domingo, 25 de março de 2007

O CORAÇÃO É UMA BOMBA

Conta a lenda que o jovem Galileu descobriu as leis do pêndulo medindo o tempo das oscilações de um candeeiro na catedral de Pisa. Não existiam nessa altura relógios, pelo que o grande sábio terá usado o seu próprio pulso para medir o tempo. Não sabemos o que mais admirar: se a descoberta em si mesma ou a impassividade do descobridor, a quem a excitação aparentemente não aumentou o ritmo cardíaco.

Foi o princípio da Revolução Científica, onde a Física teve o maior relevo. Mas a Medicina experimentou também por essa altura um grande salto. Uma descoberta fundamental foi a da função do coração: o coração é uma bomba, um dispositivo mecânico que recebe sangue das veias e o envia para as artérias. O mérito dessa descoberta coube a um contemporâneo de Galileu – o médico inglês William Harvey. E o método foi o mesmo de Galileu – o método experimental.

Se Galileu tinha observado a oscilação de um grande candeeiro, Harvey observou, com a ajuda de um instrumento, os pequenos corações pulsantes de insectos. No seu tratado em latim De motu cordis (Sobre o movimento do coração), publicado em 1628, Harvey escreve que em insectos, como moscas, "conseguimos perceber algo que pulsa com o auxílio de uma lente". Para Harvey tratou-se de uma confirmação da hipótese, que já alimentava, de que o coração dos animais, qualquer que fosse o seu tamanho, funcionava como uma bomba hidráulica. O coração fazia ao sangue o mesmo que uma bomba fazia à água. Tanto fazia ser o coração de um insecto como de um mamífero. Tanto fazia ser a mosca como o homem.

Mas, no método experimental, não basta observar: é preciso experimentar. O médico inglês testou a sua hipótese sobre a circulação do sangue ao dissecar um grande número de animais de coutada real inglesa, colocada à sua disposição pelo rei (primeiro James I e depois o seu filho Charles I). Experimentou também a vivissecção (dissecação não de um animal morto mas, horror!, de um animal vivo). E, finalmente, autopsiou humanos.

Um notável contemporâneo de Galileu e de Harvey foi o inglês Francis Bacon. Ao contrário de Galileu e de Harvey, que foram cientistas, Bacon foi um teórico da ciência. É ele o autor de uma frase que ficou famosa: "Saber é poder". E é ele também o autor do primeiro conto de ficção científica, A Nova Atlântida, onde relata uma ilha utópica que é palco de uma actividade científico-técnica bem organizada. Nesse livro relata-se a manutenção de todo o tipo de animais, usados para dissecações e ensaios, a "fim de que se possa fazer luz o que se passa no corpo do homem". É curioso referir que o médico de Bacon foi precisamente Harvey. Harvey não só sabia como podia!

Em 1616 William Harvey tinha anunciado ao Real Colégio dos Médicos Ingleses a sua teoria da circulação do sangue (o funcionamento do coração e dos vasos sanguíneos permaneceu secreto durante tanto tempo devido à interdição da dissecação de cadáveres). E, em 1628, Harvey escreveu numa nota ao Presidente do Real Colégio dos Médicos, que surgiu em prefácio a De Motu Cordis: "Pretendo aprender e ensinar anatomia não a partir dos livros mas sim de dissecações". Com as vivisecções, a ligação do sangue com os pulmões e a respiração foi progressivamente apreendida (se na época houvesse sociedades protectores dos animais, elas teriam protestado!). As dissecações de seres humanos passaram a ser uma fonte de ciência (a palavra "autópsia" significa literalmente "ver por si próprio"). Como "saber é poder" era necessário saber o interior dos mortos para poder tratar dos vivos. Em animais ou no homem é o pulsar do coração, perceptível no pulso, que faz o sangue ir não só de um aurículo para um ventrículo como chegar aos pulmões e a todo o corpo. A questão é óbvia: o que acontece ao coração se o animal (seria, claro, inumano utilizar o homem) for progressivamente privado de ar?

