quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

A CÂMARA DE COIMBRA E A COINCINERAÇÂO


Ao fim de muitos anos de controvérsia, a Cimpor, apoiada em decisões não só do governo (que recorreu, lembre-se, a uma Comissão Científica independente) mas também dos tribunais, anunciou o início dos testes de co-incineração de resíduos industriais perigosos na cimenteira de Souselas. Pode-se concordar ou não, mas as decisões dos tribunais num estado de direito têm de ser acatadas. A Câmara Municipal de Coimbra continua, porém, a teimar em sentido contrário, sem juntar qualquer argumento substantivo. Agora, em desespero de causa, veio a público dizer que não acreditava. Que não, que não podia ser porque colocou uns sinais de trânsito a proibir a passagem de resíduos. Que não, que não podia ser porque não tinha sido informada do processo. E acrescentou, ameaçando com mais um processo em tribunal, que tudo não passava de um "golpe político", de uma maquiavélica ficção. Chama-se a isto a recusa da realidade, ou, se se quiser, confundir os desejos com a realidade. Não há nada de mais anti-científico!

4 comentários:

  1. Ainda há pior: refiro-me aos famigerados cartazes do ex-ministro Nobre Guedes conta a CO-INCENEREÇÃO (sic), que ainda se podem ver em alguns blogues - como [aqui], p.ex.

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  2. Houve, também, a comissão de sábios que analisou o problema da taxa de alcoolemia admissível em condutores.

    Recomendou 0,2g/l

    A seguir, veio Durão Barroso que estipulou 0,5g/l.

    -
    Neste caso paradigmático, não sei o que mais admirar, se o desprezo pela Ciência ou pela vida humana.

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  3. Há uma ideia fundamental em ciência que também não pode ser omitida, e neste particular a “Autoridade” Comissão Cientifica têm especial responsabilidades (apreciar sob o ponto de vista da existência de outras alternativas igualmente válidas cientificamente).

    Obviamente que os maus políticos, quer por ignorância cientifica, quer por motivos que desconhecemos não lhes dão importância.

    A ideia é a seguinte, e vou citar um politico.

    “Às vezes diz-se que um conhecimento que se afirmou cientifico deixa de ser científico porque se verificou ulteriormente que a conclusão estava errada. Nós pensamos de outra forma: pode ser cientifico e a conclusão estar errada. Porque na base dos conhecimentos da época, de todo o método cientifico de análise e dos conhecimentos disponíveis, é a conclusão ajustada ao conhecimento humano. Se ulteriormente a ciência chega a outros resultados, faz investigações que trazem elementos novos e corrige o resultado anterior, não destrói o carácter cientifico do primeiro resultado. Isto é uma ideia essencial tanto nas ciências exactas como naturalmente nas ciências sociais e politicas. A correcção não destrói por vezes o carácter cientifico de uma conclusão anterior.”

    «Duas intervenções numa reunião de quadros», 2 de Março de 1991 (Álvaro Cunhal).

    P.S. A mesma ideia pode encontrar-se em “O Significado de Tudo - R. P. Feynman, Gradiva”.

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  4. A co-incineração de lixo não se faz só em cimenteiras, mas para elas é um negócio avultado. E faz-se praticamente sem monitorização, porque a ciência não tem actualmente dinheiro para quase nada. A que é realmente independente, se é que ainda existe. Eu diria que precisamos, quanto antes, de ciência económica e jurídica na área dos resíduos. A linguística (o estudo das designações que se dá ao lixo, em particular), também pode por vezes ajudar. Mas fazem mais falta os especialistas em números, e até os tradutores... Os corajosos. Que se analisem os preços do tratamento térmico por tonelada em toda a Europa, ou os relatórios da fiscalização transfronteiriça de camiões que transportam os chamados «combustíveis alternativos», ou «pellets» (não haverá palavra portuguesa para isto?). Que epidemiologistas (e não somente químicos) tenham mão na constituição química daquilo que se queima, e que o mostrem às pessoas. Há cientistas que misturam desejos de um progresso tecnológico sem limites com as cruas realidades que temos! Nestas condições, em que ainda por cima se fecham urgências e centros de saúde por todo o lado, e em que o cidadão comum cada vez menos pode falar livremente, com medo de perder o emprego, não é de modo algum científico afirmar que a co-incineração não tem problema, onde quer que seja praticada. Até mesmo nas nossas lareiras! Podemos ter o forno mais moderno do mundo (e nem acredito lá muito nisso), mas os pellets a queimar serem feitos da maior porcaria. E podemos ter melhores tecnologias a desaparecer do mapa, porque a ciência do establishment só pode defender o establishment.
    Adelaide Chichorro Ferreira

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