terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

CIÊNCIA E DESENVOLVIMENTO

Minhas respostas a perguntas sobre ciência e desenvolvimento do jornal "A Cabra" dos estudantes da Universidade de Coimbra:

- Até que ponto é que a ciência está desenvolvida nos países em vias de desenvolvimento?

Nos países em vias de desenvolvimento a ciência não está tão desenvolvida como nos países desenvolvidos. Aliás, o investimento na ciência é uma condição de desenvolvimento. Os países mais ricos são os que mais apostam na ciência. A relação entre ciência e sociedade é bilateral: quem tem mais ciência tem mais riqueza e quem tem mais riqueza tem ainda mais ciência. De facto a sociedade é muito desigual e a ciência nem sempre tem servido para diminuir as diferenças, antes pelo contrário. Há um ciclo na riqueza difícil de quebrar: a história mostra que os mais ricos enriquecem muito mais do que os mais pobres, embora estes também progridam. É responsabilidade dos países mais ricos ajudar a quebrar o ciclo, contribuindo para o maior desenvolvimento dos que mais precisam.

- Qual a finalidade da ciência nesses países?

A ciência é um empreendimento à escala internacional. A física é só uma, visa compreender o Universo, que é só um: Não há, por exemplo, uma física para ricos e uma física para pobres. Há uma tendência nos países menos desenvolvidos para apostar mais nas aplicações da ciência, que podem eventualmente gerar riqueza mais rapidamente, do que na ciência propriamente dita. Ora essa atitude pode ser um erro. Por vezes as aplicações aparecem na ciência onde menos se espera. Poderá estar bem que se atenda prioritariamente em certas circunstâncias a certas aplicações da ciência, mas sem esquecer nunca a ciência fundamental.

- Que apoios institucionais existem por parte dos países ditos desenvolvidos?

Os países mais ricos têm programas de ajuda ao desenvolvimento, que incluem, como não podia deixar de ser, a ciência e a tecnologia. E há, de facto, vários programas nos países mais ricos para ajuda à ciência no Terceiro Mundo. Em Portugal, eu gostaria de ver mais iniciativas de apoio à ciência e tecnologia nos países africanos de expressão portuguesa.

- E que apoios existem por parte das empresas? De que programas é que tem conhecimento?

Muitas empresas, nomeadamente multinacionais, têm programas de investigação muito intensos nas respectivas áreas, com laboratórios espalhados pelo mundo, embora raramente esses laboratórios estejam no Terceiro Mundo. É o caso das empresas de informática (como a IBM, a Microsoft, etc.), de empresas farmacêuticas, de cosméticos, químicas, de produtos alimentares, etc. Há que reconhecer que as empresas não estão tão activas no apoio ao desenvolvimento de quem precisa como na obtenção de lucros. Mas é conhecido o caso de Bill e Linda Gates, da Microsoft, que criaram uma fundação que está aplicar parte da sua imensa riqueza ao auxílio a populações muito necessidades, levando-lhe por exemplo inovações na área da saúde.

- E de organizações a nível internacional?

A Organização das Nações Unidas, ONU, incluindo a UNESCO (organização das Nações Unidas para a Educação, Cultura e Ciência), tem programas activos de apoio a países do Terceiro Mundo, com programas na área da ciência e tecnologia. E há diversas associações que fazem o mesmo, por vezes em cooperação com a ONU. Estou-me a lembrar, da Academy of Sciences for the Development World, cujo nome antigo era Third World Academy of Sciences (TWAS), uma organização sedeada em Trieste, Itália, que foi fundada por Abdul Salam, um paquistanês Prémio Nobel da Física. Em Trieste e ligado a TWAS há um Centro Internacional de Física Teórica que recebe gente de países menos desenvolvidos e de cuja acção Portugal também tem beneficiado. Uma outra associação internacional para apoio ao desenvolvimento usando a ciência e a tecnologia é a International Association of Science and Technology for Development (IASTED). Na minha área da física, grandes associações como a Sociedade Europeia de Física e a Sociedade Americana de Física têm secções que procuram promover a ajuda ao desenvolvimento. Mas receio que haja muito, mas mesmo muito, ainda por fazer neste campo..

2 comentários:

  1. O caso da India é paradigmático da primeira resposta.

    Os casos da Mecânica Quântica, relatividade, EDQ e super-cordas são bem a prova - e bem provada - da segunda.

    O resto, é apenas mais do mesmo.

    Já era tempo da Física em Portugal ser qualquer coisa de asseado, não?!

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  2. estas dissertações mereciam uma opinião prévia dos dois conceitos que titulam o post:
    "ciência" e "desenvolvimento" - ambos têm limites; não seria melhor pensar num debate em torno da definição destes dois conceitos, em vez de prosseguirmos "às cegas" com o fardo de homem branco às costas pela estrada do crescimento infinito e insustentável?

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