domingo, 21 de setembro de 2008

Ciência e excepção


As ciências como a física, biologia, química ou matemática gozam de um estatuto de excepção na universidade. Ao contrário do que acontece noutras áreas, como a filosofia, teoria da literatura, história ou sociologia, conseguiram expulsar a pseudociência das universidades: nenhum matemático ensina numerologia, nenhum químico ensina alquimia, nenhum astrónomo ensina astrologia. Todas estas manifestações da crendice humana persistem, infelizmente, mas fora das universidades, ou pelo menos fora das universidades mais conhecidas e consagradas (quase de certeza que um leitor qualquer vai descobrir uma universidade algures na qual se ensinem estas coisas). Por que razão aconteceu isto?

Não é uma hipótese plausível dizer que a generalidade da população ganhou uma compreensão da ciência, porque nesse caso tais manifestações não subsistiriam e não teríamos colunas de horóscopos nos jornais de maior circulação. Algo permitiu à ciência implantar-se solidamente nas universidades expulsando as crendices. Hoje em dia esta situação está a mudar e as universidades são cada vez mais pressionadas para incluir crendices ao lado da física. Será a ciência vítima do seu próprio sucesso? No Sobre a Liberdade, J. S. Mill alerta-nos para os perigos de aceitar ideias dogmaticamente, ainda que sejam verdadeiras:
Há um grupo de pessoas (felizmente não tão numerosas como anteriormente) que acham suficiente que alguém concorde com aquilo que consideram verdadeiro, sem duvidar, ainda que não tenha qualquer conhecimento dos fundamentos da opinião, e não pudesse fazer uma defesa sustentável dessa posição contra as mais superficiais objecções. A partir do momento em que o seu credo lhes foi ensinado por uma autoridade, pensam naturalmente que não resulta qualquer bem — e até resultará algum mal — de se permitir que seja questionado. Onde a sua influência prevalece, tornam praticamente impossível que a opinião dominante seja rejeitada de modo sábio e ponderado, embora possa, ainda assim, ser rejeitada de modo precipitado e ignorante; porque impedir completamente a discussão é raramente possível, e assim que surge, as crenças não baseadas em convicção têm a tendência de ceder ante a mais fraca aparência de um argumento.
Quando se ensina ciência dogmaticamente, como um conjunto de resultados cristalizados e não como uma maneira de obter resultados; quando se pensa ingenuamente que os cientistas provam coisas, ao invés de defenderem as teorias mais plausíveis, enfrentando as mais duras objecções concebíveis, num sistema de competição aberta de ideias; quando se pensa que é a observação e a experiência que dão cientificidade à ciência, e não a argumentação pormenorizada e a discussão aberta; quando tudo isto acontece, a situação de excepção das ciências nas universidades tem os dias contados porque a generalidade dos defensores das ciências serão incapazes de a defender dos ataques mais mesquinhos e hipócritas de quem faz do controlo das universidades uma extensão do controlo de mentalidades.

Provavelmente na esmagadora maioria dos departamentos das tolamente chamadas "humanidades" (a filosofia, por exemplo, claramente não é uma das humanidades porque raramente tem o ser humano como objecto de estudo, mas pertence oficialmente às humanidades) a generalidade dos professores e estudantes têm preconceitos anticientíficos, fazendo da ciência a raiz de todos os males da humanidade, e rechaçando os seus resultados como meras ficções, meras "narrativas". Em quase todos os períodos da história da humanidade a numerologia, alquimia e astrologia subsistiu nas universidades ao lado da matemática e da física e da biologia. Não devemos, pois, olhar para a situação actual das ciências como normal: é uma situação excepcional, e como tal sujeita a desaparecer mais depressa do que se possa esperar; nomeadamente porque nas universidades só uma pequena minoria compreende a diferença entre matemática e numerologia.

Talvez Mill tenha razão e estejamos a assistir ao resultado de um ensino errado da ciência, que tem tendência para ser ensinada segundo os moldes da epistemologia de mestre-escola; e quando as pessoas aprendem ciência assim, não conseguem realmente ver a diferença entre medicina científica e Reiki ou outra crendice qualquer, acusando então os defensores da ciência de serem dogmáticos. É preciso ver que, do seu ponto de vista, estas pessoas estão a ser sensatas: dado que não conseguem perceber o que faz a diferença entre a medicina científica e essas patranhas, parece-lhes desde logo dogmático declarar que essas coisas são patranhas. Caso tivessem uma leve formação científica, mas sólida, compreenderiam que essas coisas são patranhas porque se baseiam apenas no desejo de que sejam verdadeiras e na autoridade dogmática de tradições milenares e não na procura intensa para mostrar que são falsas, que é o que se faz na medicina científica. Mas elas não entendem isto porque para elas a medicina científica é apenas outra narrativa, que se apoia na autoridade dos cientistas e nada mais, pois aprenderam na escola a aceitar o que o professor de biologia lhes dizia por mera autoridade. Autoridade por autoridade, por que não escolher a autoridade de uma tradição milenar em vez de uma tradição ainda por cima pouco exótica porque tem origem perto de casa? 

