sábado, 30 de julho de 2011

CARDIA, UM PIONEIRO ANTI-EDUQUÊS


Transcrevo, com a amável autorização do autor, o artigo de opinião de Guilherme Valente, que saiu no "Público" de hoje (na foto, Sottomayor Cardia, Ministro de Educação e Investigação Científica do I Governo Constitucional e Ministro da Educação e Cultura do II Governo Constitucional, liderados por Mário Soares):

‘O segredo da felicidade é a liberdade. O segredo da liberdade é a coragem.’
Tucídides (460-404 a.C.)

Agora que a lucidez e a coragem levaram a diferença para o Ministério da Educação (ME), é útil relembrar as evidências.

A tragédia educativa é inquestionável. Nunca, em todos estes anos, apesar da estatura e do propósito de dois ou três ministros, foi atenuada. Resultados sempre piores, apesar dos poucos e duvidosos exames, sempre mais fáceis; ambiente de crescente imbecilidade nas escolas; desbaratamento de avultados recursos materiais; desvalorização programada do conhecimento, da cultura e do ensino enquanto transmissão dos saberes que contam; deliberado apagamento do papel do professor. Os efeitos estão à vista na sociedade: ignorância, desqualificação profissional; agravamento da desigualdade de oportunidades; aumento as desigualdades sociais, da exclusão e da delinquência, desinteresse cívico.

Tudo isto ocorre comprovadamente devido à ideologia igualitarista e às teorias pedagógicas, de origem e natureza bem determinadas, veiculadas pelos autodesignados «especialistas da educação», que, com um poder tentacular, do ME às escolas de formação de professores, se instalaram e dominaram totalitariamente a educação nos últimos 30 anos. Fanática ou interesseiramente indiferentes às consequências dramáticas da sua acção.

Deve-se-lhes alguma coisa de positivo? Nada. A massificação do ensino? Não. Era uma inevitabilidade histórica. Comprometeram aliás, o seu benefício, com a percentagem intolerável de abandono escolar, gerada pela inutilidade real da sua escola para cerca de 50% dos alunos (na Finlândia 36% dos estudantes seguem a via vocacional profissional).

Mas não fomos nós, no início quase sozinhos, os primeiros a perceber a natureza e a dimensão do que foi sendo imposto ao país. Tive acesso agora a uma entrevista em que um grande intelectual, que teve a coragem necessária para ser livre, antecipa a análise da praga e as confirmadas previsões sobre os seus efeitos na escola e no futuro de Portugal: Mário Sottomayor Cardia. Alguns breves excertos*:
«Aceitei participar do Governo porque era uma tarefa difícil, em que se jogava, e jogou, o destino do pluralismo na cultura portuguesa e a credibilidade e utilidade do ensino público."

«É esta última aposta que me afasta dos titulares do Ministério desde pelo menos 1985, com a excepção de Manuela Ferreira Leite. […]"

«Estão a destruir o que tanto custou a reedificar naqueles anos longínquos […]. Sabotar o ensino público – desqualificando-o em nome da democratização, da ausência de selectividade escolar, da pedagogia não directiva, da proibição de memorizar, mesmo da dispensa de aprendizagem da tabuada, da proclamação do prazer como única motivação do saber e do pensar – é, directa ou indirectamente, uma forma extrema e repugnante de liquidação do sistema público de ensino."

«Respeitando e disciplinando o ensino privado […], foi a defesa do ensino público que inalteravelmente me moveu e animou."

«A democracia directa é sempre (ou quase sempre) a antecâmara (ou o disfarce institucional) da ditadura. A democracia directa ignora os direitos individuais. É o que hoje penso. Foi o que na altura percebi, independentemente de teorizações politológicas a que ainda não tivera acesso.»

«Fundamentalista anti-eduquês», foi como uma tão inocente ex-secretária de Estado, Ana Benavente -- pasme-se! - se referiu ao actual Ministro.

