em massa de espécies, um estudo publicado em meados de Agosto também na PNAS, «Late-surviving megafauna in Tasmania, Australia, implicate human involvement in their extinction», indica que a extinção em massa de animais pré-históricos na terra do TAZ pode ter sido resultado da caça e não de mudanças climáticas como se acreditava.

Até agora pensava-se que a mega fauna da Tasmânia já estaria extinta quando o homem lá chegou, há aproximadamente 43 mil anos, altura em que a ilha estava temporariamente ligada à Austrália por uma ponte de terra. Os cientistas descobriram, através de datação com carbono-14, que os cangurus gigantes sobreviveram na Tasmânia até aproximadamente dois mil anos após os primeiros homens terem habitado a ilha. A descoberta recupera a possibilidade de ter sido o homem o responsável pela extinção da megafauna nesta ilha, possibilidade que aumenta quando se sabe que toda a região da Tasmânia não sofreu uma alteração climática no período em análise.

De facto, como referem os autores, perceber as causas das extinções do passado é crítico para se prevenir as que acontecerão no futuro. O exemplo da Tasmânia poderá ser aplicado a outras regiões do mundo e corroborar a tese destes cientistas: tal como agora, embora por mais factores que não apenas a caça, a acção do Homem pré-histórico foi a principal razão da extinção de animais.

Alterações climáticas, acção humana e biodiversidade

O arquipélago das Galápagos é formado por ilhas vulcânicas que emergiram há mais de 2 milhões de anos. O clima de Galápagos flutua bastante e com estas alterações climáticas altera-se igualmente a quantidade e a variedade dos frutos e sementes que são a a fonte de alimentação dos fringilídeos conhecidos como tentilhões de Darwin.

Charles Darwin, agora um blogger na Nature, tinha apenas 25 anos quando desembarcou no arquipélago de Galápagos no ano da graça de 1835. O cientista passou apenas cinco semanas nas Galápagos e só visitou quatro ilhas: São Cristóvão, Floreana, Isabela e Santiago. Em conversa com os locais — na época viviam nas ilhas algumas centenas de exilados do Equador, então colónia britânica —, foi informado de que era possível identificar a ilha a que as tartarugas pertenciam, apenas pelos cascos. O mesmo acontecia com as iguanas e tentilhões, umas aves de aspecto «sul-americano» que apresentavam uma grande variação em tamanho, forma do bico e hábitos alimentares. Entre esses pássaros existem os que têm bicos que lembram alicates, capazes de esmagar as sementes mais duras, outros comem insectos, outros ainda são vegetarianos e um deles, o tentilhão vampiro, alimenta-se do sangue de aves marinhas.

A obra que revolucionou o mundo, A Origem das espécies, só foi publicada muitos anos depois da expedição do Beagle e da estadia nas Galápagos, em 24 de Novembro de 1859. Apenas cerca de um centésimo do livro se debruça sobre as ilhas o que, conjugado com o pouco tempo que Darwin nelas passou, pode levantar a questão da razão porque o arquipélago é considerado como o principal motivador da teoria da evolução.

Na realidade, as Galápagos foram importantes, em especial os tentilhões e as tartarugas gigantes, mas não determinantes no esboço da teoria da evolução. Darwin percebeu, muito depois da visita, que os bicos dos pássaros que agora têm o seu nome eram adaptados a funções específicas, como a quebra de sementes. Os tentilhões foram assim apenas mais uma das observações que levaram Darwin a concluir que estruturas análogas evoluem para adptação ao meio ambiente.

Mas a importância destes pássaro no estudo da evolução continua nos nossos dias e, mais recentemente, permitiram o testemunho da evolução em tempo real.

Peter e Rosemary Grant, da Universidade de Princeton, EUA, estudam desde 1973 duas espécies de uma pequena ilha das Galápagos, a Daphne Maior. O casal seguiu as populações e certos traços morfológicos do tentilhão terrestre de bico médio (Geospiza fortis) e do tentilhão dos cactos (Geospiza scandens), mais concretamente seguiu ao longo de três décadas as dimensões e tamanho e forma do bico destes pássaros que pesam, em média, 20 gramas.

