sexta-feira, 23 de março de 2007

Ameaça criacionista na Europa - II

A Liga das Famílias Polacas (Liga Polskich Rodzin ou LPR) é um partido político ultra-nacionalista criado na Polónia por Roman Giertych - que se tinha destacado, pela negativa, por ter reactivado em 1989 a All-Polish Youth - em vésperas das eleições de 2001, em que ganhou 8% dos votos. Nas eleições europeias de 2004 o LPR recolheu 16% dos votos, sendo o 2º partido mais votado nessa eleição. O pai de Roman, Maciej foi eleito eurodeputado. Nas eleições de 2005, o LPR voltou a merecer a escolha de 8% do eleitorado polaco e em 5 de Maio de 2006 este partido passou a integrar a coligação governamental. Roman Giertych foi nessa data nomeado ministro da Educação e vice primeiro ministro.

A nomeação de Roman Giertych como ministro da Educação foi muito contestada na Polónia, e os dias seguintes à sua nomeação viram milhares de polacos nas ruas protestando a sua nomeação. Umas semanas depois, uma petição com cerca de 140 000 assinaturas pedia a sua remoção do cargo, não obstante Giertych ter prometido não introduzir as suas crenças no sistema educacional polaco. Claro que a promessa foi sol de pouca dura e uns escassos meses depois o ministério da Educação polaco iniciou as hostilidades contra o evolucionismo com a afirmação por parte de Miroslaw Orzechowski, vice-ministro da Educação, que o evolucionismo é uma mentira, «uma história de carácter literário que poderia servir de guião a um filme de ficção científica».

A tentativa de introdução do criacionismo nos curricula científicos polacos era apenas expectável já que o pai de Roman, o eurodeputado Maciej Giertych, é um dos mais vocais criacionistas europeus. Maciej, um botânico que contribui para o site humorístico que dá pelo nome Answers in Genesis, debita pérolas como «A evolução não é uma conclusão retirada de observações. É uma ideologia [do Demo]» que urge combater, como explica na introdução do livro «Creation Rediscovered», de Gerard J. Keane, «para salvar o cristianismo».

Em 11 de Outubro de 2006, o Parlamento Europeu foi palco de uma acontecimento insólito, um seminário público em defesa e promoção do criacionismo organizado por Maciej, que pede a remoção do evolucionismo dos livros de texto europeus. Uns dias depois, o Kolbe Center for the Study of Creation, William Demski, um dos pais da IDiotia, e o grupo criacionista britânico Truth in Science, entre outros, publicitaram com grandes alardes triunfalistas o evento.

Maciej Giertych, que acredita piamente não só que o Neanderthal anda no meio de nós como terem os dinossauros e o homem coexistido, aproveitou a publicidade grátis de um evento aparentemente patrocinado pelo Parlamento Europeu para escrever uma carta à Nature (Creationism, evolution: nothing has been proved Nature 444, 265; 2006), que não obstante ter sido imediatamente contestada, deu mais publicidade à guerra criacionista.

A guerra criacionista está igualmente acesa em Inglaterra, em que uma restruturação do curriculum de biologia, pela então ministra da Educação Ruth Kelly, encoraja as escolas a apresentar versões alternativas à evolução para, falsamente, indicar aos alunos que há controvérsia «científica» sobre o tema.

Na altura, a alteração curricular mereceu as críticas da OCR e de muitos cientistas, por exemplo James Williams, da Universidade de Sussex, que afirmou o que todos notaram: «Isto abre uma porta legítima para a inclusão do criacionismo ou do desenho inteligente nas aulas de ciências como se fossem teorias legítimas a par do facto da evolução e das teorias [que a explicam]». Continuando, «Acho bem que teorias religiosas [criacionismo e desenho inteligente] sejam consideradas em educação religiosa mas não em ciência, onde considerá-las pode conduzir a uma falsa confirmação do seu estatuto como iguais a teorias científicas». Tony Blair respondeu às preocupações dos cientistas dizendo que estes deviam ocupar-se com temas mais importantes, como sejam o aquecimento global ou organismos geneticamente modificados, e não com o «inocente» criacionismo...

Também a ministra holandesa da Educação, Cultura e Ciência, Maria Van der Hoeven, tentou em 2005 introduzir o criacionismo versão desenho inteligente nos curricula escolares. Felizmente os seus colegas de partido rejeitaram completamente a ideia!

Silvio Berlusconi, mais concretamente a sua ministra da Educação, Letizia Moratti, retirou o evolucionismo dos curricula escolares e só cedeu à sua reintrodução após uma semana de protestos massivos. Na Sérvia, sob os auspícios da ministra da Educação Ljiljana Colic, o ensino da evolução esteve suspenso por uma semana por uma determinação ministerial que apenas o permitia se em paralelo fosse ensinado o criacionismo.

Espero ter convencido os mais cépticos que o criacionismo, em qualquer das suas versões, não é uma aberração norte-americana.

14 comentários:

  1. Pal,

    Tenho observado as criaturas além da "Rita" que se juntam na esteira quando a sua alfaia dá na leiva e persiste-me uma dúvida ao encantamento da biodiversidade: o que faz uma rémora no seu quintal?
    Reparei também que este espécime foi a um post antigo (que eu comentei) agraciar-me discretamente com uma distorção de um episódio de que também eu me lembro bem, visando, ao que parece, defendê-la a si. Se por um lado me sinto relativamente lisonjeado ao provocar-vos coalescência, por outro a ideia de que nenhuma(?) de vós reviu a matéria em causa é um pouco adstringente. Qualquer coisa peçam ajuda, tá?