Fundamentalista Nuno Crato nunca será. Anti-eduquês estou certo de que continuará a ser. Na honrosa companhia de Mário Sottomayor Cardia. Como o País precisa e a esmagadora maioria dos professores espera.

Guilherme Valente

* Vale a pena ler na íntegra: As Políticas de Educação em Discurso Directo, 1955-1995, de António Teodoro.

5 comentários:

  1. José Batista da Ascenção30 de julho de 2011 às 22:16

    Tudo muito certo, caro Guilherme Valente, tudo certíssimo.
    Excepto a facilidade dos exames de biologia e geologia desde 2006. Em relação a esses a história está mal contada ou por contar. Mas, a coerência e adequação desses exames em relação aos programas a que os professores não podem fugir são apenas (mais um)a ilustração de como o ME tem funcionado. Deixo isso para outra altura...
    Quanto a Ana Benavente, e à sua acção no sistema educativo português, bem andaria ela se se calasse para o resto da vida. Ou então que fale, que fale à vontade, mas que ninguém a leve novamente para o ministério. Seria "a morte" com tal sorte.
    Bonda!
    Já Sottomaior Cardia foi apelidado de quixotesco, como tendem a ser todos os que, entre nós, não abdicam da lisura e da rectidão,e a todo o momento as afirmam, sobretudo pelo procedimento.
    Se os tempos fossem outros crucificávamo-los...

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  2. É preciso que o primeiro-ministro perceba que tem de apoiar o ministro da Educação. Parece que algumas estruturas do ME estão já a tentar sabotar-lhe o trabalho e a tentar desacreditá-lo.
    Um momento crítico será quando, na sequência dos primeiros exames a sério e não facilitistas, os resultados piorarem um pouco. Porque antes de melhorarem piorarão provisoriamente - é o preço da mudança.

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  3. Gostaria de reforçar o comentário anterior com o seguinte:

    As cinco direcções regionais de educação têm directores, directores-adjuntos, coordenadores de serviços, ... , mas foram transformadas pelos anteriores governos numa plataforma de reenvio das decisões da equipa ministerial para as escolas. Deixaram de ser um nível intermédio de decisão, logo não servem para nada.
    Ora Nuno Crato prometeu implodir as estruturas inúteis do MEC durante a apresentação do programa do governo no parlamento.

    Já se sente a guerra surda que DRE’s e muitos directores de escolas estão a fazer ao ministro. Nas escolas vai-se lançando entre os docentes a ideia que as DRE’s não recebem instruções, ou recebem instruções contraditórias, que está tudo em desordem...
    Nesta última semana foi notória a táctica da DRELVT em provocar a confusão com a linguagem adoptada nas suas circulares e notas explicativas sobre as novas turmas dos cursos de Educação e Formação de Adultos (EFA).

    A tutela dá uma instrução às cinco DRE’s, depois estas elaboram uma circular sobre essa instrução e enviam para a lista dos endereços electrónicos das escolas da sua região.
    Melhor seria que o MEC reunisse as cinco listas de endereços numa única e enviasse a instrução directamente para os directores dos agrupamentos de escolas.
    Claro que depois seria bombardeado com milhares de pedidos de esclarecimento, como costumam fazer os alunos quando não lhes apetece fazer uma tarefa indicada pelo professor, mas se o MEC desse um “puxão de orelhas” aos directores aconselhando-os a ler com atenção o texto enviado, o número de pedidos reduzia-se drasticamente.

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  4. Meu caro Dr. Guilherme Valente:

    Parafraseando Eça, sobre o pernicioso desempenho de Ana Benavente, como secretária de Estado da Educação, não me ficou a impressão de uma única louvável ideia, mas só a lembrança de lastimáveis atitudes.

    Cordiais cumprimentos.

    Rui Baptista

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  5. Um juízo de valor
    só pode ser formulado
    por quem dentro do sector
    for mais categorizado!

    JCN

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