O que se pode fazer? Ensinar melhor ciência, melhor filosofia e melhor história. Ensinar estas disciplinas não como resultados dogmaticamente estabelecidos para serem dogmaticamente decorados, mas como teorizações que são defensáveis porque estão abertas à discussão pública. Ensinar a discutir ideias e ensinar o valor de procurar refutar ideias.

Mas não tenhamos ilusões. Não há receitas mágicas para resolver o problema da crendice humana. Toda a discussão pública pode ser inútil e tola se quem discute estiver de má-fé, procurando apenas fazer valer os seus objectivos políticos, religiosos ou sociais e desprezando a verdade e o valor. Mesmo Mill parece ter uma confiança exagerada nos poderes da discussão pública livre. A discussão pública livre pode ser o melhor que podemos fazer, mas está longe de fornecer garantias porque toda a discussão pode ser vilipendiada, prostituída e distorcida a favor das mais brutais tolices. Parece-me que aqueles de nós que aprendemos a prezar a procura genuína da verdade, a discussão aberta de ideias, a racionalidade, a verdade e o valor, temos o dever de ser melhores educadores, melhores divulgadores — e isso inclui ponderação e distanciamento, tolerância e muita paciência — porque só temos este tesouro fantástico que é a racionalidade porque alguém no-la deu a conhecer. Agora é a nossa vez de a dar a conhecer a alguém. 

Num dos livros de Carl Sagan a mulher dele conta que um porteiro de um hotel uma vez recusou receber dele uma gratificação (comum nos EUA) dizendo que Sagan já lhe tinha dado o cosmos; era bem pouco ele em troca abrir-lhe a porta. Nunca podemos esquecer que é para estas pessoas que estamos a trabalhar, a ensinar, a divulgar. Para lhes dar o cosmos, como alguém no-lo deu a nós. 

9 comentários:

  1. É esta, sim, a maneira de pôr a coisa, e não o que disse Palmira Silva três ou quatro posts mais abaixo.

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  2. Caro Desidério Murcho:

    Parece-me que está a ser demasiado vago quanto às pseudociências que existem nas humanidades. O que diz é pouco explícito.

    Afinal, sei que há vários autores, na história e na teoria da literatura, que assumem sem rodeios que não fazem "ciência".
    Pessoalmente, também não me parece que a literatura e as restantes artes possam ser objecto de análise laboratorial...

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  3. Desidério

    Há filósofos que pretendem ligar a Filosofia à Astrologia, dando origem à astrofilosofia.

    http://astrofilosofia.com/3_biografia_de_jose_prudencio.html

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  4. Enquanto isso na universidade em que estudo, nos últimos anos as disciplinas que ensinam o estudo do comportamento humano através do método científico só têm perdido espaço.... As pessoas ainda preferem estudar a psiquê e energias psíquicas e corporais....

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  5. O erro é precisamente pensar que ou se faz ciência positivista ou tudo vale. Nunca defendi que se deve fazer filosofia ou história como quem faz química, num laboratório. O que eu defendo é que o que faz da química uma actividade intelectualmente séria não é o laboratório, mas o que eu apontei no meu texto.

    E o perigo é precisamente pensar que se não estamos num laboratório então vale qualquer jogo de palavras, citações de autoridades, associações de palavras, etc. -- e isso é o que infelizmente há demasiado nas humanidades.

    Muitos dos trabalhos nas humanidades são puras falácias da supressão de provas: o autor escolhe previamente os autores de que gosta, ignora os restantes e dá como provado o que queria porque tem várias autoridades que dizem o mesmo. Mas entretanto escondeu cuidadosamente todos os autores que discordam dessas ideias.

    Não é assim que se trabalha seriamente, mas isto faz-se quotidianamente nas universidades, e sempre se fez ao longo da triste história da humanidade.