Para tirar o ar era preciso uma bomba não de água mas de ar. Pois foi por essa mesma altura, com base na descoberta de que o coração era uma bomba e na necessidade de saber a relação entre os pulmões e o coração, que foi inventada a bomba pneumática (bomba de ar). O mérito do invento coube a dois Roberts, os ingleses Robert Boyle e Robert Hooke. Estes dois sócios da Royal Society realizaram perante os seus colegas uma experiência crucial na qual uma cobra e um frango foram colocados em recipientes de vidro de onde lentamente se extraiu o ar com uma bomba pneumática. O réptil ficou muito perturbado, mas não morreu, ao passo que a ave morreu convulsivamente. Já se sabia que um era animal de sangue frio e o outro um animal de sangue quente. Mas ficou a saber-se que o ar parecia ser mais importante para a ave do que para o réptil. O coração é uma bomba e com outra bomba o coração podia deixar de funcionar.

As experiências evoluíram para o cão e outros animais. Com inúmeras observações e experiências, a teoria da circulação do sangue, proposta por Harvey, foi ganhando pouco a pouco credibilidade...

15 comentários:

  1. Eu também gosto muito das brincadeiras e fantasias do Bacon mas a Ciência moderna não nasceu com ele. Nasceu com o Copérnico, com Clávio, com Tycho Brahe, com Vesálio que eram... imagine-se... crentes! padres!

    O Francis Bacon era um mago, na continuação do neo-platonismo mas a contribuição dele para a Ciência não conta praticamente nada. Era um retórico. Esta sobrevalorizadíssimo à custa de uma série de confusões entre a mística da alquimia e o suposto materialismo.

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  2. Carlos, fiquei curioso: "o ar parecia ser mais importante para a ave do que para o réptil". Porquê?

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  3. Ainda mais, falando em coração e circulação do sangue, quem a descobriu foi esse padre obscurantista do Andrés Vesalio. Que, por acaso, também era um excelente desenhador, talento que o ajudou a divulgar os estudos.

    Foi pena o texto ter-se esquecido dele. E das suas geniais ilustrações.

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  4. Zazie, Galileu era um homem profundamente religioso. Eu diria mesmo que era mais genuinamente religioso do que o papa e as bestas do Santo Ofício que o condenaram. Aliás, grande parte dos mais importantes cientistas de sempre eram pessoas religiosas.

    Bacon foi muito importante para a filosofia da ciência, porque foi o primeiro a tentar sistematizar as regras do pensamento indutivo. E fê-lo de forma suficientemente brilhante para ainda hoje ser uma leitura que recomendo a quem quiser compreender melhor alguns princípios fundamentais da inferência indutiva.

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  5. Não penso isso e por acaso já andei com o Bacon às voltas por outros motivos.
    Mas, o que costuma ser sintomático é essa mania, quase um tique, de se citar o Bacon e de se esquecerem os grandes teóricos. Tive debates com a Palmira (há bastante tempo) e a tendência era sempre essa. Há uma "escola" positivista que anda há séculos a fazer passar a ideia do materialismo pré-socrático de um Heraclito (com intepretações bacocas do fogo e do logos) e depois, seguem o rumo e teimam em fazer uma distinção errónea entre o saber da ortodoxia medieval (que até foi bem mais profunda que a renascentista) e os “opositores” ateus. O que é o maior dos disparates. Daqui, deste erro, é que fazem a transição da mística das simpatias entre macrocosmo e microcosmo com o método científico moderno- o que é outro erro.

    Basta ir a um portal dos Ateus e ler esses disparates- a lógica é apenas esta- se for opositor da Igreja ou teve desvios para coisas proibidas- foi científico; se foi da igreja foi obscurantista.

    Porque a Inquisição tem muito que se lhe diga e, principalmente, muito mais particularidades de crentes que fugiam à ortodoxia. Colocando em causa o seu poder, do que desvios da própria crença. Se conhece o Pomponazzi (imagino que sim) sabe como ele brincava com a Inquisição e dizia que no lume só as castanhas. Ele nunca iria lá parar.

    Por outro lado, as tais bestas, que valia a pena entender eram quem? Apenas os religiosos? Como se a barbárie tivesse nascido com o Cristianismo e o resto da população fosse pacífica. É claro que o fanatismo dá sempre uma enorme ajuda. E a maior passou-se com o destaque dado ao “homem” acima do resto da Criação- coisa que não acontecia nos primeiros tempos. Mas esse foi também o caminho da Razão. Quando mataram Deus e o trocaram pelo Deus da Razão e vieram as barbáries racionais, já o homem tinha sido elevado ao divino- pela divinização do próprio pensamento.

    Por isso é que ontem tentei desafiá-lo acerca do móbil deste blogue. Mas fico satisfeita por agora me retorquir. Se bem que, seja verdade, que quem tinha que me apagar era o postador e não v.

