quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Biocombustíveis e sustentabilidade


A Royal Society alertou o governo britânico para as medidas simplistas que encorajam a utilização de biocombustíveis e que na realidade não diminuem as emissões de gases de efeito de estufa. O «Sustainable biofuels: prospects and challenges» aponta o facto de nem todos os biocombustíveis, apesar do prefixo bio tão na moda hoje em dia, serem de facto «verdes» e alguns poderem mesmo piorar o que supostamente se está a combater.

As directivas da UE e a britânica «Renewable Transport Fuel Obligation» (RTFO) apenas exigem que se passe a utilizar mais combustíveis de fontes renováveis sem qualquer consideração sobre se reduzem as emissões ou sobre o impacto ambiental e social dos mesmos. O relatório refere que devem ser favorecidas políticas que promovam combustíveis que de facto permitam diminuir as emissões de gases para a atmosfera.

John Pickett da Rothamsted Research, que dirigiu o estudo da Royal Society, afirmou «Seria desastroso se a produção de biocombustíveis destruisse diversidade biológica e ecossistemas naturais. Não podemos criar novos problemas ambientais ou sociais com os nossos esforços para minorar as alterações climáticas».

O comunicado foi emitido no dia em que o comissário europeu para o ambiente, Stavros Dimas, admitiu isso mesmo, isto é, que a UE não previu os problemas sociais e ambientais levantados com as metas que estabeleceu para a substituição de combustíveis fósseis por biocombustíveis. Danos colaterais não previstos pelas directivas europeias - como o aumento do preço dos cereais ou a deflorestação para alimentar a produção de biocombustíveis - levaram o comissário a afirmar que a UE vai introduzir um esquema de certificação dos biocombustíveis que exclua do espaço europeu biocombustíveis como o óleo de palma, responsável pela destruição da floresta tropical indonésia

«Nós temos de ter critérios de sustentabilidade, incluindo questões sociais e ambientais» afirmou o comissário.

Tendo em conta as metas ambiciosas propostas pela UE, que pretende que em 2020 seja obtido de fontes renováveis 10% do combustível usado (e 20% da energia), tenho muitas dúvidas sobre a exequibilidade das afirmações do comissário: é mais fácil dizê-lo que implementar critérios de sustentabilidade em tão curto espaço de tempo. São necessários estudos exaustivos e multidisciplinares, que precavejam impactos sociais e ambientais, para além da já de si complicada investigação e cálculo do balanço total de CO2 na produção e utilização de biocombustíveis. Na realidade, nem os estudos nem os cálculos envolvidos são triviais já que o balanço que afere os benefícios de um determinado biocombustível não é apenas dependente de questões agrárias( como o uso de fertilizantes) ou de produção: o clima local, a qualidade do solo, as emissões durante a distribuição e muitos outros parâmetros afectam os méritos desse biocombustível e tornam complicado arranjar um critério que seja válido no Alentejo e na Flandres.

Tal como em relação aos créditos de carbono, nunca achei especialmente boa esta ideia de substituir gasolina por biocombustíveis primários. Acho excelente a utilização de biocombustíveis secundários, obtidos da reciclagem de produtos sortidos, mas acho que há muitas outras fontes de energia renováveis e com menor (ou nulo) impacto ambiental e social a explorar, cujo desenvolvimento pode mesmo ser atrasado com estas medidas. Na realidade, sempre achei esta medida uma forma de «sossegar» a consciência ecológica das populações e se esta for sossegada com biocombustíveis (ou créditos de carbono), as grandes indústrias, automóvel especialmente, não se sentirão tão pressionadas a desenvolver alternativas realmente sustentáveis!

