sexta-feira, 29 de julho de 2011

MAIS UM POSTAL

“Se o conhecimento pode criar problemas, não é através da ignorância que podemos solucioná-los” (Isaac Asimov, 1920-1992).

Prezado João Viegas:

Começo por lhe agradecer penhorado o seu simpático comentário ao meu post anterior, "Uma opinião de Nuno Crato: polémica ou nem por isso?" (27/07/2011). Através da respectiva leitura, muito me agradou saber que os problemas da educação extravasam as simples fronteiras laborais de professores que se acolhem à sombra protectora de um sindicalismo que perpetua os seus dirigentes, verdadeiros mercenários que se dizem missionários (na verdade, ambas palavras rimam entre si!), tornando o magistério como coisa acessória, embora jurem a pés juntos ser essa a paixão da sua vida.

Mas, quando o vil metal a tudo e a todos se sobrepõe, que interessa a qualidade do ensino que é ministrado nas escolas? Que importam os resultados escolares dos alunos? Que valor tem a ética da profissão? Quanto à falta de cultura geral dos nossos alunos, ou mesmo licenciados universitários, durante uns tempos, demasiado longos que só a minha ingenuidade suportou, julguei que o Direito seria um oásis neste deserto de ignorância. Desgostoso com o desconhecimento da língua de Camões de alguns alunos universitários, de outros ramos do saber, que se manifesta no facto de muitos deles lerem sem conseguirem interpretarem o que lêem e de não serem capazes de redigirem algumas linhas a expressar o que lhes vai na confusão do cérebro, lamentei-me junto de um catedrático de Direito. Mas ele mais aumentou o meu estupor dizendo-me que o mesmo se passava com muitos dos seus alunos.

Perante esta deplorável situação, que espécie de alunos saem de algumas das nossas faculdades e de escolas do ensino politécnico, quais padarias mal amanhadas que lançam no mercado da educação pão de má qualidade, mal cozido ou queimado? Será assim que se pode acalmar a fome de uma sociedade com diplomas de licenciatura em mãos que dão razão ao falecido Francisco Sousa Tavares que nos dizia, o que eu não me canso de citar, desta feita de memória, que Portugal dantes era um país de ignorantes mas hoje é um país de burros diplomados?

Li e interpretei o seu comentário como mais uma triste prova no tribunal da opinião pública de que algo terá que mudar na sociedade portuguesa quando um advogado, com a sua experiência profissional, documenta aquilo que só um cego não vê. Mas regressando, uma vez mais, ao escritor da minha declarada eleição, reproduzo esta sábia sentença de Eça: ”Um dos maiores males de Portugal, e digamos o maior, é a ignorância”. A que eu quase me atreveria a acrescentar: o pior disto tudo é haver uma espécie de sindicalismo, com forte implantação na Fenprof, que deseja manter este status quo, opondo-se tenazmente ao necessário exame de ingresso na profissão docente, que permitiria não escamotear a diferença que existe, forçosamente e como regra, entre, v.g., um licenciado universitário para ensinar exclusivamente Matemática e um outro de uma Escola Superior de Educação para ensinar, simultaneamente, Matemática e Ciências da Natureza. É um exemplo que me não canso de apresentar porque, por si só, o aumento da carga horária destinada ao ensino deste disciplina não contempla esta lacuna, podendo, até, numa perspectiva pessimista, ter como resultado que os docentes mal preparados tenham mais tempo para espalhar a sua impreparação juntos dos alunos que desgraçadamente lhes caem em mãos.

Talvez aqui tenha lugar, face aos maus resultados nos exames desta disciplina, o dito jocoso que tanto se pode aplicar a professores como a alunos com deficiente formação nesta matéria: “Se queres ser feliz não leias livros de matemática. Estão cheios de problemas”. Generalizando esta crítica à falta de um estudo sério e profícuo, legou-nos Pessoa os versos: “Ter um livro para ler/ E não o fazer!/ Ler é maçada/ Estudar é nada”. Nas estradas de descarado facilitismo das Novas Oportunidades e Provas de Acesso ao Ensino Superior para maiores de 23 anos, pelo andar da carruagem e por quem vai lá dentro, em tempo algum se fez a viagem pelos caminhos difíceis do conhecimento estudantil tal como nos dias de hoje, quando o mérito foi simplesmente trocado pelo demérito.

Cordiais e gratos cumprimentos.

Rui Baptista

12 comentários:

  1. Caro Dr. Rui Baptista: não acha que para "postal"... é prosa a mais?! JCN

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  2. Portugal! Quer ser verdade presente
    justiça e misericórdia, seus amores.
    Divino! Vosso bem no que o consente
    que destes princípios gozam valores
    de quando fazer não ser delinqüente
    e perdoar à quem sejam seus vetores
    e possa a paz conquistada dignidade
    boa intenção é facto de felicidades.

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  3. Caro Pofessor JCN: "Touché"! Na verdade, para postal é prosa a mais, mas, porventura, para carta aberta seria prosa a menos.

    É bem certo, "in medio consistit virtus". Mas por outro lado, para quem escreve essa virtude é difícil de alcançar: começamos a escrever e o pensamento leva-nos nas asas das pontas dos dedos do teclado do computador para justificarmos a nossa boa ou má argumentação. Tenho esperanças, no entanto, que a minha argumentação seja desculpada, em parte, por uma declarada gula prosadora. O Professor terá a bondade de me dizer se sim ou se não, com a frontalidade da sua personalidade.

