domingo, 25 de novembro de 2007

A Origem das Espécies

Em 24 de Novembro de 1859, fez ontem 148 anos, foi publicado o livro de Charles Darwin que trata da «selecção natural como principal causa da origem, multiplicação e evolução das espécies».

O livro provocou uma verdadeira revolução na época, embora as ideias de Darwin não fossem originais, isto é, as questões que lhe suscitaram a escrita deste livro marcante já tinham sido levantadas por outros naturalistas, inclusive pelo seu avô, Erasmus Darwin, e especialmente por Pierre Louis Moreau de Maupertuis. O matemático e filósofo francês antecipou Darwin em um século propondo algo muito semelhante a selecção natural no «Venus Physique» de 1745 e no «System of Nature», publicado em 1751. No primeiro livro, Maupertius sugere que as formas de vida da Terra surgiram através de variações casuísticas associadas a sobrevivência e reprodução diferenciadas que permitiram uma acumulação de adaptações funcionais.

Mas Darwin foi o primeiro a responder satisfatoriamente às questões que a observação da Natureza levantava desde os primórdios da História, nomeadamente tinham sido abordadas por Anaximandro (610-546 a.C.), que especulou sobre o início e a origem da vida e nos fornece o primeiro registo histórico sobre a ideia da evolução dos seres vivos.

Aristóteles por seu lado interrogava-se no Physicae Auscultationes, vol. II, cap. 8, sobre «O que impediria que fossem meramente acidentais as relações entre as diversas partes do corpo? (...) O mesmo pode ser dito quanto às demais partes do corpo, que também são adaptadas a um determinado fim. Por conseguinte, todas as partes de um certo conjunto são constituídas para alguma finalidade específica e, enquanto servem para essa finalidade,são preservadas. Essa constituição adequada, na realidade, decorre tão somente de alguma espontaneidade interna. Uma vez que as que não forem assim constituídas desaparecem e ainda estão desaparecendo».

O fundador do Jardim, Epicuro, propôs mesmo uma teoria de evolução biológica e social do homem que o poeta romano que o cantou apresenta no poema que deu título ao blog. Para Epicuro, a criação do universo não teria sido obra dos deuses. Tudo o que existe - o céu, a Terra, as plantas, os animais, o homem - teria origem no movimento aleatório dos átomos. Seria esse mesmo movimento que produziria todos os fenómenos da Natureza, a vida inclusive.

Mas se os pensadores mais marcantes da Antiguidade Clássica se questionavam já sobre o que ficaria consagrado no termo «evolution», derivado do latim «evolutio» – que significa «desenrolar-se como um pergaminho» - e que começou a ser usado no século XVII para designar uma sequência ordenada de eventos, parece que persistem atavicamente resquícios do pensamento mágico que dominava antes da grande revolução do pensamento que foi a filosofia grega.

Quase 150 anos depois da publicação da «Origem das Espécies» e mais de 2500 anos depois de terem sido esboçados as primeiras concepções evolucionistas, persistem, naqueles que se recusam a olhar o mundo com olhos de ver e sim com os olhos da fé, as objecções de Matthew Hale (1609-1676) em relação ao atomismo considerado ateu de Epicuro. O lord Chief Justice (o juiz presidente) de Inglaterra - que acreditava em bruxas já que foi responsável pela sentença que resultou na execução de duas mulheres acusadas de feitiçaria -, verberava ser impossível que colisões «fortuitas e sem sentido de átomos mortos» tivessem dado origem ao homem pois não continham os princípios ou as «sementes primordiais» (semina) do mesmo.

As objecções de Hale em relação ao atomismo (a que se referiu como evolução) persistem até hoje, isto é, existem criacionistas que confundem evolução e atomismo e negam a existência de átomos, já que consideram que o atomismo «é incompatível com os princípios judaico-cristãos porque o atomismo apresenta a matéria independente de Deus, seja porque existe por toda a eternidade e nega a criação por um Desenhador Inteligente seja porque os seus movimentos e acontecimentos são independentes do controle por um Ser Soberano».