Os cientistas encontraram uma forte correlação entre essas medidas morfológicas e eventos naturais relacionados com as alterações climáticas referidas no início do post, medindo o impacto nos tentilhões de momentos de seca intensa em 1977-78 ou de chuvas torrenciais - como a provocada pelo El Niño de 1983.

No caso do G. fortis, por exemplo, notou-se que o tamanho médio do bico aumentava nos anos de seca, quando apenas sementes maiores e duras estavam disponíveis. Em tempos mais húmidos, bicos menores eram mais comuns. Mas desde o início do estudo em 1973 até 2006, data em que os seus resultados foram publicados na Science e na Nature, as médias de tamanho do corpo e formato do bico das duas espécies eram «marcadamente diferentes».

O trabalho dos Grant e outros cientistas sobre os tentilhões indica que a sua evolução ocorreu e ocorre em resposta a alterações da sua dieta promovidas por alterações climáticas (para além, claro, das diferenças entre as várias ilhas no que respeita a vegetação e fontes de alimentação).

Sympathy for the Devil - 2

Há quase um ano, escrevi sobre a devil facial tumor disease (DFTD) que ameaçava de extinção o diabo da Tasmânia, o único Sarcophilus sobrevivente e o maior de todos os carnívoros marsupiais. Na altura, referi que os cientistas pensavam que, para debelar a epidemia de proporções catastróficas, seriam necessárias medidas extremas, como matar os animais que apresentassem os estágios iniciais da doença ou criar áreas fechadas com populações saudáveis nas ilhas ao largo da Tasmânia.

Hoje descobri que aparentemente essas medidas poderão não ser necessárias já que os próprios diabos estão a reagir a esta alteração ambiental drástica. Mais concretamente, os diabos lutam contra a extinção com sexo, atingindo a maturidade sexual em metade do tempo «normal».

No artigo «Life-history change in disease-ravaged Tasmanian devil populations», publicado no mês passado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, PNAS, Menna Jones da Universidade da Tasmânia conta-nos como a doença alterou radicalmente os hábitos sexuais dos diabos.

Jones e a sua equipa estudaram os dados existentes sobre reprodução e dinâmica populacional referentes a 5 locais. Antes da DFTD, quando existia uma muito maior proporção de adultos maduros, com mais de 3 anos, as fêmeas começavam a reproduzir-se com dois anos e continuavam por mais três anos, morrendo por volta dos 5-6 anos. Com o aparecimento da doença, a reprodução precoce de fêmeas com 1 ano de idade aumentou dramaticamente em quatro das populações seguidas. Dependendo dos locais, entre 13 e 83% das fêmeas começam a reproduzir-se ainda «adolescentes».

Os tumores afectam principalmente adultos com pelo menos dois anos e os diabos infectados morrem em seis meses. Os até 4 filhotes de cada ninhada vivem 4 meses na bolsa marsupial da mãe e depois são amamentados durante 5 meses pelo que esta reprodução precoce aumenta muito a probabilidade de sobrevivência das ninhadas e, por consequência, da espécie.

Os autores sugerem que menores densidade populacional e competição por comida podem ser as causas da reprodução juvenil. O certo é que embora o destino desta espécie continue incerto, o mecanismo que evoluíram vai pelo menos atrasar a sua extinção.

segunda-feira, 25 de Agosto de 2008

Mentira política

O excelente post da Palmira põe a nu o estado de mentira política em que vivemos, e é este aspecto que vejo nitidamente no caso do aquecimento global e de muitos outros.

Num texto excelente que infelizmente não foi incluído na recente antologia que preparei para a Antígona, Orwell analisa cuidadosamente as razões que tem para pensar que a Terra é redonda. E descobre que não tem assim tantas.

O que está em causa é o problema da divisão social do conhecimento. Ao longo da história, as pessoas, na sua maior parte, nunca souberam praticamente coisa alguma excepto o que é estritamente necessário para a sua vida quotidiana e para alimentar a sua actividade favorita: a mexeriquice. Mas hoje mesmo quem procura conhecer as coisas não pode saber realmente mais do que uma pequeníssima parte; no resto, tem de confiar em especialistas. Isto é maravilhoso, porque exibe a nossa profunda dependência mútua: o conhecimento está socialmente distribuído e eu preciso dos conhecimentos que outros têm, e eles dos meus.

