terça-feira, 21 de agosto de 2007

Ensino e a ilusão da tecnologia

Ao longo dos anos as medidas educativas tomadas pelos funcionários e responsáveis políticos do Ministério da Educação têm-se caracterizado por muitos equívocos, lesivos do interesse nacional. Muitas destas medidas são tomadas por ignorância, incompetência educativa ou para defender interesses ilegítimos desta ou daquela empresa (nomeadamente de informática) ou deste ou daquele funcionário ou ministro que tem de pôr no seu currículo que introduziu a medida X que envolveu o investimento de milhões de euros.

Depois de se ter gastado muito dinheiro a ligar todas as escolas à Internet, colocando também computadores em todas elas, nunca se perguntou se o investimento feito valeu a pena, ou se pelo contrário outros investimentos mais directamente relacionados com as aprendizagens não teriam sido provavelmente mais eficientes. Agora, a ministra da educação anuncia um novo éden para empresas de informática e serviços, que representa um investimento total de 400 milhões de euros, e cuja importância educativa será previsivelmente nula. Os estudantes não precisam de ligações de alta velocidade à Internet, nas escolas; não precisam de mais computadores; não precisam de endereços electrónicos (qualquer pessoa pode ter um gratuito em sítios como o Google Mail ou o Sapo).

Se fizermos alguns testes empíricos simples, é provável que descubramos o seguinte relativamente à maioria dos estudantes do final do ensino secundário: dominam os computadores, sabem usar a Internet e o e-mail, mas são profundamente incompetentes em história, literatura, ciências, matemática ou filosofia. Esta é a minha hipótese empírica, e gostaria que algum dos funcionários Ministério da Educação ou dos seus responsáveis políticos, que sonham alto de noite nestas medidas idiotas, conseguisse apresentar publicamente um estudo que o desmentisse claramente. Ou pelo menos, gostaria que esta gente comentasse os dados apresentados no post de Nuno Crato, "Inovação".

O que os estudantes precisam é de melhores livros de física, matemática, filosofia, português, professores mais bem formados nestas áreas e melhores programas curriculares. Precisam de bons livros introdutórios, responsavelmente traduzidos das melhores edições estrangeiras. É disto que precisam e não de mais computadores, Internet mais rápida (para ler o quê, exactamente?), endereços de e-mail, quadros electrónicos nas escolas.

Um dos problemas da educação em Portugal é que se foge constantemente do essencial, daquilo que realmente conta em educação. Isto não é dizer que os computadores ou a Internet não sejam importantes; é apenas uma questão de prioridades. (Eu próprio publico na Internet conteúdos de filosofia para o ensino secundário, nos sites aartedepensar.com e criticanarede.com.) Poderíamos pensar nestas coisas depois de ter um bom nível de excelência. Ao invés, pensa-se nestas coisas como se fossem resolver a vergonha que é a falta de qualidade do ensino nacional.

Quando vejo o que esta ministra e os restantes responsáveis políticos e os funcionários do Ministério da Educação andam a fazer ao país fico profundamente perturbado. Seja por desconhecimento, seja por interesses inconfessáveis, seja pelo que for, a actuação do Ministério da Educação é indefensável, profundamente imoral e tragicamente contrária aos interesses educativos nacionais.

A única coisa que os pais podem fazer, se tiverem dinheiro, é pôr os seus filhos numa boa escola privada. Deve ser por isso que um dos mercados mais apetecíveis neste momento em Portugal é precisamente o das escolas privadas de qualidade alta e média. Espero que os empresários e investidores se rodeiem de professores de excelência e façam cada vez mais um ensino privado de excelência; é a nossa última esperança.

A tristeza disto é que os pobres, que no tempo do Salazar não tinham acesso à escola, agora têm um acesso garantido... a uma escola de ilusão. (Seria também interessante fazer um estudo empírico para determinar qual é percentagem de filhos dos funcionários e responsáveis políticos do Ministério da Educação que frequentam o ensino público.)

12 comentários:

  1. O ensino público em Portugal não tem solução.
    Enfrentar toda a teia de lobbies, desde estudantes, a professores, sindicatos, empresas, ministros, etc, é impossível.

    A melhor solução seria potenciar o desenvolvimento de ensino particular e o financiamento do estado aos estudantes sem recursos para poderem frequentar essas escolas. Seria mais barata, mais competitivo e de certeza com melhores resultados.

    No entanto como o ensino superior privado mostra, no início teria de ser bastante regrado e fiscalizado.

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  2. Fiz copy paste de parte do seu post, com respectivo link.
    Espero que n ache abusivo

    obrigada

    cs

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  3. São os neoliberais no seu pior, com o seu vício ético mais característico: confundir os fins com os meios.