    De qualquer forma ninguém muda ninguém com essa idade eehhe Por isso é que achei de uma certa ingenuidade, uma série de “científicos” reunirem-se na blogosfera para combaterem o obscurantismo religioso e a magia popular.

    Ehehe Mas esse é precisamente o aspecto de necessidade de causa e de salvação do próximo que o proselitismo religioso também faz. Quando não é assim é combate tribal. E aí, meu caro, vs. já têm a cartada perdida .Por todos os motivos. Não acabam com a religião à custa da Ciência- podem é dar uma imagem facciosa desta, quando precisamente se propõe ser livres dessas grilhetas do pensamento.

    Por outro lado, tudo está inscrito na História e, se a memória da Inquisição ainda vende, como vende a do Holocausto. Basta ser-se um pouco mais pragmático e notar que, nos tempos mais recentes, nem no intervencionismo mundial as vítimas são essas, nem na história das perseguições os algozes são os religiosos. Pelo contrário- as últimas grandes barbáries da humanidade também vieram com por bem. Para nos libertarem dessa memória religiosa- e foi com o ateísmo mais fanático que os se concretizaram as utopias. Por cá, felizmente, apenas em menor escala com aquelas medições cranianas aos jesuítas e a ajuda da Inquisição e depois com a boa barbárie jacobina.

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  6. errata: vieram com a Razão e outras gralhas. Foi escrito à pressa.

    Se não me apagarem, aproveito a mandar uma beijoca ao Rui Martinho. Ontém, por causa da censura, nem reparei que era ele.

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  7. Olá, Zazie

    Eu acho tão errado pôr os horrores todos da humanidade à porta da religião como pô-los à porta da ciência, como você parece pretender. Os horrores da humanidade pertencem todos ao obscurantismo e à estupidez, e ninguém tem o monopólio deles.

    Promover a ciência, o ensino de qualidade e a filosofia é o objectivo deste blog.

    Os comentários sem articulação de ideias nem conteúdo informativo são apagados porque afastam as pessoas que estariam de outro modo dispostas a trocar ideias de forma séria. O tu-cá-tu-lá de meia dúzia de pessoas que andam há anos a trocar insultos nas caixas de comentários dos blogs alheios não nos interessa aqui. Queremos promover uma discussão de qualidade, baseada no estudo e na reflexão, e com civilidade.

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  8. Não, eu nunca disse nada que se assemelhasse a isso. Se leu o post que eu linkei do Dragão (e que assino por baixo) nós não falamos em Ciência no sentido prático- da matemática ou da física que se faz ou dos saberes- falamos na Ciência enquanto construção racional que se auto-divinizou.

    Porque, a Ciência é apenas mais uma forma de falar do mundo. E até muito mais limitada em termos das grandes questões humanas, filosóficas e espirituais. Acreditar no contrário e achar que a Ciência tem resposta melhor, em termos humanos para as pessoas, é que é um erro.

    Porque, nem a Ciência é ateísmo- e aqui a confusão é dos ateus científicos do blogue, não dos cientistas em geral, nem consegue ir mais longe como património da humanidade.

    Além do mais eu não só não tenho qualquer formação religiosa (sou apenas baptizada) como até sempre tive um enorme fascínio por tudo o que se afasta do quotidiano- do mundo dos pronomes pessoais- porque o saber científico é abstracto.
    Agora a Ciência não diz muito mais à nossa condição.

    Que é que v. ganha em interiorizar que descende do macaco? torna-se mais sábio, torna-se melhor pessoa à custa disso?

    A Ciência é apenas um complemento da actividade humana. E ficar sob a sua alçada contra a alçada da Divindade nunca trouxe benefícios á humanidade.

    Basta raspar um pouco e temos a fera cá dentro...
    Se essa fera nem espiritualidade tem, então está mais solta para se divinizar e se tornar déspota do próximo.

    E para regredir tudo aquilo que a levou a afastar-se dessa animalidade primária.

    .......

    De qualquer forma, eu até acompanhei o Conta Natura que era um blogue excelente e até cheguei a mandar para lá um "postito".

    mas o Conta Natura não era um blogue de militância ateia. E v.s nitidamente que o são.

    Ainda que não conhecça todos (a si já conhecia de escritos) conhecia a Palmira que é um exemplo acabado da possibilidade da existência de um ateísmo místico.

    Nada contra, atenção, eu até gosto muito dos místicos do deserto. o problema é estar convencida que o não é e a combater a simples crença mansa e pacífica, chamando-a manifestação de estupidez.