    Como moeda de troca, aqui fica a minha promessa formal de não me tornar reincidente. Errar é humano, persistir no erro não o é sendo até burrice. Mas num país de "burros diplomados" (Francisco de Sousa Tavares) mais burro menos burro pouca diferença fará a não ser, isso sim, a teimosia perigosa que lhe subjaz. Mas até aqueles cata-ventos que mudam de opinião como quem muda de fatos se desculpam, quando disso são acusados, de ser isso bom sinal. Sinal de um guarda-roupa cheio de ideias. Aqui, ponho a cabeça no cepo das críticas por não ter essa vocação…ou essa inteligência, mas como diz o povo, “burro velho não aprende línguas”!

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  4. Caro Dr. Rui Baptista:

    Dando por boa a sua douta argumentação, por aqui me fico... a degustar os primores da sua rendilhada prosa, na certeza de que, para ser breve, há que dispor de ilimitado tempo, como Herculano se desculpou ante o monarca seu discípulo e amigo. JCN

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  5. Caro Dr. Rui Baptista;

    Desculpe o impertinente reparo de um pobre luso arvorado em patrício romano: o "consistit" não estará a mais? JCN

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  6. Caro Professor:

    O reparo vindo de um latinista como o Professor nunca é impertinente. Bem pelo contrário! Obriga-me a rever o meu Latim liceal em demonstração de que o amadorismo (mesmo que por parte daquele que ama) não é suficiente para me libertar de erros que apoquentam as minhas habituais citações latinas para não perder os fumos dessa aprendizagem. Obrigado, portanto, pelo reparo que não cairá em saco roto.

    E já que estou com a mão na massa, para utilizar um plebeísmo, gostaria de saber se a expressão latina “in medio statu virtus” está ou não correcta, bem sabendo eu, agora, que”in medio virtus”, “quantum satis”.

    Finalmente, embora conhecedor da razão de Herculano para os seus longos textos, nunca me passaria pela cabeça desculpar-me, a exemplo desse gigante da historiografia nacional, de igual modo, transformando numa virtude aquilo que em mim pode ser defeito. Isso soaria a um desastroso encapotar de vaidade.

    Mas, conhecedor da frontalidade do Senhor Professor, seria humildade exagerada da minha parte não ter o vosso comentário como um pequeno elogio à minha modesta prosa, e por causa, ao não menos modesto leitor que não soube aproveitar a leitura das boas obras de escritores do século XIX com forte pendor para os livros de Eça, de Camilo e de Ramalho. Aliás, os numerosos volumes de “As Farpas” (escritas por Eça e Ramalho) em que a Ramalhal figura, que disse ter nascido para Hércules de feira , e, quiçá, por isso um defensor exímio e constante das práticas físicas escolares, “retesa o arco com toda a musculosa força da sua prosa”, como escreveu o Padre João Maia.

    Cordiais cumprimentos,

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  7. Imparcialidade será a melhor das gentilezas.

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  8. Na 2.ª linha do último § do meu comentário (29 Julho; 17:47) retirar a palavra "pequeno".

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  9. Caro Dr. Rui Baptista:

    Como sabe, a principal faceta da mentalidade romana é o seu forte pendor para o pragmatismo, repudiando tudo quanto seja inutilmente supérfluo, tanto na acção como na fala, razão por que, por exemplo, nos actos eleitorais, a votação cessava quando obtida a vitória por metade mais um. Continuar a contagem seria pura perdad de tempo! Assim também na linguagem! Se "in medio virtus" basta, para que alongar a frase?... De resto, foi neste cristalizada forma que que a máxima, de raiz epicurista, até nós chegou por clássica via literária.
    Quanto à sua alternativa sugestão do "in medio statu (ou stat?) virtus", eu não diria ser gramaticalmente incorrecta; diria ser idiomaticamente desusada. Um grave "senatorius" não perfilharia essa expressão, qualquer que fosse o escolhido predicado: consistit, stat, sedet, ou quejandos. Ao compasso da horaciana "aurea mediocritas", fiquemo-nos pois pelo esquelético "in medio virtus". Ninguém nos prenderá por isso!
    Com cordial e romaníssimo apreço, JCN

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  10. Caro Dr. Rui Baptista:

    Começo versejando:

    Para ser bre e conciso
    em tudo quanto escrevemos,
    é necessário ou devemos
    dispor do tempo preciso!

    Pois é: sempre advoguei não ser fácil ser breve no dizer, a qualidade suprema do padrão clássico: breve, claro e simples. É o aticismo, tão eximiamente praticado por Júlio César em oposição a Cícero, mais dado às rendilhadas e musicalizadas prosas oratórias, rondando a métrica poética nos seus fins de frase, como se acaso a sua fala fosse uma festa de som, cor e forma. Estilos: cada um tem o seu! No meu comentário, veio-me à ideia aquela advertência de Herculano na carta escrita a D. Pedro V num dos momentos mais conturbados da política de então: "Perdoe Vossa Majestade não ser breve, mas nestas circunstâncias não tenho tempo para isso". Que bela maneira de dizer, mal arremedada em minha introdutória quadra! Lá estou eu, adjectivando, a trocar César por Cícero! Será que temos ambos, caro Doutor, o mesmo pecada venial? JCN

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  11. Caro Professor: Que prazer me dá trocar impressões consigo, mercê da elevação com que me responde e dos ensinamentos que colho do seu muito saber.

    E isto numa época em que a escrita cifrada das mensagens dos telemóveis dos jovens (e até menos jovens) faz-nos correr o risco de os nossos netos passarem a ter uma oralidade por sons guturais dos saudosos filmes de Tarzan: "Me Tarzan! You Jane!" E que bem o "rei dos macacos" se entendia com os símios!

    Bem haja, meu caro Professor.

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  12. Será, caro Dr. Rui Baptista, que, recuando no processo evolutivo, voltaremos um dia ao bíblico paraíso perdido?!... JCN

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