quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Irracionalismo à solta no mundo

Está a decorrer em Boston um encontro da Materials Research Society. A organização convenceu um número de estudantes (um deles com apenas 11 anos!) a passar para post, num blog dedicado, as suas impressões do encontro. Richard Van Noorden, da Chemistry World, está igualmente a acompanhar o evento e vale a pena ler o que escreveu sobre Steven Chu, Nobel da Física em 1997, e o problema da energia.

Especialmente interessante parece ter sido a conferência inaugural, proferida por outro Nobel, agora da Química e em 1996, Harry Kroto. Harry, um verdadeiro homem da Renascença de quem o Paulo recomendou a leitura do artigo «o naufrágio da ciência britânica», com o poder comunicativo fabuloso que todos os que tiveram a sorte de assistir a uma das suas conversas confirmam, referiu as responsabilidades dos cientistas como cidadãos, os perigos das «certezas» morais e religiosas, a obsessão generalizada com a celebridade e, acima de tudo, a necessidade de educar em ciência as gerações futuras.

No parte das perguntas alguém dirigiu a Kroto uma pergunta sobre o futuro da humanidade, futuro que para Harry pode não ser muito auspicioso caso não se combata «o irracionalismo à solta no Mundo».

Desde a primeira vez que vi Harry, numa conferência da Sociedade Portuguesa de Química pouco depois da sua descoberta do C60, que este nos alerta para a onda irracional que varre o Mundo. Fiel ao que preconiza como antídoto, velas de pensamento crítico e melhor educação - não apenas em ciência, Harry é um bom exemplo de sincretismo das duas culturas -, está envolvido em várias iniciativas educativas. Uma delas, a Global Educational Outreach Initiative, pretende disponibilizar material de qualidade para professores de todo o mundo utilizarem nas suas aulas. Harry fundou igualmente o Vega Science Trust, que fornece igualmente material educativo muito interessante, que inclui powerpoints e apoio audiovisual na forma de palestras e entrevistas a cientistas que se destacaram pelo seu trabalho. Recomendo especialmente a série de palestras de Richard Feynman na Universidade de Auckland, quatro lições memoráveis sobre física básica que só o génio de Feynman poderia produzir.

9 comentários:

  1. A "irracionalidade" de que fala H Krobo, remete para uma outra quest�o.

    Goste-se ou n�o da ideia ou das suas consequencias, os conceitos de raz�o e l�gica que nos formatam culturalmente, n�o s�o nem conceitos universais nem verdades absolutas.

    Ainda assim n�o deixa de ser curioso que tenha sido a civiliza�o herdeira do pensamento de Descartes, Kant, e tantos outros sempre t�o citados a prop�sito da "raz�o", agrande promotora o estado de coisas "irracional" a que chegamos.

    Confesso que gostaria de ouvir a H Krobo o que tem a dizer sobre o contributo da ci�ncia e da t�cnica para a deriva irracionalista que t�o bem caracteriza.

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  2. cinco comentários:

    1. O problema é que a ciência ao tornar-se ideologia perdeu autoridade e acaba por contribuir para a onda de irracionalidade.

    2. Richard Dawkins é um bom exemplo de como se pode dar uma valente machadada na credibilidade da ciência como ciência.

    3. Ganhar um Nobel não dá a ninguém credibilidade para combater a irracionalidade do mundo. Um Nobel é um especialista num assunto específico e não lhe dá autoridade para combater a "irracionalidade" do que quer que seja.

    4. O problema da "irracionalidade" é um falso problema. O que está em causa é a luta pelo poder e pelo controlo do pensamento.

    5. Assusta-me que os cientistas (ou os filósofos) queiram educar o povo e torná-lo racional tal como me assusta que uma religião qualquer queira salvar o povo que não quer ser salvo.

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  3. Curioso vir encontrar este post da Professora Palmira sobre o Nobel Harry.
    Curioso porque vivi paredes meias com ele vai para mais de vinte anos. Durante esse perido, as nossas vidas cruzavam-se quase todas os dias de manhã na cafetaria do bairro antes de seguirmos para as nossas rotinas.
    O Harry foi o segundo homem mais mulherengo que conheci ( o primeiro fui eu, embora este ranking nada tenha a ver com taxas de sucesso, claro ) e também o mais desarrumado ( o primeiro é o meu filho ).
    Das conversas que mantivemos nessas idades de todas as certezas, guardo nitida recordação da inabalável fé de Harry de que a ciência seria capaz de criar até à viragem do milénio, um mundo incomparávelmente melhor, um mundo gerido pela razão. Claro que eu o acompanhava nessa crença. Os anos pregaram-me uma partida, e hoje reconheço que fui demasido optimista. Afinal também nós, os que estamos ou estivemos ligados de uma forma ou outra à ciência, somos apenas pessoas, nem super-homens nem super-mulheres. O nosso contributo para o devir, mesmo quando prenhe de idealismos e boas intenções, não deixa de ser um caminho tortuoso em que muitos de nós perdem irrecuperavelmente o rumo. Daí que o Mundo que hoje conhecemos, esteja longe de corresponder à expectativa que para ele tinhamos há trinta anos.
    Por mim, Mea culpa ! Mas neste momento não sei como é que o Harry responderia à questão com que o Manuel Rocha termina o seu comentário.