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  9. Quanto ao tu-cá-tu-lá é trato normal no mundo virtual onde o que conta são as ideias e não o status. Para fazer valer as ideias à custa do satus já existe o mundo a 3D.

    E, no que toca aos insultos troll, nãp hão-de ter sido os meus. Não insultei ninguém, apareci bem tarde e isto ja´estava cheio de insulto baixo das ritas-joanas e quejandos do Diário Ateísta.

    Era impossivel demarcarem-se. Bastava ver quem veio atrás. E não se esforçaram por demarcar porque embarcaram em postes primários e caceteiros.

    Aliás, já tinha havido gente a fazer-vos crítica idêntica. E um deles até é "científico", brilhantemente inteligente (em estado puro) e ateu- o maradona.

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  10. Desidério;
    Os animais de sangue quente (em
    linguagem técnica chama-se "endotermia"), como as aves e os mamíferos, geram calor internamente. As suas taxas de
    metabolismo são cerca de 20 vezes superiores às dos animais de sangue
    frio, como os répteis, que procuram
    beneficiar do calor do ambiente.
    Isto faz com que a ventilação dos
    pulmões e o consumo de oxigénio
    sejam muito mais elevados.

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  11. Bom, só para concluir, tem aí uma afirmação que não entendo: “Os horrores da humanidade pertencem todos ao obscurantismo e à estupidez, e ninguém tem o monopólio deles.”

    Esta é a sua conclusão sobre os horrores da humanidade? Que se devem à estupidez e ao “obscurantismo”?

    É estranho, porque, mesmo factualmente, os grandes horrores sempre precisaram de inteligência, de poder e de capacidade bélica que não se cria com “obscurantismo” nem é feita por pobres de espírito.

    Aliás, essa palavra “obscurantismo” já entrou na novilíngua. É assim a modos que as homofobias e quejandos, serve de arma de arremesso e catalogação do inimigo mas não diz nada. Se conseguir traduzir-me por outra talvez atinja a ideia.

    Entretanto, mesmo sem tradução e apenas pelo exemplo da História, recordo-lhe os grandes massacres e as guerras mais ferozes. Devemos dizer que o contributo do Von Braun na bomba atómica e os estragos dela foram fruto de falta de inteligência? Ou de mero obscurantismo? Ou deixa de ser barbárie se for feita com bomba inteligente?

    Porque, se é para chegar à conclusão que a barbárie tem sempre resultados imbecis, isso é palissada. Já se sabe que sim, mas então não há diferença entre ser feita com alta inteligência ou com mera estupidez (a murro, por exemplo).

    Quanto ao dito obscurantismo, se pretende ser uma espécie de categoria ideológica, também se fica sem perceber se o Gulag ou os grandes crimes do comunismo ateu ou dos extermínios da razão libertadora do imperialismo francês também foram feitos em nome do tal “obscurantismo”. Pois, na verdade, ideologicamente até se afirmaram como libertadores das trevas.

    Para terminar- penso que a inteligência apenas potencia a natureza do homem.
    Não tem bondade por si própria.

    A bestialidade está cá dentro, em nós, o erro dessa constatação deve-se apenas a visões feitas do alto- daqueles que julgam de cima. Porque é preciso descer e vir bem cá abaixo onde rasteja a nossa animalidade para a poder humanizar.

    É trabalho de humildade- de reconhecimento implícito dessa bestialidade que da qual não escapam os génios nem os “puros”. Pelo contrário, quando um génio se esquece deste lado terreno está em condições para em nome de um ideal qualquer ainda provocar maior barbárie.

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  12. Obrigado, Carlos. Não me ocorreu que o metabolismo dos animais de sangue quente implicasse maior consumo de oxigénio!

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  13. Cara Zazie
    Mesmo quando não concordo consigo,
    é um gosto lê-la!

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  14. PS) Esqueci-me de dizer. Eu também
    acho os excelentes os desenhos de
    Vesalius. Poderei vir a escrever sobre ele. Galileu, quando estudou
    Medicina, pode ter usado
    o fantástico livro dele. Já agora: Galileu nunca acabou esse curso e é um caso raro de um drop out de uma escola que acaba em
    professor dela.

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  15. Bom dia gostaria que fosse ao blogue

    osfundadores.blogspot.com

    e se encontrasse erros os corrigisse
    obrigado

    A.A.

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