quinta-feira, 27 de maio de 2010

A educação a nu

Texto de João Boavida antes publicado no diário As Beiras.

Segundo parece «em Mirandela não se fala noutra coisa», dizem as televisões do escândalo, salivando de gula. Pudera!

É a história da professora do 1.º Ciclo, ou seja, de crianças, que posou nua para a Playboy, pelo que foi suspensa das suas funções. Não tardou que se organizasse uma multidão de defensores, via Net, clamando contra a “perseguição”, a “repressão” e a mentalidade retrógrada dos provincianos, etc. e tal.

Já, porém, se disse e escreveu que não poderia ser outra a atitude de qualquer responsável educativo, fosse de uma escola, em Mirandela, ou do Colégio Moderno, em Lisboa. E fosse em Portugal ou no estrangeiro. E porquê? Porque não podia ser.

Saberão estes cavaleiros do direito individual por cima de toda a folha o que é a educação? É certo que há um processo poderosíssimo de sexualização (e até de pornocratização) da sociedade levado a efeito por dois princípios. Um, libertador, dos “preconceitos”, outro comercializador, seja do que for. O sexo, como se sabe, é mercadoria privilegiada e negócio seguro. Mas, não tenhamos ilusões – Freud explicou-o e nem seria preciso que o explicasse – o sexo sempre foi bastante controlado, isto é, sempre criou as suas regras, nem sempre sensatas, é certo, mas em todo o lado as criou, e tudo indica que vai continuar assim. Por outro lado, como toda a sociedade tem normas (sociais, psico-afectivas, morais), apesar de um capitalismo ganancioso que tudo explora e de tudo faz tábua rasa, ainda há quem pense que deve reagir, que sente ser sua obrigação fazê-lo.

Uma professora que vende a sua nudez – para uma revista que é ponta de icebergue de um submundo onde ninguém inteligente e sensível acha que as crianças devam ser integradas – pôs-se a jeito. Ou seja, uma professora que não tem consciência da dimensão sociocultural da educação, do lugar onde está, do que a sociedade lhe pede e da contradição em que cai, não deve ser professora. Demonstrou ipso factu que não está preparada, que lhe falta tanto ou mais que a indispensável competência científica e cultural. Como se quisesse ensinar música sem saber o que é uma pauta.

É claro que a sociedade dá sinais contraditórios e a “inocente” Bruna devia andar confusa entre a promoção de uma sexualização, que “liberta” e facilita, segundo dizem, a entrada no estrelato, e os sentimentos e ideias que a envolvem, e que vigoram na sociedade. Uma sociedade que quer a “libertação sexual”, que interesses económicos promovem de todas as formas, por um lado, mas que, por outro, continua a viver do que pensam e sentem as pessoas comuns.

Os óbvios do costume, os profissionais da solidariedade politicamente correcta e do individualismo mais “prafrentex”, deviam pensar no serviço que prestam aos que não pensam senão em fazer dinheiro por todas os meios. Os que falam e pensam pelo que lhes mandam ou pelo que julgam que está a dar, sem disso se darem conta, e que acusam os outros disso mesmo de que sofrem, deviam ter alguma consideração por aquilo que os mantém, lhes dá voz e os deixa até dizer disparates: o colectivo e os sentimentos e normas que o sustentam. Por isso é que a educação não pode ser uma brincadeira de inconscientes.

É também revelador que o protagonista profissional Mário Nogueira venha defender a Bruna e falar sindicalmente de atentado aos seus direitos e liberdades. Será que não percebe que a questão não é sindical?
João Boavida

16 comentários:

  1. Muito bem dito (e bem escrito), senhor Professor! Se a "ingénua" Bruna fosse professora de um filho do Senhor Mário Nogueira, ele de certo, teria outra atitude que não sindical!

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  2. Segundo li num artigo de jornal há algumas semanas, apenas uma percentagem marginal de professores é avaliado com uma nota inferior a bom. Se a memória não me atraiçoa cerca de 1% ou menos. O que, a ser verdade, não só é evidentemente falso como significa que virtualmente nenhum professor é alguma vez retirado do ensino por incompetência directa nas tarefas para as quais a sociedade lhe paga o salário.

    Na verdade, esta professora de música, de que tanto se fala por agora, poderia ser (não estou a dizer que o seja) o paradigma da incompetência que, mesmo assim, jamais ou muito dificilmente seria algum dia dispensada das suas funções. Porque, pelos vistos, razões profissionais não são suficientes para retirar alguém da profissão de professor.

    Contudo, despiu-se em público (gratuitamente ou não, não sei, porque não lhe acedo à conta bancária) e, por isso, foi retirada das suas funções.

    Não sou fã do Mário Nogueira (nem de perto nem de longe!) e muito menos sou adepto do eduquês que cava cada vez mais fundo as diferenças sociais no país mas, indubitavelmente, algo vai muito mal num sistema profissional em que é muitíssimo mais fácil dispensar alguém das suas funções profissionais por atentado à sempre subjectiva moralidade (e, quer gostemos quer não, a nudez adulta vai sempre dar a esta praia) do que por incompetência profissional.

    Se fossemos os gatos fedorento poderíamos dizer, brincando a sério, «a menina desculpe mas como por incompetência não posso despedi-la fá-lo-ei porque não gostei de lhe ver o seio».

    Há algo nisto que não gosto.