    Sobre o post: "Espero ter convencido os mais cépticos que o criacionismo, em qualquer das suas versões, não é uma aberração norte-americana". Seguramente estamos hoje mais esclarecidos.

    Com gratidão e harmonia,
    Bruce Lóse

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  2. A minha alma está parva com a coisa criacionista no Parlamento Europeu!

    O criacionismo está mesmo a atacar em força na Europa! Não admira que o CC e restantes cristãos criacionistas estejam preocupadas que haja quem o denuncie...

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  3. Eu não sou criacionista, querida rita. De onde veio essa ideia? Acredito na evolução das espécies, na selecção natural, no que conheço de Darwin, enfim.
    E acho mesmo o "criacionismo" uma palhaçada sem sentido.

    Mas pensava que este blog era sobre ciência e filosofia. O estar sempre a bater no ceguinho do "criacionismo" ou na astrologia ou no reiky e outras balelas pseudo-científicas só lhes empresta uma credibilidade que estas tontices não deviam ter.
    Não me parece um grande serviço à Ciência.

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  4. «... o criacionismo, em qualquer das suas versões, não é uma aberração norte-americana.»

    Qualquer causa americana, boa ou má, acaba por chegar à Europa - é o imperialismo cultural.
    Esta é mais uma, por isso não deveria espantar. Quem é que não sabe que na racional e Velha Europa os movimentos fundamentalistas e integristas de toda a espécie estão em franco desenvolvimento - a começar pela Opus Dei e a acabar na Al-Qaeda?

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  5. Este comentário foi removido pelo autor.

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  6. já agora, uns cartoons que vale a pena partilhar:

    http://webapp.utexas.edu/blogs/archives/sarkarlab/intelligentdesign.gif

    http://webapp.utexas.edu/blogs/archives/sarkarlab/PeriodicTable(30-10-05).gif

    daqui:

    http://webapp.utexas.edu/blogs/archives/sarkarlab/cat_winning_the_war_on_science.html

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  7. Convencei-vos que o criacionismo estará sempre ligado à religião, neste caso à cristã, essa aberração nunca terá fim?

    Mas tambem os muculmanos não tardam a adoptar conceitos semelhantes, fanaticos sao os que vivem em funçao da religiao e todas as pessoas religiosas deste mundo são fanaticos por natureza, em maior ou menor grau..

    É obrigação das pessoas mentalmente sãs combater a religiao seja ela qual for e ajudar a destruir-las!


    "Constantino constantino, nem um milhão de mortes seriam suficientes para ti imperador constantino"

    «Armando Quintas»

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  8. Também não percebo esta obsessão pelo criacionismo. Se a teoria da evolução está certa porque raio temer crendices, o paradigma evolucionista está em todo o lado desde as ciências da computação até à psicologia social. Já coloquei aqui alguns problemas que podem servir demagogicamente o criacionismo mas como se chegou à conclusão têm mais a ver com a abiogéne. Fazer do criacionismo um mal tão terrível é ajudar a pregar a cruz em cristo.

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  9. Também não percebo esta obsessão pelo criacionismo. Se a teoria da evolução está certa porque raio temer crendices, o paradigma evolucionista está em todo o lado desde as ciências da computação até à psicologia social. Já coloquei aqui alguns problemas que podem servir demagogicamente o criacionismo mas como se chegou à conclusão têm mais a ver com a abiogéne. Fazer do criacionismo um mal tão terrível é ajudar a pregar a cruz em cristo.

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  10. Palavra que não entendo: em resposta às pessoas que têm dito que «não vale a pena bater no ceguinho» do criacionismo, a Palmira responde com esta sequência de artigos que apenas demonstram como o criacionismo tem tido suficiente força para ameaçar alterar os currículos dos alunos em vários países da europa (!!!) e muito mais!

    Ao invés de responder a estes factos, concretos e extremamente preocupantes, alguns comentadores continuam a menosprezar o perigo que a corrente criacionista representa. Com base em quê? Numa simples rejeição dos factos?
    Não entendo, palavra que não.

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  11. "É obrigação das pessoas mentalmente sãs combater a religiao seja ela qual for e ajudar a destruir-las!"

    Ainda bem que o autor desta frase não é um "fanático" e é mentalmente são. Tal como provavelmente o eram hitler, Estaline, Mao, Enver Hoxha, etc. Nem quero imaginar se fosse um insano qualquer. Mas disso, já se sabe, só um religioso é que seria capaz.

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  12. "Quem é que não sabe que na racional e Velha Europa os movimentos fundamentalistas e integristas de toda a espécie estão em franco desenvolvimento - a começar pela Opus Dei e a acabar na Al-Qaeda?"

    A Opus Dei, que eu saiba, nasceu na Europa (que aliás tem o cristianismo como uma das suas causas identificação).

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  13. Bom, nos EUA a percentagem dos creacionistas entre as pessoas de credo cristão anda entre os 20% e os 30%, o que é bastante preocupante...não sei se têm números mais exactos do que eu. Agora na Europa, não faço ideia.

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  14. Ao meu bom amigo jo&matilde;ó vasco diria (via Palmira) que a minha perplexidade resulta do esforço que aqui se reúne para importar uma guerra que não tem interessado, para já, nem à Sr.ª de Fátima.

    Nisso a Palmira tem "dado e arregaçado" uma boa ajuda, ou não lhe parece? O que virá a seguir? Discutir a estupidez que seria a pena de morte no nosso país?

    Novos pensantes viriam, de certezinha, pôr-se em bicos de pés para dizer coisas muito graciosas sobre o assunto. Assim se começa um debate que não interessa a ninguém.

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