Mas é também politicamente perigoso, pois dá origem a perversões terríveis. Uma dessas perversões é a manipulação da verdade. A publicidade, quase na sua totalidade, certos tipos de marketing, a propaganda e os grupos de pressão mais não fazem do que poluir a cabeça das pessoas com meias verdades, vaguezas, frivolidades e completas mentiras. Neste clima político, tudo é mentira porque tudo é feito em nome de “uma causa”. E isso é assustador. Eu não sei o suficiente sobre clima nem sobre as ciências relevantes para poder avaliar o que se passa no caso do pretenso aquecimento global; tenho de confiar nos especialistas. Mas quando os especialistas estão profundamente politizados, quando pertencem a uma ou a outra “causa”, não posso confiar em qualquer deles.

E o meu caso não é o mais grave, porque tenho uma formação intelectual que me permite distinguir razoavelmente o disparate mistificador do que é plausivelmente verdadeiro. Mas o que dizer da generalidade da população, que não tem uma formação intelectual sofisticada? Que tipo de opinião pode um taxista que tem apenas o 12.º ano sobre o aquecimento global? Leia-se este artigo, por exemplo; eu compreendo a sua maior parte e sou capaz de ver se defende razoavelmente as ideias que defende ou se faz mera manipulação de palavras e dados a fingir-se ciência; mas poderá a maior parte da população fazer este tipo de juízo? Infelizmente, não. E isto é politicamente muito grave, pois é o que permite o género de manipulação que ocorre com a propaganda política, comercial e ideológica.

Precisamos de inverter a irracionalidade da sociedade contemporânea, que é feita de mentiras inventadas para vender produtos: vender o Dalai Lama, vender o conservadorismo religioso, vender banha da cobra pretensamente medicinal, vender o pânico ecológico para dar poder político a algumas pessoas. Mas não sei como é possível inverter este caminho político que começámos a trilhar e que foi previsto por Orwell. Tudo o que posso dizer é que é importante valorizar a objectividade, o estudo cuidadoso das coisas, a honestidade intelectual e humana, a procura imparcial da verdade das coisas, a atenção cuidadosa à realidade — tudo isto por oposição à ideia de que tudo é subjectivo ou intersubjectivo, que a verdade é relativa aos nossos interesses e desejos, que a realidade e a verdade se devem vergar aos nossos interesses políticos, económicos, religiosos, pessoais ou ideológicos.

Não sei como se pode cultivar o amor à verdade e ao estudo imparcial das coisas. Mas sei que ficaremos todos muito pior, e talvez catastroficamente pior, se não o fizermos.

La Fura, política e os fazedores de mitos



Desde o primeiro espectáculo em Lisboa que acompanho o fantástico grupo catalão La Fura dels Baus, que esteve este mês em Portugal com o Naumon. Todos os espectáculos dos La Fura contêm uma mensagem ou uma crítica, por vezes muito apropriada como no caso de um dos espectáculos de que mais gostei, o «OBS» que vi no Passeio Marítimo de Algés em 2001. O Obsesiones del ser humano é uma crítica à sociedade contemporânea do espectáculo, onde a substância da mensagem não interessa mas sim o espectáculo em que é travestida e transmitida. O OBS compara a sociedade actual imbecilizada pela televisão com as sociedades medievais. O enredo sugere que embora os tempos tenham mudado, a barbárie mantém-se, agora mantida não com golpes de espada mas sim golpes de concursos televisivos e propaganda publicitária.

Não consegui ver o espectáculo XXX mas segui a celeuma que criou um pouco por todo o mundo - na Alemanha, por exemplo, o espectáculo foi cancelado por pressão de grupos cristãos. O espectáculo foi inspirado n'«A filosofia de Alcova», a obra do Marquês de Sade que o grupo escolheu para representar a sexualidade do Século XXI:

«Muito antes do nascimento da psicanálise, já a obra de Sade iluminava as orientações mais ocultas do subconsciente humano e libertava-as de toda a prisão moral».

