quinta-feira, 27 de março de 2008

CITAÇÕES DE GIORDANO BRUNO

Transcrevo algumas citações de Giordano Bruno, escolhidas por Michael White para a entrada ou final de capítulos do seu livro “Giordano Bruno: O Filósofo Maldito” (Planeta, 2008):

“Aquele que deseje filosofar deve antes de mais duvidar de todas as coisas. Não pode tomar parte num debate antes de ter escutado as diversas opiniões, nem antes de avaliar e comparar as diversas opiniões, nem antes de avaliar e comparar as razões contrárias e a favor. Jamais deve julgar ou censurar um enunciado apenas pelo que ouviu, pela opinião da maioria, pela idade, pelo mérito ou pelo prestígio do orador, devendo por consequência agir de acordo com uma doutrina orgânica que se mantém fiel ao real e uma verdade que pode ser entendida à luz da razão.”

“Desejo que o mundo usufrua dos gloriosos frutos do meu trabalho, desejo despertar a alma e abrir o espírito dos que vivem privados dessa luz que, seguramente, não é invenção minha. Se estiver errado, não creio que o faça deliberadamente. E, ao falar e escrever deste modo, não sou impelido pelo desejo de sair vitorioso, pois que reconheço qualquer tipo de fama e conquista como inimigos de Deus, vãs e sem qualquer honra, se não forem verdadeiras; mas, por amor à sabedoria autêntica e num esforço para reflectir com justeza, fatigo-me, sofro, atormento-me”.

“Muito me debati. Julguei poder ganhar... Mas o destino e a natureza reprimiram os meus estudos e o meu vigor. Mas já é alguma coisa ter estado no campo de batalha, pois vejo que conseguir ganhar depende muito da sorte. Porém, fiz tudo o que podia e não creio que nenhuma geração vindoura o possa negar. Não tive medo da morte, jamais cedi perante os meus iguais, com firmeza de carácter, escolhi uma morte corajosa a uma vida de cobardia sem combate”.

5 comentários:

  1. Vou dar a primeira citação aos meus alunos (Filosofia, 10º ano). Há meses atrás analisámos frases com o mesmo sentido, atribuídas a Sócrates por Platão, mas isso não os impede de continuar a dizer “isso é discutível” para encerrar a conversa e desistir do debate. Respondo sempre: “Se é discutível, então pode ser discutido. Vamos fazê-lo?”. Mas o que é realmente desanimador é chegar a sala de professores e observar a mesma atitude.
    Maria Filomena Mónica e João Magueijo, entre outros, dizem que essa ausência de debate não se limita às escolas secundárias e existe também nas Universidades. Pode também observar-se noutras áreas da sociedade portuguesa e em muitas relações pessoais, sendo vulgar as pessoas ficarem ofendidas quando alguém questiona as suas ideias.
    Como não é provável que Sócrates e Giordano Bruno possam passar por cá para promover o espírito crítico e estimular o debate, é melhor seguirmos o conselho que o Professor Mário Jorge de Carvalho (da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da UNL) dá aos seus alunos: “sejam o vosso próprio Sócrates”.
    Escusado será dizer que todas as vezes que utilizei a palavra “Sócrates” me referia ao filósofo grego e não ao actual primeiro-ministro português, de resto pouco dado a debates.

    Carlos Pires

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  2. Contrariamente ao que se sugere neste blogue, deve lembrar-se que a ciência moderna é, em boa medida, não apenas o produto de uma visão bíblica e cristã do mundo, mas especialmente do protestantismo puritano inglês do século XVII.

    Foi desse contexto que emergiu, entre outros, Isaac Newton, pese embora as suas ideias unitaristas.

    Essa orientação cristã da ciência persistiu quase até ao século XX.

    Na verdade, a ciência moderna não conheceu as suas origens no pensamento de homens como Giordano Bruno.

    O humanismo de Giordano Bruno levou-o mesmo a abraçar o ocultismo.

    Do mesmo modo, a defesa, empreendida (entre outros) por Giordano Bruno, de que os seres humanos integram várias espécies (teoria da poligénese), não descendendo todos eles de Adão e Eva, esteve na base do racismo científico que iria emergir mais tarde.

    Daí que devamos ser críticos mesmo (e principalmente) de homens como Giordano Bruno, mesmo se achamos a perseguição e morte de hereges, apóstatas e cistmáticos uma prática aberrante, totalmente destituída de qualquer fundamento bíblico porque contrária à conduta revelada por Jesus Cristo e os seus discípulos.

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  3. Perspectiva,

    respire fundo!

    Deixo-lhe aqui uma sugestão: leia primeiro, por completo, as obras de Yates sobre Giordano Bruno; depois alguma das próprias obras de Bruno; depois um livro de Frances Yates intitulado "The Occult Philosophy in the Elizabethan Age"; e para acabar, um bom livro de história da ciência.