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  4. Gostei bastante do que o Parente escreveu!
    Claro que um nobel não dá crebilidade para se falar de tudo, basta ver as burradas que alguns têm feito fora das suas áreas.
    Não percebo o medo que os velhotes têm dos chavalos novos! Antigamente é que era, será?! Cada vez se vendem mais livros, cada vez a ciência evolui mais rápidamente, etc, e os velhadas dizem que no seu tempo é que era?
    Se a educação no UK está tão mal como o Kroto diz, porque é que Cambridge e Oxford continuam a liderar a lista das melhores universidades mundiais? E também não me parece que faltem montes de escritores, artistas, músicos, etc, desta geração de chavalos.
    Eu só sei é que os records continuam a cair, tanto nos 100m como na velocidade dos computadores, etc, e não são os velhotes que os andam a bater.
    O que os velhotes querem é reverência e vénias, e os chavalos não estão para isso!

    Parabéns, voltaram os comentários "anónimos"! Parece que finalmente descobriram que somos todos anónimos!
    luis

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  5. Caro Chavalo:

    Este velhote que lhe responde ainda tem boa memória. Por isso sabe que quando era chavalo os concelhos que lhe deram entraram por um ouvido e sairam directamente pelo outro. Há um percurso que cada um de nós tem que fazer e pronto. Por isso não conte comigo para lhe dar conselhos, nem para lhe pedir reverências.

    Mas compreenderá que não reverencie os seus records.
    Quando você corre os seus cem metros, fá-lo sobre os pisos, com os ténis, os fatos e os dopantes que nós inventamos para si; fá-lo com os métodos de treino, a medicina e a alimentação que nós produzimos para si.

    O facto de você demorar menos tempo a fazer a prova do que eu demorei, não quer pois dizer que seja mais rápido que eu fui. Quer apenas dizer que corre noutras condições.

    Agora não é o facto de prescindir de quaisquer vénias pelo meu contributo para a sua velocidade, que me levaria a tolerar que você questione o meu direito a não me orgulhar do que fiz.

    A isso chama-se ética, e trata-se de uma cultura que a minha geração não soube cultivar na sua.

    Sempre ao dispor, caro Chavalo !


    José Arnault
    Velhote .

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  6. Ó Arnault, eu não sei que idade tens mas tu também não sabes a minha, por eu ter confiança nos chavalos não quer dizer que eu seja um chavalo, se calhar sou mais velho do que tu! Talvez tenha é mais espírito de chavalo!
    A ética dos velhotes é a ética das bofetadas e reguadas nos chavalos, das torturas pela pide, das grandes guerras no Mundo, da escravidão e do tempo em que as mulheres não votavam ou não se ouviam?
    Tem juizo, isto nunca esteve tão bom! E não venhas cá dizer que as sapatilhas são feitos pelos velhotes, é mais que evidente que há aí chavalos a fazer grande investigação! Acho que não sabes o que dizes!
    luis

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  7. Ao Luis ( Chavalo ):

    Lamento té-lo confundi com um chavalo.

    Se tivesse desde logo percebido que você é apenas mal educado, nem me teria dado ao incómodo de lhe dar troco.

    José Arnault

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  8. Olá, me chamo Thiago Ossucci Santello, moro no Brasil e curso Ciências Sociais na Unioeste - Universidade do Oeste do Paraná, Toledo-PR.

    Fiz questão de me identificar para demonstrar minha imensa gratidão de poder participar desta discussão onde estão pessoas tão importantes.

    Vamos ao comentário em sí:
    Diante da discussão em que as trocas de farpas aumentavam a cada post, fico um tanto intimidado a expor minha OPINIÃO, aliás vivemos em culturas diversas, segundo Feyrabend, em "Diálogos sobre o conhecimento", "qualquer coisa que se diga e qualquer motivo que se dê para aquilo que se diz depende do 'contexto cultural', isto é, do modo de viver do qual se faz parte".
    Assim, os critérios para se dizer qual a lógica mais acertiva é orientada pelo contexto histórico-cultural.
    Assim as farpas que se trocam, tratam-se das verdades histórico-culturais construídas por cada um e não compete dizer quem é melhor ou quem é pior, porque no fim das contas, melhor e pior são valores e na ciência, o que há de pior é fazer juízo de valores.
    Quanto ao espírito jovial, alardeado pelo anônimo, nominado Chavalo, consigo ver uma analogia às revoluções científicas, (sinto que estou ensinando o vigário a rezar a missa, sou um mero graduando, perdõem-me)Kuhn já alertava que era necessário que alguém de espírito inovador para colocar novas perspectivas da realidade em observação, afinal, ciência (ou conhecimento científico, como queiram chamar) é o resultado da pesquisa, não da observação das regras e por isso não se pode julgar a ciência com base em abstrações epistemológicas, a menos que tais regras não sejam resultado de uma prática epistemológica especial e constantemente mutante.
    A revisão e a constante revisita aos conhecimentos pré-concebidos é uma das necessidades objetivistas dessa forma de perceber e demonstrar o mundo.
    Construir um discurso que contemple racionalidade, não ser ideológico e demosntrar uma realidade que é presente as ideologias e não transpareça a constante briga pelo poder do conhecimento é deveras muito complexo.
    Esta luta por saber quem é melhor ou pior é prejudicial ao desenvolvimento da ciência pois coloca-se em disputa qual o melhor método e, por conseguinte, coloca o metodo científico dentro de um paradigma dogmático e dotá-lo de limites contemplativos.

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  9. O irracionalismoa advem da falta de conhecimento e de não se querer adquirir esse mesmo conhecimento, aqui o blog é exemplo disso, vêm pra aqui fazer duelos entre criacionistas e evolucionistas e os 1ºs nem de ciencia percebem..
    enfim a instrução é tão bonita e o conhecimento não ocupa lugar..

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