Mark Borkowski, descrito pelo acérbico Jeremy Paxton como «o maior publicitário que conheço», foi o relações públicas escolhido pelos La Fura para divulgar o XXX em Inglaterra. Assim, quando descobri na Amazon que sairia em Agosto o seu livro «The Fame Formula: How Hollywood's Fixers, Fakers and Star Makers Shaped the Publicity Industry», o cartão de visita dos La Fura e o título do livro despertaram a minha curiosidade e resolvi encomendá-lo.

O livro revelou-se inesperadamente uma leitura fascinante. Escrito num estilo leve com laivos de humor tipicamente britânico (algumas partes recordaram-me Tom Sharpe) o autor, que de facto domina a cena publicitária, pelo menos em Inglaterra, conta-nos com alguns detalhes picarescos a história da indústria das relações públicas. Borkowski começa por explicar como os publicitários moldaram a mundo do espectáculo - e por arrasto todo o mundo - desde o vaudeville do século XIX e continua pelos primórdios do cinema mudo até à mega indústria actual.

Mas o livro realmente surpreendente foi o que comprei simultaneamente por sugestão da Amazon, «Alpha Dogs: How Spin Became a Global Business» de James Harding, editor do Times - curiosamente analisados em conjunto pelo Guardian -, que conta basicamente a mesma história mas agora no mundo da política.

No livro figura proeminentemente a Sawyer Miller, inicialmente a D. H. Sawyer & Associates criada por David Sawyer, um aristocrata idealista da Nova Inglaterra. A alteração de nome deu-se devido a Scott Miller, actualmente presidente e fundador do Corey Strategy Group. Como refere logo na introdução o autor:
«This is the story of three drop-outs who changed the world’s politics. They didn’t mean to do it. One had hoped to be an actor; one dreamed of playing American football; the third was a disenchanted spy. They stumbled into the election business because it paid well, because it seemed meaningful, because it was more fun than real work. They had a knack for television, the new medium of politics.»
A Sawyer Miller esteve nos bastidores de todas as campanhas presidenciais norte-americanas desde a eleição de Richard Nixon e rapidamente alargou globalmente os seus serviços. Por exemplo, foi a Sawyer Miller que desenhou a campanha eleitoral de Cory Aquino nas Filipinas. O consultor que acompanhava a caravana da candidata (Mark Malloch Brown, um antigo jornalista que é hoje ministro do governo inglês) viajava no chão do autocarro para que a sua presença não fosse detectada por potenciais eleitores e jornalistas. Mas a Sawyer Miller supervisionou campanhas eleitorais um pouco por todo mundo, na Venezuela, Chile, Panamá, Colômbia, Rússia, Coreia do Sul, Ucrânia, Israel, Perú, etc., como escreve Harding na introdução:
«The men from the Sawyer Miller Group helped Cory Aquino to lead the People Power revolution in the Philippines and advised democrats in Chile on the removal of General Pinochet; they led their clients to victory in Bolivia, Colombia, and Ecuador, as well as to defeat in Greece and Peru; they worked pro bono for Tibet’s Dalai Lama, and they got paid in sweaty bundles of hundred-dollar bills in Nigeria»
E a revelação mais espantosa foi de facto saber que um executivo da Sawyer Miller, que era budista, ofereceu os seus serviços ao Dalai Lama e é o responsável pela sua transformação numa super-estrela a nível global, lançando as bases ao mesmo tempo para a transformação de uma realidade medieval sob domínio teocrático na fantasia romântica de um Tibete que nunca existiu mas que tantos inflamou em vésperas dos Jogos Olímpicos.

De facto, até à sua reincorporação na China, o Tibete não era mais que uma sociedade absolutamente feudal, com uma nobreza minoritária, um clero todo-poderoso e um povo escravizado pelo poder dos mosteiros - mais de 95% da população tibetana era constituída por servos e escravos sem terra e sem liberdade pessoal. O livro «Friendly Feudalism: The Tibet Myth» do historiador e cientista político Michael Parenti é uma leitura que permite de facto avaliar o poder destes «cães alfa» na lavagem da memória colectiva e na criação de mitos sem a mais remota semelhança com a realidade.