    Vai ver que tudo o que acabou de dizer pode não estar assim tão certo! Verá até que Giordano e muitos outros renascentistas (herméticos) fizeram mais pelo desenvolvimento do espírito científico numa vida do que toda a Cristandade em séculos e séculos!

    Considero Giordano Bruno um exemplo notável de um espírito verdadeiramente genial, independente, fraterno, tolerante e corajoso.

    Insinuar que Giordano Bruno possa estar na base de um suposto "racismo científico" é (para não dizer mais) um disparate sem tamanho!

    Pense pela sua cabeça!

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  4. Anónimo disse:


    "Insinuar que Giordano Bruno possa estar na base de um suposto "racismo científico" é (para não dizer mais) um disparate sem tamanho!"


    Pelo contrário. Não o dizer é ignorar um aspecto central da história das ideias.

    É natural que Giordano Bruno não imaginasse o monstro que estava a criar com a sua teoria da poligénese, ao arrepio da doutrina bíblica da monogénese.

    Não se pretende dizer que o mesmo tivesse uma mente criminosa.

    Apenas se diz que, provavelmente sem querer e saber, Giordano Bruno (juntamente com Paracelsus ou Giulio Vanini) acabou por contribuir para lançar a semente do racismo científico.

    Mais tarde essa mesma ideia será retomada por Isaac de la Peyrère, de Bordéus, que defende que Adão e Eva foram os ancestrais apenas dos Judeus.

    Voltaire irá retomar a teoria da poligénese, também contra a revelação bíblica.

    É com base na poligénese que Voltaire defende a instituição da escravatura.

    A teoria da poligénese depressa deu lugar a uma concepção da hierarquia das raças.

    Até o grande liberal Immanuel Kant escreveria, em 1755, que os Negros da África não têm verdadeiros sentimentos, tão fundamental que é (no entender de Kant) a diferença entre as raças branca e negra (no entender de Kant tão grande em capacidades mentais como em cor).

    Da poligénese de Giordano Bruno chegou-se a um dos mais arraigados mitos anti-bíblicos: a superioridade das raças europeias.

    Os componentes deste mito académico envolvem a Índia, a Europa e a rejeição da verdade bíblica pelos investigadores.

    Este mito afirma que os ancestrais da raça humana emergiram a partir do Cáucaso, ou das montanhas de Kashmira mountains, na Índia ociendental.

    Daí vem o termo "caucasiano", ainda hoje utilizado para separar as "raças" na Europa e nos Estados Unidos.

    Esta suposta "raça" europeia, alegadamente vinda do Cáucaso, pretensamente mais pura, foi mais tarde apelidade de raça Ariana.

    As "bíblias arianas" fabricadas na Alemanha do século XIX, procuravam afastar os "mitos" hebraicos (entre eles o da monogénese), como sendo atávicos e expressões da inferioridade intelectual e espiritual dos judeus.

    O resto da história já conhecemos. Ela acabou no Holocausto.

    Diferentemente, de acordo com a Bíblia todos fomos criados por Deus a partir de um único casal.

    Não existem raças, mas apenas pequenas diferenças entre a mesma espécie humana, criada à imagem e semelhança de Deus, diferenças essas resultantes da dispersão e do isolamento pós-diluvianos.

    A Bíblia afirma a monogénese e rejeita (por factualmente errada!) a fábula da poligénese.

    Ou seja, todos somos da mesma família. Todos somos um só sangue.

    Daí que o Evangelho de Jesus Cristo tenha que ser anunciado a todos os povos.

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  5. Mal vamos se continuamos preocupados com as falhas ou crimes que homens da Igreja cometeram no passado, usando critérios próprios da sua época e de acordo com as políticas e leis em vigor à época.
    Arrumado que está Galileu ressuscita-se agora Giordano Bruno, um homem que pouco crédito teve na universidade do seu tempo mesmo as que não estavam sob a alçada da igreja católica. Luteranas e anglicanas como o caso de Oxford. Fica tudo escandalizado com o facto de que há 400 anos atrás não ser permitido pensar para além do que o politicamente correcto permitia, querendo impingir a ideia que a Igreja combatia tudo o que era ciência ou cientifico, esquecendo os grandes homens da ciência que eram também figuras proeminentes da hierarquia da igreja e onde Bruno foi beber (Nicolau de Cusa por exemplo). Para não falar do enorme relevo que os Jesuítas tiveram no campo das ciências e da aproximação do conhecimento oriental e ocidental.
    Deviam antes preocupar-se com o que se passa actualmente nas universidades europeias, americanas e outros fóruns. Deviam reflectir porque razão Lawrence Summers, um eminente universitário, foi afastado do cargo de reitor da prestigiada universidade de Harvard. Porque razão Glenn Hoddle foi exonerado do seu cargo de seleccionador inglês de futebol por causa da sua concepção religiosa e filosófica da vida, que aliás não é muito diferente de algumas concepções de Giordano Bruno e de milhares de cidadãos ingleses.
    É claro que não foram condenados à morte. Agora não se usa. Mas que moem, moem!
    Xico

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