sexta-feira, 9 de março de 2007

SENSAÇÕES E SEXO

Oscar Wilde disse que conseguia resistir a tudo menos a uma tentação e eu, tal como ele e o leitor, não consegui resistir ao título, mesmo sensacional, que está em cima. Numa livraria dei de caras com o curioso livrinho e comprei-o logo.

O autor é um clássico: o poeta e filósofo romano Titus Lucretius Carus viveu no século I a.C. Só sabemos de uma sua obra, o poema filosófico De Rerum Natura (Sobre a Natureza das Coisas), mas esta chega para o tornar imortal. Graças a ela algumas ideias da Grécia Antiga passaram para os Romanos (o grego Demócrito tinha dito que só havia átomos e espaço vazio) e, atravessando a Idade Média, chegaram até nós. No que respeita ao estilo, os seus versos belos hexâmetros influenciaram Virgílio. Lucrécio ensinava filosofia na poesia tal como, dizia ele, o médico dá um remédio amargo misturado com mel. Na sua filosofia os deuses não mandam e não há lugar para superstições.

Sensações e sexo (edição da “Coisas de Ler”) é um extracto desse livro. Descreve a captação do mundo pelos nossos órgãos dos sentidos. Trata-se da primeira descrição em pormenor da teoria atómica: o mundo é feito de átomos que se movem num universo eterno tanto no espaço como no tempo (quanto ao tempo, estava enganado, mas Lucrécio não sabia do Big Bang). É sensacional que o mundo da física atómica e da genética, o mundo da nanotecnogia e da biotecnologia, tenha sido antevisto por um poeta!

A Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra guarda várias edições preciosas do livro de Lucrécio, nomeadamente Titi Lucretii Cari de rerum natura libros sex, publicada em Paris em 1680. Tal como a obra actual, terá esta sido escolhida por ter sex no título? Se sim, os leitores foram iludidos pois sex em latim significa seis, o número de cantos do poema. Mas não o foram completamente pois o autor, no canto IV, descreve o sexo e a reprodução...

3 comentários:

  1. Homessa! Ninguém comentou as aprazíveis sensações do belo Eros... Titus Lucretius!... e a dança atómica é um bolero! :)

    Ora bem, aqui vai na língua castelhana uma fagulha da amorosa chama! ;)

    Así, pues, a quien Venus ha llagado,
    Ya tomando los miembros delicados
    De un muchacho, o haciendo que respire
    Una mujer amor por todo el cuerpo,
    Se dirige al objeto que la hiere,
    Impaciente desea a él ayuntarse
    Y llenarle de semen todo el cuerpo:
    El deleite presagia la ansia ciega.
    Ésta, pues, es la Venus que tenemos,
    De aquí el nombre de amor trajo su origen,
    De aquí en el corazón se destilara
    Aquella gota de dulzor de Venus
    Que en un mar de inquietudes ha parado:
    Porque si ausente está el objeto amado,
    Vienen sus simulacros a sitiarnos
    Y en los oídos anda el dulce nombre.



    Ó Vénus, Afrodite e Cupido...

    Rui leprechaun

    (...doce trindade do prazer mais querido!!! :))

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  2. Olá....

    Estou elaborando meu TCC do curso de Direito e a Epígrafe é um texto que é atribuído a Lucrécio.
    Gostaria de receber informações sobre o texto, que transcreverei na sequência, tais como a obra em que está inserido (se é "DE RERUM NATURA") página, ano de publicação, editora, enfim...
    Ficarei muito agradecido.
    contato: sidius.silva@pop.com.br

    “Coisa nenhuma subsiste, mas tudo flui.
    Fragmento ajusta-se a fragmento e as coisas assim crescem
    Até que as conhecemos e nomeamos.
    Fundem-se, e já não são as coisas que conhecêramos.

    Formados dos átomos que caem velozes ou lentos
    Vejo os sóis, vejo os sistemas se ordenarem;
    E tanto os sóis como os sistemas
    Lentamente derivam no eterno impulso.

    Tu também, ó Terra, teus impérios, países e mares
    A menor de todas as galáxias,
    Também formada assim, também tu te irás, ó Terra,
    E hora a hora vais indo, ó Terra.

    Nada subsiste. Teus mares desaparecerão em névoa;
    As areias abandonaram o seu lugar,
    E onde hoje se acamam outros mares
    Abrirão, com suas foices de brancura, outras baías”.


    (LUCRÉCIO 96 a.C. – 55 a.C., Ano, p. N.º)

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  3. José Severo, bibliotecário na Biblioteca da Universidade de Coimbra, informou-me:

    "Existem 3 traduções do Lucrécio sec.XIX entre 1850 e 1890, das quais temos 2 - uma delas da Imprensa da Universidade. O estilo não parece de Lucrécio, pelo menos cotejado com as traduções inglesas, francesas e castelhanas que estão on-line, mas poderia quadrar com o romantismo: "Vejo os sóis".... (o plural "sóis" só aparece em francês e em castelhano 1 vez - referindo-se às estações do ano - e não faz muito sentido no âmbito da cosmologia greco-latina) ....." também tu te irás, ó Terra"......"Teus mares desaparecerão em névoa".....
    No canto V Lucrécio estabelece que a Terra teve um príncipio e há-de ter um fim (num contexto de negação da sua divindade e sem qualquer traço apocalíptico), mas na tradução portuguesa da qual li o V canto (1851, tradução de António José de Lima Falcão), não existe nada comparável a multiplicar o sol ou a tratar a Terra por tu.

    Penso por isso que o excerto é apócrifo."

    Carlos Fiolhais

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