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  4. Minha falecida Mãe usava uma expressão que bem definia a situação actual do ensino em Portugal: poupar no farelo para gastar na farinha. Será moral (a licitude provém, apenas, das leis, boas ou más, saídas das penas dos legíferos) gastar quarenta milhões de euros até 2010 com o choque tecnológico, quando, se fecham escolas do 1.º ciclo do ensino básico, umas vezes por boas razões, poucas, outras por más razões, muitas? Será moral, também, evocar-se, como coisa boa e em nome de uma mutilada democracia, a gratuidade do ensino público do básico ao secundário quando em nome de uma metodologia de ponta se obrigam os pais a gastar rios de dinheiro com material escolar e em que as fotocópias exigidas aos alunos ascendem a resmas e resmas de papel? Será moral, ainda, promover um sistema de ensino necessitado das muletas de explicações, pasme-se!, não poucas vezes a partir do 1.º ciclo do ensino básico (antigo ensino primário), situação que atinge o paroxismo no ensino secundário quando o aluno pretende entrar em Medicina ou Arquitectura, por exemplo? "Last but not least", debrucemo-nos, agora,sobre a distribuição de computadores portáteis, pelos alunos que ingressam neste ano lectivo no 10.º ano (ano iniciativo do ensino secundário), a um preço simbólico, para uns, para outros não (julgo que 150 euros “per capita”). Esta espécie de “bodo aos pobres” irá beneficiar, de igual modo, os alunos com poder económico razoável e que, “ipso facto”, tenham de há muito para cá acesso a esta tecnologia. Para os outros, para quem esta situação constitua novidade é dobrado contra singelo que nos primeiros tempos se dediquem de alma e coração aos aliciantes e inúmeros jogos que esta máquina faculta e facilita. Isto já para não falar no sedentarismo que provocam promotor da obesidade que já é tida como uma epidemia do nosso século. Com isto, não estou a desmerecer, de forma alguma, os benefícios aportados pela Internet a um conhecimento rápido e à mão de semear. Por vezes tão rápido e tão eficaz que se responsabiliza por teses de doutoramento. Tal como a cisão do átomo, os computadores podem transformar-se numa arma de dois gumes. Como me dizia um amigo, prefiro ser um pessimista que se engana a ser um optimista que se engana! O futuro nos elucidará sobre os resultados trazidos por este choque tecnológico para o ensino secundário se esses resultados não servirem para efeitos estatísticos para consumo externo e desconsolo para consumo interno. Felizmente que até à presente data se não cumpriu a previsão feita por Ramalho Ortigão a um Ministro do Reino: “O estado em que se encontra em Portugal a instrução secundária leva-me a dirigir a V. Ex.ª o seguinte aviso: se a instrução secundária não for imediatamente reformada, este ramo do ensino público acabará dentro de poucos anos”. Quase um século passado da implantação da República Portuguesa, será que se tem feito tudo para que isto não aconteça, ou estaremos apenas, como escreveu Pessoa, a manter “cadáveres adiados que procriam”? Esta uma reflexão que o post do Desidério deixa a todos os cidadãos preocupados com o sistema de ensino ministrado nas nossas escolas (pago com os impostos dos contribuintes) procurando, em direito de cidadania muito louvável, alertar os responsáveis estatais por este “statu quo”. Alerta corajoso que não deve cair em saco roto, como vai sendo hábito num país de costumes: sejam brandos ou não!

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  5. Será que esta actuação do Ministério não é consequência de uma política de promoção da ignorância com o objectivo de tornar a população mais dócil?

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  6. Não creio, Jaculina, que seja afirmativa a resposta a esta sua pergunta: "Será que esta actuação do Ministério não é consequência de uma política de promoção da ignorância com o objectivo de tornar a população mais dócil?" O maquiavelismo do Ministério não chega a esse ponto. Por lá não parece haver quem tenha inteligência para tanto. Além disso, os nossos governos nunca programam nada para dar frutos a longo prazo.

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  7. Professor Desidério, partilho muitas das preocupações e outros sentimentos que expõe no seu texto mas, permita-me que deixe um punhado de dúvidas minhas face à situação presente do ensino.

    Mesmo concordando que a doença é de extrema gravidade, recuso-me a aceitar a substituição da escola pública pela escola privada. Um estado que esteja disposto a aceitar tal, lembra-me a imagem de alguém que, estando pressionado sobre o oceano, decide avançar, caminhando sobre as águas. Quantos de nós estarão dispostos a tal? Quantos de nós estariam dispostos a entregar a justiça aos privados? Seria mais perigoso, em termos de garantia dos direitos dos cidadãos, entregar aos privados a justiça em vez da educação? Tenho todas as dúvidas.

    Tenho todo este cepticismo porque os objectivos e os aspectos morais das leis de mercado, se tornados exclusivos, não me parecem muito compatíveis com os da formação do ser humano.