Por outro lado, aquele que a enciclopédia de filosofia de Stanford descreve como um virtuoso diletante, é responsável pela associação de evolução a ateísmo para além de ter alimentado em alguns a ideia errónea com que nos matraqueiam incessantemente de que a «evolução» fala de cosmologia, da origem do universo e da origem da vida.

Como refere Phil Plait no blog de ciência Bad Astronomy, dois dos (muitos) problemas da «ciência» da criação é não ser ciência, e, como todos os nossos leitores já se aperceberam no nosso espaço de debate, os seus defensores terem uma postura autista quando os múltiplos erros pseudo-científicos (na realidade anti-ciência) que promovem são apontados.

Uma vez que é impossível qualquer tipo de debate com criacionistas, o astrónomo sugere que, em vez da desmontagem das mentiras que são a base única da sua argumentação, o humor é a única resposta possível às inanidades debitadas. Nomeadamente com esta paródia do que passa por projectos de investigação submetidos ao oxímoro Instituto da Investigação da Criação - e que está completamente de acordo com a pseudo «investigação» que por lá fazem, ou seja, é difícil distinguir a sátira do produto que a originou. Vale a pena ler não só os resumos dos projectos como as apreciações do «painel» avaliador.

Referências:
Atomism, Atheism, and the Spontaneous Generation of Human Beings: The Debate over a Natural Origin of the First Humans in Seventeenth-Century Britain
Matthew R. Goodrum, Journal of the History of Ideas, 63, (2002), 207.

7 comentários:

  1. Excelente post :)

    Não sabia que tinha sido outro lunático de direito o inventor destas tretas criacionistas. Bate certo com as pretensões actuais. Assim como bate certo ter mandado matar duas bruxas. Acho este trecho da Enciclopédia britânica esclarecedor:

    " His sincere piety made him the intimate friend of Isaac Barrow, Archbishop Tillotson, Bishop Wilkins and Bishop Stillingfleet, as well as of the Nonconformist leader, Richard Baxter. He is chargeable, however, with the condemnation and execution of two poor women tried before him for witchcraft in 1664, a kind of judicial murder then falling under disuse. He is also reproached with having hastened the execution of a soldier for whom he had reason to believe a pardon was preparing."

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  2. Como homenagem a Darwin e em preparação para daqui a dois anos, fica um soneto de Angelina Vidal publicado, em 5/6/1910, no Jornal de Abrantes.

    Para além de colaboradora de A Voz do Operário, Angelina Vidal, filha do maestro Joaquim Casimiro, foi também colaboradora de muitos outros periódicos (O Tecido, O Trabalhador, etc.) e foi proprietária e principal redactora de Sindicato, Justiça do Povo e Emancipação.

    Se consulto os fenómenos geológicos,
    Se contemplo no céu as nebulosas,
    Se interrogo os segredos histológicos,
    E os restos das esferas luminosas;


    Vejo sempre matéria em traços lógicos,
    No espaço, nas entranhas tenebrosas,
    Com átomos subtis, embriológicos,
    Tecendo maravilhas assombrosas


    Transformação constante - a causa eterna
    Eis a lei que preside e que governa,
    O facto que destrói a escura fé.


    É debalde que os crentes se consomem,
    Se Deus veio primeiro do que o homem,
    Deve ser, quando muito, um chimpanzé.

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  3. A Palmira Silva diz:

    "Uma vez que � imposs�vel qualquer tipo de debate com criacionistas, o astr�nomo sugere que, em vez da desmontagem das mentiras que s�o a base �nica da sua argumenta�o, o humor � a �nica resposta poss�vel �s inanidades debitadas."

    Ah, ent�o � isso! Quando comparava detergente e cristais com DNA a Palmira estava, afinal, a utilizar o humor para combater o criacionismo.

    Assim estou mais descansado.

    Tamb�m devem estar a gozar quando dizem que acreditam que o mundo explodiu do nada por mero acaso.

    Os criacionistas tamb�m gostam muito das piadas que os evolucionistas gostam de fazer com as moscas da fruta.

    Espero que os evolucionistas n�o percam o sentido de humor como �s vezes parece, quando come�am a apagar as interven�es criacionistas neste blogue.

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  4. A Palmira acha que � imposs�vel discutir com criacionistas.

    N�o sei porqu�. A Palmira avance com os seus argumentos a favor da evolu�o e os criacionistas avan�ar�o com os seus argumentos a favor da cria�o.