Posts sobre o tema no De Rerum Natura:

Ecologia e biocombustíveis
Biocombustíveis podem agravar aquecimento global
Ler os outros: Um futuro menos verde do que se pensa

7 comentários:

  1. Concordo com o tópico.

    Apenas me causa estranheza que tenha sido necessário tanto tempo para atingir conclusões tão elementares. Em Portugal, por exemplo, para atingir a meta Europeia dos 10%, não chega a totalidade da nossa superficie agricola útil!

    Há ainda em matéria de biocombustiveis uma questão que o post não refere: o balanço energético da sua produção. David Pimentel, há anos que vem alertando para o saldo francamente negativo desses balanços.

    Para os que acreditam que tanta preocupação com o "aquecimento global" é genuina, são horas de começar a acordar.

    ResponderEliminar
  2. Lúcido, lúcido é o sector financeiro que anda a promover fundos de investimento em matérias-primas agrícolas. Desde o beijo de Judas (Bush no Brasil, pelo "desenvolvimento") e outras iniciativas igualmente filantrópicas por esse mundo fora que se vai traçando no chão a manjedoura onde porventura nos cairá o farelo. Que fixe! Nós até conhecemos uns milhõezitos de africanos que sabem cozinhá-lo.

    ResponderEliminar
  3. Um post excelente!

    Haja mais vozes a denuncir a profunda imbecilidade destas medidas! Olhando para o texto da CE vê-se que mesmo depois do Stavros ter reconhecido que meteram a pata na poça com a treta para inglês ver dos biocombustíveis continuam autisticamente com a meta dos 10& em 2020.

    Isto para não falar no esquema milionário (para alguns, para outros vai ser desastroso...) dos créditos de carbono que continua na mesma...

    ResponderEliminar
  4. Estão jogando obebê junto com a água da bacia.

    Os biocombustíveis não são a solução final para o problema energético mas sim mais uma das soluções necessárias.

    Os estudos que alertam sobre o balanço energético dos biocombustíveis sempre enviesam os gastos energéticos para cima e ainda nunca consideram as tecnologias de ponta utilizadas por algumas usinas. A mesma coisa vale para os estudos que estimam os impactos sobre a biodiversidade.

    Ao mesmo tempo os estudos que comparam os biocombustíveis com o petróleo subestimam os gastos energéticos e ambientais do segundo.

    ResponderEliminar
  5. OS biocombustiveis a substituirem o petroleo vêm acarretar mais problemas, normalmente toda a gente se esquece da energia dispendida para gerar o biocombustivel, esquecem-se que os terrenos antes agricolas para alimentação passam para produção de biocombustiveis como o caso do trigo e do milho o que faz aumentar o custo dos alimentos.
    Então e as fontes de energias renováveis não poluentes e de baixo custo de produção, a elolica e a solar?
    Porque não se aposta nos estudos sobre captação solar de forma a rentabilizar os paineis solares, será que já algum cientista pensou em estudar as plantas em como elas fazem a fotossintese para fazer uma imitação sintética para painéis solares?
    Já pensaram na instalação de enormes paineis solares com essa nova tecnologia no deserto do sahara ou gobi onde não incomodam e rentabilizam o espaço?
    E que tal ao mesmo tempo desenvolver acumuladores eficazes para serem instaldos em edificios e viaturas e "inventar-se" o carro eletrico de vez de forma económica e rentável?

    Os bio-conbustiveis são 1 treta, não são solução nenhuma a curto, médio e longo prazo, apostem na energia solar, limpa, barata e abundante!

    ResponderEliminar
  6. ah esquecia-me dos créditos de carbono, quem regula os créditos de carbono a nivel mundial? Se eu quiser criar uma empresa que venda créditos de carbono, isto faz-me lembrar de um negocio que vendia lugares no paraiso e moradias na lua..

    ResponderEliminar

1) Identifique-se com o seu verdadeiro nome.
2) Seja respeitoso e cordial, ainda que crítico. Argumente e pense com profundidade e seriedade e não como quem "manda bocas".
3) São bem-vindas objecções, correcções factuais, contra-exemplos e discordâncias.