    Questiona-se: mas no quadro actual a educação pública não apresenta grandes causas para sua defesa, nem como regulador de toda a educação, nem pelos resultados que apresenta. Então, porquê mantê-la? Porque, se a escola pública não existisse, nem sequer esta discussão faria sentido. As virtudes e os defeitos da escola privada seriam muito mais facilmente justificados só pelas leis de mercado e, a prazo, teria tanto efeito como qualquer manobra genética para apurar a espécie com objectivos pré-definidos. Contrapõe-se: mas actualmente a escola privada parece ou está a produzir melhores resultados que a pública. Mas na minha opinião, isso acontece porque existe o contraponto da escola pública e é exactamente aí (ser melhor que a pública) que a privada vai buscar as suas mais valias.

    Nesta argamassa de juízos, argumentos e contra argumentos entre escola pública e privada, há uma questão que permanece e é recorrente:
    As crianças são as mesmas.
    Os programas são os mesmos.
    Os professores não têm formação especial para leccionarem na escola privada.
    A qualidade das instalações já não é significativamente diferenciada.
    Porque raio, então, são os resultados tão diferentes?

    As respostas são muitas e eu também concordo que há muita confusão entre os meios e os fins, mostrando-se o sector privado muito mais clarividente a definir os fins. Se melhor define os fins, mais apetrechado está para definir as estratégias para os alcançar. Em linguagem comum, no privado as pessoas sabem muito melhor o que lá andam a fazer.

    Artur Figueiredo
    PS Não fico bem comigo se não disser que esta carapuça não cabe a muita gente no público, mas na generalidade, pode caber a muitos dos que decidam experimentá-la.

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  8. Caro Artur Figueiredo,

    Não li a defesa da substituição da escola privada pela pública. O que interpretei é que o autor, Desidério Murcho, defende que os pais são "empurrados" para a escola privada em virtude do esvaziamento da escola pública - e aponta isso como algo de negativo, pois exclui automaticamente os mais pobres da sociedade.

    Mas essa é a minha interpretação, claro.

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  9. No meu comentário anterior não digo que o Professor Desidério defende a abolição da escola pública. Mas palpita-me que há muita gente que não se importaria nada.

    Algures, lembro-me de ter lido a ponderação da possibilidade de o estado poder alugar espaços da escola para eventos particulares, de convenções a casamentos ou batizados. Não sei as conclusões desses debates, mas pouco me surpreenderia que aparecesse um iluminado a propôr que o Ministério de Educação devia alugar as escolas para ensinar... afinal elas são mesmo ao jeito!

    Artur Figueiredo

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  10. As esperanças do autor estão mal colocadas. As escolas privadas apenas inflacionam as notas, como mostram e bem os resultados dos exames nacionais, tal como as universidades privadas apenas distribuem os canudos a quem paga. Nada contribuem para qualidade do ensino nacional.

    As soluções existem, como já explicamos anteriormente. Mas ninguém as quer - irão prejudicar as negociatas privadas, desde as explicações dadas pelos professores aos alunos da sua própria turma.

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  11. Meu Caro Desidério:

    O último § do seu post sugere-me o amargo e sugestivo comentário do falecido Francisco de Sousa Tavares (que, pelo que se sabe, não era um homem da Direita): "Estamos a formar não um país de analfabetos, como até aqui, mas um país de burros diplomados".

    E se, para Aristóteles, "a esperança é o sonho do homem acordado", neste Portugal, altar-mor da ignorância, a esperança de melhores dias está-se a transformar num verdadeiro pesadelo de que a actual ministra da Educação se fez sacerdotiza, supliciando os professores mais capazes e honestos, e em que os verdadeiros sacrificados são os alunos a quem é ministrado um ensino que quer fazer passar gato por lebre.

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  12. Fui estudante do ensino secundário até ao ano passado (agora estou a caminho da universidade, e a mudar para melhor, espero).

    Fico profundamente triste quando vejo o estado em que está a nossa educação. Quase que se penaliza quem quer de facto fazer das escolas escolas a sério, sejam alunos, professores ou outros. Introduzem disciplinas como “área de projecto”, que no fundo só servem para inflaccionar a nota aos que passam horas nos computadores da escola a navegar em sites que nem têm qualquer mínimo de qualidade, como o hi5 e outras “mariquices”, e para descer a nota aos que de facto se esforçam para aprender e para do ensino superior saírem formados.

    Percentagens inflaccionadas na avaliação para serem atribuídas a factores como o "comportamento", a "responsabilidade", e afins, professores que passam aulas a ditar livros ou a ditar os apontamentos que nada mais são do que cópias retalhadas de outros livros, e que deixam o trabalho de realmente aprender com a compoente prática para “trabalho de casa”...

    Concordo plenamente com esse pormenor de “burros diplomados”. Porque o que se obtém com isto são pessoas medíocres. Mas para isso bastava fazer os estudantes terem, quanto muito, o 9º ano, ou até menos. O que acaba por entrar para aqui é a vontade de mostrar à Europa que somos bons, pois neste país não se governa para o bem dos cidadãos, mas sim pelas estatísticas. Pelo bem das estatísticas.

    Tristeza, é o que isto é!

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