    Nisso consiste o debate entre evolucionistas e criacionistas.

    Agora n�o espere � convencer os criacicionistas com argumentos que comparam detergente, cristais ou cubos de gelo com DNA.

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  5. O Jónatas Machado agora assina perspectivas?

    A ignorância e autismo continuam na mesma mas pelo menos já distinguimos os anónimos. Mas já estou farta da ignorância do Jónatas. Que tal o Jónatas ir ler outra vez o post "Auto-organização de sistemas químicos", fazer um esforço muito, muito, muito grande, tentar perceber um bocadinho de química e deixar-se de disparates?

    É que já parece um disco riscado na mesma asneira...

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  6. Se a vida fosse possível através da auto-organização química, a origem da vida não seria o mistério que é.

    A vida requer quantidades inabarcáveis de informação complexa, especificada e integrada.

    O DNA contém informação que codifica a criação de organismos extremamente complexos, informação essa totalmente alheia à estrutura química do DNA.

    A origem não inteligente da vida é impossível. Os criacionistas afirmam isso categoricamente porque sabem que nunca serão desmentidos pela ciência naturalista.

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  7. Eu gosto muito de ver os pontos nos is :) Se outra razão não existir basta-me que esteticamente são muito mais interessantes, ...com pinta!

    Somos educados para diferenciar exageradamente a vida da matéria. Ou porque é o ADN, ou porque é a complexidade e a informação, ou porque é a interacção com o meio... No fundo tudo serve para atribuir à vida um valor simbólico que acaba por moldar de forma distorcida a percepção da realidade.

    Eu percebo que a vida tem um valor imensurável mas temos que ter a noção que isso é para nós que estamos vivos. Quando afinal de contas para além da vida também temos átomos partículas e energia. E tal como os átomos ou os electrões, também somos objectos quânticos com a nossa insignificante onda quântica. Por isso as leis da natureza são só umas, não?

    Este comentário surge porque há muito que tenho a sensação, por muitos comentários, que parece que a matéria não tem complexidade nenhuma. A vida é que nos deixa embasbacados! Eu acho que isto é uma barbaridade e dá-me razão o facto de a ciência, por exemplo, andar às voltas com a complexidade da meteorologia, com teorias de cordas, ou darwinismos quânticos. Ou será que aqui não há complexidade nem informação? A ciência diz-nos que começámos como matéria e todos nós sabemos que acabamos, mais tarde ou mais cedo, só matéria... pó... "meia dúzia" de átomos.

    Justificar deus com a complexidade da vida demonstra uma visão muito curta do universo e, por outro lado pergunto-me, se caso não existisse vida, deus também não existia? Está bem, a vida é para o glorificar. Mas para quê então a matéria? Continuando num exercício de suponhamos estúpido (e agora macabro): suponhamos que destruímos a vida no planeta, será que também matamos deus?

    No fundo o Homem aprende meia dúzia de coisas e julga sempre que já percebeu a essência, o que já sabemos passa a ser simples e o complicado fica para deus. Belo refúgio! Mas cada um tem os refúgios que quer e ninguém tem nada a ver com isso.

    Outra coisa bem diferente é religião. Para mim religião é política transcendente. Está para além da realidade e não é possível aferir os resultados da governação. O meu problema com estas políticas é que são tendencialmente ditaduras.

    Já deus e o problema da criação é como um círculo de raio igual a 0. Conceptualmente pode existir mas, não só todas as variáveis e propriedades que lhe são afectas (perímetro, área, etc.) são iguais a zero, como a sua representação, em qualquer referencial de coordenadas, limita-se à localização do centro. Ou seja, a existir, não aquenta nem arrefenta...

    Isto não quer dizer que eu não tenha curiosidade em relação ao 0 do bumbum original :), mas é só isso, satisfazer uma curiosidade... não virá daí nenhuma adoração.

    Sei muito bem que posso levar a sério nas orelhas, mas se tal acontecer não tenho dúvidas que será por dois bons motivos: primeiro e principal porque vai significar que aprendi mais qualquer coisa e segundo, porque o frio já se instalou e ter as orelhas frias é um disparate :)

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