    Comparando com isto, a chamada "ciência quotidiana", que nada de especial faz avançar a nossa compreensão das coisas, é maravilhosa, porque pelo menos não é uma fraude intelectual. É apenas um trabalho modesto de sapateiro, e nós precisamos, e muito, de sapateiros.

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  6. Caro Desidério Murcho:

    Desculpe, mas está errado no que diz sobre as humanidades. Pelo menos nos casos que melhor conheço (história e teoria da literatura), a metodologia mais frequente hoje em dia é precisamente a do confronto tão alargado quanto possível (há limites, já lá vamos) das diferentes perspectivas sobre um determinado tema. Há uma enorme suspeita em relação à Teoria de há algumas décadas atrás, e parece-me que na verdade o Desidério ainda tem em mente um quadro muito eighties, muito pós-estruturalismo e desconstrução.
    De qualquer forma, dou-lhe razão numa coisa: ontem como hoje, a investigação em história e nas artes é muito limitada por um cânone que, em Portugal e na Europa, resulta frequentemente do poder arbitrário dos departamentos de humanidades...

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  7. A crendice é o resultado de uma inteligência muito desenvolvida, mas direccionada e incompleta, que é o que acontece com a inteligência do ser humano.

    A inteligência é a capacidade de reconhecimento da relação causa-efeito. O ser humano, tal como todos os outros seres vivos, nasce para viver. E viver, num ambiente em que os seres vivos se alimentam uns dos outros, exige, acima de tudo, o domínio do ambiente em que se vive. O ser humano terá sido aquele que melhor desenvolveu a capacidade de reconhecimento das relações causa-efeito respeitantes ao exercício do poder sobre o ambiente e sobre os seres vivos que o rodeiam, incluindo o próprio.

    Desenvolveu a inteligência necessária e suficiente para o exercício de um poder imediato sobre o meio, poder que a sobrevivência exige, mas não forçosamente a inteligência para a compreensão das relações mais profundas e geralmente invisíveis que regulam o funcionamento do meio.

    Pode dizer-se que a inteligência do ser humano se encontra muito desenvolvida, mas num sentido utilitário. Para todos os efeitos, trata-se de uma inteligência direccionada e competitiva, incompleta, mas que não deixa de fascinar os próprios, levando-os a pensar que aquilo que escapa à sua avançada inteligência só pode provir de uma inteligência superior.

    Para uma inteligência competitiva, não é fácil reconhecer a superioridade de outrem. Muito menos no vizinho. É mais simples colocar essa inteligência superior num ser imaterial, invisível, responsável pelas manifestações que escapam à compreensão do comum ser humano. A propensão para a fantasia, no limite para a crendice, embora lamentável pelas consequências que frequentemente arrasta, é natural.

    Não surpreende que a crendice ande de mãos dadas com uma certa animosidade em relação àqueles que insistem em rejeitar a fantasia e encontrar as explicações no terreno material. O desagradável da questão é que a animosidade pode chegar ao ódio e à eliminação física dos cépticos quando espicaçada pelos charlatães, em geral pessoas que desenvolvem sentimentos de inferioridade e de inveja, mas que procuram protagonismo e sobretudo proveitos mediante a exploração da inteligência incompleta da generalidade dos seres humanos, que prefere viver num mundo de certezas - não importa se fantasiosas e erradas, mais tarde logo se vê - do que num mundo de dúvidas permanentemente levantadas pelos que insistem em encontrar explicações materiais para tudo.

    A verdade é que o planeta é invadido todos os dias por uma legião de bárbaros. Se não queremos perder tudo aquilo que descobrimos e que já dominamos, a educação dos bárbaros é crucial. É um trabalho permanente, consumidor de muita energia, mas indispensável. A alternativa, num planeta com tanta gente, é impensável.

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  8. Rui, não tem de pedir desculpa para me corrigir! Agradeço a correcção e fico satisfeito com o incremento da qualidade do trabalho dos meus colegas de Letras. As minhas afirmações devem-se à leitura de dissertações de mestrado da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e a contactos informais com alunos e professores dessas áreas.

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  9. Caro Desidério:

    As Faculdades de Letras portuguesesas não são grande amostra...o seu estado não é nada recomendável.

    Há muitos factores, mas julgo que um dos ptincipais é o seguinte: uma grande maioria dos seus professores encontra-se numa faixa etária muito reduzida (sensivelmente entre os 55 e os 60 anos), e onde não há renovação de quadros, não há renovação de ideias.
    Eu até conheço um caso de um departamento de filosofia que não fez qualquer contratação durante 28 anos...

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