Os primeiros rapazes nos bastidores da Sawyer Mills eram idealistas que ajudaram a derrubar ditadores um pouco por todo o mundo. Estes pioneiros spin doctors políticos acreditavam que o poder dos mass media seria benéfico para a política e para a democracia mas, como refere Harding, acreditavam igualmente que a televisão seria o caminho para uma «democracia rejuvenescida, mais verdadeira e mais saudável». E será que num mundo em que, por exemplo, os Tories vão pagar ao spin doctor mais do dobro do que pagam ao seu líder político, ainda há política ou existirão apenas obsessões fureras?

ANTÓNIO GIÃO, UM EREMITA CIENTÍFICO

Aguçando o apetite para o próximo número da "Gazeta de Física", que está quase a sair, sob a batuta competente da Teresa Penha, deixo aqui a minha crónica nessa revista da Sociedade Portuguesa de Física (na foto a casa de Gião em Reguengos de Monsaraz):


Em 16 de Janeiro de 1946 chegava ao gabinete de Albert Einstein na Universidade de Princeton, uma carta de Reguengos de Monsaraz. Assinava-a António Gião, um físico aí nascido e nela era proposta uma teoria das forças fundamentais, um assunto que nessa altura ocupava a mente do sábio exilado.

Qual não foi o contentamento de Gião quando, quase na volta do correio, chegava à sua casa de Reguengos uma simpática resposta de Einstein. O autor da teoria da relatividade apresentava alguns cálculos, que exprimiam algumas dificuldades técnicas da proposta do alentejano. Gião replicou com júbilo: parecia um adolescente que obtém resposta de uma “rockstar”! Essa correspondência encontra-se hoje no Arquivo Einstein, na Universidade Hebraica de Jerusalém.

Gião (1906-1969) tinha feito estudos secundários em Évora e, em parte, estudos superiores na Universidade de Coimbra. Foi depois para Estrasburgo, onde se formou em Engenharia Geofísica e Física (Meteorologia), e a seguir para Bergen e Paris. Passou a primeira metade da sua vida científica no estrangeiro. No total, publicou mais de 150 artigos, muitos deles nas melhores revistas como a Physical Review, os Comptes Rendus (apresentados por Louis de Broglie), o Journal de Physique, etc. Foi, salvo erro, o primeiro português a publicar na Nature (uma carta em 1926, tinha ele 20 anos, sobre a posição das nuvens). Atingiu, por isso, notoriedade internacional suficiente para receber não só um convite para professor no MIT como até um convite para uma expedição internacional de voo sobre o pólo Norte em 1928. Felizmente recusou este último, pois a viagem de dirigível, capitaneado pelo italiano Umberto Nobile, acabou em tragédia. Regressado a Portugal, passou a interessar-se cada vez mais pela física de partículas e cosmologia. Publicou na Portugaliae Physica, a revista criada em 1943 (Gião escreveu um artigo sobre meteorologia e outro sobre teoria quântica relativista, no 2º volume), Portugaliae Mathematica, Técnica (revista dos estudantes do IST), etc.

Mas Gião foi um físico isolado, um eremita, sendo Reguengos a sua choupana. Publicou quase sempre sozinho. Foi visto como um nefelibata, para usar uma imagem da sua área de trabalho inicial. Mesmo quando foi nomeado professor catedrático da Universidade de Lisboa, não conseguiu fazer discípulos. Tinha um feitio difícil, dizia uns. Tinha ideias demasiado exóticas (como a dos “microelectrões”), diziam outros ou os mesmos, pelo que não admira que hoje seja citado em sítios de pseudociência... Tinha tiradas filosófico-poéticas: em 1967 numa conferência em Évora dizia que o Universo é o manto pelo qual o Ser se protege do Nada. O certo é que não deixou descendentes científicos. Ainda assim, como director do Centro de Cálculo da Fundação Gulbenkian, organizou em 1963 um encontro de cosmologia em Lisboa, com a presença do alemão Pascual Jordan (um dos criadores da mecânica quântica, muito prejudicado pelas suas ideias nazis) e do inglês Hermann Bondi (astrofísico de origem judaica e grande humanista que defendeu a teoria do estado estacionário em oposição à do Big Bang).

Gião representa bem a tragédia que foi a ciência nacional na primeira parte do século XX. Mesmo aqueles que se estrangeiraram, bebendo água das melhores fontes, não conseguiram fertilizar um terreno que, entre nós, estava tão seco como o Alentejo no pico do estio.

