sexta-feira, 30 de março de 2007

Lafforgue, ou o aquecimento global do eduquês


Dizia o Eça que “Portugal é um país que copia tudo, até as formas das botas”. Para quem ainda não percebeu que os problemas da Educação em Portugal, em particular os que o Desidério descreve, provêm da importação serôdia de modas patetas que finalmente estão a ser expostas pelo que são – um atentado -, vale a pena considerar o que se passou há pouco mais de um ano em França.

Laurent Lafforgue é um dos maiores matemáticos de hoje. Trabalha no mundialmente famoso IHÉS (Institut des Hautes Études Scientifiques) e é um dos galardoados com a maior distinção mundial na área da Matemática, a medalha Fields.

Na sequência do seu envolvimento em questões ligadas à educação, Lafforgue foi convidado em 2005 a integrar o Conselho Superior de Educação criado em 8 de Novembro de 2005 e que reuniu pela primeira vez a 17 de Novembro de 2005. No dia seguinte o seu presidente, Bruno Racine, exige a demissão de Laurent Lafforgue. Porquê?

A 16 de Novembro, véspera da reunião, Lafforgue tinha escrito um longo email confidencial a Racine, com cópia para os restantes membros do Conselho. Nesse email fazia o seu diagnóstico sobre as razões do estado catastrófico do sistema educativo francês. Na reunião, Racine diz a Lafforgue que esse email (que era um documento de trabalho confidencial) “se tinha difundido rapidamente fora do Conselho Superior de Educação e provocava já escândalo no Ministério da Educação Nacional”. Não lhe resta assim outra solução, “infelizmente” (introduzir aqui um esgar de cinismo), a não ser pedir a demissão de Lafforgue.

Ou seja: alguém, convenientemente sem cara, achou boa ideia promover uma fuga de informação de um documento confidencial para fazer rolar a cabeça de um especialista brilhante, incómodo, com ideias perigosamente diferentes, que poderiam pôr os dedos nas feridas do eduquês e, quem sabe, ser mesmo bem acolhidas. Parece uma purga estalinista. Mas os tempos são outros, e Lafforgue não foi para a Sibéria: publicou todos os documentos, incluindo o email que deveria ter permanecido confidencial (e se não ficou, não foi por ele!) na sua página Web. Recomendo o mais vivamente a consulta deste e dos outros documentos por ele disponibilizados.

Lafforgue diz no mail que a ordem de trabalhos da referida reunião o mergulha no desespero. De facto, “apelar aos especialistas da educação nacional: inspecções gerais e direcções da administração central, em particular direcção da avaliação e de prospectiva e direcção do ensino escolar” é, diz ele, exactamente como se se formasse um “Conselho Superior para os Direitos do Homem” e se apelasse aos Khmers Vermelhos para constituir um grupo de especialistas para a promoção dos direitos humanos. Não é simpático, mas ele não foi convidado para a Comissão pelos seu lindo sorriso e cabelo loiro.


Lafforgue reconhece que este movimento de degradação educativa é muito generalizado, fazendo-se sempre em nome do “progresso” e da “modernização”. Existem contudo excepções: países que não se deixaram contaminar pela ideologia dominante, como Singapura. Curiosamente, ou talvez não, Singapura aparece há dez anos em primeiro lugar nos estudos comparativos internacionais de desempenho escolar TIMMS e PISA.

E termina recomendando páginas Web de instituições em quem confia na descrição dos problemas da Educação em França, como o GRIP, Sauver Les Lettres (SLL), e a Association des Professeurs de Lettres (APL). Valem bem uma visita. Finalmente, recomenda a página pessoal de Michel Delord, “simples professor de matemática do secundário mas com um conhecimento impressionante da história do nosso sistema educativo”. A página de Delord tem como dedicatória “Página dedicada a pais que se inquietaram por as suas crianças não saberem fazer uma divisão no Ensino Secundário e a quem foi respondido: “Os senhores são uns retrógrados”. Alguém se reconhece nisto? Eu sim.

O caso Lafforgue foi convenientemente ignorado pelos media portugueses. Mas o que Lafforgue descreve podia ser a nossa situação. Falta traduzir o aquecimento global do eduquês para Portugal. Temos, na minha estimativa, 20 anos de atraso. Mas as botas são importadas.

Prometo que vou dedicar um capítulo do meu próximo livro ao caso Lafforgue.


6 comentários:

  1. Caro Doutor Jorge Buescu:

    A página pessoal de Michel Delord, indicada no post, não abre...

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  2. Obrigado! De facto enganei-me no endereço. Vou corrigir.

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  3. Muito obrigado por ter divulgado o site e o trabalho deste investigador. Ainda não tive oportunidade de ler os textos, mas certamente serão muito interessantes.

    Só era preciso que mais pessoas em Portugal se preocupassem em divulgar opiniões inteligentes, em vez de repetir os mesmos slogans gastos até à exaustão.

    Muito Obrigado.
    Gentilmente,
    José Oliveira
    Tomat

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  4. Uma tradução para português de diversos textos de Lafforgue sobre este assunto sera brevemente publicada pela Gradiva, sob o título «O eduquês: Uma praga europeia».

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  5. Já é tempo de dizer "o rei vai nu". Mesmo aqui na blogosfera me tenho cruzado com muita gente da área das humanísticas que acha que aquilo que eles chamam de ciências pedagógicas actuais, estão muito bem e no bom caminho. Tenho participado em grandes discussões e grandes zangas.
    Ainda ontem éramos 5 ao almoço, foi preciso dividir a conta e uma das pessoas pagaria o almoço de 3. Dificílimo!!! Estava lá uma menina, excelente aluna, com notas de à volta dos 17, que está este ano a repetir algumas cadeiras do 12º ano para melhorar a média para entrar em biologia e que não sabia fazer as contas, pois não sabe a tabuada. E é uma excelente aluna! Ela não tem culpa. Isso não lhe foi exigido.
    Agora, as modernas técnicas pedagógicas consideram retrógado obrigar as criancinhas a decorar seja o que for. A mãe da minha sobrinha telefonou-me há dias a perguntar se eu, como prof. de matemática, conhecia alguma maneira engraçada e divertida de aprender a tabuada, pois tinha verificado que a filha não a sabia. Claro que eu não conheço métodos desses. Há obstáculos que só se ultrapassam com algum esforço. E é esse esforço que nos faz crescer. É um erro querer tornar tudo "simples" e de digestão imediata, tipo "fast-food" do ensino. Ao retirar as demonstrações dos teoremas e sem aprofundar o porquê das coisas, torna-se tudo muito mais pobre e desinteressante. Gosta-se da matemática quando se percebe como funciona. Pobres alunos actuais!

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