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  3. "En chacun de nous, suivant des proportions variables, il y a de l’homme d’hier ; et c’est même l’homme d’hier qui, par la force des choses, est prédominant en nous, puisque le présent n’est que bien peu de choses comparé à ce long passé au cours duquel nous nous sommes formés et d’où nous résultons. Seulement, cet homme du passé, nous ne le sentons pas, parce qu’il est invétéré en nous; il forme la partie inconsciente de nous-mêmes."

    Émile Durkheim

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  4. Estou de acordo de que a profissão de professor é das mais exigentes (ou deveria ser)em matéria de perfil profissional, de valores dos próprios, de ética...

    Mas também considero que a hipocrisia é tão descarada que revolta qualquer um...

    então e aqueles(as) professores(as) que se "embrulham" com alunos(as), ou entre si, criando situações constrangedoras no ambiente escolar (muitos estando comprometidos conjugalmente), outros que roubam , outros que frequentam sites suspeitos, e tantos outros viciados em tanta coisa...

    e o que dizer de algumas professoras que vão para as aulas vestidas (ou será semidesnudas)tal como se fossem para uma festa nocturna?

    Porventura existe um código deontológico da profissão docente?

    E se não existe fará sentido que exista?

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  5. José Batista da Ascenção27 de maio de 2010 às 17:50

    Eis um belo texto. Vai ao fundamental, como deve ser.
    Em minha opinião.

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  6. Cara Teresa:

    Faz falta um código deontológico (e, previamente, uma Ordem...) aos professores. A Bruna da Playboy não fez nada de ilegal, até porque não de facto professora e não há um código para a minha profissão (sou professor há 18 anos...).

    Mas faz falta, lá isso faz - até para certas pessoas não dizerem alarvidades sobre a floresta quando o problema é uma árvore isolada, de folha caduca, num final de Outono muito quente.

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  7. "algo vai muito mal num sistema profissional em que é muitíssimo mais fácil dispensar alguém das suas funções profissionais por atentado à sempre subjectiva moralidade (e, quer gostemos quer não, a nudez adulta vai sempre dar a esta praia) do que por incompetência profissional."

    ora bem, nem mais...

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  8. Pedro Luna,

    Concordo consigo. O que esta situação da Professora de Mirandela originou é que, sendo professora das AEC e especificamente de Musica, não é obrigatório que tenha habilitação profissional... basta-lhe um currículo considerado relevante ou possuir um dos inúmeros diplomas aceites para o efeito...

    Portanto a questão alastrou opiniões apenas devido à caricatura em que se tornou, mas a meu ver o problema da ética profissional é muito, mas muito mais abrangente e há situações muitíssimo mais preocupantes do que propriamente a da referida no post.

    Infelizmente para a classe docente há muito professor(a) que não tem noção nenhuma do que é estar numa sala de aula e fazer parte da educação e formação de uma criança ou jovem...e a situação tem vindo a piorar ao longo dos anos...

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  9. Uma Ordem dos Professores, com o inerente Código Deontológico, teria um papel importante neste contexto. E mais não digo...por desnecessário.

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  10. Por isso a Bruna se fez retrartar... em pelo! JCN

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  11. A questão da bruna só existe pelo ressabianço e recalcamento sexual de muitos paizinhos e maezinhas.

    A mulher despiu-se fora da escola, das funções de professora, que dizem respeito à vida particular, os alunos são do primeiro ciclo, ainda não atingiram a puberdade, só foi escândalo porque alguém o considerou.

    Se portugal fosse um pais normal onde as pessoas fossem normais e não recalcadas, invejosas e frustradas o caso nem teria sido conhecido!

    Nada tem a ver com a docência, tem a ver com o facto de sermos um pais de frades e freiras, somos todos tão liberais e quando chega a hora somos mais conservadores que o papa|

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  12. Mas...

    Isto não é um Blog de ciência?

    Este texto baseado no preconceito e intolerância sem apresentar qualquer argumento válido para a tese que pretende defender não deveria caber neste Blog.

    RM

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  13. Com a Bruna, a educação... ficou mesmo a nu! JCN

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  14. Um professor deve ser exemplo positivo para os seus alunos e para comunidade, pelo que deve ter alguma reserva em relação àquilo que faz na sua vida privada. Reparem que numa cidade pequena, se encontrarmos um jovem médico em estado de embriaguez (vamos supôr dois ou três fins de semana) será que encaramos com seriedade e confiança um eventual diagnóstico que nos faça numa visita forçada ao hospital da localidade em que ele trabalha? Penso que não. O mesmo acontece com a docente referida. Aliás, uma caso parecido aconteceu recentemente nos EUA, com um desfecho idêntico. E reparem que isto não é só a questão de haver um código deontológico para os professores... é também uma questão de bom senso. Assim, os autarcas de Mirandela não podiam, nem deviam, ter outra atitude que não a que tomaram.
    AP

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  15. Um professor deve ser exemplo positivo para os seus alunos e para comunidade, pelo que deve ter alguma reserva em relação àquilo que faz na sua vida privada. Reparem que numa cidade pequena, se encontrarmos um jovem médico em estado de embriaguez (vamos supôr dois ou três fins de semana) será que encaramos com seriedade e confiança um eventual diagnóstico que nos faça numa visita forçada ao hospital da localidade em que ele trabalha? Penso que não. O mesmo acontece com a docente referida. Aliás, uma caso parecido aconteceu recentemente nos EUA, com um desfecho idêntico. E reparem que isto não é só a questão de haver um código deontológico para os professores... é também uma questão de bom senso. Assim, os autarcas de Mirandela não podiam, nem deviam, ter outra atitude que não a que tomaram.
    AP

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