A génese das actuais ordens profissionais


O nosso habitual colaborador Rui Baptista volta ao tema, que sabemos polémico, da Ordem dos Professores:

“Entre a ordem e a sua execução há um abismo” (Ludwig Wittgenstein)

No meu post de 3 de Agosto passado A (Des)Ordem dos Professores apresentei razões para discordar do facto de o exercício da função docente não satisfazer os princípios que devem presidir ao conceito de profissão liberal, ainda que stricto sensu.

Acresce que sempre que surge a polémica a propósito da criação de uma futura Ordem dos Professores, surge, também, invariavelmente o argumento de que esta forma de organização profissional enferma de cumplicidade com o regime político deposto em 25 de Abril de que colho, como exemplo, um artigo de opinião do Professor Vital Moreira onde escreveu que as ordens profissionais “têm proliferado no nosso país apesar de terem a sua origem no sistema corporativista do Estado Novo” (“Público”, 5 de Julho de 2005). Ainda nesse jornal, em 22 de Julho desse ano, chamei a atenção para a evidência de “a Ordem dos Advogados ser anterior à Constituição Portuguesa de 33 que estabeleceu o regime corporativo no nosso país”. Escassos dias depois (26 de Julho), acrescentou Vital Moreira, no mesmo periódico, que “a Ordem dos Advogados foi criada num dos primeiros governos da Ditadura que precedeu e preparou o Estado Novo, sendo depois integrada na organização corporativa juntamente com as demais criadas”.

Em face desta dualidade de posições sobre a génese das ordens profissionais portuguesas, escoro-me nos seguintes argumentos:

1.º - A Ordem dos Advogados foi criada sete anos antes da implantação do Estado Novo, através do Decreto n.º 11.715/26, de 12 de Junho (site da Ordem dos Advogados: ‘Resumo histórico da Ordem dos Advogados’).

2.º - As Ordens dos Advogados, dos Médicos e dos Engenheiros ‘foram depois representadas, pelo decreto-lei 24.083, de 27.XI.1934, na Organização da Câmara Corporativa, representação que só a Ordem dos Advogados repudiou por considerar deprimente, da sua corporação, a subordinação’ (Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, 1936-1960, vol. XIX, p. 557).

3.º - Ainda na referida enciclopédia, é aditado que ‘todas as três ordens funcionam, mas somente a dos Advogados continua excluída da Câmara Corporativa’”.

Apesar da proliferação a que se assiste hoje de ordens profissionais (e de outras na forja), ainda persiste a ideia de que todas as anteriores a 25 de Abril foram geradas no ventre licencioso do Estado Novo. Esta como que uma espécie de ultima ratio a que se agarram em desespero de causa os sindicalistas que se arrepiam só em ouvir falar da criação de uma Ordem dos Professores como instituição dignificante do exercício docente e reforço de garantias de um ensino em mãos de profissionais com as devidas habilitaçõs académicas e com responsabilidades arroladas num código deontológico próprio que lhes defina os deveres profissionais e sancione o seu eventual não cumprimento.

Em período de intensa e prolongada agitação laboral e tensão social desgastante, em que se contam espingardas sindicais e se estabelecem acordos ocasionais que fariam corar de vergonha o próprio Fausto, assumem-se publicamente como opositores à criação de uma Ordem dos Professores algumas organizações sindicais com destaque para a Fenprof e para a Federação Nacional do Ensino.

Com excepção das acções em prol de uma Ordem dos Professores a cargo do Sindicato Nacional dos Professores Licenciados e da Associação Nacional de Professores (esta última uma organização profissional não sindical, como ela própria se define), o desacordo, ou mesmo o receio, das estruturas sindicais em relação à criação dessa associação pública, é tanto mais desmedido por a Constituição Portuguesa, no seu artigo 267, n.º 4, estabelecer expressamente que “as associações públicas só podem ser constituídas para a satisfação de necessidades específicas, não podem exercer funções próprias das associações sindicais e têm organização interna baseada no respeito dos direitos dos seus membros e na formação democrática dos seus órgãos”. Ou seja, nunca a César o que não é de César!